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Notas iniciais
Primeiro de tudo queria deixar claro que sou nova aqui no Nyah e ainda não sei usar muito bem, por isso talvez vocês encontrem algumas coisas estranhas por aí.
Essa one shot do meu confort shipp (wolfstar) é muito especial para mim e espero que gostem.
Vigésimo sexto dia do oitavo mês do reinado de Elaine segunda
Dora,
Hoje, quase fomos pegos. Ainda não consegui me acalmar. Você já foi dormir, depois que consegui um abrigo para uma noite em uma casa abandonada – ou pelo menos, eu espero que esteja abandonada – mas eu não consigo. Não consigo dormir. Não sei nem mesmo como consigo escrever, já que minhas mãos tremem como nunca antes tremeram.
Te enrolei em uma coberta suja e cheia de furos e te larguei sobre uma cama, uma menininha de nove anos que já sofreu pelos próximos vinte, e não consegui parar de pensar. Hoje, tudo quase desmoronou.
Senti tanto medo quando vi aquele oficial correndo em minha direção – um homem enorme, com braços fortes e pernas velozes – me senti uma criancinha sem chances de se defender. Não sei, não tenho ideia, de como consegui dar a volta e correr. Mas sei muito bem de onde tirei forças, e foi de você, Dora.
Você não sabe disso, mas a anos atrás, fiz uma promessa. Quando decidi que ficaria com você, que cuidaria de ti como se fosses minha própria filha, também decidi que nunca lhe abandonaria. Nunca lhe deixaria para trás. Acho que ser pai é se sentir como me sinto em relação a você – ter apenas um pedaço de pão e mesmo assim dar a ti. A culpa que me invadiria se alguma vez eu lhe deixasse passar mais fome que o suportável seria milhares de vezes pior que o oco de uma barriga vazia.
Talvez por isso tenhamos passado por esse sufoco hoje. Porque preferi roubar do que deixá-la sem alimento. Sei, em sã consciência, que isso é uma atitude pouco louvável, mas acreditei que conseguiria contrariar os riscos.
Quando vi o comerciante, um velho homem cego de um olho e que parecia prestes a cair aos pedaços, acreditei que conseguiria pegar algo sem ser visto. Mas se eu tivesse olhado bem ao nosso redor, teria visto um oficial enorme nos encarando, provavelmente desconfiado pelas nossas roupas maltrapilhas e seus cabelos despenteados.
Não me importaria de ir preso, mas sim de te deixar sozinha, de ficar longe da única âncora que me prende a essa vida terrena – sabe disso, Nymphadora. És a única pessoa que restou para me fazer feliz, com suas palavras doces e inocentes e seu sorriso travesso.
Meus olhos se enchem de lágrimas diariamente porque gostaria de lhe dar mais – você merecia banquetes de frutas e vestidos lindos como os da rainha Elaine. Mas não poderia ser mais feliz por ter-te perto a mim, dia após dia, como minha filha e irmã mais nova.
Me sinto culpado por quase ter sido pego hoje. Me desculpe. Serei melhor.
Enquanto isso, escrevei aqui.
Encontrei esse caderno aqui, na casa abandonada. Levarei comigo. E escrevei aqui, sobre nossos dias, nossas vidas.
Assim, se algum dia nos separarmos, se algum dia for obrigado a deixá-la ir, saberás que embora tua família de sangue tenha te dispensado, teve alguém. Teve alguém que te amou como se fosse sangue do seu próprio sangue, que te alimentou mesmo quando precisou cometer crimes para isso, e que te valorizou exatamente como és.
Talvez não tenhas mágica, mas és milhares de vezes mais valiosa do que uma Puissant.
Nunca esqueças disso,
Sirius.
[...]
Vigésimo terceiro dia do primeiro mês do reinado de Alison terceiro (23/01)
Hoje fomos pegos. Vou explicar como aconteceu.
Depois de nosso tempo na região central de Soirée, decidi que nosso lugar não era lá. Os trabalhadores recebiam muito pouco, os moradores não eram caridosos e quase sempre acabávamos sozinhos, com pouca comida e nenhum abrigo.
Resolvi que seguiríamos para o leste: Apesar do inverno ser mais rigoroso, teríamos uma vida um pouco melhor.
A viagem foi tranquila e, eu até arriscaria dizer, divertida. Acordávamos cedo para descansar apenas ao anoitecer, mas passamos por lugares belíssimos. Lembro de seus olhinhos encantados admirando rios e florestas, sóis poentes e luas cheias, até que enfim, chegamos no condado de Étoile.
Como já estava escuro, paramos em uma hotelaria barata para passar a noite. Assim que o dia nascesse, eu pretendia sair pela cidade procurando um trabalho.
E foi o que fiz. Porém, o dia foi um fracasso. O sol foi embora e eu voltei para a hotelaria, sentindo em minhas costas o peso de um dia inteiro passando por fazendas de comerciantes e ouvindo que eles não precisavam de mais empregados.
No dia seguinte, fui de novo. Dessa vez, te levei comigo, caminhando ao meu lado com as bochechas coradas pelo frio. Chegamos até a entrada de uma cidade menor, Route. Desolado e com fome, pensei que poderíamos passar a noite por lá enquanto pensava no que fazer.
