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27 Wounds
Notas iniciais
Sozinha na chuva, Rose tentava se conter enquanto caminhava pelas ruas cada vez mais vazias. Não conseguia compreender se havia feito a escolha correta. Havia acabado de mandar um homem para o matadouro como se fosse um simples animal de gado. Seria aquela a vingança que desejava por todos aqueles anos? Talvez fosse cruel demais, mas tudo que ela precisava naquele momento era se manter longe daquele homem que fez da sua vida um verdadeiro inferno.
Olhando para o relógio do Big Ben, sentindo suas lágrimas se unirem as gotas da chuva, era difícil compreender que seu romance adolescente havia se tornado em um drama sem direito a finais felizes, mas precisava seguir em frente com aquilo agora. Seus filhos precisavam que ela fosse forte agora.
Seus pés acabaram lhe guiando, aparentemente sem rumo, para a ponte Westminster e seus olhos perdiam o foco na brilhante roda gigante do outro lado. De repente se deu conta que a vida era exatamente como o London Eye. Uma hora poderia estar bem, observando toda beleza a sua volta, mas outrora estaria tudo como sempre havia sido e se esqueceria de como era estar por cima.
O tempo que passou com Scorpius nos últimos dias havia sido incrível. Eles quase não discutiam. Ele parecia preocupado com ela, tentando sempre deixa-la confortável e tranquila. No entanto, sentia como se suas feridas profundas jamais pudessem ser curadas pelo tempo. Não podia simplesmente fingir que nada do que havia relembrado hoje não fosse real. Era real. Pelo menos para ela.
"Rose." Uma voz a chamou distante, como se fosse algo da sua mente.
Mas por outro lado, ela havia visto ele com Artemis. Ele era um bom pai. Não parecia ser aquele homem que se lembrava. Era doce e sensível. Havia amor em seus atos... Amor puro.
"Rose." A mesma voz chamou-a novamente.
Não havia sentido em simplesmente deixa-lo morrer para salvar seu filho, mas não havia sentido em perdoar o que havia acontecido no passado. Ah, se houvesse outro modo.
"Rose!" Agora a voz estava mais próxima e ela podia reconhecer.
Agora não, pensou. Precisava de mais tempo para entender o que estava acontecendo.
"Rose, será que você pode parar e me ouvir?" Albus gritou, puxando-a pelo pulso, e lhe tirando do modo automático que estava.
"Me deixe em paz, Albus." Pediu, quase implorando com seu olhar, que ele fosse embora e lhe deixasse sozinha, mas em sua voz não havia nem um pingo de delicadeza. Era como se fosse uma leoa avisando o perigo de lhe enfrentar.
"Mantenha a calma, Rosie." Ele a estudou. "Está tudo bem?"
"Como pode estar tudo bem?" Rosnou.
"O que aconteceu?"
"Vá embora." Ordenou, lembrando-se que o primo estava envolvido em toda complicação da história. Havia sido ele quem a trouxera para Londres, havia sido culpa dele que seus filhos haviam sido pegos e, principalmente, havia sido culpa dele que ela havia se apaixonado por Scorpius Malfoy pela segunda vez na vida. Sentia como se houvesse sido traída. Ele era seu melhor amigo. Como podia ser tão cruel?
"Sério?" Ele não ousou se mover. "O que houve com você?"
"Como me encontrou?" Ela lançou outra pergunta, pois a dele não era digna de resposta. Ele sabia perfeitamente bem que tudo estava uma bagunça.
"Longa história. Você vai ficar brava." Respirou fundo. "Não que você já não esteja... O que foi que aconteceu, hein?"
Ele continuava insistindo. Era irritante para ela.
"Você está bem?" Novamente a voz de Albus encheu-lhe os ouvidos. Seria mais fácil se ele permanecesse quieto, mas ela precisava compreender que ele era um Potter.
"Como pode esperar que eu esteja bem depois de tudo isso?" Bufou. "Eu estou péssima, se você quer saber! Estou destruída!"
"Rose, eu sinto muito."
"Sente muito? Você sabe o quanto Scorpius Malfoy me fez sofrer, mas mesmo assim confiou nele e me deixou confiar nele." Sua voz estava tão alta que quase gritava ao mesmo tempo que dava um passo para trás, se afastando. "Esse é o grande problema da minha vida. Todo mundo sempre acho que deveria ser assim. Um romance a lá Romeu e Julieta... Mas sabe de uma coisa? Romeu deve morrer."
"O que você...?"
"Engraçado porque o romance escrito por Shakespeare realmente acaba em morte, mesmo que ainda na adolescência." Ironizou. "E de qualquer forma, estaria tudo bem se ele nunca tivesse tido a maravilhosa ideia de provar que eu não era tão difícil quanto aparentava ser."
"Rose, você pode por favor me explicar o que diabos você está querendo dizer?"
"Chega, está certo?" Levantou as mãos. "Eu me lembro de tudo. Vamos todos parar de fingir que ele é um santo! Meus filhos estão correndo risco de vida e isso graças a um imbecil egocêntrico que não foi capaz de manter-se na linha."
"Você se lembra?"
"Recebi uma porção de memórias de presente. Não é incrivel?"
"Recebeu? Presente?" Albus pensou por alguns segundos. Ele estava unindo os pontos. "Quem te deu isso?"
"O que importa?"
"Quem te deu isso?" Repetiu.
"Oswald."
"Oswald?"
"É... Por que? Ele não deveria fazer isso? Ao menos..."
"Rose, pelo amor que Dumbledore tinha por Hogwarts, por favor, cale a sua boca e comece a usar seu cérebro novamente." Albus gritou como se estivessem no meio de um incêndio e precisassem escapar o mais rápido possível. "Essas memórias não são reais."
"É claro que são!"
"Então olhe para elas novamente. Há detalhes sem nexo!"
"Eu não vou olhar..."
"Rose Weasley." As mãos úmidas do Potter seguraram o rosto da ruiva. "Pelo amor do Deus que nossos pais acreditam, olhe para essas suas feridas por um segundo! Será mesmo que você as fez ou foram colocadas ai como maquiagem de parque de diversão?"
Então Rose entendeu. Tudo aquilo não era real. O Scorpius das suas lembranças, frio e insensível, não era real. As lágrimas derramadas por cada discussão não eram reais. Nada daquilo era real.
"Eles estão tentando te fazer perder tempo." Albus suspirou.
"Merlin!" Rose parou. Deixaria para sofrer depois. Havia algo pior para pensar agora. "Vão matar ele, Albus!"
"Matar quem?"
"Scorpius." Rose respondeu, mas já imaginava que o primo soubesse a resposta.
"O que foi que você fez?" Perguntou, esperando a pior resposta possível.
"Mandei ele ir embora." Respirou fundo. "Embora da minha vida."
Wounds
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