Hollow Spirit - O enigma 917

6 Menstruando pelas torneiras


O desespero tomou conta de Danilo, por um momento ele pensou que tinham colocado suco no lugar da água, mas na verdade era realmente sangue e ele não sabia de quem. Talvez alguém tenha morrido, talvez não. Talvez só fosse uma terra que por um acaso do destino havia pairado sobre a caixa d'agua. Mil coisas adejavam sobre a cabeça dos quatro naquele momento.

– Não é sangue, Dan — Triza disse decidida.

– Cara, tem o mesmo gosto! — ele disse, limpando a boca enquanto olhava para as caras de nojo de Suuh e Ney. — O que estão olhando? Então venham experimentar.

– Danilo, você fala como se tivesse alguém morto lá dentro da caixa d'água, para de viajar — Ney ria enquanto falava.

– Olha... Eu não sei, mas vou informar ao reitor... — Enquanto ele falava isso, pensou por um instante em nunca mais beber água em sua vida.

– Ele deve estar maluco... — Suuh disse enquanto via Danilo sair.

Ele batera na porta do reitor incomodando — sem saber — uma reunião com os pais de Beto. A mãe de Roberto se encontrava aos prantos por causa do ocorrido enquanto o pai do mesmo a abraçava. O reitor informava que ele continuaria na faculdade por misericórdia de Maria, e a mãe de Beto se perguntava o que levou o seu filho a fazer aquilo.

Danilo percebeu que não era o único ali presente a espera do reitor, Netto também estava lá.

– O que faz aqui? — Danilo perguntou a Netto, que parecia apreensivo.

– Preciso falar com o reitor, tem uma coisa muito estranha nos bebedores e ele precisa ser informado — Netto disse, consultando o relógio.

– Eu também vim falar sobre isso! As meninas estavam me chamando de louco, mas sabia que não estava. Tem sim algo, e eu acho que é sangue.

– Eu também! — Netto disse se sentando porque já estava em pé há tempos. 15 minutos depois os pais de Beto saíram e deram lugar para os dois, o reitor os olhou com um olhar de aviso e os deixou entrar, Danilo explicara tudo do seu ponto de vista assim como Netto, mas o reitor parecia não dar à mínima.

– Eu juro que é verdade, reitor. — Danilo estava com dificuldade em convencê-lo. — Hã... Netto, diga a ele!

O reitor se virou para Netto, mas o garoto não pode responde por conta da porta que se abriu rapidamente, revelando um André com olhos arregalados.

– Não sabe mais bater na porta? — reclama o reitor, já impaciente.

– A água... Há sangue na água! — falou André, fazendo os olhares de Danilo, Netto e o próprio encararem os do reitor.

– Está bem! Irei verificar! — Quase atravessando a sala, ele virou e se dirigiu aos três. — Mas se isso for mais uma brincadeira de vocês, eu juro que estarão com problemas.

Os três assentiram e caminharam pelo campus junto ao reitor.

– Desculpe, mas estamos indo para onde mesmo? — perguntou Danilo, angustiado.

– Para o centro de encanamento e caixa d’água, é claro.

Não de muito longe, Bruna vinha correndo atrás do reitor.

– REITOR! Que merda é aquela no bebedor? — ela disse e, depois de recuperar o fôlego, continuou. — Eu tô bebendo sangue de menstruação, é isso mesmo?

– Estou indo verificar isso agora, Bruna. Faça um favor a si e vá estudar — ele disse e Bruna resmungou ao virar a esquerda do corredor.

O reitor abrira a porta do centro de encanamento e caixa d'água da universidade, junto de Danilo, André e Netto, que observavam cautelosamente os lados da caixa.

– Ai meu Deus! — gritara Danilo, olhando atentamente para onde pisavam. O reitor, André e Netto quase tiveram um ataque de susto. — As manchas... É sangue, no chão. Ai meu Deus. Já era. Estamos todos mor...