Naquele ponto, já me arrependia de termos saído de tão longe. Em Papillon, por mais que as coisas estivessem difíceis, tinha um trabalho e uma renda garantida no final de cada semana. Maldita hora em que resolvi deixar isso para trás por promessas vagas de um povo mais generoso e melhores vagas nas fazendas.
Estávamos procurando um lugar para passar a noite quando encontrei um chalé. Era um chalé bonito, vistoso, bem cuidado. A sua direita, um pomar repleto de maçãs. Maçãs belas, grandes, tão vermelhas que pareciam ter sido tingidas. Naquele instante, senti o oco da minha barriga vazia. E pior que isso, senti a culpa de saber que você estava sem comer desde o início da tarde.
Quais eram as chances de ser descoberto? Estava escuro, as luzes do chalé estavam apagadas. Provavelmente quem morava ali era um velho surdo e sozinho. Nunca seríamos apanhados.
Então te joguei por cima da cerca e depois, pulei. Fomos caminhando, sentindo a grama macia aos nossos pés e o cheiro convidativo chegando até nós. Aquele cheiro de maçãs doces, suculentas, como há muito não provávamos.
— Sirius – você chamou – Vamos comer maçãs?
Estufei o peito, orgulhoso de saber que entregaria em tuas mãos uma fruta da melhor qualidade.
— Sim, Dora. Maçãs.
Seu sorriso não saiu do rosto até chegarmos a horta. Peguei duas maçãs, uma para cada um de nós. Enquanto você as segurava, eu escolhia mais duas, as maiores, mais vermelhas e mais doces.
Pegamos as maçãs e estávamos prontos para ir embora quando ouvi um estalo atrás de mim e me virei, mortificado.
Um homem estava parado ali, como se tivesse acabado de se materializar, e preciso dizer, ele definitivamente não era um velho surdo e sozinho. Era alto, mais do que eu, e tinha um rosto sério. Seus cabelos loiros se enrolavam em cachinhos.
— Estão roubando?
O que eu poderia ter dito, Dora? Que não? Tínhamos quatro maçãs em nossas mãos. Disse que não mesmo assim. Não tenho ideia de como reagi desse jeito, de porque fiquei tão paralisado. Se fosse em qualquer outra situação, teria dado um chute no homem, te segurado em meus braços e corrido até minhas pernas não aguentarem mais.
Mas havia algo em aquele homem que não me permitiu. Uma aura de autoridade, de quem estava acostumado a dar ordens. Então fiquei parado.
— Tem certeza? Essas maçãs parecem ter acabado de ser colhidas.
Por mais que perguntasse, ele sabia. No entanto, seu tom não era exatamente furioso. Era mais de riso: O canto da sua boca se levantou em um esboço de sorriso e suas sobrancelhas se arquearam.
Estava se divertindo com a situação.
Abaixei minha cabeça.
— Sinto muito. Minha Dora estava com fome, não comemos nada desde o início da tarde.
Ao invés de nos insultar, ele sorriu. Ao invés de nos expulsar, ele nos convidou para entrar.
Quase tombei para trás quando ouvi aquilo. Como assim ele estava nos oferecendo para entrar em seu chalé? Depois de tentarmos pegar suas maçãs?
— Tenho comida de sobra. Seria crueldade deixar sua criança passar a noite com a barriga vazia.
Por mais orgulhoso que eu seja, não poderia deixar de aceitar a ajuda. Então entramos. O chalé era lindo, aconchegante, cheio de livros e pinturas. Ele nos conduziu até um cômodo grande, e pediu para sentarmos no sofá. Saiu da sala, e quando voltou trouxe três tigelas cheias de sopa quente em suas mãos.
Seus olhinhos brilharam quando viram a sopa, Dora. Queria ter sido mais cuidadoso, investigado mais sobre quem era aquele homem antes de devorar a comida, mas não consegui. Então apenas comi, colher atrás de colher, sentindo o sabor maravilhoso de sopa de batatas com frango enquanto meu corpo se aquecia graças a comida quente. Se havia sido ele quem tinha cozinhado, eu precisava dizer, era um ótimo cozinheiro. Os sabores pareciam se misturar e se encaixar perfeitamente, e a sopa não esfriou até que acabássemos a refeição. Uma comida digna de um castelo.
Quando acabamos, ele disse que poderíamos passar a noite lá. Disse que tinha um quarto sobrando, para quando sua irmã o visitava, e que não seria incômodo algum abrigar duas pessoas sozinhas durante uma noite fria. Antes de dormirmos, ofereceu-nos ainda um banho quente em uma banheira de porcelana. Eu estava muito cansado para raciocinar se aquela era uma boa ideia antes de aceitar.
Nunca dormi tão bem quanto aquela noite, Dora. Após uma tigela de sopa e um banho, com um cobertor grosso espantando o frio do inverno.
Quando ele veio trazer as cobertas ao quarto de hóspedes, perguntei seu nome.
Achei que ele não fosse me dizer porque, por alguns segundos, apenas me encarou. Me encarou como se eu fosse um enigma particularmente difícil que ele queria resolver. E então me respondeu.
Seu nome é Remus.
—
Vigésimo sexto dia do primeiro mês do reinado de Alison terceiro (26/01)
Ainda estamos na casa de Remus.
