Holly
9 Dona Zarina
Notas iniciais
~9~
Senti o sol bater suavemente em meu rosto e os pássaros cantarem por perto, sentia o cheiro de bacons e café no andar de baixo e a brisa era mais fresca e doce aqui. Quando acordei estava me sentindo numa pureza indescritível. O quarto de Tomas era uma capsula de alegria e serenidade. Me abracei a sua roupa e sentia seu cheiro fracamente, como eu o amava. O relógio indicava oito da manhã e por uma fração de segundos lembrei dos meus tios, mas depois percebi que eles não sabiam que eu tinha ganhado licença e que deveriam achar que eu tinha ido para o colégio.
Desci e vi a cozinha feliz e cheirosa. Sr. Fitz terminava de fritar os bacons e Tomas estava lá fora colhendo alguma fruta.
—Bom dia! — sr. Fitz brandou de forma animada sorrindo para mim. — Como dormiu, meu anjo?-Nunca dormi tão bem em meses. — confessei.
—Então sente-se aí que eu já vou botar o café na mesa. — então Tomas entrou na cozinha segurando uma cestinha com algumas cerejas frescas.
—Suas favoritas. — disse ele jogando as frutinhas num pratinho na mesa. — Alias, bom dia. — eu ri e ele se sentou a mesa junto com o sr. Fitz.
Foi um café da manhã saboroso e agradável, o frescor do sítio, os pássaros, o sol, o cheirinho de café, as risadas, tudo.
Depois eu tomei um banho e vesti um vestido que era da mãe de Tomas.
—Você nunca me contou sobre ela... — eu comentei enquanto andávamos pela orla do bosque.
—Não há muito o que se dizer. Foi um parto difícil, só um de nós iria viver e ela pediu que fosse eu.
—Nossa. E seu pai?
—Ficou arrasado, mas ele me contou que a saúde dela já era frágil, e que só não sentia antipatia por mim porque ela escreveu a ele, acho que devia saber que ia acontecer...
—Antipatia?
—Meu pai a amava muito. Era uma mulher incrível! Eu não o culparia... Mas ele cuida de mim e hoje sou tudo o que tem.
Então eu vi o quanto o sr. Fitz não merecia isso.
—Ele gosta muito de você. — Tom concluiu. — Diz que seu gênio parece o dela. — ele sorriu para mim. — Deve ser por isso que me apeguei a você. — ele encolheu os ombros e virando o rosto para o outro lado.
—E qual é o meu motivo? — disse rindo empurrando ele. Ele riu também, mas depois eu fiquei séria.
—O que foi?
—Não posso me demorar aqui. — suspirei lembrando que tinha compromisso.
—Porque? Seus tios não estão trabalhando?
—Sim, estão. Eu tenho uma entrevista para fazer para um trabalho. Estou completamente sem cabeça! — suspirei deixando minha cabeça cair sobre seu ombro.
—Desmarca!
—Não posso, é uma senhora idosa, ela se programou para isso. E eu teria que desmarcar com o Patrick também.
—Patrick? Hermani? Holly! — ele me encarou nervoso. — Você?! Eu... eu não acredito!-O que? Você sabia que eu estava fazendo trabalho com ele. — Ele suspirou derrotado massagendo as temporas.
—Posso te levar, pelo menos?
—Não precisa se encomodar. — disse rindo da forma preocupada e paterna que ele estava agindo.
—Por favor, eu preciso saber se ele está te tratando bem.
—Claro que pode, Tom.
Primeiro passamos em casa onde eu troquei de roupa e peguei meu material que havia separado e depois partimos para o centro, não era longe a pé, a todo o caminho Tom não disse nada, parecia navegar em seus maiores devaneios possíveis e estava extremamente tenso. Quando chegamos ao endereço de Patrick percebi que Tomas empalideceu mais.
—Esta tudo bem? Você parece enjoado.
—Não, eu tenho que fazer... — mas ele não terminou suas palavras porque Patrick saiu pela porta. Ele carregava uma mochila com uma mão e a jaqueta em outra. Assim que fechou a porta e se deparou com uma companhia a mais ele ergueu uma sobrancelha.
