Hold on
15 Vulneráveis ll
Aurélio respirou aliviado quando finalmente chegou ao seu destino. A cachoeira. A água da mesma sempre estava em temperatura agradável, e ele de alguma forma necessitava banhar seu corpo, tirar toda podridão que sentiu ao ter lembranças de seu pai. Saltou do cavalo sem preocupar-se com mais nada jogando-se em meio a água sem fim. O frio logo lhe consumiu, estavam na época de chuvas, assim o clima sempre estava úmido. Mas lhe era necessário, a ponto de afundar-se o mais profundo que pôde, era provável que, se estivesse ainda sozinho no mundo injusto que vivia, que talvez não voltasse mais das profundezas. Mas agora tinha Rosa, e na conversa repentina que teve com sua velha mãe, a prometeu que cuidaria da menina, bom, atreveu-se a dizer que a cuidaria com tudo que lhe era possível, porque, a pequena menina teria uma família com mulheres exemplares e amorosas.
Quando voltou a superfície, respirou fundo alimentando seus pulmões quase desfalecidos de ar.
— Julieta.. — murmurou, e voltou a se afundar na água.
Lembrou dos olhos tristonhos da mesma. O implorar na sua voz embargada, quase em desespero por crer que ele não acreditaria em suas palavras. Porém, ele acreditava, era óbvio. Mas o sentimento de pena fora o que viveu por toda a sua vida; o viu nos olhos dos empregados, das professoras, dos poucos colegas que teve e da sua pobre mãe. Aquele sentimento lhe perseguiu até onde estava, e era quase insuportável imaginar que a mulher com quem estava a sonhar, o desejava apenas por isso. Que miserável então eras, não?
O ar novamente lhe faltou, mas dessa vez ele não quis voltar. Os braços já estavam adormecidos assim como as pernas, sabia perfeitamente que se desmaiasse começaria a inalar água, e aos poucos perderia a luz de seus olhos.
O tempo passara e seu cavalo, começara a trotar de um lado para outro como se sentisse a agonia do dono, relichou tão alto que chamou a atenção de dois caçadores que faziam aquele mesmo caminho.
— Um cavalo tão bonito e sem dono? — um deles disse. — É nosso dia de sorte, Jão.
— Pois, a de haver algo muito errado, o bicho está inquieto demais. — o homem mais consciente alisou o cavalo tentando acalmá-lo. — Ele está selado, tem Dono.
— Mas não vejo ninguém..
— Ah, diabos!!! — o homem gritou, jogando seu chapéu no chão, e se atirando na água.
— O que houve? — o outro indagou sem entender o que estava acontecendo.
Alguns minutos se passaram até finalmente o homem conseguir trazer Aurélio a superfície. O mesmo era um homem alto, pesado e as roupas que vestia não eram nada convenientes para alguém que estava querendo apenas dar um mergulho.
Os lábios quase roxos, assustaram ambos os homens. Experiêntes por andarem tanto por todo Vale, eles usaram de todos as formas para ajudar Aurélio a respirar novamente. E não desistiram até que o Barão abrisse os olhos, rapidamente iniciando uma tosse seguida de vômitos. Os olhos ardiam como os infernos, os músculos pareciam congelados e mal correspondiam aos seus comandos, no entanto, a mente mesmo à trovoada ainda estava em seu perfeito estado, ele enfim respirou com mais facilidade e se perguntou; o que a diabos estava fazendo?
Estava desistindo? Estava a ponto de abandonar todo um futuro, por algo que sim, tinha solução, era dolorosa, mas tinha jeito. Os homens ainda o olhavam curiosos, atentos a qualquer reação sua, e ele só pôde agradecer.
Contudo, diante de suas apresentações João que era apelidado pelo amigo de "Jão", convidou Aurélio até seu acampamento. Cavalgaram em direção ao Horizonte por minutos e lá, Aurélio conhecera outra realidade. Cabanas feitas de lonas improvisadas, fogo a lenha em meio ao tempo frio, crianças correndo para todos os lados, e mulheres felizes por saber que seus maridos estavam de volta e aparentemente bem.
