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1 One-Shot


Notas iniciais
"Quando olho em seus olhos É como observar o céu a noite Ou um belo amanhecer Eles carregam tanta coisa [...] Eu não vou desistir de nós Mesmo que os céus fiquem furiosos"

Solstício de inverno. Algum lugar do planeta.

Finalmente, a alvorada apoderou o céu devastando as sombras da floresta, das edificações, do seu quarto. Sempre gostei dele. Não por sua grandiosidade física, mas pelo significado que agreguei da infância. Fitava o horizonte quando os primeiros raios abriram caminho para um passado esquecido.

I'm a phoenix in the water

Eu sou uma fênix na água

A fish that's learnt to fly

Um peixe que aprendeu a voar

O show de luzes e sons estava para começar. O vento já entrava fazendo as cortinas dançarem um ritmo melancólico. "Agora" saiu da cama e correu até o parapeito da janela, pulando a mesma com dificuldade. "Eles estão vindo", pensou enquanto atravessava o quintal o mais rápido que suas pernas conseguiam.

toc, toc, toc

Um olhar receoso apareceu na janela, porém quando viu sua vizinha tratou de abrir imediatamente.

— Vem te ajudo — falou terminando de abrir a guilhotina.

— Pegou o sal?

— Sim. Hm... Você não devia ter comido aquele doce de abóbora, “tá” muito pesada — disse fazendo força ao puxá-la.

— Aff, eu não sou pesada! — respondeu indignada enquanto caíam no chão da copa.

As histórias ultrapassavam gerações junto com as antigas lendas do vilarejo. Ninguém nunca ousou penetrar na Floresta Norte, morada das criaturas, por medo ou prudência. Os boatos diziam que uma mulher de meia idade morava na floresta. Verrugas e sulcos forravam sua pele tão velha quanto esta terra. Ainda assim, alguns deliravam dizer ter visto a tal mulher nos limites da densa mata. Só não podiam imaginar que suas narrativas fantasiosas tinham forma e nome, e seriam comprovadas através de dois olhos cândidos. Else era o nome dela. Foi criada para proteger a inocência dos homens e manter o equilíbrio dos mundos. Resolveu ajudar os dois pirralhos, mas exigiu segredo, pois ainda não estava na hora de saberem que tudo era verdade. Fora algumas distorções, pois eu não tenho mais que trinta, fique sabendo.

Subiram as escadas dirigindo-se a circunferência de sal no meio do quarto. Murmurou um bom trabalho enquanto ele foi pegar as cobertas e a lanterna.

Ambos permaneciam alertas em cada clarão ou ruído. Sabiam que estavam seguros naquele círculo, mas a noite anunciava e todo cuidado era pouco.

— Quanto tempo falta para ficar claro? — Maija corta o silêncio.

— Um boom tempo. O homem do pântano não pode pegar a gente aqui. Foi o que a Velha Else disse, lembra?

— Lembro... ainda assim prefiro o dia.

And I've always been a daughter

E eu sempre fui uma filha

But feathers are meant for the sky

Mas que as penas foram feitas para o céu

Hm... Os pais não deviam ameaçar as crianças com o “Homem do Pântano” e seus subordinados. Ou melhor, o correto seria explicar o porquê de comer verduras. Contudo, antes que eu conseguisse tampar os ouvidos, era tarde, já tinha conhecido outra temível história deles. Eu e Arion éramos tão ingênuos que entramos na floresta para pedir ajuda a senhora Else, sem nos importarmos com o fato de termos apenas SEIS anos e sem saber SE a encontraríamos.

With every small disaster

Com cada pequeno desastre

I'll let the waters still

Eu vou deixar as águas continuarem

A porta abriu. Depois de concluída a verificação de rotina, a enfermeira sai.

Take me away to some place real

Me levando para algum lugar real

'Cause they say home is where your heart is set in stone

Porque dizem que lar é onde seu coração está gravado na pedra

Nos últimos 7 anos, a amizade com seu vizinho perdera a força. Eles fizeram amizades diferentes, foram para salas distintas na escola. As noites de histórias eram mais raras, assim como as horas juntos.

— Sinto sua falta… — suspirou encaminhando-se aos aparelhos.

Quanto tempo estava ali? Não sabia.

