Hold my Heart
2 Como tudo começou
Notas iniciais

Vila de Magnólia, Fiore. X12X7X435 (5 anos atrás)
O demônio continuou a assisti-la com os olhos onyx flamejantes do seu lugar ao centro do pentagrama. Ela tenta manter a calma. Não tinha ideia de que isso realmente funcionaria, de que ela realmente conseguiria convocar uma besta vinda do inferno. O que deve fazer agora? O que as pessoas fazem com demônios? Será que isso já aconteceu alguma vez antes?
“Mortal” Ele a chama, dando um passo à frente, ainda não deixando o círculo. Não poderia sair sem a permissão de seu convocador, nesse caso, convocadora. “Diga o que quer comigo, o grande Rei Demônio Dragneel.”
Ela congela, sentindo um arrepio gelado correr pela espinha. Ele também pode falar?! Isso é... Isso é incrível! Sim, é assustador, mas também é incrível! Este é um grande avanço na história da ciência! Derruba tantas teorias! Abre a boca para falar algo, porém rapidamente a fecha. Pondera por um momento. Ele parece ser capaz de falar sua língua fluentemente, seria capaz de manter uma conversa...? Ela tosse, limpando a garganta antes de, mais uma vez, abrir a boca “Saudações, Rei Demônio Dragneel, meu nome é Lucy Heartfilia. Sabe, é esse o problema...” Ri nervosamente enquanto ele arqueia uma das sobrancelhas rosa. “Eu sempre fui muito interessada em invocação, desde que eu era uma garotinha” Ela muda o peso da perna esquerda para direita, desconfortavelmente. “Você é o primeiro demônio que já consegui convocar! Eu nem sabia se iria funcionar ou não! Então, uh, na verdade eu não tenho nada para dizer para você fazer...”.
Ele cruza os braços sobre o peito, uma expressão severa no rosto “Então é isso, moça?”. Ela faz uma careta. “Bem, não posso ser enviado de volta até que eu tenha feito algo”.
A garota pensa por alguns segundos, franzindo os lábios tentando encontrar algo. “Bem... hm...” Seu olhar viaja até ele novamente “O que você quer fazer?” Ela pergunta, balançando levemente de um lado para o outro, um sorriso inocente brincando em suas feições.
Dragneel pisca e da mais um passo, ficando bem na borda do pentagrama. As feições severas transformando-se em um sorriso malicioso, quase afetado, mostrando os dentes impecavelmente brancos e os caninos pontiagudos. “O que eu quero fazer?” Seus olhos percorreram o corpo dela, analisando cada centímetro. Ela pisca em surpresa, não quis dizer aquilo! Fora apenas uma pergunta perfeitamente inocente! Ao mesmo tempo de que estava prestes a dizer que não tinha a intenção de ter relações sexuais com ele, seu sorriso feral se transformou em um sorriso caloroso, ensolarado, ela diria. “Quero comer algo, estou morrendo de fome! Tem alguma comida?”
“He-hein?” Balbucia, praticamente com o rosto no chão. Engasgando de surpresa, ela solta uma tosse nervosa “C-comida? O que você come?”
“Qualquer coisa picante! Ah, que tal aquele animal delicioso que vocês, humanos, chamam de ‘peixe’, hein?”
“Ãaan, claro!” Diz com um sorriso nervoso. Certamente isso não é o que ela esperava de um demônio. Ouvira histórias sobre os mais terríveis males, os contos mirabolantes que eram repassados pelos aldeões, pregados pela Santa Inquisição Fioreana, e ele, certamente, não era nada disso. Um pensamento repentino a chama atenção. Ela estreita os olhos em desconfiança, fazendo-o arregalar os olhos “Você não esta tentando me enganar para eu te deixar sair e você me devorar, certo? Porque se você fizer isso eu vou ficar seriamente irritada, irritada a ponto de meu fantasma persegui-lo pela eternidade!”.
