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13 Childhood


De olhos fechados, Visão suspirou despreocupadamente enquanto mantinha seu abraço entorno de Wanda que repousava sobre ele.

— O abajur não estava ali ontem. — Ela disse em voz baixa, olhos igualmente fechados. Ouviu Visão dar uma leve risada e sorriu ao senti-lo em cada parte de seu próprio corpo.

— Essa é a primeira vez que você fala desde que eu cheguei. — Ele sussurrou, muito baixo.

— Você também não falou muito. — Ela proferiu em igual tom. — Está cansado?

— Depende para o quê.

Quando Wanda não falou mais nada, Visão abriu os olhos para encontrá-la o observando. Ele olhou para seus lábios, tão atrativos, e inclinou-se, capturando-os em um beijo calmo, apreciativo. Wanda se afastou de seus lábios e finalmente moveu-se para separar seus corpos, sentindo imediatamente uma falta em seu interior, Visão sentindo a ausência de seu calor aconchegante.

Com um pouco de dificuldade, pois ainda se recuperavam do recente exercício, Visão se deitou corretamente na cama, trazendo Wanda para cima de si, abraçando-a firmemente, não deixando que caísse do colchão.

— Quer conversar? — Ele perguntou, dessa vez sua voz saíra mais alta.

— Há muitas coisas sobre as quais quero conversar com você, mas não sei por onde começar. — Ela respondeu com um suspiro para encerrar a frase.

Traçava leves círculos e linhas sobre o peito de Visão, enquanto ele fazia a mesma coisa em suas costas.

— O dinheiro foi o suficiente?

— Uhum.

— Bom. E...

— Eu fui garçonete por cinco meses. — Ela o interrompeu enquanto ele ainda tentava pensar em uma próxima pergunta.

— Mesmo? Por quê?

— Contas.

— Eu pensei que enviava o suficiente.

Ele sentiu quando ela expirou em sua pele, o silêncio querendo significar alguma coisa.

— Era, no início. — Ela inspirou profundamente. — Mas quando Sam, Bucky e Rhodey vieram, eu não podia deixar que simplesmente arcassem com todos os gastos que teriam aqui por nossa causa.

— Compreendo. Mas poderia ter me avisado, eu teria enviado mais dinheiro.

— Eu poderia?

Ele baixou seu olhar para ver Wanda com um sorriso de quem espera a outra pessoa se dar conta do erro cometido.

— Não, não poderia, esquece. — Ele sorriu e voltou a fitar o teto. — Tem mofo aqui. — Ele inspirou profundamente, como se para sentir o ar em seus pulmões em maior quantidade. — E é abafado.

— Só tem uma janela no banheiro. — Ela murmurou, por um momento Visão acreditou que ela estivesse quase dormindo ao passo em que ele parecia mais atento.

— Parece apertado.

— Uhum... — Ela resmungou. — É sim.

— Não tem problema. — Ele a trouxe o mais perto possível de si, seus corpos nus grudados um no outro. — Já vamos nos mudar.

Ela colocou o queixo em seu ombro para poder olhá-lo.

— Vamos?

— Sim.

— Para onde?

Ele ficou um tempo em silêncio, o mínimo sinal de um sorriso nos cantos dos lábios, antes de virar sua cabeça para o lado para olhar a íris verde dos olhos de sua amada.

— Eu pensei que poderíamos visitar alguns arranha-céus e chãos de concreto.

— Nova Iorque?

— Sim. — Wanda fez silêncio, repousando novamente sua cabeça no peito de Visão, que encostou sua bochecha em cima da cabeça dela. — Não gostou?

— Não. Quer dizer, sim... mas... — Ela suspirou antes de completar sua frase. — Nova Iorque me traz algumas lembranças.

— É, eu acho que traz a nós dois. — Ele sentiu o corpo tenso de Wanda, ela parecia uma bola de argila difícil de ser moldada. — Arrumei um loft. É pequeno, mas maior que esse apartamento. É temporário também. Já providenciei professores particulares para as crianças.

Wanda se soltou do abraço de Visão e ergueu um pouco seu tronco para poder olhá-lo melhor.

— Eu pensei que conversaríamos antes de tomar qualquer decisão desse tipo. Tirar as crianças da escola...

— Eu sei, eu sei. Nós íamos, mas não fui eu quem tomou essa decisão. — Ele se justificou, atraindo um olhar de questionamento de Wanda. — Natasha lhe contou sobre o plano?

— Contou que havia um plano, não disse qual era. Presumo que foi você que o criou? — Ela falou mais brandamente.

— Na verdade não. — Um novo olhar de questionamento provindo da mulher. — Tony e Steve fizeram uma trégua para suas desavenças e traçaram um plano minucioso que aparentemente já está em ação há dois anos.

— O que? — O espanto estava presente na voz de Wanda.

— Só fiquei sabendo pouco antes de Tony me mandar para Wakanda, ele disse para manter segredo de você.

— Por quê? Seja o que for, eu poderia ter ajudado.

Ela observou o olhar dele cair levemente antes de voltar a encará-la.

— Eu não gosto muito desse plano. — Dessa vez foi ele quem suspirou. — Envolve deixar Strucker chegar perto de você para que possamos pegar o máximo de informações dele.

Wanda ponderou suas palavras por um momento enquanto relacionava algumas coisas em seu cérebro.