—O que você tá fazendo com ela? — disse Patrick diretamente a Tom.
—Vocês se conhecem? — perguntei olhando para um Tom com cara de enjoo.
—Claro. — disse Patrick rindo. — Foi meu coleguinha de turma até a terceira série. Lembra, amiguinho? — ele ria de forma sarcástica. Tom ficou com raiva.
—Idiota! — murmurou.
—Como é? Pelo menos eu não mijei na frente da turma quando teve que sentar do lado de uma garota. Aliás, de onde conhece a Holly?
—Somos amigos, Pat. — ele me encarou esperando, talvez, que eu desmentisse o que eu falei.
—Sério? Tipo, de verdade? Ele é um manézão!
—Chega! Patrick, ele é meu amigo! Eu não vou aceitar que fale mal dele na minha cara. É melhor parar antes que eu faça essa merda sozinha e só coloque o meu nome. — ele ficou quieto enquanto encarava Tomas.
—Eu sabia que algum momento seus hormônios iriam aflorar e aceitaria alguma garota, muito fofinha da sua parte ajudá-lo, Holly. — ele disse sorrindo.
Virei para encarar Tom e ele estava com vontade de chorar.
—Hey, não liga para ele. — sussurrei.
—Depois a gente se fala. — ele murmurou e saiu correndo. Patrick começou a rir e encarei com fúria.
—Mas que merda! Você é um idiota! — gritei empurrando seu peito. Ele parou de rir e me encarou.
—Holly, porque você é amiga dele? Não faz sent...
—Para! Ele não é um tremendo idiota como você é! Explicou sua pergunta? — disse com raiva.
—Desculpa. — ele disse atordoado. — Eu só não entendo... Você é tão... ele é tão...
—Vamos fazer logo isso. — disse de forma seca me virando.
Patrick não falou nada enquanto me conduzia a uma casa muito bonita perto dos centros comerciais. Sua estrutura era antiga, porém bem conservada. Ele tocou a campainha e uma jovem negra atendeu a porta. Não devia ter mais que vinte anos e era extremamente bonita. Os cabelos bem cacheadinhos presos por uma bandana. Seus olhos grandes e lábios carnudos destacava seu rosto.
—Olá! – diz ela sorrindo.
—Oi. Somos Patrick e Holly da escola publica local, marcamos uma conversa com a dona Zarina.
—Oh, sim! Tudo bem. Entrem! Entrem! -ela escancarou a porta e nos deixou entrar.
Então me vi numa sala rebaixada e cheia de artefatos. As paredes escuras, as cortinas pesadas, os vários tipos de tapetes e quinquilharias. Havia fotografias e bibelôs por toda a parte. Era uma sala forte e cheia de estampa.
—Vó! — a menina chamou e uma senhora apareceu.
Visivelmente era bem velha, mas sua forma de andar e olhar mostrava uma força juvenil. A senhora quase não tinha cabelo, alguns tufos brancos e encaracolados se mostrava ali. Seu vestido com estampa de onça e cores fortes sobressaía à pele negra. Era pequena e franzinha também, mas exibia um sorriso saudável.
—Visitas, vó. — disse a menina a ajudando sentar numa poltrona de flores tropicais. — Fiquem à vontade! Já volto. — a menina se retirou nos deixando a sós.
—Tudo bem, queridos? — disse ela com os olhos brilhando.
—Sim, obrigada por nos receber! – digo.
—Que isso, anjinhos. Sentem! Vamos! — ela gesticulava para o sofá onde eu e Pat nos sentamos. — Bom, em que posso ajudá-los?
—Ah, sim! Estamos fazendo um trabalho de história para a escola e nosso tema é sobre a África. Fatos de antigamentes que podem justificar os modos atuais.
—Que interessante. — ela disse pensativa.
—Obrigada, então, sabíamos sobre a senhora e achamos interessante conversar com alguém que viveu lá para contar a história. — continuo Patrick.
—Pois eu vou conta-la a vocês. – ela fechou os olhos por um breve instante, viajando em memórias.
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