Depois do primeiro dia aqui, ele ofereceu mais um. E depois outro.
No terceiro dia, hoje, apareceu na hora do almoço com uma proposta. Estava sorridente, e disse que eu poderia ficar por quando tempo quisesse. Disse que precisava de alguém para trabalhar com ele no pomar, que não estava dando conta das maçãs sozinho, e que eu poderia ajudar.
Em troca, teria uma cama para dormir à noite (muito mais confortável que as camas das hotelarias que eu consigo pagar), comida boa e fresca, banhos quentes toda noite.
Fiquei procurando um “porém”.
Fiquei procurando porque parecia bom demais. Desde quando trabalhadores recebiam tudo isso por ajudar em um pomar? Desde quando comerciantes eram gentis daquele modo? Não sei como fomos parar no chalé de alguém com uma alma tão boa.
E Remus tem bondade em seu ser. Desde que chegamos, foi benevolente e gentil conosco, se importou com nossas necessidades, perguntou se precisávamos de algo. Nunca tivemos tanta sorte assim, Dora.
As coisas não são assim.
As coisas não são assim em um mundo onde crianças são abandonadas por terem nascido sem o dom da magia, as coisas não são assim em um mundo onde Puissants governam condados e reinos sem serem questionados por suas atitudes completamente questionáveis e não se importam com o povo. Com seus próprios súditos.
Pensar nisso me enfurece, Dora. Pensar em como o dom da mágica determina tanto sobre a vida de uma pessoa. Se você fosse mágica, estaria em uma casa enorme com uma família rica, ou talvez em um castelo de um condado triste por seus anos sendo silenciado. Anos sendo moldado a vontade dos mágicos, dos Puissant, que não ligam para seu povo, sua terra, sua geografia e sua história. Se eu fosse mágico, talvez não tivesse trabalhado horas a fio por moedas suficientes apenas para uma refeição fria e uma cama dura.
Pelo menos sou verdadeiro, algo que Puissants nunca conseguiriam ser. Como ser verdadeiro com um banquete todos os dias enquanto outros passam frio? Como governar seu próprio povo sem ter ideia do que eles passam todos os dias?
Aqui, embaixo dos castelos e longe da magia, continuamos lutando. Como sempre fizemos, eu e você, de condado em condado, de um emprego a outro, lutando por uma vida melhor.
Não consigo não desconfiar, não consigo deixar de procurar brechas nesse acordo. Ainda durmo apenas em parte, com um olho meio aberto e pronto para levantar e correr a qualquer instante.
Não sei se acredito que tudo que move Remus a ser tão bondoso conosco é sua própria personalidade, mas quem poderia me julgar? Cresci aprendendo que cada um joga por si e quem confia nos outros acaba sendo assaltado ou coisa pior.
Mas o que Remus poderia fazer conosco? Mal temos dinheiro para ser levado, e ele não parece precisar de mais.
Talvez eu devesse parar de me preocupar tanto.
Amanhã será meu primeiro dia trabalhando no pomar. Me deseje sorte.
—
Trigésimo primeiro dia do segundo mês do reinado de Alison terceiro (31/02)
Até agora, tudo corre bem.
Acordo cedo, ouvindo um galo cantar e vendo pela janela o sol se erguer no horizonte. Não é preciso pressa: Antes de iniciar o trabalho, encontro Remus, sempre cozinhando algo diferente e incrível para começar o dia. Ontem foi um bolo, hoje, mingau de aveia.
Nos sentamos a mesa, comemos juntos. Acho que gosto da companhia dele. Depois que minha mãe se foi, a única presença constante em minha vida tem sido tu, e agora, Remus. Ele gosta de conversar sobre amenidades, sempre sorrindo e achando tudo belo e lindo e incrível. É o tipo de pessoa apaixonada pela vida, que admira cada nascer do sol e cada chuva de chuva.
Talvez parecesse irritante em outra pessoa, mas gosto disso nele. Às vezes parece uma criança conhecendo o mundo, se deliciando com cada coisa nova que aparece em seu caminho.
Depois de comer vou para a horta, colho maçãs, rego as macieiras. Esvazio a composteira, faço todas as tarefas necessárias. Quando volto para o almoço, você já está acordada. Em alguns dias, te encontro conversando com Remus, em outros, brincando e formando pilhas com os livros na sala.
Almoçamos, e então volto ao trabalho. Você gosta de passar as tardes entre as galinhas e as árvores, correndo até as pernas cansarem e as galinhas desistirem de a perseguir. Enquanto isso, alimento elas e a única vaca daqui, que apelidei de Molly, com o saco de comida que fica no porão. Volto para casa, limpo a cozinha ou os quartos (o que estiver mais sujo, embora nada nesse chalé pareça ficar realmente sujo) e tomo banho.
A essa altura, o sol já está indo embora e mais um dia se foi. Incrivelmente, gosto daqui. Nunca pensei que gostaria de morar entre plantas e animais, acordar ouvindo galos cantando e dar comida para vacas. Mas o ar parece diferente aqui: mais fresco, mais puro. O sol nos aquece durante o dia e durante a noite as deliciosas sopas de Remus o fazem.
