Hollowing Woods
2 Dia um - P.O.V. Elisabeth
Notas iniciais
É finalmente o dia de pegar o avião para os Estados Unidos. Pela primeira vez meus pais permitiram que eu fosse a um acampamento de verão, e para melhorar a história, é a primeira vez que vou viajar para fora da Europa!
Minha mãe fez questão de verificar se todos os documentos necessários estavam dentro da pasta amarela (tinha que ser uma cor chamativa, que desse para ver mesmo se eu estivesse sem óculos). Enquanto ela verificava a parte necessária da viagem, eu verificava a parte importante: livro, certo; carregador de celular, certo; pastilha de menta extra forte, certo; fones de ouvido, certo.
Chegamos ao aeroporto faltando três horas para o avião partir. Tudo ocorreu tranquilamente, e na hora de embarcarmos foi aquele sermão todo vindo dos meus pais. Meu pai dizia para eu ter juízo, não ficar desacompanhada e tentar manter distância do meu celular. Minha mãe me desejou boa viagem e disse que ia sentir muitas saudades. Depois de abraçar e beijar os dois, passei pelo portão de embarque e caminhei até chegar ao avião. Ainda estava vazio, graças a Deus. Achei minha poltrona com facilidade e apertei a fivela do cinto de segurança assim que sentei.
O voo foi tranquilo: do meu lado sentaram um casal de velhinhos que ficaram dormindo durante praticamente a viagem inteira; eu, como sempre, fiquei ouvindo música e resolvendo uma revisitinha de palavras cruzadas que havia comprado no aeroporto. Chegamos às cinco horas da tarde no horário de lá, o que daria dez horas da noite no horário da Inglaterra. O aeroporto era grande, e foi por sorte que não me perdi. Peguei minha mala na esteira e fui procurar o pessoal encarregado de me levar ao acampamento. Foi uma tarefa fácil, já que havia algumas crianças por volta de doze anos vestidas em coletes amarelos e dois instrutores, uma moça e um rapaz, que segurava uma placa com o nome da empresa do transfer.
Depois do ritual “assine aqui e verifique ali” e “estão todos aqui?”, entramos no ônibus. Torci para que ninguém sentasse ao meu lado, já que eu não queria segurar meu travesseiro. Infelizmente, uma menina alta e com cabelos curtos perguntou se podia sentar ali. Como eu tinha que ser educada, afirmei que sim e ela sentou-se ali. Ela parecia tão nervosa quanto eu; foi logo se apresentando. Ela parecia ser legal, mas não dei muito papo. Provavelmente a garota nem se lembraria do meu nome quando chegássemos.
Duas horas se passaram e finalmente chegamos. Estavam servindo lanche no refeitório e nossas malas seriam postas dentro dos quartos. A comida era nojenta, mas deu para o gasto (afinal, eu já tinha sido avisada que os americanos gostavam de comidas oleosas e com muito açúcar). Achei meu nome (que, como sempre, estava escrito com um "z" ao invés de um "s") na lista do terceiro quarto/chalé. Para minha surpresa, Ester, a menina que havia sentado ao meu lado no ônibus, estava no mesmo quarto. Consegui ficar em um beliche de cima e bem longe da janela ou da porta de entrada. Era um lugar perfeito, pois eu não sentiria frio nem seria afetada por insetos chatos não voadores.
Algumas meninas mais extrovertidas se apresentavam e tentavam conversar com outras. Até tentaram puxar assunto comigo, mas tudo o que conseguiram falar foi:
“Puxa, você é britânica! Que legal, eu amo o seu sotaque!”
E eu tinha que agradecer e fazer de conta que escolhi falar com aquele sotaque. Outra coisa que me incomodou foi:
“Como é morar em Londres? Você conhece algum garoto do One Direction? Ou o Ed Sheeran?”
Queria gritar: "eu não moro em Londres! A Inglaterra não é Londres e não, eu nunca conheci nenhum dos seis". Para falar a verdade, nunca conheci nenhuma pessoa famosa. Com exceção da Gabrielle Aplin, mas isso foi antes dela ser famosa (e antes das apresentações dela serem pagas). Fora isso, devem ter percebido que eu não queria conversar.
Passados alguns minutos e tocaram o sino para o Meeting Time, para que todos pudessem se apresentar. Não fui. Pelas minhas experiências, aquilo nunca dava certo. Fiquei sentada lendo o livro que havia começado no dia anterior: Dom Casmurro, um excelente clássico da literatura brasileira. Era a segunda vez que eu o lia, e ainda parecia interessante. Notei que Ester também tinha resolvido ficar no quarto, ouvindo música.
– Essas meninas te apavoram, não? — ela perguntou.
Marquei o parágrafo em que havia parado e dei uma resposta curta. Respondi que razoavelmente.
Ester perguntou que livro eu estava lendo. Citei o título, esperando que ela nunca houvesse ouvido a respeito — afinal, eu mesma só fui conhecer o livro após pesquisar a respeito de livros do século dezenove com personagens femininas revolucionárias -. Curiosamente, ela respondeu que amava o livro. Sorri para ela, surpresa.
Conversamos por um bom tempo; na maior parte era ela quem introduzia os assuntos, que eram principalmente livros. Ester parecia o tipo de garota que ama um clichê; tipicamente fã de John Green, Jogos Vorazes e outras sagas “modinha”. Chegou a perguntar se eu gostava desses livros, e respondi que sim. Conhecia muitos deles antes de se tornarem best-sellers, mas ela não precisava saber disso. Ia achar que eu estava bancando a superior.
Enfim Ester disse que ia tomar um banho, afirmando que logo, logo o banheiro estaria cheio de meninas xingando umas as outras e furando fila. Aproveitei a oportunidade para tomar fazer o mesmo, já que a viagem havia sido longa e eu estava com a pele bastante oleosa. Meu banho não durou mais que um minuto e meio, graças à água fria. Parecia que eu ia congelar.
Coloquei uma calça larga e uma blusa aleatória e esperei Ester terminar de se arrumar. Quando isso aconteceu, várias meninas já haviam retornado e o chalé estava um caos.
Fomos a uma clareira, onde provavelmente esquentaríamos linguiça e marshmallows. Alguns meninos estavam conversando e rindo, portanto mal notaram nossa chegada. Sentamos em um lugar mais afastado e ficamos conversando um pouco sobre séries de TV. Ester não gostava de nenhuma das séries que eu assistia, mas graças ao Tumblr consegui fazer um comentário sobre Game Of Thrones aqui e outro sobre Pretty Little Liars ali. Um menino a cutucou e perguntou que horas eram.
– São…. Dez para as dezeno-ve — ela gaguejou.
Oh céus, será que ela sempre reagia assim perto de garotos? Ou será que aquele em especial tinha algo em diferente… Acreditei que não, afinal, se ele a conhecesse, a teria chamado pelo nome.
– Meu Deus, você tem que tomar cuidado com isso! – alertei -… Digo, na facilidade em demonstrar sentimentos. As pessoas podem te machucar assim.
Não quis ser grossa, mas pela minha experiência em filmes, livros e seriados, demonstrar-se vulnerável era o cúmulo dos românticos. Além do mais, demonstrar meus sentimentos já tinha me afastado de muitas pessoas.
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