— É o máximo que podemos lhe oferecer, Senhor Barão. — a mulher de João serviu Aurélio com uma cuia cheia de sopa.
— Pra mim já é o bastante. — ele assentiu. — A quanto tempo viviem por essas bandas? — perguntou bebericando o caldo quente.
— Vivemos como andarilhos. — a mulher sorriu. — Também onde há fartura, e trabalho para nossos maridos.
— Não tem casa?
— Não.. Nós somos nossa própria casa, o mato e as estradas são nosso lar. — olhou para o Marido que tirava as botas em busca de descanso para os pés. — Não somos afortunados como o Senhor, mas vivemos bem do jeito que vivemos.
— Oh, minha cara.. Não pense que fortuna traz felicidade. É apenas um detalhe aos que de fato tem sorte, no entanto, se não tens em teu destino o fruto de uma vida calma e cheia de amores, não lhe adianta de nada.
— Pois, é lógico que o senhor tens o fruto de tanto..
— Quem me dera.. — ele sorriu, estava sendo fácil fazê-lo ultimamente.
— O conhecemos por sua boa reputação, por ser justo com seus funcionários e devedores.. — a senhora abraçou o filho que correra para seus braços. — E pessoas como o senhor, só recebem coisas boas, claro, há os mares de fogos no caminho mas quando a calmaria se faz presente, não há mal que lhe tire a mesma.
— Bonitas palavras, senhora. — ele levantou-se. — Mas não cabe a mim..
João se aproximou de ambos.
— Vou acompanhá-lo até sua fazenda.
— Não é necessário.. Já está ficando tarde, é bom que fique com sua família. — Aurélio o alertou.
— Faço questão.. O senhor ainda me parece pálido pelo afogamento, pode desmaiar em meio a mata.
— Mas..
— Eu insisto.. — o homem lhe tocou o braço comovendo-o.
— Então, vamos! Há muito campo pela frente. — Aurélio cumprimentou os demais, e partira para a fazenda.
Nem mesmo os fortes trovões fizeram Julieta adentrar a casa. Estava sentada no degrau mais alto da escada que havia na frente da mesma. Passara quase todo o dia ali, hora recebia notícias dos peãos que mandara a procura de Aurélio, mas nenhum lhe dava novidades. Ao cair da noite a preocupação lhe tomou por inteiro, mas seguía a guardando dentro de si, pois havia um pequeno ser que também parecia desesperada por notícias. Rosa. A menina mesmo contra a vontade de Julieta, sentou ao seu lado e lhe segurou as mãos. Poderia não entender tudo ao certo, mas entendia que Julieta sofria a cada minuto que passava. Julieta, enfim, recebeu seu carinho como um ombro amigo, apesar de já não crer que aquele sentimento lhe era presente. Depois da traição de Vitório, voltar a confiar em um bom amigo lhe custaria muito tempo, talvez, fora necessário cair do cavalo para entender que a vida não é um conto de fadas, e que as pessoas mais inesperadas podem apunhalar-te pelas costas.
Logo, Afonso que não conseguia esconder sua preocupação também ficara presente ao lado das mulheres. Todos olhavam na mesma direção afim de ouvir mais que os trovões ou o vento forte, desejavam ouvir galopes, a ferradura do cavalo batendo sobre o chão umido, e enfim mirar os olhos de Aurélio, vê-lo, tocá-lo..
Horas depois, quando o frio já estava quase insuportável os três decidiram então adentrar a casa. O sacrifício de estava lá fora em meio ao tempo poderia lhes custar a saúde, e para a situação que estavam, não era necessário mais nenhuma desgraça. Mas param quando de longe ouviram um cavalo relinchar, em sintonia viraram-se respirando aliviados quando reconheceram quem estava a chegar a fazenda.
— Meu irmão! — Rosa gritou, correndo para os braços de Aurélio. Imediatamente, os empregados se aglomeraram a frente da casa, um lhe tomou a rédea do cavalo, e os outros ficaram atentos a qualquer pedido seu. Julieta, deixou que todos passassem em sua frente, precisava olhá-lo mais, acreditar que era real.. que ele estava ali sem nenhum ferimento além dos que ela havia o causado.