Você parece mais feliz, mais livre. Hoje, enquanto subia em árvores e ria sozinha, pareceu, pela primeira vez em muito tempo, uma garota de nove anos. Não parecia a mesma criança abandonada pelos pais aos dois anos de idade, que teve que passar dias com frio e fome antes de ser encontrada e “resgatada” por um completo estranho.
Desde então, vivemos juntos. E fizemos as coisas darem certo. Eu acho. Digo, chegamos até aqui, certo? Por mais que algumas vezes eu tenha pensado que não conseguiríamos, que tínhamos chegado no fim da linha, conseguimos.
Fico feliz por isso. E sinto que Route ainda guarda muitas surpresas para nós.
—
Quinto dia do segundo mês do reinado de Alison terceiro (05/02)
Hoje, o dia foi diferente.
Na realidade, todos os dias vem parecendo diferentes uns dos outros desde que chegamos. Por mais que algumas coisas sejam iguais, cada dia algo novo acontece – você nomeia mais uma galinha, Remus me mostra uma receita nova de bolo. Agora, os dias parecem se diferenciar uns dos outros por motivos bons, não pelos mesmos problemas que os pontuavam antes.
Enfim, estou devaneando; e não deveria, pois tenho algo empolgante para contar.
Hoje, durante a tarde, Remus me chamou para ir com ele até a feira. Eu achei a ideia boa, mesmo sabendo que da última vez que pisei em uma feira as coisas não deram muito certo. Então, te deixamos em casa, demos comida para Molly e as galinhas e saímos, caminhando calmamente pela estrada de chão batido.
A feira não ficava muito longe, então não nos demoramos no caminho. Remus disse que adorava ir até lá, sentir o cheiro das frutas frescas e ver as pessoas se cumprimentando e encontrando velhos conhecidos. Eu estava cético até chegarmos – o que poderia haver de tão empolgante em uma feira? – Quando percebi que ele estava certo.
Havia mesmo algo de mágico naquilo – em ver tantas pessoas conversando, o sol brilhando forte e o cheiro de todos os tipos de frutas chegando até nós.
Fomos de banca em banca, escolhendo as frutas mais maduras e pegando ingredientes para os bolos que Remus planeja fazer em breve. Ele parecia conhecer bem algumas daquelas pessoas, e me apresentou os donos de várias bancas – Louise e Ariane, as irmãs de cabelos negros e pele clara que negociavam especiarias, Oliver e Lohan, que estavam vendendo uvas e peras para pagar sua festa de casamento.
Foi uma tarde animada, divertida. O sorriso em meu rosto apareceu naturalmente, o que foi uma surpresa – por meses, eu não tive razão para sorrir além de ti, minha irmã. E então, chegamos aqui, e eu me sinto como se tivesse encontrado um mar delas, razões para sorrir. E para amar, para viver de verdade ao invés de apenas sobreviver, como fiz por tanto tempo.
O galo cantando pela manhã, o mugido alegre e receptivo de Molly quando chego para alimentá-la, você subindo em uma macieira e se balançando entre os galhos. Os bolos deliciosos de Remus, o modo como ele morde o lábio quando está concentrado e franze a testa quando não tem certeza se deve deixar uma sopa ferver mais ou não. O jeito dele de encarar cada coisa banal e recorrente como se fosse um milagre, como se fosse magia. Sorrio inconscientemente por cada uma dessas coisas.
Voltamos para casa, enquanto o sol sumia e a noite chegava. O vento que batia em minha pele me dava um pouco de frio, e Remus percebeu. Tirou seu sobretudo e o entregou a mim, mesmo eu dizendo que não era necessário.
Quando caminhávamos, podia sentir sua mão roçar na minha. Queria tê-la segurado – sentido sua textura, sentido o calor da pele de Remus na minha; mas não o fiz.
Senti minha respiração acelerar com esse pensamento, mas o enterrei bem fundo. Estava na casa de Remus porque ele teve pena de nós e quis ajudar, apenas isso. Não posso, em sã consciência, desenvolver sentimentos por ele. Além de já ter conhecido muito bem a dor de perder alguém amado — quando minha mãe se foi — não poderia estragar a oportunidade de uma vida melhor que recebemos aqui.
Não tenho esse direito.
—
Décimo primeiro dia do segundo mês do reinado de Alison terceiro (11/02)
Ontem, enquanto tomávamos chá de maçã com canela, descobri algo novo sobre Remus.
Não que eu saiba muito sobre ele — na realidade, ele é até que bem misterioso. Vive aqui sozinho, nunca menciona passado ou família – ou melhor, nunca havia mencionado. Até ontem.
Enquanto fervia o chá, mexendo constantemente com uma colher de madeira e esperando atingir a temperatura correta, comentou que era o chá preferido de sua irmã.
— Não sabia que tinha uma irmã – respondi. Realmente, ele nunca havia mencionado, então fiquei bastante surpreso.
Remus serviu o chá em duas canecas antes de falar novamente: uma azul com bolinhas brancas para mim e uma verde com listras pretas para ele. Se sentou à minha frente, e então explicou.
— Não tenho uma relação exatamente ótima com a maior parte da minha família, mas Lilly é a exceção dessa regra. – Tomou um gole do chá antes de continuar – Quando eu me mudei para cá... isso gerou conflitos na família. Eles gostariam que eu tomasse conta dos negócios, seguisse os planos que tinham para mim, mas eu nunca me interessei. Então Lilly ficou no meu lugar.
