Hollow

1 Único


–Tenha calma,Lucy. Ele vai voltar para você, é só uma questão de tempo. –dizia embolada, devido ao pirulito que estava na boca, a loira mais alta para uma garota, também loira, mais baixa. – Olha, Oliver é um idiota, mas não é para tanto.

– Tudo bem, Kate. Não vou me estressar por causa dele mais! –pronunciou-se convicta a mais baixa. – Eu estou bem, sério.

–‘Tá bem! Não mencionarei esse assunto mais. – torna a falar a mais alta, levantando os braços em rendição.

Lucy revira os olhos diante do teatro de Kate, mas sorri a garota era sua melhor amiga, considerada por ela sua irmã. Enquanto andavam em direção à pracinha que ficava algumas quadras dali, lembrou todas as lágrimas, alegrias, momentos, apertos, desesperos e palhaçadas que passaram juntas e não pode ficar mais feliz com a irmã que a vida lhe dera.

– Você tem mais um pirulito? – perguntou Lucy.

–Tenho. – disse a mais alta sorrindo e entregando-lhe o pirulito.

– Obrigada. – agradeceu a mais baixa abrindo o pirulito e o colocando na boca.

Próximo a elas caminhava um rapaz com uma câmera em suas mãos grandes, observando-as com um sorriso, controlando-se para não tirar uma foto dessas lindas estranhas. Observou-as irem correndo e rindo em direção a uma mesinha na praça do bairro e sentando-se naquele mesmo lugar, rindo e deliciando-se com o pirulito vermelho que possuíam. Thomas não resistiu e bateu uma foto daquela linda cena. A mais alta percebendo-o cutuca a mais baixa que se vira e fala alguma coisa para a outra. Após ficarem um tempo assim, ambas se levantam e caminham até Thomas, este exibindo um sorriso já sabendo o que as duas iriam falar.

– Hum, você aí, por acaso tirou uma foto nossa? – perguntou a mais alta, recebendo um olhar de repreensão da loira mais baixa.

– Tirei e ficou linda. Mas não se preocupem não vou postar em site algum, não, não mesmo. Pode confiar. – assegurou-as Tommy, enquanto Lucy olhava-o tentando se lembrar de onde o conhecia.

– Como sabemos se podemos confiar em um estranho? – pergunta Kate desconfiada, tirando os óculos escuros e franzindo a testa.

– Ele não é um estranho. – pronunciou-se finalmente, a mais baixa se lembrando de onde conhecia aquele rosto bonito. – Este é Thomas Grinwis, um dos nossos amigos de infância.

– Espere você me conhece de onde? – pergunta o garoto de cabelos negros totalmente surpreso. A loira não se contém e revira os olhos para ele.

– Da melhor escolha do universo: Memorial Sarah. – responde com sarcasmo mal contido. – E a propósito, – acrescenta ela. – sou Lucy Eileen, lembra?

O moreno mal pode conter a surpresa, simplesmente porque não conseguia conciliar aquela menininha magricela, dentuça e feia que era sua melhor amiga a essa garota linda e perfeita bem à sua frente. Entretanto, não se conteve e abraçou-a apertado apesar de feia Lucy era a melhor pessoa, e a mais inteligente também, que conhecera.

***

Alguns meses depois

Kate ainda não podia acreditar que Lucy estava namorando Thomas! O garoto, depois de se mudar e morar dez anos no Canadá, volta e começa a namorar a sua melhor amiga e ainda causar a maior confusão do ano com Oliver, um garoto loiro que não suportava perder. Achava Tom (carinhosamente apelidado por Lucy) muito irritante e metido com aquela câmera de dar nos nervos, mas aos poucos passou a perceber que ele realmente fazia sua amiga, irmã de consideração, feliz. Com suas fotos e toda aquela coisa melosa a fazia suspirar abrir um sorriso de felicidade e beijá-lo. Sempre que Lucy falava com Kate era para suspirar e dizer que seu relacionamento com Thomas, apesar de algumas brigas por coisas idiotas, era mágico. Kate só podia balançar a cabeça e se divertir vendo sua amiga assim, tão apaixonada que parecia estar nas nuvens sempre. Claro que, inicialmente morreu de medo por sua amiga sofrer por causa de estar tão apaixonada por Thomas, porém graças a deus, isso não acontecera e hoje Lucy estava mais que feliz, ao lado de seu namorado. Era tudo colorido e alegre ao lado da felicidade contagiante do casal, era impossível não esquecer-se dos problemas perto dos dois e era assim que Kate se sentia, extasiada com essa maravilhosa sensação.