Com Rosa em seus braços, Aurélio, com muito custo ignorou os olhos de Julieta. Apresentou João para todos, e sorriu.
— Afonso, dê tudo o que João precisar. — ele disse olhando grato ao velho homem que lhe salvou a vida. — Desde comida, a ferramentas.
— Sim, Senhor.
— Junte alguns homens e escolte até seu acampamento..
— Não é necessário, senhor. — João disse modesto.
— Agora é minha vez de ajudá-lo.. — Aurélio o lembrou.
— Onde você estava? — Rosa lhe perguntou tocando seu rosto. — Você está molhado.
— Estava esfriando a cabeça.. — ele respondeu feliz por esta segurando a irmã nos braços.
— Não faça mais isso, não fuja. — ela pediu lhe abraçando o pescoço comovendo a todos.
— Tudo bem, não o farei mais.
Ele suspirou, correspondeu ao abraço da irmã e ignorando a todos, inclusive, Julieta, adentrou a casa. Mesmo que tivesse doido sua rejeição Julieta no momento estava mais curiosa por saber quem era, João.
O homem aguardava Afonso e os outros estarem prontos para lhe oferecer ajuda, no entanto, visava de longe Julieta. Ela se aproximou admirando seu cavalo, parecia velho demais para ainda estava em atividade, mas pelas condições de vestimentas do homem a quem pertencia o mesmo imaginou que talvez, era sua única opção.
— Olá.. — sorriu timidamente. — Quero lhe agradecer por ter o acompanhado até aqui.
— Era necesario, o homem estava fraco demais. — ela assentiu ignorando o frio que sentia, não sabia ao certo se fora causado pelo tempo gélido, ou por uma repentina culpa que lhe surgiu.
— Onde o achou? — João a olhou, e sentiu que precisava ser direto.
— No fundo de uma cachoeira.. — Julieta levou a mão ao peito quase sem poder respirar.
— Estava se afogando? — perguntou rapidamente.
— Creio que, 'se matando' é um termo melhor a ser usado. Um homem como o Barão sabe nadar como um peixe, se estava afundando em meio a água era porque desejava fazê-lo.
— Deus.. — ela sussurrou quase sem acreditar.
— Temos que ir!! — João, avisou aos homens. — A chuva está por vir.. — ele olhou para Julieta que ainda permanecia estática. — É bom que entre, Senhorita. — lhe arletou e saira a cavalgar.
Ela aceitou sua sugestão, mas ficara na sala, sentada, olhando para o nada. Era grave o que acabara de ouvir. Já havia se imaginado sem Aurélio, mas ficar sem ele para sempre? Aquilo arrepiava seu corpo, a dava enjoos. Sentia vontade de chorar, mas não tinha certeza que ainda teria lágrimas para derramar. Dona Guadalupe, logo percebera a agonia da filha, sentou-se ao seu lado e lhe acariciou os cabelos.
— Não está feliz? — a mãe preocupada indagou. — Ele está bem, meu bem.. Não há porque ainda está triste. — Julieta, respirou fundo enfim olhando para mãe.
— Ele tentou.. — engoliu em seco.
— Ele tentou??? Julieta? — franziu o cenho sem entender sua frase incompleta. Julieta então decidiu que guardaria esse segredo, já havia muito da vida de Aurélio exposto.
— Não é nada, mamãe. Só que, ele parecia bem.. — forçou um sorriso. — Vou vê-lo para conversamos.
— Já sabe o que vai dizê-lo?
— Bom... Pela primeira vez em minha vida deixarei que alguém decida algo por mim, e aceitarei qualquer decisão tomada por ele.
— Tem certeza?
— É o mínimo que posso fazer depois de tudo que aconteceu.
— Não se culpe, Julieta! Cada um tem sua conta nessa história..
— Pois me sinto responsável por quase toda ela.. — suspirou levantou-se. — Me sinto vulnerável, assim como ele se sentiu. — disse por último deixando a mãe sozinha.