– Você poderia ficar quieto por um segundo, Sr. Tavares? — o reitor encostou as mãos sobre a tampa da caixa e a empurrou rapidamente. E por uma fração de segundos, ele desejou nunca ter aberto. Assim que viram, Netto, André e Danilo olharam um para o outro, chocados. — Não é possível...

O corpo jazia intacto e a cor da pele que antes era morena, se encontrava na mais profunda branquidão. O reitor acabara de pegar um de seus rádios comunicadores e o ligara para se comunicar com todos por todos os auto-falantes espalhados pela universidade que nenhum aluno estava autorizado a beber água por tempo indeterminado.

– Esse não parece o...

– Não! Sem cogitação, Dan. — André, que rapidamente entendera o que Danilo ia falar, o cortou.

Enquanto o reitor ligava para a emergência e André e Danilo conversavam, Netto andou sobre o térreo e viu nada mais nada menos que, Michael jogado no chão, inconsciente.

– GENTE! É O MICK! — Netto gritara e André e Danilo correram para aonde o mesmo estava.

– O que ele está fazendo aqui? — Danilo perguntou o improvável de saber naquele momento.

– Tenho cara de adivinha? — André disse.

– Me ajudem a virá-lo! — Netto interrompeu a pequena briga dos dois e os três viraram Mick que estava com um corte enorme na coluna.

– Será que ele está vivo? — Netto perguntou. André colocou dois dedos no pescoço de Mick e sentiu seu coração pulsar, fraco, mas funcionando.

– Sim, está.

– Com quem você aprendeu isso? — Danilo perguntou.

– Quando sofri um acidente com o meu pulso, a Leti fez um curativo nele e lá tinha um caderninho sobre primeiros socorros.

Os dois olharam sem entender para André.

– Não importa! Ajudem-me a levantá-lo... — Os três levantaram Michael e o levaram para perto do reitor que falava desesperado no telefone. Depois de alguns minutos, o reitor voltara a si.

– Os policiais e o IML estão vindo... — o reitor dissera enquanto passava a mão sobre seu rosto. — Levem o Michael à enfermaria, provavelmente os policiais vão questioná-lo mais tarde.

***

A festa da Vebnus acabou um pouco mais tarde do que o reitor havia deixado, mas todos se divertiram a beça. Alguns alunos das demais irmandades — exceto da Dazer — ficaram para ajudar a bagunça. A piscina estava cheia de mato e um pouco de papel higiênico que Americo, juntamente com Paulo, jogaram por toda a mansão. As mesas estavam repletas de copos — cheios ou não -, e o lustre enorme que se encontrava na sala da mansão estava com várias velas quebradas, sem se falar na parede que estava muito suja por causa da guerra de tintas que os alunos da Mercure inventaram.

Ninguém nunca imaginaria que enquanto rolava a festa, um acidente terrível acontecera, e por um breve tempo, até a noite que se sucedera, ninguém ficou sabendo.

Demorou um pouco até os policias chegarem e chamarem a atenção de todos os alunos que estavam fora do campus.

– O que aconteceu? – Americo, que estava jogando vôlei com os demais colegas, disse.

– Não sei! Será que os policiais ainda estão investigando aquele lance do zelador? — Ney disse.

– Não viaja... — Felipe disse, folheando o livro. — Aquele caso já está encerrado. Deve ser só mais um chamado estúpido do reitor.

Mas então, todos viram a van do IML chegando e se aproximaram para saber o que acontecera.

– Afastem-se, crianças! — Um cara de branco que tirava uma grande maca de dentro da van, disse.

– O que aconteceu? — Americo perguntou.

– Um acidente com os canos.

Ninguém entendera o que ele dissera, porque o mesmo já havia partido junto com o seu colega de trabalho.

A turma de curiosos fora aumentando e mais alunos chegaram. Quinze minutos se passaram, os dois caras de branco que antes estavam saindo da van, voltavam com a maca ocupada por um corpo que ninguém sabia de quem, porque estava coberta com um grande plástico preto e logo atrás vinha o reitor.

– REITOR, REITOR... — Todos gritavam freneticamente, o reitor apenas levantou o dedo indicador e todos se calaram.

