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1 Capítulo único
Notas iniciais
Home — One direction
O sol invadia por entre as brechas da cortina azul da minha janela. Era como uma mãe sacudindo o filho, “vamos, acorde, já é tarde, já é tarde”. Desde quando oito da manhã é tarde mãe? Penso e quero falar alguns palavrões, mas a respeito, sempre a respeitei. Assim como respeito o sol e logo o sentimento ruim vai embora. E é imediatamente substituído por uma felicidade genuína quando viro de lado e a encaro.
Primeiro me espanto. “Como foi que Verônica veio parar na minha cama?”. Então, calma como a brisa suave à beira mar a lembrança volta vagarosamente. Passo meu braço ao redor de sua cintura fina, puxando-a mais para mim e observo a janela. A noite passada, tão oposta ao dia brilhante e convidativo que está lá fora, invade meus pensamentos.
Eu observava a chuva torrencial da minha janela. Sentado no banco confortável da minha sala, eu tomava meu café ruim enquanto desenhava mais um projeto. Os dias no trabalho estavam estressantes e cansativos. Cada vez mais eu tinha projetos para fazer, quase não saia de casa. Por isso, minhas noites eram solitárias e me faziam querer arrumar alguém para dividir o apartamento. Tudo ficava tão silencioso, tão triste que logo os velhos pensamentos me invadiam. Que falta eu sinto de você, mãezinha.
O barulho estridente da minha campainha tocou e tive que piscar algumas vezes para me lembrar de levantar e atender. Deixo meu lápis, limpo as mãos no pano ao lado e me levanto. Suspiro, conferindo meu reflexo rapidamente no espelho ao lado da porta. Após ajeitar meu cabelo crespo e passar a mão nas minhas roupas de moletom, brancas, que contrastavam com minha pele negra, eu finalmente abri a porta. Sim, sem conferir o olho mágico. Vivo perigosamente.
— Será que eu posso entrar? — ela disse como quem pede uma xícara de açúcar. Ou pediam. As prioridades mudam.
— Sim, entre vamos. — percebo como está molhada, deve ter caminhado da sua casa até aqui. Nessa chuva, como aguenta? Eu não suporto sequer abrir a janela e deixar aquelas gotas invadirem, quem dirá me banhar dessa água. Mas Verônica é diferente. Ela não se importa de se queimar no sol ou morrer de hipotermia na chuva. Ela é imprudente e talvez seja por isso que eu a amo tanto.
Volto do meu quarto com uma manta quente e algumas roupas secas. Ela agradece com o olhar, tem essa mania de agradecer apenas olhando. Repondo um “disponha”, não tenho paciência para olhares, sou verbalizado, aprendi a falar pra quê afinal? Ela solta uma risadinha antes de seguir para o banheiro que fica logo ali. Qualquer coisa parece logo ali quando seu apartamento é pequeno.
Preparo duas xícaras de vinho e um pouco de salgadinho. Eu sei de seus hábitos naturais, mas quando está triste a melhor coisa que tem é comer algo gostoso, gorduroso. Se ao menos eu soubesse cozinhar aquela torta que minha mãe sabia... Ô mãezinha, porque me deixou sem me ensinar a receita daquela torta?
— Pensando na sua mãe? — ela perguntou, sabe até o que penso. De tanto falar com os olhos aprendeu a ler expressões.
— Você me lê tão bem. — digo sorrindo-lhe. Merece um sorriso forte, confiante. Merece tudo de bom e eu sinto aquela necessidade de lhe dar tudo de bom.
Sinto ela me abraçar por trás enquanto espalho nossos salgadinhos em uma tigela. Suas mãos pequenas me envolvem e me apertam e sua boca encosta no meu casaco, beijando-me. Meu corpo estremece, era como se beijasse minha alma. Viro-me e me deparo com seus olhos falantes e azuis me encarando com um pouco de alegria.
Eu acho que sempre gostei dela. Desde o momento que a vi, roubando de todos na mesa de pôquer. Acho, também, que foi naquele dia que percebi que tinha algo nela. Algo faltando. Ela carregava alegria e dor, era um lindo quebra cabeça que faltava uma peça. Não que isso importasse para mim. Afinal, quem de nós é completo?
— Me desculpa por aparecer assim de repente. Eu sei que você está cheio de trabalho, não vou incomodar. — ela diz com um sorriso mínimo e eu reviro os olhos.
— Não seja boba, já te expliquei que você é mais importante que isso. — ela fecha os olhos e sei que está quase chorando. — O que aconteceu dessa vez? — pergunto e seguro seu rosto.
Os seus cabelos rosa e curtos estavam molhados e mais baixos do que normalmente os encontro. O nariz fino se enrugou com alguma lembrança desagradável que ela veio compartilhar e a boca foi umedecida por aquela língua que eu já havia experimentado tantas vezes. Desço meus lábios até os seus e beijo-a com delicadeza. Sei que logo ela vai debulhar em lágrimas e aproveito enquanto sua boca ainda não treme. Não era a primeira vez que ela ia lá para casa a essa hora da noite.
Ela me solta e pega o vinho. Vamos até a sala e sentamos no tapete que minha mãe havia comprado. Belisca um pouco dos salgados, prefere o vinho. Deixo-a tomar primeiro, dá um gole enorme na boca da garrafa. Deixa um pouco escorrer pelo canto e um riso escapole da minha boca. Fica tão criança quando faz coisas assim.