As long as we're together, does it matter where we go?

Enquanto nós estivermos juntos, realmente importa pra onde vamos?

A cidade amanheceu calma. Aos poucos, o comércio abria e as pessoas saíam de suas casas. Maija caminhava quando viu uma garotinha correndo. Logo atrás, a mãe fazendo o mesmo e gritando a menina. Ria da situação nostálgica para si, até que um carro veio. Conseguiu salvar a criança. Não podia dizer o mesmo de si própria. Desde então, estava em coma.

O prontuário médico a respondeu "29 dias, faz hoje."

So when I'm ready to be bolder,

Então quando eu estiver pronta para ser corajosa,

And my cuts have healed with time

E minhas feridas curarem com o tempo

Minha avó aparecia com frequência. Trazia-me Prímulas, único ponto de cor nesse quarto branco. Certa vez, ela deixou de lado seu resumo diário, olhou fixamente para a poltrona. Se eu não a conhecesse bem, podia jurar que me via.

— Minha flor, construa pontes. Como dizia a grande Maude, o mundo não precisa mais de paredes!

— Vó...

— Seus amigos, que não são muitos aliás... Sentem sua falta. Nós sentimos.

—"Rsrs... Eu não sei mais o que fazer..." — olhou através do vidro os morcegos sobrevoando as árvores.

— Não esqueça...

Eu tinha esquecido. A neve começou a cair. Já não há esperanças. Estava mais fraca, os dias arrastavam-se.

I'll always keep you with me

Eu sempre vou guardar você comigo

You'll be always on my mind

Você sempre estará em minha mente

— E aí, Atenas? Por que você tem nome de cidade? Buf, Ella não sabe dar nomes.— disse de súbito ao urso de pelúcia da garotinha que salvou.

— Quando eu acordar, irei te devolver! Não faça cara de pôquer! Droga... Estou falando com um boneco… tsc a que ponto chegamos. — disse cutucando o nariz de Atenas.

— Falando com ursos de pelúcia agora? — alfinetou divertida — Saiba que é uma das mais antigas cidades do mundo e uma das mais modernas. Um real contraste harmônico.

— O quê? Co-como você pode me ver? E... Eu não te vi entrar.

— Baixinha, você não quer saber a resposta. Possuo pouco tempo, pois aquele pirralho insolente chegará em alguns minutos.

— Ainda ressentida? — perguntou provocando a mais vivida.

— Já basta eu ser considerada abominável no vilarejo. Arion precisa, realmente, me lembrar isso toda hora? — responde massageando as têmporas e levemente irritada, odeia ser chamada de velha.

— Veio se despedir? — o vento aumentou, parecendo refletir o turbilhão de emoções que pairava dentro de si.

— Eu disse que você precisaria de mim novamente, não disse há doze anos?

— Eu não sei se quero voltar. Quer dizer, eu NÃO consigo voltar… — olhou firme para a outra que mantém uma postura imponente.

— Calma criança, tudo tem um motivo e a hora certa. O que não quer dizer que você possa saber e eu também não irei contar. Se não perde toda graça e o brilho.

— Brilho? Mas o qu-

toc, toc

'Cause they say home is where your heart is set in stone

Porque dizem que lar é onde seu coração está gravado na pedra

Maija olhou para a porta e viu que a previsão dela foi correta. Arion estava mais arrumado que o comum, o cabelo rebelde incrivelmente harmonioso e olheiras eram visíveis — nunca esteve tão bem e tão mal desde a última vez que o vira: na ambulância a caminho do hospital.

A visita anterior sumiu num lampejo. Porém, conseguia vê-la atravessando o pátio. "Abra os olhos", a voz só foi ouvida por Maija. Concentrou-se na figura que hesitava na porta. O amor é possuidor de vários significados. Só no dicionário há seis. Nenhum definiu o que eu sinto de certo por ele. Minha vida resume a só tomar conhecimento depois que acontece. Acho que com todos são assim, pensando bem. Distraída. Isso. Quando vi, já o amava perdidamente. Talvez, quem sabe a união de todos os sentidos? Hm... Nunca se sabe do momento que a vida será traiçoeira, e assim que ele chegar nada pode ser evitado. Chega de falar sobre obviedades.