– Apenas peço que coloquemem prática a educação que receberam em casa, deem meia volta e voltem para suas irmandades, falarei de tudo isso amanhã.

Alguns questionaram, mas logo fizeram o que o mesmo mandou.

***

Na manhã seguinte todos acordaram na maior tensão, mas houve aquele grupo dos boçais que nunca sabiam o que estava acontecendo na faculdade – ou, pelo menos, fingiam –, os alunos da Mercure eram eles, a maioria dos alunos não sabia de nada do que estava acontecendo e acordaram na maior animação. Aliás, a faculdade inteira não sabia da história inteira, mas todos estavam preocupados no final das contas, menos o pessoal da Mercure.

O refeitório demorou pra se encher, todos estavam com sono ou mal-humorados, mas Ricardo mantinha o seu humor contagiante.

– Vocês que estão desanimados ou eu que estou muito animado? – ele diz mexendo a perna freneticamente. – Eu quero animar essa faculdade, porque ninguém merece.

– O que pretende fazer? – Linna perguntara enquanto tentava morder um pão duro.

– Não sei, vou estudar mais na ideia que está se formando em minha cabeça – ele disse e riu maleficamente.

– Cuidado com o que tu vais fazer! – Americo disse. – As coisas já não estão boas por aqui...

– O que houve Merico? – Gabriela disse se espreguiçando e chegando à mesa da Mercure.

– Bom, algo aconteceu ontem... O IML estava aí! – Ney disse. – Francamente, em que mundo vocês vivem?

– Alguém morreu, de novo – Americo disse. – Não sabemos quem. Aliás, ninguém sabe.

– ONDE? – Gabriela gritou.

– Xiu! – Americo continuou... – Encontraram Michael caído no chão machucado e eu só sei disso...

– Nossa, sabe nem contar nada – Ingrid gritou da outra mesa.

– C-como você tá ouvindo? – ele disse.

– Querido, as paredes tem ouvidos – ela disse rindo.

– Ha ha – ele riu ironicamente. – Então, até que isso se resolva, tomem cuidado.

A metade do pessoal da Mercure assentiu e o sino tocou para a primeira aula.

***

A porta do auditório estava toda enfeitada e chamava atenção de todos que passavam. Vick, que estava indo para sua aula de teatro, ainda conseguiu errar a porta.

Aos poucos os alunos iam chegando e encontravam o auditório todo apagado e somente uma luz no palco que iluminava uma grande coroa. Todos tomaram um lugar a frente e esperaram, porque sabiam que em qualquer momento o professor apareceria. Quando eles estavam prestes a desistir, uma voz ecoou:

– Alguns alunos não entrariam no auditório só pelo fato de ele se encontrar todo apagado, outros viriam aqui na frente e pegaria a coroa, outros iriam até a sala de iluminação e perguntariam o que está havendo, vocês são burros mesmo, hein?! – Era o professor, sentado em uma cadeira alta, todas as luzes do auditório se ligaram. Ele começou a rir enquanto andava pelo palco. – Bom dia, alunos!

– Qual foi o seu intuito em perder dez minutos com isso? – Arthur perguntou.

– Nenhum – ele disse, rindo histericamente. – A aula de hoje será bastante importante para o resto do ano letivo, portanto, quem faltou, deem um jeito de avisar.

Todos assentiram.

– Bom, eu estou querendo fazer uma peça do lago dos cisnes! Isso mesmo, uma peça. E bem, com vocês, óbvio. Vocês sabem a história, não é? A peça será dividida em quatro atos e explicarei tudo para vocês agora. Peguem os cadernos.

“Bom, primeiramente, os personagens da peça são: O príncipe Siegfried, a Odette, a Rainha, o Mago Rothbart que para mim é o melhor personagem porque tem grandes asas, a feiticeira Odile, as Donzelas e os convidados. O primeiro ato será no castelo, estará bem decorado o palco e terá o príncipe Siegfried. A rainha, mãe do príncipe, oferece ao rapaz como presente um baile e pede a ele que escolha uma esposa entre as convidadas da festa. Quando os convidados saem do castelo, um grupo de cisnes brancos passa perto do local. O príncipe enfeitiçado pela beleza das aves decide caçá-las. Esse é o fim do primeiro ato. Copiaram?”