— Foi meu pai. — ela diz e fico tenso. Seu pai e ela têm um longo histórico de brigas, algumas que eu mesmo já presenciei e outras que fiquei sabendo que foram além do limite da fala. Com sua mãe fora, imaginei que fosse passar uns tempos na casa da tia, ou então eu mesmo teria ficado com ela. Senti um arrependimento por não ter verificado isso antes.
— O que aconteceu?
— Ele não vai... — ela para e respira fundo e eu me aproximo, abrindo automaticamente os braços. Ela sorri e seus olhos me dizem que está tudo bem, só precisa de um tempo. — eu fui até ele convidá-lo para minha noite de estreia e ele diz que não vai. Não vai porque tem “coisas mais importantes” para fazer.
“Coisas mais importantes?” Sua filha acabou de assinar um contrato com uma gravadora, vai apresentar seu novo CD, seu coração num palco, e você tem coisas mais importantes, seu porco hipócrita? Grito dentro de mim. Desvio meus olhos dos dela porque sei que ela sabe ler meus pensamentos e sei que ela não gosta quando fico nervoso. Me acalmo por dentro e entrelaço nossos dedos.
— Ele pelo menos explicou que coisas são essas? — agora é sua vez de desviar o olhar. Ela pega um pouco mais de salgadinho e bebe o vinho enquanto ainda mastiga. — que nojo. — digo e tomo-lhe a garrafa. Ela engole tudo e ri, adora me implicar.
— Explicou nada, ficou lá se remexendo na cadeira. Resmungou sobre isso não ser um futuro descente e me deixou falando sozinha. — ela diz, mas eu sei que está mentindo. Também acha que sabe mentir, por certo não sabe que seus olhos falantes já lhe denunciaram. Ele não vai porque eu vou, o namorado indecente, o arquiteto sem futuro. Fico imaginando o quão longe ele é capaz de ir só para me implicar.
— Pois ele é quem está perdendo. — digo de cabeça erguida e passo meu braço ao redor de seus ombros. Ela se aconchega, parece um pássaro no ninho quando eu a abraço. Fica lá se ajeitando até encontrar um jeito confortável. — Daqui a alguns anos você vai estar famosíssima, no palco, cantando e dançando daquele jeito desengonçado e maravilhoso e ele só vai poder babar, porque não vai conseguir entrar nem no show. “Mas eu sou o pai dela” ele vai dizer e o segurança vai ficar “pai? Nunca ouvi falar do pai.”.
Ela riu graciosamente, às vezes tinha um pouco de graciosa.
— Sabe que não vou fazer isso.
— Tem razão, mas eu vou. É ruim que eu vou deixar aquele por... Quer dizer, seu pai, chegar perto de você. — Beijo-lhe a testa.
— Eu me sinto tão... Vazia quando ele faz isso. Já se sentiu assim?
— Todos os dias desde que mãezinha morreu. — digo e a encaro.
Ela começa a chorar silenciosamente e eu apenas a aperto mais contra mim. Mesmo sabendo que os motivos não são nobres, eu me sentia vivo com ela ali. Era como se o universo inteiro estivesse se encaixado quando ela me abraçava ou me olhava, até quando me irritava. Em momentos como esse de agora, eu sentia uma necessidade enorme de dizer “está tudo bem, eu prometo que vai ficar tudo bem. Vamos superar nossos traumas.”.
— Acha que vamos conseguir? Que vamos ser suficiente? — sua voz treme quando ela fala. Está com medo, deve estar pensando no futuro. Olho para ela com o cenho franzido, minha vez de falar com os olhos e os meus dizem “se explique, o que quer dizer?”. Ela prossegue — Eu sei lá, tudo está mudando tão rápido. Esse CD, seu trabalho, logo virão os shows e eu ainda não me sinto forte sequer para superar todo esse drama pai e filha quem dirá para enfrentar meses longe de todos...
Sua voz morre aos poucos. Ela não costuma pensar no futuro incerto e esse medo repentino me pega de surpresa. Geralmente sou eu quem tem essas crises. Sou quem surta e fica cheio do “será, será?”. Essa situação inusitada me pega de surpresa e não sei como agir. Então seguro firme seu rosto e obrigo a me olhar.
— Sim. Eu sei que somos o suficiente por que... Porque somos. Por que eu te prometo ser sua luz todas as vezes que você se sentir sozinha. Prometo ser sua casa quando você não souber para onde voltar. Prometo-lhe mundos e fundos, porque eu te amo. Te amo como você me ama. Você não está e nunca vai estar sozinha.
Ela abriu um sorriso forte, iluminado e agora me fala através desse sorriso. Puxa minha nuca, me beija demoradamente e então morde o lábio, sorrindo zombeteira.
— Talvez eu faça uma música sobre isso.
— Vai ser minha música favorita.
Encaro seus cabelos secos e bagunçados contrastando contra o branco dos meus lençóis. Os dedos dela entrelaçam os meus na sua cintura e sinto ela se mexer como se fosse um passarinho. Beijo seus cabelos e apoio minha cabeça no cotovelo.
— Bom dia passarinho. Está melhor? — ela se vira e me encara antes de responder.
— Estou em casa.
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