Ele soltou uma gargalhada, certamente estava se divertindo vendo as expressões da loira “Mortal tola. Se eu fosse lhe devorar, devoraria sua alma também! Você iria completamente deixar de existir, então, não haveria ‘fantasma’ algum! Haha, garota tola”.
Ela dá um passo para trás “Isso não me faz querer deixar você sair, sabia?”.
“O quê? Ei, ah fala sério! Eu sinto muito. Não vou devora-la, juro! Só estou com muita fome, por favor, Luigi”! Implorou o grande ‘Rei Demônio Dragneel’, que realmente não queria estar fazendo isso, humilhando-se de tal forma para uma humana, porém, seu desespero era tão grande que não viu outra opção. Sentia-se exausto, faminto e louco para sair de dentro daquele círculo maldito.
Lucy até teria rido da expressão digna de um cachorro perdido feito por ele se não tivesse ouvido de que fora chamada. O sangue subiu em sua cabeça, deixando as orelhas vermelhas em clara irritação “É Lucy! L-U-C-Y!” Gritou. Ele revirou os olhos visivelmente divertidos com as caretas de sua convocadora “Tá, tá, me dê logo o maldito peixe, mulher” resmungou. “Não gosto do seu tom” Disse cruzando os braços delicados sobre o peito, virando o rosto. “Estou com fome!” falou em uma voz chorosa. Por um momento, apenas por um momento, por uma fração de segundo, Lucy sentiu pena do Demônio. Ela pareceu ponderar por alguns segundos e, por fim, suspirou derrotada “Tudo bem, tudo bem, permito que deixe o pentagrama, mas terá que me obedecer, entendeu?” A voz assumindo um tom severo. Olhou-o, procurando qualquer mísero sinal de más intenções nos olhos em brasa, ele, no mínimo, parecia estressado. “Sim, mestra.” Disse em um tom baixo, quase um sibilo, não ameaçador, apenas com uma pontada de ironia.
As grossas linhas de sal que formavam o pentagrama foram se afastando à medida que os pés de Dragneel moviam-se para frente, como se estivessem sendo levadas por um vento, abrindo caminho. Continuou andando, dando passos lentos até a garota, inclinando-se um pouco sobre seu corpo pequeno e parando a centímetros de seu rosto. A expressão que antes poderia ser comparada a de um cachorro perdido foi rapidamente substituída pela de um lobo faminto prestes a devorar uma lebre. Ela congelou com a proximidade, por mais que o Demônio exalasse um calor abundante, sentia-se congelada. Ele não pode fazer nada, ele não pode fazer nada. Mas ainda assim não conseguiu evitar sentir medo. Estava encurralada, encolhendo-se inconscientemente.
Ele pendeu a cabeça para um lado, pela primeira vez prestando atenção na face da moça, olhou bem fundo em seus olhos castanhos, analisando cada detalhe da íris, o nariz fino, as maçãs do rosto, o contorno dos lábios rosados, os cabelos que poderiam ser comparados a fios de ouro descendo pelas costas, a pele pálida, o vestido sujo, que se moldava perfeitamente em seu corpo. Completamente desnorteado, não, estava completamente hipnotizado pela beleza de sua mestra, que o analisava da mesma forma, prestando atenção em cada detalhe dos olhos onyx, os traços do rosto e do corpo perfeitamente esculpidos, os ombros largos, o pescoço tendo a metade ocultada pelo estanho cachecol.
“V-v-você... Por q-” Foi interrompida “Shhh. Não vou te devorar. Não agora” Sorriu, seus olhos transmitindo apenas uma coisa: Malícia. Não que ele não tenha pensado em devorá-la antes, mas havia eras desde sua última visita ao mundo humano, e, além de esgotado, estava extremamente curioso a até mesmo começando a gostar de sua bela mestra, então, não pretendia acabar com a diversão tão cedo.