– Calma, credo! – Maria disse e o professor voltou a ditar novamente.

“O segundo ato. Bom, Rothbart é dono do lado e da margem, então ele domina a princesa Odette e suas donzelas, transformando-as em cisnes, e só à noite lhes permite recuperarem a aparência humana. A princesa só poderá ser liberta por um homem que a ame. Siegfried estará louco de paixão pela princesa e jura que será ele o quebrante do feitiço.”

– Ai, eu amo essa história! – Natália disse enquanto se animava.

“O terceiro ato acontece já no castelo novamente, teremos que ter uma grande equipe aqui no dia da apresentação. A rainha receberá uma visita de um nobre cavalheiro e sua filha. O príncipe julgará reconhecer a filha do cavaleiro como a sua amada Odette, mas na verdade os dois personagens são, na verdade, o mago Rothbart e sua filha, Odile. Na verdade, ela tá com um colarzinho maroto disfarçada de Odette. Então os dois dançam e então o príncipe a pede em casamento, esse viado! Então ele quebra o juramento que fez a Odette.”

“O último ato será todos os cisnes consolando Odette. Ela vai estar destroçada, traída! E diante daquele lago de lágrimas de seus parentes, Odette se mata. E o príncipe retorna ao lago e ao ver aquela cena ele se mata junto com a sua amada, pois não conseguia conviver junto com aquela culpa. Fim. Amo essa história.”

– Credo, essa não é a história do lago dos cisnes que eu assistia na Disney – Erica disse, assustada.

– Essa é a versão do teatro, a verdadeira versão – Danilo disse.

– Isso mesmo, Danilo – o professor disse. – Então, olhem só: os testes começam hoje. Eu vou colocar um papel aqui e vocês vão escolher os papéis. Óbvio que, quem não conseguir o papel que almeja, vai ficar em outro papel não tão importante como o que escolheu. A não ser que você escolha já ficar nos convidados, aí será um figurante total.

Ele coloca o papel em cima de sua mesa e todos fazem uma fila, após mais ou menos uns cinco minutos, todos voltaram para seus lugares.

– Vou chamar respectivamente cada personagem e cada aluno que quer interpretá-los... – ele disse, consultando a lista. – Odette, Sara Cirino; Maria Antônia; Natália Sofia; Andriele Cascaes; Caroline Barbosa; Sara Santos.

Todas subiram para o palco e o professor passou entregando um papel para cada.

– Quero que cada uma de vocês apresente. Respectivamente do jeito que eu falei.

Sara Cirino tomou o palco e começou a falar:

– Não! Oh, céus... O que fizestes de tão mal que eu tenha que pagar por isso? – Ela correu pelo palco. – Sou apenas uma princesa indefesa que vive em um reino distante, por que eu? – Então ela começou a dançar, ou tentar, porque a descrição no papel era bem difícil de seguir.

– Corta – o professor disse.

– Isso não é um filme – Sara disse.

– Sara, você foi esplêndida na fala, mas a dança foi péssima – ele disse. – Próximo.

Todas as meninas, até então, foram boas e enfim chegara à vez de Sara Santos.

– Não! Oh, céus... O que fizestes de tão mal que eu tenha que pagar por isso? – Sua expressão fora ótima e então ela começara a correr. – Sou apenas uma princesa indefesa que vive em um reino distante, por que eu? – A música começou a tocar e Sara começou a dançar.

– Ótimo, pode sentar – o professor disse, fazendo umas anotações.

O dia foi cansativo para todos que estavam fazendo testes, no fim da aula o professor deu seus últimos avisos:

– Amanhã darei o resultado, boa tarde.

Todos saíram para o almoço.

***

Michael acordou assustado, porque tudo estava branco e arrumadinho demais – e ele nunca fora acostumado com aquilo. — Acima de uma das mesas se encontrava uma flor recém-colocada, junto com o almoço. E sentada no sofá lá fora se encontrava Triza e Monique.