— Então... os capangas dele estarem aqui, em Portland, faz parte do plano? Deixar que eles venham até este apartamento?

— Natasha me contou do envelope com as fotos. — A ideia de que um dos capangas de Strucker tenha chegado tão perto de Wanda e de seus filhos fez com que seu coração apertasse em seu peito. — Não foi intencional da parte deles deixarem que alguém entrasse no prédio, mas isso pode ter contribuído com o plano. — Ele suspirou pesadamente. — Eu não sei direito que plano é esse, é coisa do Tony, mas eu confio nele.

Wanda permaneceu em silêncio. Voltou a deitar-se sobre Visão, o nervosismo fazendo-a agarrá-lo mais firmemente. Isso não passou despercebido pelo homem, que a abraçou com carinho antes de mudar de assunto:

— Senti falta disso.

— De um apartamento minúsculo e mal iluminado? — Ela indagou, um sorriso brotando em seus lábios ao ouvir a sonora risada dele.

— Não. Senti falta de abraçar você. — Ele apertou mais seu enlace nela. — De contar os minutos para que a aula acabe e as crianças voltem para casa. De esperar a noite para ficarmos juntos assistindo TV, depois colocar as crianças na cama e ir para nosso próprio quarto.

O silêncio que sucedeu fora necessário para que seus pensamentos se organizassem.

— Soph teve um ataque de pânico essa semana na escola. — Wanda informou de forma serena.

— Ela disse o porquê?

— Não consegui conversar com ela ainda. — Wanda beijou o ombro de Visão. — Eu acho que nossos filhos são comportados demais.

Visão soltou uma risada levemente mais alta que as outras.

— E estamos reclamando disso?

Wanda sorriu entendendo o motivo da graça.

— Não reclamando, mas estamos preocupados. Crianças têm que correr, gritar e falar alto, querer fugir e fazer birra, nos fazer repetir mais de três vezes a mesma coisa, todas essas coisas que tornam o trabalho dos pais mais difícil, sabe?

— Entendi onde quer chegar. Acha que eles são quietos demais?

— Exatamente. Quero dizer... É como se eles estivessem sempre esperando por alguma autorização para brincar, falar ou se divertir. Como soldados no quartel esperando pelo comandante dar as próximas ordens. — Ela suspirou. Muitos suspiros seguidos significavam nervosismo, um hábito demonstrando tanto por Wanda quanto por Visão. — Eu não quero isso. Eles não são militares, não quero que ajam como se fossem obrigados a se comportarem o tempo todo.

— Também não quero isso, que se sintam reprimidos.

— Isso, reprimidos.

— Mas não acho que seja esse o caso. — Ele beijou sua cabeça e levou uma mão para segurar o lado de seu rosto, a ponta de seus dedos acariciando atrás de sua orelha. — Acho que são apenas compreensivos.

Wanda levou um momento pensando sobre essa palavra. É, essa era a qualidade mais proeminente de seus filhos, e isso a fazia se sentir uma mãe orgulhosa.

— Concordo, eles são boas crianças, apesar de você os mimar demais.

— Mimar demais? Dar brinquedos a crianças não é mimar demais! — Ele se defendeu, ambos mais descontraídos agora.

— Você os enche de brinquedos.

— Bem, sem querer parecer muito arrogante, nós somos ricos, podemos pagar uma infância recheada de brinquedos para nossos filhos.

Ela fez uma pausa antes de pronunciar-se:

— Você é rico. Eu sou rica só quando estou com você, ou quando estava com Strucker, mas vim de uma família classe média, e, antes disso, éramos mais humildes, minha família biológica.

Foi a vez de Visão fazer uma pausa antes de continuar a conversa:

— Você nunca fala muito da sua família biológica.

— Nenhum de nós dois fala, eu acho.

— No meu caso, não há muito o que falar. Mas no seu... — Ele mesmo não continuou sua frase, esperando que Wanda dissesse algo a respeito.

— O que quer saber? — Ela questionou depois de alguns segundos.

— Como era viver em Sokovia?

— Difícil. Mas meus pais tornavam tudo suportável.

Visão notou como o ambiente pareceu silenciar. Nenhum som era ouvido a não ser suas vozes quando falavam.

— Como eles eram? — Ele arriscou a pergunta. O passado era um assunto delicado, principalmente para Wanda. Depois de um tempo que pareceu eterno, Visão começou a se arrepender de ter adentrado nesse tema. — Desculpe... não precisa responder.

— Tudo bem. Só estava me lembrando. — Ela disse com uma voz sussurrada. — Eles eram os melhores pais que eu poderia ter. Tornavam tudo tão alegre e colorido. Sokovia era um lugar difícil para se viver. A pobreza, a violência, a repressão... mas quando meus pais sentavam juntos no sofá e eu e Pietro sentávamos no chão, rindo, assistindo a sitcoms, tudo parecia ser menos ruim do que realmente era.

Ela terminou com um suspiro. Visão absorveu cada palavra dita por sua noiva, imaginando em sua mente como teria sido uma infância como a dela, encerrada tão abruptamente com a morte prematura de seus pais.

Há coisas sobre o passado deles que eles haviam compartilhado um com o outro, mas haviam algumas coisas que permaneciam guardadas, apenas esperando o momento para serem reveladas. Esse era um desses momentos. Visão acabara de saber mais um detalhe sobre a dolorosa infância de Wanda, e isso o fazia se sentir mais próximo dela.