— Tão longe e tão perto… Queria poder abraçá-lo, sentir seu perfume e ver as covinhas que tanto gosta.

Home...Home

Lar...Lar

Arion aproximou-se da janela. O inverno cobria a maior parte do verde, ainda assim, a vista era incrível. Ela poderia tocá-lo num esticar de braços se fosse possível, olhava, como ele, a paisagem bela e saudosa.

It's where you go when you're alone

É onde você vai quando está sozinho

It's where you go to rest your bones

É onde você vai para descansar seus ossos

— Perdoe-me por não vir antes. Eu...— respirou fundo e seguiu até a cama— Lembra daquela dia que cheguei um pouco depois das seis e fui assaltar sua geladeira antes de falar com você?

— E como esquecer? Achei que um ladrão tinha invadido a casa — um singelo sorriso brotou em sua face. Tais memórias traziam paz e vida a sua alma.

— Só de pensar, minha barriga dói. Não precisava ter me acertado com um bastão de basebol... Anja.

— Eu sei. Mas você bem que mereceu... Cara, que ideia bugada a sua também. Eu já estava dormindo e você sabe que fico mais aluada que o normal com sono. — disse embora suas palavras não o alcançassem de fato.

Os dois falavam rindo com um clima nostálgico. Até que percebeu a provocação carinhosa. Quando pequenos (e até hoje na verdade) ela sempre foi maníaca por doce de abóbora. Sua avó colaborava no vício, chegava a chorar de felicidade enquanto a matriarca trazia aquelas bolinhas laranjas com casquinha doce. Arion influenciado por uma pseudo Hybris começou a provocá-la com o apelido Anja, que vinha de laranja, que lembrava o fruto. Contudo, dessa vez não ficou emburrada. Pelo contrário, seu coração aqueceu diante do gesto.

— Eu tinha um objetivo naquele dia, mas a fome atrapalhou...— disse ainda sorrindo e ficando sério.- Eu precisava dessa distância nos últimos tempos.

"Abra os olhos"

—Suas mãos, Ari! Eu..

Maija ficou atônita, pois sentiu as mãos dele sobre as suas. Ao mesmo tempo, o fio de prata que a ligava ao corpo inerte começou a diminuir e ela a desaparecer rapidamente. Ainda assim, conseguiu ouvir as últimas palavras de Arion.

It's not just where you lay your head

Não é apenas onde você deita sua cabeça

It's not just where you make your bed

Não é apenas onde você faz sua cama

— Tive medo, admito. Medo de te perder, do nosso tratamento tornar-se diferente. Medo de te magoar. Quando a vi na frente daquele carro, era tarde demais. Fui fraco. Fui covarde por não aparecer depois. Você estava toda enfaixada... Enlouqueci quando disseram que você não acordaria. Todo esse tempo estive com a Velha. Ela não questionou meus motivos, mas com a sua filosofia de vida, me deu uns belos safanões, nem sabia que ela era tão forte por sinal. Eu estou aqui. Te esperando. Eu estarei sempre ao seu lado, te protegendo. É uma promessa. — ele sorria e chorava, insuportável pensar que poderia perdê-la. Aguentou firme. Olhou com ternura e finalmente disse — Maija, ontem, hoje e até o final dos tempos, eu a amo.

As long as we're together, does it matter where we go?

Enquanto nós estivermos juntos, realmente importa pra onde vamos?

O fim aproximava-se como a chama terminal de uma vela. Frio. As flores nascem, as folhas caem, o inverno chega. É a ordem natural da vida. Todas as luzes apagaram.

— Morrer era assim?

Maija assistia flashes de sua vida. No fatídico dia, pretendia dizer que o amava desde pequenos. No entanto, faria tudo de novo para salvar Ella — é uma coisa de que não se arrepende de ter feito.

O que restava?

Ainda possuía forças para lutar?

Num estalo, lembrou o que sua avó dissera "Tenha fé e não esqueça o caminho de volta para casa".

— Enfim, entendi o tal brilho. Obrigada, Velha Else.

Abri os olhos. A claridade envolveu-me. Foi quando admirei a razão da minha existência.

Voltei para casa.

Notas finais
À Rehhime, meus eternos agradecimentos. Obrigada por ter lido :) !
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!