– GRAÇAS AOS CÉUS! – Triza gritou, mas antes de se aproximar da porta, Jay a impediu.

– Ele acabou de acordar, por favor, não se aproxime – Jay disse, então entrou e fechou a porta. Aproximou-se, arrumando o soro do mesmo e Ingrid chegou colocando outra almofada sobre Michael, quando na verdade, a vontade era socá-lo. Mas aquilo se chamava estágio.

– Ele é importante pra nós, precisamos falar com ele – Monique abriu a porta.

– Então vá falar com ele na imaginação – Jay disse.

– Eu vou entrar.

– VOCÊ NÃO VAI ENTRAR – Jay gritou. – TEM HORA PRA ISSO, VOCÊ É MUITO IRRITANTE, GAROTA. – Ela fechou a porta com raiva e trancou.

– Q-que aconteceu? – Michael disse esfregando os olhos.

– Um acidente, obviamente – Ingrid disse.

– Obrigado por falar o óbvio.

– Você que perguntou. Só come esse almoço aí – Ingrid disse e colocou a mão na testa. – Não sirvo pra estágio.

– Nem pra n... – A porta se abriu e revelou a enfermeira e o reitor.

– Graças aos céus! – O reitor disse.

– Todo mundo vai falar isso hoje, né?! –Ingrid pensou alto.

– Como está se sentindo, meu rapaz? – A enfermeira se aproximou, colocando a mão em sua testa.

– Minhas costas estão doendo e não sinto minhas pernas – ele disse e a enfermeira trocou olhares desesperados com o reitor. O reitor, que viera ali para conversar com Michael, achou melhor adiar por hora essa conversa.

Os dois fizeram uma ginástica em uma das pernas de Michael, mas foi só coisa do momento e ela voltara ao normal. Ele almoçou e deitou novamente.

– Agora ele pode receber as visitas – a enfermeira disse.

– Agora vai lá chamar aquelas gazelas – Jay disse.

– A Monique é a única desesperada, pelo amor de deus – Ingrid disse.

A porta abriu e as duas entraram, se sentando ao lado de Michael.

– Como você tá, Mick? – Monique disse.

– Eu tô inteiro, Mona – Eee disse.

– Por enquanto... – Ingrid sussurrou e Jay começou a rir.

– A enfermaria e a universidade seria muito melhor sem algumas atitudes suas, Ingrid.

– Então faça melhor, meu amigo – ela disse.

– Se eu não tivesse machucado, faria mesmo. Aliás, eu estudo, estou machucado. Faria se pudesse.

– Eu também estudo – ela disse.

– Todos são falsos com você, Ingrid. Eu faria mil vezes do que você tá fazendo agora – ele disse e Ingrid ficou confusa.

– Que? Cara... vai dormir – ela disse, rindo.

– Ingrid, se você não fosse tão ridícula nada disso estaria acontecendo – Monique disse e Ingrid começou a rir juntamente com Jay.

– Ai, que vontade de socar essa guria – Jay disse.

– Pode vim, vamos ver quem vai apanhar! – Monique disse e Jay se atirou pra cima dela, mas Ingrid a segurou.

– Vocês são tão ridículas! – Triza enfim se meteu. – Ingrid, vá rever o seu caráter.

– Vou rever meu caráter todos os dias agora, obrigada – ela disse ironicamente.

– Eu que agradeço. – Então as duas saíram dando tchau para Michael.

***

– Alô, alô, Brasil — Rick encontrara a professora de Anatomia no caminho para o refeitório e a parou para puxar um papo. — E aí, como vai?

– Muito bem — a professora Thais pegou a maçã madura que estava entre seus materiais e mordeu um pedaço salientemente devagar. — E você?

Rick demorou alguns segundos para tirar os olhos do decote da professora e a olhar cara a cara.

– É... Sim! Então, eu tive uma ideia que, segundo a minha magnífica mente, possa ser divertida para todos que toparem, então decidi falar para a senhora, porque você vai me entender.