Mas tudo desmoronou em uma fria noite de outubro quando, a mãe de sua liga no meio da noite para dizer-lhe que sua amiga e Thomas sofreram um acidente de carro porque um cara dirigindo bêbado batera neles. O moreno morreu instantaneamente e a loira baixinha passava por uma complicada cirurgia cerebral. A mãe da mesma consolava-a dizendo que tudo ficaria que Lucy conseguiria sair dessa. Só que ela não saiu e no dia 14 de outubro, às 3:44 da madrugada a loira falece na mesa de cirurgia com uma parada cardíaca.

Foi como tudo ficasse em câmera lenta quando a cirurgiã apareceu relatando que tentaram e fizeram de tudo, mas que infelizmente Lucy não resistira. Enquanto a mãe de sua melhor amiga brigava com a cirurgiã, Kate chorava descontroladamente ajoelhada no chão, com as mãos escondendo seu belo rosto, lembrando-se dos melhores amigos e suas brincadeiras e açúcar, não deixando de lembrar que os perdera hoje, para sempre. Ela sentia-se mais do que nunca sozinha, sem Lucy, sem Thomas, sem nada, apenas lembranças que guardaria para sempre.

O funeral passou como um borrão aos olhos de Kate, que costumava a ter tanta vivacidade. Para ela foi um monte de choradeira e pessoas dizendo coisas como: “ Eu sinto muito”, “ Sei que vocês eram bastante amigas...”, “ Meus pêsames...” “ Meus sentimentos.” Kate não sabia para que servia essas palavras vazias, dizendo isso não traria de volta seus melhores amigos e tudo por culpa de um maldito bêbado!

Um mês após o funeral, Kate já conseguindo olhar para uma foto de Lucy sem entrar em um choro desesperado, foi à casa dos Eileens, a pedido dos mesmos que queriam que ela tirasse algumas coisas de Lucy para doar para caridade, já que eles saíram da cidade por tempo indeterminado e somente voltariam após se sentirem totalmente recuperados. Kate achou uma ótima ideia largar a cidade e fugir para qualquer lugar longe dessa cidade onde, qualquer milímetro dela gritava Lucy e Thomas.

Chegou à casa dos Eileens com uma enorme sacola e não pode deixar de lembrar os velhos tempos com amiga, de como desciam correndo daquela escada e das constantes festas do pijama que faziam ali. Era mágico quase toda semana Lucy a convidava e Kate nunca negava um convite para passar a noite naquela casa. Parando na porta do quarto não pode deixar de sorrir ao ver aquele mural rosa ridículo, cheio de fotos suas e do Thomas, algumas piores que as outras, mas seu sorriso logo virou uma careta de choro principalmente ao ver em cima do seu criado mudo, os portas retratos. Do lado direito uma foto dos três juntos. Lembrava-se perfeitamente do dia que foi tirada, Lucy e Thomas arrastaram-na para uma festa do clube dos nerds e como todos encheram a cara e tiraram a foto mais avacalhada do mundo, com Kate ajoelhada com as mãos na cintura e um sorriso diabólico, com Lucy abraçando Thomas por trás e este com cara de assustado segurando um copo de Vodca nas mãos. E do lado esquerdo a foto revelada que Thomas tirou naquele dia na pracinha.

Limpando as lágrimas com as mãos e disposta a não chorar mais, Kate anda em direção ao guarda-roupa para começar o trabalho que viera fazer, porém antes que pudesse chegar ao seu destino ela tropeça em algo no chão. Não era algo, era o próprio chão saindo e ela ao pegar o piso viu em um buraco um amontoado de cartas e não contendo a curiosidade sobre o que seria isso que sua amiga nunca lhe contara, Kate pega todos os envelopes com cuidado.

–Que estranho. –diz a garota em voz alta, Lucy nunca deixara de lhe contar nada.

Ela observava as cartas intrigada, vendo que eram endereçadas duas à ela e a Thomas, uma aos pais, uma à Chloe Martins. Kate abre primeiro a carta escrita com uma letra menos caprichosa: “ Para minha querida amiga Kate”.

22 de janeiro

Querida Kate,

Quando estiver lendo esta carta eu provavelmente já estarei morta, mas não fique triste! Não é sua culpa, eu somente decidi me matar porque percebi que era apenas um peso para o mundo, um desperdício de recursos! Eu sei que você gostava de mim como uma irmã e eu também, mas eu não podia aguentar mais! Entenda meu lado Kat, eu não era feliz sabe? E também não via como seria feliz do jeito que eu era, eu me reprovava dizendo coisas horríveis, sobre mim mesma. Eu tentei de tudo, dicas de blogueiras depressivas,tratamentos de creme, dias no salão, lendo meus livros favoritos, ouvindo música, dançando balé. Vivi minha vida o tanto que pude e prorroguei ao máximo o suicídio, nas crises me controlando e escutando um rock pesado para esquecer tudo que me fazia sofrer. Compreenda Kate, uma pessoa que se reprova não vai viver muito tempo e assim é no meu caso.

