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43 A Conversation


Quando as pessoas iam parar de se machucar por causa dela?

Parece que atrair problemas era sua vocação.

Quando criança, após a morte de seus pais, era mais fácil com Pietro por perto. Eles dividiam esse trabalho.

Nos abrigos. Depois na rua. E então, quando as coisas estavam se estabilizando... Pietro se foi.

Metade de seu coração, metade sua alma, sendo arrancado bruscamente do seu corpo.

Ela encontrou Strucker e com ele veio todos os outros problemas no decorrer de dez anos.

Wanda nunca deixaria de se culpar por todos os problemas causados, por todas as pessoas machucadas. Pietro em primeiro lugar. Mais recentemente Sam. E muito mais recentemente, após conversas explicativas sobre o dia em que foram sequestrados, as pessoas do prédio onde estavam temporariamente. Visão. Tommy. Billy. Os seus três filhos mais velhos também.

E agora, encarando seu reflexo no espelho, seus olhos quase transbordando de lágrimas não derramadas, ela só conseguia direcionar todo o seu ódio para sua própria existência...

Duas batidas na porta do banheiro.

— Wanda? — A voz de Monica soou através da madeira. — Posso entrar?

Wanda chacoalhou a cabeça e respirou fundo, limpando os olhos umedecidos e torcendo para que sua amiga não notasse seus olhos vermelhos, então destrancou a porta.

A maçaneta girou, Monica abriu a porta e entrou no banheiro, sendo seguida por Natasha que trancou a porta após entrar.

As duas encararam Wanda por um momento, ela silenciosamente esperando que as outras duas usassem o banheiro ou qualquer outra coisa, mas...

— Sabe. — Monica começou, suspirando. — Às vezes não queremos falar, ou não sabemos como iniciar, mas isso pode ajudar de alguma forma.

— Talvez não melhore seu estado de espírito nem nada do tipo, mas tira alguns pensamentos da cabeça. — Natasha continuou.

— Elencar os problemas também é uma forma de procurar pela solução.

Dito isso, elas se calaram e esperaram por uma reação.

E foi uma reação inesperada: Wanda caminhou de costas até que suas panturrilhas encostaram a borda da banheira, entrando nela e fechando a cortina.

Monica e Natasha se entreolharam confusas e, em certo nível, preocupadas. Foi então que ouviram as baixas fungadas vindas da banheira, detrás da cortina.

Wanda estava chorando.

Era um choro tão baixo que quase inaudível. As duas mulheres se aproximaram e Natasha segurou na cortina para abri-la, porém Wanda rapidamente segurou na cortina também, impedindo que fosse aberta. Um aviso de que ela não queria ser vista, e foi entendido.

Natasha sentou no chão assim como Monica, cada uma encostada com as costas na parede de frente uma para a outra.

E elas ficaram em silêncio, para Wanda chorar o quanto quisesse.

Pareceram longos minutos, entretanto, Wanda estava se contendo. Ela não queria chorar por tudo o que queria chorar. Ela não queria chorar perto de suas amigas. De nenhum de seus amigos. Nem de seus filhos, no quarto ao lado. E por isso, ela não chorou mais.

Os baixos soluços cessaram junto das lágrimas. Lentamente foi controlando suas emoções e ações, respirando devagar até que tivesse certeza de ter parado de chorar.

Natasha soltou um leve suspiro por entre os lábios e Monica encheu os pulmões de ar lentamente.

— No início, tivemos problemas com dinheiro. — A voz de Wanda foi ouvida, tão normal quanto se não tivesse chorado. — Os cartões de Visão foram bloqueados, às vezes ele conseguia dinheiro com Steve, outras vezes não. Steve disse que alguém estava aconselhando Tony a não dar dinheiro para nós, que também controlava as contas bancárias.

— Tinha um cara, que já foi demitido. — Natasha explicou rapidamente.

— E no início, usávamos muito ônibus e metrôs. Estar em meio à multidão era seguro. Dentro da cidade, de cidade em cidade, Estado em Estado. — Ela fez uma breve pausa, relembrando dos momentos de sufocos que passou. — Só que quando se usa muito os meios de transportes pagos, e você não tem dinheiro para repor na sua carteira, você acaba sem dinheiro nenhum. Você não pensa que viagens de ônibus seriam tão caras assim. — Uma nova pausa seguida por um suspiro. — Vocês sabem qual a comida preferida do David?