Os dois voltaram a andar, no entanto lentamente.

– Desculpe, não entendi... Qual a sua ideia?

– É o seguinte, eu pensei que poderia ter entretenimentos envolvendo casais aqui da escola. – A professora parou, maliciando tudo o que ele havia dito.

– Não... — o rosto de Rick ficou um pouco vermelho. — Não estou falando de entretenimentos do tipo relações... Você sabe. É somente um questionário feito por alguém no auditório, e daí os casais tem de responder as perguntas de acordo com as regras e isso fará com que todos saibam se ele ou ela realmente se conhecem.

Os dois ficaram alguns segundos em silêncio até um deles se pronunciar.

– É uma boa ideia — deu-lhe Thais a resposta final. — Mas tenho de conversar com o reitor primeiro.

– Tudo bem... Até! — Rick ia se afastando, mas Thais lhe puxou pelo braço.

– Sabe... — disse ela, sorrindo. — Eu poderia participar... E você também.

– Hã, mas é claro — respondeu Rick, ao mesmo tempo em que Thais dera a última mordida na maçã e a descartada no lixo.

O almoço estava demorando pra ser servido, porém logo foi servido e todos comeram, mas foram interrompidos por um barulho no alto-falante da escola e de lá saiu uma voz, que dizia:

– Boa tarde, alunos! – A voz do reitor ecoara, o mesmo dera vários anúncios sobre o conselho estudantil e mudança de horários de algumas salas. O almoço foi encerrado e todos foram para suas determinadas aulas.

***

Já na sala de aula, os alunos Bruna, Carlos, Clara, Danilo, Erica e muitos outros esperavam entediados pela professora que se atrasara mais de dez minutos.

– Pelo visto ela não vem mesmo — disse Nati, apoiando-se na parede.

A porta abriu silenciosamente e de lá saiu uma figura um tanto esquisita.

– E aí, galera. Sou o professor de teatro, já sei! Tô aqui pra substituir, já que a professora de vocês não pode... vir — o professor depositou sua mochila numa cadeira e foi direto para a lousa.

AJUDANTES — escreveu ele.

– Por que quer ajuda? — perguntou Isadora. — Ou melhor... Para quê?

O professor não pareceu se lembrar de algo e voltou para sua mochila, abriu-a e puxou de lá um papel amarelo.

– Hã... É — ele leu um pouco para si mesmo e depois depositou a folha em cima da mesa. — Terá uma peça de teatro e queremos ajuda de principalmente vocês. Há apenas algumas vagas para os papéis dos personagens, e não é obrigatório, assim como o que irei pedir também: precisamos de ajudantes para decorar tudo no dia. Que nos ajudem com a luz, câmeras, figurinos... Enfim, quem quiser venha até aqui e escreva o seu nome — o professor puxou outra folha da mochila, mas dessa vez em branco. — Nesta folha aqui. Quem não quiser, que não atrapalhe. Boa sorte.

André foi o primeiro a alcançar o professor e por seu nome na lista de ajudantes e de possíveis atores para os papéis. Em seguida foi Bruna, João, Triza, Isadora, Nati, Carlos, Naty e Jay. Os restos dos alunos já estavam na peça.

Depois que quase todos ali presentes assinaram, voltaram aos seus lugares e conversavam sobre o teste.

O professor saíra pela porta, porque havia outros alunos o esperando.

O professor de teatro chegou e alunos iam se acomodando em meio ao auditório vazio e com pouca luminosidade.

Enquanto alguns se ajeitavam na primeira fileira de cadeiras, o professor subira ao palco, pegara o microfone e tirara um papel azul de seu bolso.

– Irei anunciar os alunos que ganharam os respectivos papéis na peça, e logo libero vocês porque tenho uma reunião... Ah, e não posso esquecer, aqui está o roteiro, vocês têm bastante tempo para decorar — o nervosismo estava forte entre algumas pessoas da primeira fileira. — Entre Sara Santos, Sara Cirino, Nati, Dri, Maria e Carol... O papel de Odette vai para você, Sara Santos!

