Holly
2 A perda
Notas iniciais
~1~
Como estava frio aqui dentro, como estava frio lá fora, como estava frio dentro de mim. O mundo estava tão gelado, tão cinza, tão... Real.
Não era confortável estar sentada aqui, num carro de polícia, muito menos quando o silencio era constrangedor.
–Então mocinha, vai rever seus tios. Fique animada! –disse um policial no banco da frente.
–Não são meus tios, era irmã da minha mãe. Era. –disse fria, ninguém mais disse nada. Perfeito.
Perdi meu pai da pior forma que podia imaginar, na minha frente, diante dos meus olhos. Ele era trabalhador, nunca se envolvera com nada de ruim, era agradável para com a vizinhança, pagava tudo em dia! Que injustiça!
Por uma bala perdida. Porque não me acertaste maldita bala? Porque meu pai? Por quê?
Não me restava ninguém agora. Minha mãe partira e logo em seguida meu papai, só resta-me o que devia chamar de tios. Desprezo-os, porém não tenho autoridade sobre mim para decidir para onde vou.
–Chegamos garota. –disse o policial saindo do carro. Fiz o mesmo, e como disse, estava muito frio. Entramos na delegacia onde ele pediu para que eu aguardasse numa saleta. Fiquei ali durante uns vinte minutos a espera.
–Venha. Seus tios lhe esperam. – outro policial disse entrando na saleta. O segui e fomos para a portaria da delegacia, onde vi uma mulher de cabelos ruivos preso num coque assinando alguns documentos e um homem loiro e muito gordo fumando um charuto.
–Holly Schneider. Minha sobrinha. – Minha tia veio ate a mim me abraçando, não fora nem um pouco verdadeiro seu abraço.
–Olá titia. –disse sem ânimo.
–Diga olá para Richard, seu tio. –ela disse num tom baixo, mas severo.
–Olá tio Richard.
–Já assinamos tudo? –disse Richard impaciente.
–Sim, senhor. –disse um policial.
–Bom, então vamos Rosa.
–Vamos. Obrigada. – Rosa disse aos policias.
O fato de eu ficar quieta, entrar no carro deles e permanecer obediente não significa que aceitei tudo aquilo. Mas não sou burra, gritar, espernear, fazer birra, tentar fugir não ia adiantar nada. Meu pai me ensinou que em mundo de animais, você tem que fazer o que eles querem para conseguir o que quer. Pelo menos os fazer pensarem que estamos fazendo o que eles querem.
Para onde estavam me levando eu não sabia. Nunca tive contato com eles, acreditem, é a primeira vez que vejo minha tia.
A noite foi caindo e nada de chegarmos ao destino, permaneci quieta enquanto eles reclamavam da gasolina que gastaram para irem me buscar. Porém, antes de tentar dormir vi uma grande mansão, com um jardim mal cuidado e igualmente imenso, era misteriosamente atrativa, tinha a textura de ser antiga. Um pouco barroca até.
–Que casa é essa? –disse pela primeira vez. O casal parou de discutir, minha tia Rosa me olhou sem entender e logo viu que eu observava a mansão.
–É só uma casa abandonada. Não sabemos de quem é, não mora ninguém aí. Creio eu.
–Ata. – disse ainda olhando a mansão.
–Chegamos! – disse tio Richard.
A casa era simples, uma casa normal de classe média. Dois andares, pintura um pouco acabada, um gramado simples à frente, e só. O lugar todo era assim, uma estrada principal de duas vias, de um lado mato e do outro lado casas simples como aquela, fora a mansão há poucos quarteirões. Peguei minhas coisas e os segui incomodada, quando entrei exalei cheiro de trevas e solidão, não me pergunte como sei o cheiro disso.
A sala e corredores tinham fotografias antigas e monótonas de entes familiares, menos minha e de meu pai. A maioria das coisas eram de madeiras devido ao grande frio que aquele lugar proporcionava, creio eu.
–Você irá ficar no sótão. – minha tia disse enquanto subíamos para o segundo andar. Tinha um pequeno corredor com duas portas e no final uma escadinha embutida, era disfarçada pintada da mesma cor da parede e com um alçapão no teto. –Lá, está vendo? –ela disse. –Agora suba com suas coisas e fique à vontade para arrumar o lugar com elas, não subimos lá dentro. – meus tios entraram numa das portas do corredor me deixando sozinha. Segui para a escadinha embutida e a subi. O lugar fedia a rato morto e a poeira acumulada. Mexi no interruptor e vi um lugar sujo e empoeirado, lá tinha uma cama de viúva de ferro antigo cheio de tralhas em cima, algumas caixas de papelões, um armário de madeira de duas portas do século passado caído de lado e outras quinquilharias.