— Ela queria? – Perguntei. Depois que a frase saiu, fiquei com medo de ter sido intrometido demais, de estar perguntando sobre um assunto muito pessoal. Mas Remus pareceu não se importar.
— Na realidade, acho que não. Lilly não se importou de ficar, mas não era o grande sonho dela. Acho que ela resolveu ocupar seu lugar no... nos negócios da família mais por mim do que por qualquer motivo. Assim, a minha partida foi relativamente abafada e a nova geração da família permaneceu fiel... ou pelo menos parte dela.
Ele falou bastante, e depois tomou mais um pouco do seu chá. Percebi que eu nem havia provado o meu e levei a xícara aos lábios, sentindo o sabor adocicado da maçã em perfeita harmonia com o cravo. Se era Remus quem fazia o chá, eu entendia perfeitamente porque era o preferido de sua irmã.
Fiquei feliz por ele ter compartilhado isso comigo. Sinto que, apesar de ter vários conhecidos, Remus não tem amigos realmente próximos aqui. Além disso, gosto de ouvir sua voz. Me faz sorrir.
Venho sorrindo um pouco demais nos últimos dias, Dora.
Em alguns momentos, tenho medo do que isso pode significar.
—
Décimo sétimo dia do segundo mês do reinado de Alison terceiro (17/02)
Hoje você passou o dia um pouco cabisbaixa, Dora – acho que está resfriada. O inverno sempre traz, além da fina camada de gelo sobre a grama e a necessidade de mais cobertores a noite, tosses e indisposição. Remus disse que tem a solução para isso: Um misto entre chá e remédio cuja receita passou de geração para geração em sua família.
Ele o fez hoje de tarde, e apesar de eu estar bastante curioso sobre, não descobri a receita, já que estava tomando banho. Quando saí, a panela quente já estava sobre a mesa, um líquido vermelho dentro envolto em uma nuvem de fumaça. Você pegou no sono logo que tomou, e Remus garantiu que se sentirá melhor amanhã.
Enquanto o amanhã não chega, abrimos uma garrafa de vinho – vinho de verdade, não a versão mais cara do suco de uva que os camponeses compram para celebrar ocasiões especiais e fantasiar que são ricos – e tomamos juntos na sala.
Sob o efeito da bebida, percebi ainda mais Remus – seus olhos atraentes, o cabelo loiro caindo sobre a testa quando ele mexe a cabeça muito rápido, os lábios que sorriem tão facilmente. Ele ri das minhas brincadeiras mesmo quando não há graça nenhuma e abre os sorrisos mais puros em momentos comuns e corriqueiros.
Sinto que ele abriu meus olhos desde que cheguei e me mostrou a beleza onde eu nunca havia percebido antes.
Pensei que tivesse encontrado apenas um trabalho aqui, mas começo a perceber que foi muito mais do que isso. Acho que talvez... talvez tenha achado alguém para ficar em minha vida. Ao menos eu desejo que ele fique.
Desejo que ele fique para sorrir e tagarelar sobre suas receitas, que fique para dizer o quanto acha que as pessoas deveriam apreciar mais o pôr do sol pela décima vez em um só dia. Desejo que ele fique para sorrir e me deixar completamente desnorteado, para abrir garrafas de vinho sem motivo e me emprestar seu sobretudo mesmo depois de eu ter dito que não precisava.
Estive lutando para desconfiar, para estar sempre com um pé atrás, para não me apegar a ninguém. Nunca confiei em ninguém, nunca tive ninguém além de ti desde a morte da minha mãe. Mas com ele... simplesmente não consigo. Me sinto desarmado desde a noite que cheguei aqui tentando roubar maçãs e encontrei um jovem loiro e alto que me deixou sem reação – a primeira vez que isso aconteceu em muito tempo.
Em momentos como agora pouco, quando bebíamos juntos e seu rosto estava perto do meu e minha respiração era tão acelerada que jurei que ele iria perceber que algo estava errado; tenho vontade de jogar minhas preocupações para longe e o beijar – sentir seus lábios entre os meus e passar as mãos por seu cabelo seria de longe a realização de um desejo enorme e frequente, que perturba meu sono e não me deixa dormir – porém logo me recordo que as coisas podem dar errado.
Talvez ele não sinta o mesmo, o que é muito provável. Talvez ele brigue comigo, nos mande embora e eu nunca mais o veja.
Mas só saberei disso arriscando.
Ou não?
—
Décimo nono dia do segundo mês do reinado de Alison terceiro (19/02)
Você está se sentindo melhor. Parece que o remédio de Remus funcionou.
Ainda estou agindo como um maldito covarde.
—
Vigésimo segundo dia do segundo mês do reinado de Alison terceiro (22/02)
Hoje foi um dia cheio e imprevisível. Estou completamente em choque, minha cabeça dói e a quero bater na parede. Quero xingar e maldizer a mim mesmo – por ter sido tão imbecil, tão ingênuo, tão frágil.
Por ter me exposto tanto, me apegado tanto, e me tornando vulnerável. Quando não há ninguém, não há sorrisos verdadeiros causados por motivos cotidianos; mas também não há tanta tristeza e desapontamento. Nem raiva ou decepção ou nenhum desses sentimentos ruins que agora tomam minha mente e me levam a culpar meu eu do passado por cada maldita decisão que me trouxe até aqui.