Sara esbanjou um enorme sorriso enquanto as alunas que não ganharam o papel ficavam mais chateadas ou felizes por pelo menos Sara ter ganhado.

– Continuando... O papel de Odile vai para... Elli! — em meio a alguns risos o professor continuava. — O papel de príncipe é seu, Danilo! — Mais sorrisos. — O mago, certamente, teria que ser você, Rick!

– Arrasei, inimigos. — disse Rick, mandando um beijo para os ex-concorrentes ao papel.

– E bem... Os papéis das donzelas são de vocês, Carol, Dri, Nati, Sara Cirino, Érica, Clara, Vick e Maria! — o professor deu um suspiro. Quanta gente. — Bem... Parabéns a todos que deram de tudo nos testes, quem ganhou, mais um parabéns, quem não ganhou, tenta novamente em outra peça. Há também os convidados — ele olhou novamente para a folha. — Os convidados são todos vocês que citei e mais alguns alunos. Dentre eles, Felipe Aljarilla, Arthur, André, Lucas, Vivaldo e Wenzo! – A aula havia terminado e o professor descia a pequena escada enquanto as luzes eram apagadas e os alunos voltavam felizes ou nada felizes para suas irmandades.

***

Após as quatro aulas do dia, todos seguiram para um domingo cansativo de reuniões no auditório – como todas às vezes -, todos tomaram os seus lugares e aguardaram a chegada do reitor, que quase não chegava. Todos viram um vulto no fim do corredor e estavam esperançosos que fosse o reitor, mas era, nada mais nada menos que, Ricardo.

– Oi, gente... – ele disse, tirando um papel de seu bolso. – Então, vocês devem estar se perguntando, cadê o reitor pra terminar essa reunião chata e eu ir dormir... Pois é, ele logo vem encher o saco de vocês, só esperar. – Risadas ecoaram. – Mas eu estou aqui pra anunciar algo legal, interessante e olhe: não vai tomar todo o tempo de vocês!Na verdade, vai sim, mas não tanto iguais todas aquelas regras sobre a cantina e o conselho estudantil. Bom, estou com um papel aqui, e vocês devem estar se perguntando que papel é esse – ele dizia enquanto andava pelo palco.

– Não to me perguntando não – André gritou lá do fundo e todos riram, inclusive Ricardo.

– O que mais tem nessa universidade são aqueles casais gays que vivem juntos, vulgo Vivaldo e Hanna ou Paulo e Dani, portanto, tive a ideia de fazer um programa de casais que vai funcionar da seguinte maneira: no sábado que vem, todos os casais vão se reunir na quadra em um grande palco e vão participar de um desafio com perguntas... Que tipo de perguntas? Bom, vocês verão. Vocês vão ter que responder perguntas sobre o seu parceiro e provar se realmente o conhece. Isso vai dar uma treta maligna, mas tudo bem. Então, os casais que estiverem interessados, entrem em contato comigo. – Ele apontou o braço para a direita. – Eu to bem ali!

Vários casais levantaram e seguiram para a mesa de Rick.

– Aquela não é a Leti com o Dré? – Ana disse, confusa. – Como assim?

– Eles estão namorando? – Ingrid perguntou.

– QUE? – Barbara se afogou em seu copo d’agua.

Quando a pequena baderna de casais se cessou, o reitor tomou a frente e começou a falar:

– Boa tarde, Alunos. Alguns de vocês não sabem ou ficaram sabendo há pouco tempo, mas aconteceram alguns acidentes na faculdade nos últimos dias. Um garoto foi morto e o seu corpo foi jogado dentro da caixa d’agua, não sabemos quem é o garoto, até porque todos os alunos da universidade estão na mesma, mas o corpo já está no IML e saberemos em breve. E não sabemos quem foi, é, pois é, as câmeras de segurança do térreo não estão prestando há um bom tempo... Mas, chega de notícias ruins e vamos falar sobre o conselho estudantil...

– Nossa, e quando isso é bom? – Queixou-se Cirino enquanto colocava a mão na testa.