Lentamente, Lucy foi voltando a seus sentidos, tentando descobrir como se respira novamente ao mesmo tempo em que tentava acalmar as batidas frenéticas de seu coração. Sabia que ele poderia ouvi-las, e que estava gostando disso. “Você vai ou não me dar o peixe, Lucy?” sussurrou.
“Ah, o peixe, sim, sim... Eu... Eu vou ver se tenho algo” Virou e saiu andando em direção a uma pequena escada. Ele pôs-se a observar o ambiente. O chão em uma mescla de terra batida com cimento, cheiro de mofo pairando no ar provavelmente vindo dos milhares de livros abarrotados em todos os cantos, o local estava escuro, iluminado apenas por umas poucas velas usadas no ritual, então, não se podia ver as paredes direito, que pareciam ser feitas de madeira, apodrecida por sinal. Estavam em algum tipo de porão?
Ele a seguiu, subindo a pequena escada, que parecia querer despedaçar a cada passo que davam, até sair por um quadrado no teto. Ele dava para um pequeno cômodo que, pelo visto, era a cozinha e... Algum tipo de sala de experimentos? Havia tubos com líquidos e ervas estranhas por todo lado, livros e anotações espalhadas por cima de uma pequena mesa no canto. O chão era feito de uma mistura de terra, cimento e pedra, as paredes de madeira, palha e pedra, o teto sustentado de madeira e coberto com palha. E uma janela semiaberta dava para uma floresta densa, de onde vinha uma brisa fresca lama e chuva. Definitivamente muito melhor que o porão escuro e abafado de agora a pouco. E definitivamente mais cheiroso. Olhou para o lado a procura da loira e a viu mexendo em uma panela amassada de ferro sendo esquentada por pequena lareira no canto. Esse cheiro... Peixe.
O demônio sentou em uma das cadeiras velhas e desconfortáveis de madeira que se encontravam ao redor da mesa abarrotada, batendo o pé repetitivamente, e sentindo o estomago roncar em impaciência. A viu abrir um pequeno armário e tirar de lá um prato, onde colocou o peixe cozido, segurando-o com uma mão e dirigindo-se a mesa para mover um livro para o lado e por fim, depositar a comida no espaço a frente de Dragneel, que não esperou para receber a colher de madeira que Lucy trazia, atacando e devorando o alimento em alguns segundos.
“Mais.” Estendeu o prato até ela.
“M-m-mas você. Você... Nem...” Como ele comeu tão rápido? Será que estava com tanta fome assim?
“Quero mais.” Insistiu.
Bufou mais uma vez, inutilmente pensando que aquilo aliviaria o estresse que sentia agora. Fora o décimo prato do demônio de cabelos salmão, desse jeito não iria sobrar comida para ela!
“Mais.” Exigiu logo após engolir o que restava no prato.
“Não.” Retrucou.
“Quero mais.” Exigiu mais uma vez.
“Não.” Falou mais alto.
“Eu disse que quero mais.” Sua voz assumiu um tom mais severo, os olhos se estreitando em fendas, fazendo um arrepio de medo subir pela espinha da loira.
“Não vou te dar mais! Eu também preciso comer, e essa comida deveria durar a semana toda, a situação está bem difícil, sabia?” Cruzou os braços sobre o peito. O alimento estava realmente escasso na Vila de Magnólia, os campos não produziam mais como antes e a maioria dos peixes e outros animais pareciam te ido em bora, deixando os moradores da vila dependentes de importações, o que deixava tudo, inclusive os impostos, cada vez mais caros.
“Como uma mera mortal como você ousa dizer n-” TACK, TACK, TACK!
Foi interrompido por três ensurdecedoras batidas na porta. Os olhos de Lucy se arregalaram. “Droga! Vá para o porão, rápido!” Sussurrou alarmada, empurrando-o até a pequena passagem, ainda aberta, no chão. Ele não falou nada, apenas entrou no locar escuro e a observou tampar a entrada com uma placa de madeira.