O problema é que me apaixonei, Tonks. Me apaixonei por um cretino imbecil de cabelos loiros e um sorriso encantador de quem vê o mundo pela primeira vez – e olhos castanhos de quem já leu mais livros do que eu achei que fosse possível, e mãos habilidosas de quem já fez mais tortas do que seria capaz de comer.
Mas agora já me estendi demais, estou enrolando; e por mais que seja doloroso, preciso explicar o que aconteceu.
Hoje mais cedo, fomos até a feira. Fizemos nossas compras, conversamos com algumas pessoas, sentimos os cheiros de frutas frescas e especiarias tornando o ambiente tão poético quanto qualquer um dos livros de romance que Remus guarda em sua sala.
Depois de termos pego framboesas, amoras, canela e noz moscada, entre outras coisas, tínhamos todo o necessário. Assim, tomamos nosso caminho de volta para casa, enquanto o sol se punha e os vagalumes começavam a aparecer.
O que eu não sabia é que há mais uma coisa que costuma acontecer naquela faixa de horário. A luz indo embora, a estrada deserta e os comerciantes e camponeses voltando para casa com suas sacolas repletas de produtos recém comprados chamam a atenção de ladrões, que se esgueiram pela estrada, se escondendo entre os arbustos até encontrar alguém para roubar.
Não sabia disso até algumas horas atrás, mas sei disso agora.
E, particularmente, não acho que dois homens altos e fortes como nós pudessem parecer uma boa opção aos ladrões – somos claramente intimidantes, certo? – Mas não foi o que eles pensaram.
Três deles saíram do meio das árvores à margem da estrada repentinamente e nos atacaram: Um deles chutou as canelas de Remus e o fez tropeçar, enquanto outro me deu um soco no rosto. Remus levantou e se defendeu rapidamente, enquanto eu ainda tentava entender o que estava acontecendo.
Me levantei, trôpego e cuspindo o sangue acumulado em minha boca. Eles nos cercaram, Remus deu passos para trás sem tirar os olhos deles até que suas costas encostaram nas minhas. Assim, ficamos no meio de um círculo, de costas um para o outro, enquanto os três ladrões nos cercavam.
Naquele momento, consegui enxergá-los melhor: Dois ruivos de pele clara e sardas no rosto e uma mulher de cabelos negros e olhos azuis claros.
Ela exalava uma aura de poder, como se fosse a chefe dos outros dois. Sua voz era autoritária e aveludada.
— São só algumas porcarias que acabaram de comprar. Entreguem-me e ficarão bem.
Senti o corpo de Remus tremendo atrás de mim, mas sua voz saiu firme quando disse:
— Não vamos entregar nada. Vão embora e nos deixem em paz.
Aconteceu mais rápido do que qualquer um de nós poderia prever – A mulher e um dos homens me derrubaram, chutando meu corpo com uma força descomunal enquanto o outro homem segurava os dois braços de Remus para trás.
— Não machuquem ele! – Ele gritou, se debatendo.
Tentei gritar que estava bem, mas não consegui. Minha cabeça doía, meu corpo doía, chutes eram desferidos em mim a cada segundo. Me encolhi, tentando proteger meu abdome e sentindo como se fosse vomitar a qualquer instante.
Lutei para manter meus olhos abertos enquanto me culpava por ter sido tão inútil. Pego de surpresa, eu me relevei um péssimo lutador – provavelmente até você, uma criança de nove anos, se sairia melhor em meu lugar.
Remus conseguiu se livrar do homem que o segurava, mas ao invés de correr para chamar ajuda, abriu seu sobretudo e enfiou a mão em um dos bolsos. Os ladrões pareciam tão confusos quanto eu.
Tirou de lá um graveto, ou algo parecido com isso, e o apontou para o rosto da mulher. Ela sorriu, um sorriso irônico e cruel.
— Está blefando.
Remus levantou o rosto, sério como eu nunca o havia visto antes. À meia luz e segurando aquele pedaço de madeira, parecia ameaçador, embora eu não tivesse ideia do que estava fazendo.
— Quer apostar?
A mulher engoliu em seco – parecia ter perdido um pouco da sua confiança.
— Se fosse um deles, não estaria aqui – falou, sua voz autoritária tremendo levemente.
Arregalei os olhos quando percebi o que Remus estava tentando fazer – se passar por um Puissant, um detentor de magia. Mas se ela não cedesse, como um Ordinaire usaria um graveto para jogar um feitiço e se livrar de três ladrões?
— Largue Sirius agora mesmo – ele disse, dando alguns passos à frente e se aproximando da mulher. Ambos se encararam, faíscas saindo de seus olhos. Aquela era uma disputa por quem cederia primeiro – e se não fosse ela, estaríamos ferrados.
— Ainda estou esperando algo que me faça acreditar – ela disse, sem sorrir dessa vez.
Remus olhou para mim de um modo tão triste que eu quis chorar – imaginei que sentia muito por sua tentativa não ter dado certo. Mas agora que sei o que ele realmente quis dizer com aquele olhar, o acho mais triste ainda.
Ele quis dizer que não estava blefando.