Ela abriu lentamente a porta do quarto, Aurélio enxugava os cabelos com uma toalha enquanto olhava pela janela. Estava apenas de calça, parecia ter acabado de sair do banho. Julieta parou por breves instantes para olhá-lo, os ombros largos, o porte forte e bravo, aquilo tudo era apenas uma dura casca, por trás havia um homem tão vulnerável e ainda em processo de cura. Era quase inexplicável sua felicidade por esta o vendo, talvez por última vez, não sabia... sorriu... era muito bom vê-lo, Deus, como era.
Ela fechou a porta fazendo barulho para alertá-lo de sua presença. Ele suspirou profundamente ao vê-la, jogou a toalha em um canto qualquer, e aproximou-se dela lhe abraçando fortemente, os braços do homem a prendia de tal forma que ela quase não conseguia respirar, no entanto, naquele momento ela não se importava. Ele respirava ofegante, apertando os olhos desfrutando daquele perfume que lhe fazia ter prazeres doces apenas por senti-lo.
— Aurélio.. — ela lhe segurou o rosto entre as mãos. — O que você fez? — a voz no final lhe saiu falha, quase embargada.
— Fugi como um covarde, eu sei. — disse lhe tirando as mãos de seu rosto e as segurando. — Mas sou um ser humano como qualquer outro, fraquejei..
— Estou me referindo a cachoeira.. — o surpreendeu. — Estava mesmo disposto a apagar a própria vida desta forma?
— Bom, fraquejei por duas vezes hoje... — a mirava sem desviar sua atenção dela. — Quero que me desculpe.
— Não, não... Eu que o devo desculpas por tudo e..
— Julieta.. — ele a interrompeu. — Eu sempre a admirei por ser forte, justa, amorosa.. — sorriu. — No entanto, eu percebi que pareço lhe tirar isso..
— Não, não...-seu semblante se pôs incrédulo.
— Sim, querida... Lhe tiro o brilho dos olhos, sou seu carrasco, sempre fui um egoísta por fingir não ver isso. Não mereces suportar todos meus momentos de fúria por um passado ainda doido, e não permitirei..
— Meu Deus, o que você está dizendo!!! Eu quero ajudá-lo, aos poucos vamos conseguir superar tudo junto e.. — ele a interrompeu beijando-a, um beijo tão doce que ela derreteu sobre seus braços, mas logo, sentira o coração acelerar. — O que está fazendo? — indagou quando sentiu o anel de noivado sair com facilidade de seu dedo. — Não faça isso por favor... — pediu em um suplico. Ele encostou suas testas.
— Me desculpe. — murmurou. — Mereces tão mais do que te dou.
— Você me dá o que quero.- ela quase gritou. — Deus, eu nunca ficaria se fosse por pena, não há pena, Aurélio.. Eu amo você!
— Eu também.. — confessou, e olhou para o anel que agora estava em sua mão. — E é por isso que quero que você tenha mais que um homem cheio de demonios em sua vida.
— Coloque o anel de volta, por favor.. — pediu. Os olhos dele marejavam, e Julieta não acreditava no que estava havendo.. Sabia que ter seu perdão seria uma tarefa difícil, mas nunca imaginou que o mesmo se cuparia por toda situação. — Não é sua culpa.. — sussurrou.
— Também não é sua, Julieta.. — se afastou dela. — Por favor.. — ele abriu a porta. — Desejo que tenha sorte.. Julieta. — disse por último sentindo a angústia e o vazio em seu peito. Estava abrindo mão de tudo que sonhou com ela, mas não poderia prendê-la em sua vida conturbada, com Rosa daria um jeito, no entanto, Julieta merecia mais que seus sorrisos bobos, beijos desesperados e sua escuridão..
— Desejo que você perceba o que está fazendo, antes que seja tarde demais.. — o olhou por última vez e rumou para seu quarto... Necessita fazer as malas, e o mais importante, chorar, ou explodiria com tanta angústia em seu coração.
...
Fale com o autor