Não sabia nem o que fazer ali. Tinha grave alergia à poeira, então não tardei em pegar uma roupa para eu trocar e coloquei minha mochila num canto que parecia menos sujo, abri uma janelinha redonda para entrar ar e sair o cheiro de mofo e desci. Não dormiria ali hoje de jeito nenhum. Ouvi meus tios rindo de alguma coisa no primeiro andar, enquanto fui ao banheiro que era a outra porta do corredor, troquei-me de roupa e desci. Só bebi um pouco de água e comi um pedaço de bolo. Meus tios subiram dizendo para eu ter uma boa noite de sono, senti ironia em suas vozes.
Pois bem, não dormiria no meu “quarto” peguei uma almofada qualquer e me encolhi no sofá da sala. Sentindo-me tomada por profunda dor.
Parecia alguém. Algo invisível me envolvendo com sua dor e sofrimento, eu acho que se chama “saudades” dos meus pais. Meus poucos amigos e fonte de confiança. Queria tê-los aqui agora, e só de saber que nunca mais os veria, olharia seus rostos e os tocaria era horrível à sensação, ela me dominava e me fazia querer apagar-se do mundo. Encolhia-me no sofá, não por frio, mas por agonia. Queria abraçar o meu pai, com seus braços compridos e confortáveis. Queria ouvir a voz consoladora de minha mãe me dizendo que tudo ficará bem, e cheguei à conclusão de que não vai ficar. Vou viver com esse casal de pessoas horríveis, nesse lugar exalando desgraça, sem esperança, sem vontade de viver.
A brisa gélida que entrava pela brecha da janela me congelava, não sentia minhas pernas, minhas lagrimas secavam-se no meio do caminho, minhas mãos tremiam.
Meu Deus! Ajude-me...
Ajude-me
–Garota! – senti alguém me sacudi. Abri lentamente os olhos e vi a figura de minha tia.
–Bom dia. –disse a encarando.
–Não esta no seu quarto por quê?
–Esta impregnando pó e sujeira lá em cima! –disse como se fosse óbvio.
–Quanta frescura! Foi assim que minha irmã a criou? –ela disse aborrecida. –Bagunçando meu sofá! Hoje dormirá lá em cima e sem reclamações!
–Tudo bem. –disse com relutância. Queria debater, queria gritar. Como ela ousa falar assim de minha mãe?! Vadia.
–Seu tio e eu temos que trabalhar. Não temos a vida ganha que você tem. E matriculamos você no colégio publico da região, começará segunda agora. Aproveite a mordomia para limpar a casa. –ela disse pegando sua pasta. Olhei a janela e vi meu tio do lado de fora encostado no carro a aguardando. –Adeus!
–Adeus. –disse mais para mim.
Levantei-me para um bom banho e para comer algo. Teria um longo dia pela frente, arrumar aquele sótão não seria nada fácil.
Primeiramente eu tirei todo o entulho que tinha ali, lixo e tranqueiras desnecessárias ocupando espaço. Tirei o colchão para pegar um ar e sol para tirar o mofo, tirei as roupas de cama e as coloquei para lavar, tirei a poeira de todos os móveis, passei pano em toda extensão do chão varias vezes ate toda aquela crosta de poeira e fungo sumir, e assim foi melhorando o lugar. Só faltava uma coisa, tinta! As paredes mofadas fediam e me dava nojo olhar as gosmas esverdeadas que nelas se encontravam. Procurei por todas aquelas caixas e achei alguns galões de tintas usados. Pintei todas as paredes de branco varias vezes e depois passei um verde tão claro que quase não se notava ausência de cor nas paredes. Para mim estava ótimo!
Arrumei a casa inteira até estar perfumada com flores do campo. Não estava tão mortífera agora quanto estava ontem.
Quando vi, já era inicio de tarde. Então decidi tomar outro banho e almoçar.
Almocei e fui procurar algo para fazer. Nada. Então simplesmente peguei meu casaco. Iria sair, pegar um ar e talvez, quem sabe, ache algo agradável naquele lugar.
Mas, algo ruim aconteceu no momento em que eu toquei a maçaneta.
Continua...
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