Remus recitou palavras das quais eu nada entendi, um raio vermelho saiu da ponta de seu graveto – que agora sei que é uma varinha – e a mulher caiu no chão.
Senti minha cabeça girar enquanto o gosto de sangue na minha boca se intensificava. Era demais para mim, meu corpo inteiro doía como o inferno e vi de relance os dois homens ruivos saindo correndo, aterrorizados.
Remus olhou para mim, e o odiei – o odiei tão intensamente que lágrimas quase saíram pelos meus olhos. Talvez tivessem saído se eu tivesse ficado acordado por mais um instante – o que não aconteceu.
Desmaiei.
—
Quando acordei, estava em casa na casa de Remus.
Ele também está aqui. No quarto de hóspedes.
Acho que pegou no sono esperando eu acordar, já que seu corpo adormecido pende entre a cama e uma cadeira. Você também está aqui, deitada e dormindo entre as cobertas. Deve ter ficado assustada com nossa demora para chegar em casa, mas Remus provavelmente te tranquilizou.
Só agora me dei por conta que não tenho ideia de como voltamos para cá. Mas sinceramente, não me importo – Remus provavelmente usou alguma porra de maldição em mim que me fez flutuar por todo o caminho ou algo assim.
Estou com raiva.
Isso é algo bastante óbvio, mas quero deixar claro. Estou com muita raiva.
Como ele pôde? Fingir ser um de nós, mentir sobre quem ele é, esconder algo tão importante por tanto tempo?
Sobre o que mais ele mentiu? O que é verdadeiro nele, e o que são mentiras? O que mais não sabemos?
Odeio o fato de eu ter descoberto sua verdadeira natureza nessa situação. Será que um dia ele me contaria por espontânea vontade? Provavelmente não. Talvez eu apenas não seja importante o suficiente para ele ser verdadeiro.
Que seja.
Odeio ter confiado nele. E não serei burro ao ponto de continuar aqui.
Iremos embora ao amanhecer – assim que você acordar.
Iremos embora, e isso é uma promessa.
—
Vigésimo terceiro dia do segundo mês do reinado de Alison terceiro (23/02)
É a segunda vez que venho escrever aqui após um curto período de tempo desde a última anotação, porém com a sensação de que muita coisa mudou.
E realmente, muita coisa mudou.
Mas vou começar pelo início.
Estávamos prontos para ir embora. Remus ainda dormia, então te peguei em meu colo silenciosamente e saímos do quarto, passo a passo. Não que Remus pudesse nos impedir de ir embora, mas eu realmente não queria lidar com ele naquele momento.
Só quando chegamos na cozinha senti o peso do que eu estava fazendo. Estava indo embora, deixando para trás a única pessoa que me acolheu e me fez sentir em casa. E para quem eu me abri e me expus como nunca antes. Mas era a decisão certa. Eu não iria voltar atrás agora – não depois de tudo que ele fez, de tudo que ele me escondeu e fingiu ser.
Não se confia em Puissants. Mas principalmente, não se confia em mentirosos.
Então, eu estava passando pelas macieiras com você em meu colo – embora seja um pouco pesada demais para isso. Você estava triste: não sabia porque estávamos indo embora e dizia que queria ver Remus.
Até aquele momento, não havia percebido que eu não era o único que tinha se apegado aquele lugar. Você estava tão feliz desde que chegamos. Subia em árvores e brincava com as galinhas como se não tivesse mais preocupações – e realmente, não tinha. Agora, voltaria a me perguntar se tínhamos comida suficiente até o fim do dia e sentir o frio tomar seu corpo ao cair da noite.
O sol nascia e os poucos raios dourados que driblavam pesadas nuvens caíam sobre nós quando ouvi meu nome. Uma, duas, três vezes. Não virei para trás. Não queria tornar aquilo mais difícil do que já era.
Continuei caminhando, mas não por muito tempo. Somente até Remus me alcançar e me puxar pelo braço.
— Sirius, por favor. Preciso falar com você.
E por mais que eu sentisse meu peito arder de ódio por ele e só quisesse ir embora logo, resolvi ouvir. Talvez para ele me deixar sozinho logo, ou talvez porque alguma parte de mim ainda quisesse ouvir sua voz e ver seu rosto uma última vez. Independente do motivo, me virei para ele e te larguei no chão.
Mas Remus virou para você, e disse que tinha deixado mingau de aveia sobre a mesa. Só percebi suas pretensões quando já era tarde demais – você já havia saído em disparada até o chalé, e estávamos sozinhos. Maldita seja a inteligência de Remus.
— O que você quer? — Perguntei.
— Quero que me ouça. Que me ouça sobre tudo. Se quiser ir embora depois, pode ir. Mas não posso simplesmente te deixar ir. Preciso tentar antes.
Bufei.
— Estou aqui. Pode falar o que quiser, mas não tenha a ilusão de que irei te perdoar ou algo assim.
Remus chegou mais perto de mim, e eu desejei que ele se afastasse. Seria muito mais difícil negar qualquer coisa com ele tão perto de mim. Ainda assim, não falei nada.
