Holigans
10 Peter
Notas iniciais
"Eu me refugio pelo bem e pelo mal", Walt Whitman, Folhas de Relva.
Meia hora depois de nós dois sairmos da casa dela, pude perceber que o trânsito da cidade de Londres estava ficando para trás. Por isso mesmo, eu perguntei:
– Onde estamos indo e por que estamos indo?
– Já disse: é surpresa. E estamos indo pra lá porque 1) eu te amo e queria muito mostrar um lugar que eu gosto de ir e 2) não queria ter ficar perto de meu irmão, porque ele ficaria dizendo que eu não posso ficar com você e que sou nova demais. — respondeu Elizabeth.
Apenas assenti e dei ombros. Não seria uma boa ideia eu me meter em assuntos de família. (Muito menos quando se tratava de um irmão ciumento e uma irmã sexy).
Abri um sorriso alegre em pensar nela como uma garota sexy. (Na verdade, o sorriso estava mais para malicioso, mas eu tentei disfarçar. E acho que não seria a melhor coisa do mundo ter um namorado pervertido).
– Chegamos. — anunciou ela, já estacionando o carro.
O lugar parecia vazio (pelo fato de estar mesmo vazio). Pelo que consegui compreender da imagem, era um parque antigo. Tinha muitas árvores, arbustos, um pouco de mato e uma macieira bem próxima ao carro, mas longe das outras árvores (acho que o resto das árvores eram carvalhos). Continuei a observar por mais algum tempo até que me dei conta de que tinha uma estrada estreita de chão batido, mas não pude ver até onde ia.
– Onde estamos? — perguntei.
– Não me lembro muito bem o nome da cidade, se é que ela tem um, mas sei aqui é uma cidade pequena ao lado de Londres. É pouco conhecida, e muitos acham que ela é uma cidade de papel — ela fez uma pausa para trancar o carro -, mas não é.
Franzi a testa tentando raciocinar o que ela disse, em uma tentativa falha.
– O que é uma cidade de papel?
Elizabeth revirou os olhos antes de responder.
– É um bairro fantasma — Disse simplesmente.
Então, ela pegou minha mão e me foi me puxando até o final da estrada de chão batido, quando viramos à esquerda, e deixamos os carvalhos para trás.
– Até que enfim saímos do meio das árvores! — Elizabeth comentou esfregando o um dos lados do rosto, que estava arranhado, em seguida massageando um dos antebraços, também arranhados, mas agora sangrando.
– Você está bem? — perguntei preocupado e de olhos arregalados.
– Estou — disse ela, se dando conta de que estava me deixando assustado. — Sabe quantas vezes eu já vim aqui? Milhares. Se acalme.
Relaxei um pouco os ombros, mas continuei em sinal de alerta.
Ela apontou para o céu e eu pude ver um lago enorme, quase sem fim, com o sol se pondo em seu horizonte e refletindo sua luz na água. É lindo!
Entrelaçamos nossos dedos, ela com sua mão direita e eu com minha mão esquerda, ficamos de frente um para o outro e nos beijamos.
– Sabe... eu bem que queria que tivessem outros trabalhos que eu e você pudéssemos fazer juntos — sussurrei em seu ouvido.
Nós rimos juntos e eu continuei:
– Você fica muito sexy quando ri — e ela cora. — Não sabia que era possível fazer isso com você. — digo rindo de seu rosto levemente vermelho.
Nós dois nos beijamos mais algumas milhares e milhares de vezes até que nos abraçamos e ficamos de pé olhando o sol se pôr.
– Esta é a paisagem mais linda do mundo! — anuncio.
– Mais que eu? — ela me pergunta com cara de decepcionada.
– Nunca!
Então eu me lembro de quando eu sussurrei na sala de aula "te amo" e achei que ela tivesse dito "eu também".
– Sabe hoje, na sala? Você me ouviu dizendo "te amo" para você? — pergunto.
– Sim.
– Então eu não vou ser considerado louco se achar que você falo "eu também" um pouco depois, né?!
– Nem um pouco. Acho que eu posso até dizer que você está mais normal ainda...
Rimos juntos por mais um tempo.
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