Cobriu com palha para não deixar nenhum vestígio da passagem e rapidamente colocou um pano em cima da mesa, cobrindo todos seus experimentos.
“Q-quem é?” Perguntou, sentindo um leve tremor tomar conta de suas mãos. “Viemos cobrar impostos em nome do Santo Rei” Soldados. Logo agora... Merda!
Abriu a porta vagarosamente, colocando apenas o rosto para fora, olhando com desprezo para os cobradores de impostos “Não tenho nada para vocês ou para o Rei. Voltem outro dia”. Um dos homens chutou a porta com violência, fazendo-a se chocar dolorosamente contra o ombro da garota, que cambaleou para trás após soltar um guincho de dor. Os dois invadiram o pequeno cômodo, cercando-a enquanto um deles a segura pelo braço “O que você disse, meretriz imunda?” Colocou mais força no aperto. Apenas continuou a encará-lo com ódio, tentando ignorar a dor que a mão do soldado causava em seu braço fino. “C-Cuidado, não olhe-a nos olhos ou ela pode te amaldiçoar” Alertou o outro, visivelmente amedrontado. “Ela não fará nada, pois se fizer, acabará igual às outras do tipo dela. Ardendo em uma fogueira... Ou gritando meu nome” Falou, o hálito podre batendo em lufadas contra seu rosto delicado. E então, ela cuspiu nele, vendo como o bolo de saliva atingiu certeiramente o olho dele “Vá para o inferno!”.
SLAP! O som de um tapa foi ouvido. Demorou alguns segundos até que recuperasse a concentração, sentindo a dor lancinante atingir sua bochecha direita. Lágrimas de dor e humilhação surgiram em seus olhos. Um rosnado baixo pode ser escutado por ela, atraindo sua atenção até a passagem coberta por palha, que fora levantada quase imperceptivelmente, mas o bastante para que a fúria de Dragneel pudesse deixar o ar mais pesado. Anda olhando para a porta do porão, ela balançou a cabeça em um sinal negativo, dizendo-o com o olhar para não fazer nada. Voltando a atenção para os soldados, ela suspirou “Tudo bem” Quando foi solta, caminhou até uma gaveta e pegou um pequeno saco de moedas, estendendo-as para os homens “Por favor, é tudo que eu tenho”.
“Ótimo” Um disse puxando o saco e contando as míseras moedas de ouro que estavam dentro. “É bom que da próxima vez tenha mais que só essa porcaria, ou não deixaremos barato para você, feiticeira de merda” Cuspiu no chão.
“V-Vamos.” Apressou o outro.
Assim que deixaram a casa, Dragneel saiu em disparada do sótão até a garota ajoelhada no chão. “Lucy...” Parou ao ouvir um soluço vindo dela. Chorava de raiva, humilhação, imponência, dor, ódio! Não é justo, não é! Sentiu um par de braços quentes e musculosos a envolverem, se afastou um pouco com o susto, mas logo foi forçada a votar ao abraço. Deitou a cabeça em seu peito e deixou as lágrimas correrem com mais intensidade. Pressionou-a ainda mais contra ele, enterrando o nariz em seu cabelo “Está tudo bem, Lucy, está tudo bem”. Estou aqui agora. Irei matar aqueles malditos para você. Irei ficar ao seu lado, Lucy. Vou te proteger, Mestra” As palavras saiam sem sua permissão, mas isso não importava, tudo o que queria era secar as lágrimas da garota frágil em seus braços, deixa-la segura e de alguma forma, cuidar dela. Ele não entendia o que estava acontecendo com ele, e não pretendia descobrir agora.
“D-D-Dragneel...” “Meu nome é Natsu” Falou em uma voz baixa.
“Natsu... Igual a.. Verão?” Riu entre lágrimas “Combina com você”.
“Obrigado, eu acho” Sorriu para ela.
“Natsu... Obrigada”.
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