— Sirius – começou — quando te falei sobre ter deixado o negócio da minha família, estava falando sobre a administração de um condado vizinho. Eu os deixei, deixei toda a minha família. Porque desde o momento que percebi a verdade sobre eles, não consegui mais. Quando abri meus olhos para as atrocidades que cometiam, perdi a capacidade de enxergar meus pais como carinhosos e protetores. Quando soube que enquanto tínhamos um banquete ao nosso dispor, outros passavam fome, não consegui mais sentir algo de bom nos pratos que comia. Quando percebi que não queria estar lá, senti medo. Senti tanto medo de ir embora. Medo de não conseguir evitar me tornar um deles. Medo de que seus valores idiotas e egoísmo tomassem a mim também. Eu não queria ser como eles. Eu não queria ser um monstro. – Remus respirou fundo – Então fui embora. A maior parte dos meus familiares me humilhou e.… eles tentaram coisas. Para me convencer a ficar. Usaram seus métodos, semelhantes aos que usam com escritores e filósofos. Magia não é a melhor qualidade dos Puissant, Sirius. A manipulação é. Mas depois de perceberem que eu não iria ceder, me permitiram ir embora. Antes, estipularam uma condição: Eu não viveria no condado deles. – Remus me encarou, os olhos castanhos parecendo mais tristes do que nunca. Suspirou pesadamente antes de continuar, como se estivesse tirando o pó de uma estante muito antiga e recontando uma história sobre a qual já havia pensado vezes demais.
— Então vim para cá. Comecei a plantar minhas maçãs, cuidar das minhas galinhas. Tudo que eu queria era uma vida calma e longe de qualquer trono. Minha irmã ocupou meu lugar como herdeiro, e as coisas se estabilizaram em minha vida. Até você chegar. – Ele me encarou, seus olhos nos meus tão profundamente quanto se tentasse ver minha alma — Porque você, Sirius, desconhece calma e estabilidade. Você bagunçou tudo desde quando chegou tentando negar que estava roubando mesmo sendo óbvio. Você deixou tudo confuso e intenso, intenso demais. E eu amei cada segundo disso. Devia ter te dito, devia ter te dito desde o início porque assim não teria chances de te perder. Mas eu tive tanto medo de que você pensasse em mim como um Puissant. Porque, por mais que tenha ido embora e abandonado meu lugar no trono, o sangue deles ainda corre nas minhas veias e a magia... você viu, Six – Senti minha respiração acelerar quando ele me chamou de Six. Já havia acontecido antes algumas vezes, e em cada uma delas eu jurei que estava com o rosto completamente vermelho. Provavelmente era verdade.
— Eu tenho magia. – Ele continuou — Eu a usei naquele dia, quando Nymphadora ficou doente. Preparei uma poção simples para resfriados. E a usei para te proteger, porque não suportaria ver qualquer coisa de ruim te acontecer. E eu sinto muito por ter te escondido algo assim porque... não queria que isso me definisse. Queria que você soubesse outras coisas sobre mim antes de saber que eu sou um Puissant, porque não queria que me visse como um deles. E claramente não deu certo porque agora a única pessoa com a qual eu realmente me importei em anos está indo embora – Ele disse, rapidamente e se embolando com as palavras como se tivesse medo que eu pudesse sair correndo a qualquer instante – E a culpa é toda minha porque quis esconder meu passado e não sei lidar com amor porque nunca o recebi, então... me desculpe.
Remus suspirou fundo e olhou para baixo. Seu olhar era triste, e depois de ouvir tudo aquilo eu tive vontade de segurá-lo entre meus braços e protegê-lo. E dizer que não me importava, não me importava com nada que tivesse acontecido porque o queria junto a mim. Eu quis beijá-lo, finalmente sentir seus lábios entre os meus e saber que estávamos ambos entregues um ao outro. Então me dei conta de algo que ele tinha dito.
— Fiquei com uma dúvida sobre o que você disse.
Remus me encarou.
— Pode dizer.
— Qual a relação entre o que aconteceu entre nós e o fato de você não saber lidar com amor?
Ele ficou em silêncio por um instante, olhando para o meu rosto. Uma gota de chuva caiu em mim, e eu percebi que o céu estava mais escuro do que antes e cheio de nuvens. Provavelmente começaria a chover em alguns minutos, e eu teria que tomar uma decisão: Iria com Remus ou o deixaria.
— Eu... – ele engoliu em seco – Eu te amo, Sirius.
Eu devia ir embora. Eu realmente devia, mas... eu não podia. Não poderia ir embora sabendo que tinha achado alguém que me fez sentir vivo, e que deu ao mundo cores mais vibrantes, e que me fez sorrir em pouco tempo mais vezes do que havia sorrido em anos inteiros.
A chuva começou a aumentar, os pingos caindo em minha roupa e molhando meu cabelo, mas não fiz nenhum movimento para ir embora. Pelo contrário, me aproximei de Remus até conseguir ver cada tom de castanho em seus olhos, cada fio de seus cabelos loiros.
E antes que pudesse fazer qualquer coisa, ele me beijou.
Senti os pingos de chuva caindo em meu corpo. Senti a brisa fresca passando por nós. Senti seus lábios tocando os meus – e uma de suas mãos segurando minha cintura, e seu cabelo entre meus dedos.
E soube que não precisaríamos ir embora.
Havia achado meu lar.
Notas finais
Me sigam no tt, onde eu sou mais ativa, e vamos amigar (@ginnysculture). Bjs e logo vou tentar trazer mais fics por aqui.
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