Homem

1 único


Era tardinha, o sol começava a morrer no horizonte e o céu a ganhar a tonalidade de seus cabelos. Nami estava no balanço do Sunny, sentindo o vento desgrenhar algumas de suas madeixas e balançar levemente seu corpo suspenso no ar. Ela tinha a cabeça tombada num dos suportes do balanço, como se estivesse dormindo, mas na verdade só pensava que esse era o dia dela. Sim, era o dia que celebrava, junto de Nojiko, o aniversário de Bellemere-san!

Nojiko e ela costumavam simular uma briga como as demais, mas nessa se esforçavam para prender a atenção de Bellemere durante o dia todo, a ponto de fazê-la se esquecer de seu próprio aniversário. Durante a noite, elas finalmente a surpreendiam com um bolo de laranja feito pelas duas, e Bellemere sempre demonstrava surpresa, deixando as filhas muito satisfeitas. No entanto, naquele momento, Nami pensava que era tudo atuação. Era a cara de sua mãe não querer desapontá-las e fingir que ficava com raiva com suas brigas, como também era fingimento a surpresa que ganhava no bolo de laranja.

Era uma mulher idiota, mas de bom coração.

Por isso quando ficou sabendo que seu capitão perdera uma pessoa tão importante quanto Bellemere foi na sua vida, Nami se sentiu ansiosa como nunca para revê-lo e perguntar se estava tudo bem. Mas o reencontro veio, os dias se passaram e a navegadora ainda não havia feito tal pergunta. Até porque era difícil por Luffy sorrir a todo momento e agir exatamente como antes.

Nami sabia que ele havia superado por entender que seu bando era a sua família, assim como ela passou a entender também. Mas havia momentos, como esse de agora, em que ela não conseguia deixar de pensar como tudo seria se Bellemere ainda estivesse viva.

Abriu os seus olhos amendoados para observar o sol morrendo cada vez mais no horizonte, era um olhar tenro e lágrimas começavam a brotar nele, mas sentiu algo a empurrar para frente e tomou um grande susto. Ao olhar para trás, encontrou seu capitão idiota com aquele seu sorriso largo estampado no rosto.

— Não teve graça, Luffy!

— Ué, você tá no balanço, pensei que gostaria de uma ajudinha.

Era impressionante como Luffy continuava sendo idiota e infantil, será que não percebeu que queria ficar sozinha? Assim ficava difícil acreditar que ambos experimentaram da mesma dor.

— Só me deixe sozinha! — Virou o rosto para o sentindo oposto de Luffy, que levou a mão até a cabeça e a coçou mesmo com o chapéu a cobrindo.

— Você está triste?

— Não! — Voltou a encarar o seu capitão. — Só quero um momento para mim.

Luffy cruzou os braços e estreitou os olhos com a cabeça tombada para um lado, ele sentia que aquilo era mentira.

— Está mentindo.

— Claro que não! — Nami fechou os olhos e levantou o nariz com os braços cruzados, adquirindo seu típico jeito soberbo para convencer Luffy de que não tinha nada de errado. Porém, ela se surpreendeu quando voltou a abrir os olhos e deu de cara com o seu capitão agachado em frente a ela, a observando com um olhar diferente.

Luffy costumava ter um olhar puro e com brilhos nos olhos, mas, quando lutava, ele parecia ter um olhar de um verdadeiro homem; coragem, determinação e inclusive virilidade, formavam o escuro de seus olhos. Nami percebeu isso desde a luta contra Buggy e, agora, ele a fitava desse modo. Ela sentiu um arrepio tomar o seu corpo e, por alguma razão, também se sentiu excitada. Aquele era o homem que tinha certeza que a protegeria até o fim de suas jornadas.

— Por mais que diga, não vai conseguir me convencer, porque eu também sei o que esse momento “sozinho” quer dizer na verdade. Mas também não vou te forçar a dizer, só quero que saiba que estou aqui e a última coisa que eu quero é ver minha navegadora sofrendo sozinha.

Piscou os olhos, definitivamente Luffy falara como um homem.

— Você mudou... você... Luffy, você mudou por que sabe o que estou sentindo, né?

Ele acenou com a cabeça e esticou as pernas. — É uma dor horrível.

Finalmente, soube o que seu capitão sentia desde a morte de seu irmão, Nami se emocionou e saiu do balanço para abraçá-lo. — Me perdoe por não ter perguntado antes!

Luffy a afastou para observá-la melhor. — Está tudo bem, porque me lembro de você nessas horas. É muito forte, Nami.

O vento fez o chapéu de palha cair para trás e os cabelos negros passaram a esvoaçar, o garoto estava contra o sol morrendo no horizonte e sua silhueta ganhou mais volume, Luffy havia ficado mais forte e mais alto, era um verdadeiro homem. Nunca pensou que seria tão maduro com as palavras, quando era egoísta e ignorava sua opinião de não descer em tal ilha por ser muito perigosa. Mas agora, Luffy estava ali, dizendo coisas bonitas sem estar banhado de sangue e fuligem como ela costumava ouvir nos momentos das batalhas.

Mas aquele momento era somente deles dois. Como um casal conversando antes de irem para cama e dormir. Ele lhe dizia palavras sábias dirigidas somente para si e não para alguma vila ou até mesmo um reino todo.

Tinha certeza que só ela conhecia o seu capitão dessa forma. Ele se aproximou e selou seus lábios nos dela. Nami deu passagem e se aproximou para rodear o pescoço dele com seus braços alvos. O sol havia morrido e o céu já não tinha a cor de seus cabelos ruivos.

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