Natasha não disse nada, mas negou com a cabeça mesmo sem ser vista pela outra.

— Ele disse que amava waffles uma vez. — Monica proferiu, ainda em dúvida.

Wanda sorriu com a resposta.

— Sim, ele ama waffles. E Lizzie ama panquecas e Tommy é completamente apaixonado por chocolate. — Seu sorriso aumentou, porém não perdurou muito enquanto as lembranças e pensamentos vinham em sua mente. — Longas épocas sem dinheiro, ainda viajando de um lugar para outro, sem ter onde dormir, ou então posar em hotéis baratos ou albergues. — Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de completar sua linha de raciocínio. — Se para adultos já é difícil, imagina para crianças.

— Não foi sua culpa, Wanda. — Natasha começou, porém Wanda voltou a falar antes dela.

— Acho que fiquei tão paranoica, sempre fugindo e querendo economizar, que as crianças ficaram igual a mim. — Ela respirou devagar. — Nos últimos dias em Portland, eu fiz elas dormirem no chão de uma lanchonete. E no dia seguinte, eles pediram o café da manhã mais barato que podiam. E eu fiquei pensando... eu pensei... “Podemos pagar a escola particular, mas não podemos pagar um café da manhã decente.”

— Escolas particulares eram melhores para o anonimato. Sempre há um meio de negociar. E as públicas, é mais fácil haver denúncias. — Natasha argumentou pela amiga, ela sabia das escolhas e motivos de Wanda e Visão.

— Ainda assim, partiu meu coração ver David escolhendo sanduíche de pasta de amendoim, o que ele nem gosta tanto, em vez de waffles. E eu só preocupada com o dinheiro que ia gastar no ônibus. — Por um momento, Wanda quase riu, mas não de graça, e sim de frustração. — Eu sou uma mãe horrível.

— Não, você não é. — Monica prontamente negou. Contrariando o desejo de Wanda, ela abriu um pouco a cortina e apoiou seu braço na borda da banheira, e seu queixo em seu braço. — Se duvida, pergunte aos seus filhos.

Elas compartilharam um pequeno sorriso, Natasha também, ainda no mesmo lugar, e Monica voltou a se afastar e a encostar as costas na parede.

Mais ninguém falou depois disso, não era necessário. Por algum tempo, as três ficaram apenas sentadas onde estavam, até que Wanda decidiu sair da banheira. Iriam para a fazenda de Clint ainda no final daquele dia e precisariam descansar o mínimo, pelo menos.

Natasha ainda ficou no banheiro para usá-lo, Monica e Wanda saíram, a madrinha dos gêmeos indo para a sala ao lado e Wanda se dirigindo para a cama onde Visão estava com Elizabeth, David e Sophia jogados e amassados contra si, enquanto Tommy e Billy, ainda acordados, esperavam pacientemente que sua mãe voltasse para a cama para poderem se agarrar a ela. Eles não pretendiam se afastar tão cedo novamente.

Wanda deitou na cama e os gêmeos se acomodaram em seus braços. Visão estava de olhos fechados, aparentemente dormindo.

— Meninos. — Ela chamou em tom baixo os gêmeos. Nenhum respondeu, mas levantaram momentaneamente seus olhos para ela, sinalizando que a ouviam. — Eu sou uma mãe ruim?

— Não. Você é a melhor mãe do mundo. — Tommy respondeu imediatamente, falando a genuína verdade de seu coraçãozinho.

— A melhor mãe do mundo inteiro. — Billy proferiu, tão verdadeiro quanto seu irmão.

E Wanda sorriu. Seus dois meninos fecharam os olhos em seguida – ela descobriu mais cedo naquele dia que eles e Visão também não haviam dormido muito desde o sequestro – e logo estavam cochilando.

Visão abriu os olhos minimamente e virou seu rosto para fitar Wanda.

— A melhor, do mundo inteiro. — Ele sussurrou para ela.

Notas finais
Gente! Já leram Keep Me da Vanilla? É uma história tão bonita! Vocês têm que ler! Tem 6 capítulos maravilhosos e é pós-WandaVision! E já foi finalizada! Tirem um tempinho no fim de semana para dar uma lida ;)