Você é uma das melhores pessoas que já conheci, que me ajudou em um tempo difícil e sempre terá um lugar especial no meu coração como qualquer membro de minha família. Porque você, Kate Duncan é minha irmã de coração e melhor amiga do mundo! Uma pessoa que merece tudo de bom no mundo, toda felicidade que possa existir nesse universo infinito e não descoberto é você, Kate. Sendo uma sonhadora e que pensa em voar para longe das garras da sociedade e ser livre sendo quem é, se tivesse dinheiro apostaria que você terá um sucesso enorme em o que decidir fazer com sua vida.

Se pudesse gritaria para o mundo escutar que Kate Duncan é um exemplo a ser seguido! Uma pessoa determinada, inteligente, prestativa, gentil, sarcástica, mal humorada, alegre e confiante. Espero de todo meu coração que seja e que me perdoe um dia por te deixar. Acredite me sinto muito mal nessa parte e me dá uma vontade enorme de desistir, mas sei que não posso.

Com todo carinho do mundo,

Lucy

P.S: Poderia,por favor, entregar a segunda carta a Thomas Grinwis, aquele moreno de olhos azuis que foi pro Canadá,sim? Obrigada.

Ah e a de Chloe Martins também.

Após a leitura, Kate não resistiu e começou a chorar, simplesmente não acreditando que a amiga cogitara, um dia, a ideia maluca de se matar. Ela não lembrou um dia que Lucy estivesse estranha e melancólica e não podia acreditar que ela não lhe contara que se sentia daquele jeito. Abalada como estava ficou receosa de abrir a segunda carta destinada a ela.

Depois de pensar por alguns minutos, em um ímpeto, a garota loira ainda com o envelope na mão saiu correndo para fora do quarto de Lucy. Simplesmente não aguentava mais ficar naquele ambiente fechado e pequeno depois que a revelação de que sua amiga tentara suicidar aparentava ter criado forma e deixado o quarto sufocante.

Já do lado de fora da casa, Kate pega seus fones e seu celular do bolso e coloca tocar uma música do Arctic Monkeys enquanto caminha envolta da cidade para tentar digerir o que havia acabado de descobrir.

I'm going back to 505,

If it's a 7 hour flight or a 45 minute drive,

In my imagination you're waiting lying on your side,

With your hands between your thighs

“Por que ela cogitou a ideia de se matar?” –pensou a loira enquanto andava pela rua da casa dos Eileens. Eram raras as vezes que Lucy se sentia triste e a Kate nunca a vira duvidar de si mesma. O mistério resumia-se a isso e o porquê de desistir provavelmente deve estar escrito na próxima carta, mas o que realmente ela queria ler era o motivo de sua irmã de consideração tentar se matar.

Stop and wait a sec,

Oh when you look at me like that my darling,

What did you expect,

I'd probably still adore you

With your hands around my neck,

Or I did last time I checked

Sem que percebesse, as lágrimas escorriam livremente pelo rosto pálido da garota que continha uma expressão de sofrimento. Ela entristeceu-se por causa carta e acima de todo pela morte dos dois amigos que completavam um ao outro. Riu ao lembrar-se dos planos de casamento que Lucy fizera em uma folha lilás quando tinham uns 7 ou 8 anos de idade. Quisera por tanto tempo achar esses planos infantis para zoar a amiga, mas agora não. A amiga estava morta não adiantaria de nada, pensou com amargura.

Not shy of a spark,

A knife twists at the thought

That I should fall short of the mark,

Frightened by the bite though it's no harsher than the bark,

Middle of adventure, such a perfect place to start

I'm going back to 505,

If it's a 7 hour flight or a 45 minute drive,

In my imagination you're waiting lying on your side,

With your hands between your thighs,

E Kate ficou assim dando voltas por horas até que chegou a praia e a garota gritou por um bom tempo. Era assim que se sentia olhando para a praia vazia ao anoitecer, vazia. Ela sentia-se oca por dentro como se agora, apenas fosse a sombra do que era quando o coração da irmã ainda batia e parando de gritar se joga no mar para um mergulho. A água fria era cortante, mas ao mesmo tempo, causava alivio a Kate. Ela ficou por um tempo na água até voltar para a praia e ter uma surpresa ao encontrar Eddie, seu ex-namorado que dizia que ainda a amava. Ele, no minuto que ela saiu da água, correu para a abraçar a loira instantaneamente aliviado. A garota retribui sentindo-se segura envolta naqueles braços fortes e quentes e que sem saber faziam falta a ela.

But I crumble completely when you cry,

It seems like once again

You've had to greet me with goodbye,

I'm always just about to go and spoil a surprise,

Take my hands off of your eyes too soon,

I'm going back to 505,

If it's a 7 hour flight or a 45 minute drive,

In my imagination you're waiting lying on your side,

With your hands between your thighs and a smile!

Notas finais
E ai o que acharam? Mereço um review?
"Hollow" significa oco, vazio em inglês
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!