***

O dia foi muito cansativo – para todos -, então quando a noite caiu, todos foram imediatamente para seus devidos dormitórios e descansaram.

Michael já estava agoniado de ficar naquela enfermaria e hoje, finalmente, seria liberado.

– Quanto tempo até eu extravasar? – Michael perguntou para a enfermeira.

– Sem extravasar, sem dançar e acima de tudo, sem andar de skate, Sr. Blake – ela disse em tom de censura, mas estava brincando.

– HAHAHA, se fodeu! – Triza e Hanna riam, junto com Monique.

– Não vai poder mais infernizar ninguém com esse troço que você chama de skate – Monique disse rindo, enquanto olhava para a cara de tédio de Michael.

– Pode ir, filho – ela disse o levantando.

– Valeu, tia – ele disse, segurando no ombro de Hanna e se preparando para sair de lá.

***

Na segunda, após a aula, um grupo de alunos se reuniu em uma sala. Isso acontece toda hora nas irmandades, mas o curioso é que todos são de irmandades diferentes.

– Pra que nos chamou aqui? — pergunta Xande.

– Não sei se podemos confiar em um novato — diz Hanna.

– Ele é de confiança, Hanna — fala Americo.

– Enfim, calem-se. Queria fundar um clube de estudos — diz Triza.

– Lá vem nerdices, como se eu já não estivesse de saco cheio de estudar — fala Toni.

– Bem, não é um estudo comum, é algo bem mais interessante, se estiver com preguiça, pode sair — Triza aumenta o tom de voz.

– Afrouxa a cinta, Triza, ele é assim mesmo — ri May.

– Então, continuando: Eu notei um comportamento estranho de alguns alunos, a maioria da Dazer, mas o Americo foi afetado.

– Estranho? Ele é safado assim mesmo, não deixa ele te enganar — brinca Hanna.

Todos os presentes riem, e então Triza retoma de onde parou:

– Disse comportamento estranho, já sei que ele é assim. Por isso fiquei impressionada ao vê-lo tão prestativo, assim como Beto ficou safado e o Felipe ficou sensível.

– Você acha que alguém está por trás de alguma coisa? — Paulo, que estava em silêncio, diz. — Eu também, pois não me lembro de ter feito algo com a Leticia.

– Ótimo! Bom que compreendeu — fala Triza.

– E o que devemos fazer mesmo? — pergunta Xande.

– Bem, vamos tentar descobrir o que está acontecendo primeiro, pode ser algum produto químico que embaralha o cérebro, pois o efeito do álcool é bem parecido.

– Realmente, no dia seguinte você acorda de ressaca — fala Americo.

– Exato — Triza faz uma pausa. — Já estou trabalhando no sistema de câmeras, paguei alguém pra fazer o serviço. Quero que fiquem de olho nas pessoas afetadas, e isso vale para o Americo e Paulo também, já que fazem sem consciência.

– Okay, mas vamos manter isso aqui secreto — diz Toni. — Não é bom que todos saibam disso.

– Principalmente os Dazers, aposto que estão por trás de algo — fala Hanna. Todos a olham estranhos. — Que foi? Estou fazendo o que a Triza pediu.

– Ok, nos encontramos aqui amanhã, mesmo horário — diz Triza.

Eles armam um sistema de disfarce fazendo com que saiam em duplas, pois se saírem juntos vão levantar suspeitas. A ideia é que seja secreto.

***

De tarde, depois do almoço, o reitor fora chamado – finalmente – no IML para a identificação do corpo. O mesmo passara na Mercure e chamara Michael para ir junto com ele, os dois chegaram ao IML e foram recebidos por um homem vestido de branco que trazia uma grande prancheta.

– Olá, senhores... – ele disse sério. – Então, fizemos a identificação do corpo e temos o resultado, vocês preferem que eu fale aqui mesmo ou entremos em minha sala?

– Pode ser aqui mesmo – Michael disse, mas o reitor o olhou com olhar de reprovação.

– Ok, o corpo que jazia dentro da caixa d’água é de um homem chamado Augusto Cezar, ele foi morto por várias facadas em torno de seu corpo.