Hold me Tight
47 Reunião
— Yoongi POV -
Mais tarde naquela mesma noite, depois de aproveitarmos o restante do tempo que tínhamos juntos deitados no sofá e assistindo televisão sem realmente prestarmos atenção no que estava passando, brincando um com o outro e compartilhando histórias engraçadas – ou qualquer coisa que passasse em nossa mente, na verdade – só aceitei levar Jimin de volta pra sua própria casa porque sabia que o veria de novo no dia seguinte; e, mesmo assim, o mais novo só conseguiu convencer-me a deixá-lo ir ao aceitar a condição de que o levaria até o local da apresentação pessoalmente, despedindo-se com um sorriso e um beijo doce. Nada mais foi dito entre nós sobre o assunto depois que Jimin tão casualmente soltara a palavra namorado numa frase que me envolvia, e por algum motivo isso me trazia alívio ao invés do nervosismo e angústia esperados.
Não podia negar que peguei-me paquerando a ideia mais vezes do que gostaria de admitir, mas nunca tive coragem pra pensar nela em mais do que uma mera fantasia, em algo que poderia se tornar concreto e real. Era imensurável o tamanho do afeto – e se ouso dizer, do amor – que sentia pelo mais novo, mas algo sempre me impedia, e ainda impede, de assumir esse sentimento e levá-lo adiante. Aquela velha noção de que Park Jimin era bom demais pra mim, de que alguém amargurado e quebrado como eu jamais faria nada pra merecer o sorriso que estampava seus lábios ainda estava à espreita bem lá no fundo de minha mente, pronta pra ressurgir à superfície nos momentos onde menos se espera, e talvez essa insegurança seja algo que simplesmente faz parte de mim e nunca irá mudar. Portanto, assim que aquela palavra tão ilusória e ao mesmo tempo tão significativa deixou os lábios do menino, num primeiro momento não senti nada além de alívio inundar meu peito. Senti-me aliviado porque sabia que não poderia vencer uma batalha contra mim mesmo, e o fato de Jimin ter tomado a iniciativa e nomeado nossa relação que já vinha florescendo há algum tempo me dizia que não estava tão louco assim ao sonhar.
Mais nenhuma palavra sobre o assunto foi dita, mas talvez nem precisasse. Depois de tudo que passamos, depois de tudo que Jimin me fez sentir e do que eu esperava tê-lo feito sentir também, palavras não eram nada além de meras letras sem significado. Mais tarde naquela mesma noite, depois de termos passado horas nos descobrindo e conhecendo, tocando e dando prazer um ao outro, havia uma espécie de acordo mútuo e silencioso entre nós, um entendimento que nem por um segundo precisou ser verbalizado por nenhuma das duas partes: nossa relação era muito forte e preciosa pra ser tratada com descaso, e se tivéssemos que nos tornar namorados pra valorizar e realmente apreciar o que estávamos construindo juntos, que assim seja.
Quando finalmente estacionei o carro em frente ao prédio que Jimin morava na manhã seguinte, meus lábios já lutavam contra a sombra de um sorriso que ameaçava me vencer a qualquer momento. Atravessei o hall de entrada, cumprimentando o porteiro com uma reverência dura e esquisita sob seu olhar mais do que suspeito – desde aquela vez que invadira o prédio na minha pressa pra chegar até Jimin sinto como se o homem não fosse muito com a minha cara – e subindo de elevador até o quinto andar tentando controlar as batidas do meu coração e não sorrir como uma maldita colegial apaixonada. Não podia negar que nunca fui muito bom em resistir à Park Jimin e seus charmes e encantos, mas desde que aquela palavra fora mencionada, minha fraqueza estava chegando ao limite do ridículo. Ponha-se no seu lugar, Yoongi, seu grande idiota filho da puta, era o que repetia a mim mesmo em pensamento diversas vezes durante a subida, incluindo alguns tapas leves na bochecha pra enfatizar a importância da questão, na esperança de que assim pudesse me controlar mais rápido.
Ao chegar na porta de número 503 e tocar a campainha fui recebido por Jungkook, que me deixou entrar com um aviso de que Jimin ainda não estava pronto – algo sobre Taehyung ser um maldito perfeccionista e levar mais de uma hora dando apenas “alguns toques finais” no amigo. Esperei pela dupla na sala com o maknae ao meu lado, mãos e olhos grudados no celular enquanto arrasava em algum joguinho qualquer e não fazia a menor questão de puxar conversa, deixando o ambiente ser inundado pelo silêncio mais tenso e desconfortável que já presenciei na vida, salvo pelos ruídos agudos e enjoados provindos do jogo. Quando ouvi o som característico de uma das portas se abrindo, ergui os olhos na direção de sua origem tão rápido que minha cabeça chegou a girar um pouco, mas a visão que tive quando Jimin saiu do quarto foi o que realmente tirou-me o fôlego.
Se não o conhecesse tão bem, poderia dizer que estava diante de um estranho, de tão irreconhecível que o garoto estava. Jimin trajava uma calça de couro preta que agarrava-se às suas coxas grossas como uma segunda pele, acentuando exatamente o quão fortes elas eram, uma regata na mesma cor de um tecido fino e semitransparente que deixava muito pouco pra imaginação – quase nada, na verdade – dando-me visão privilegiada do seu abdômen definido e um adorável par de mamilos pequenos e escuros no seu peito largo sob um casaco comprido e felpudo, branco como a neve, e botas nos pés. Entretanto, seu rosto era o que mais me chamava a atenção: os óculos quadrados haviam desaparecido, deixando em seu lugar olhos marcados com lápis de olho preto e o que arriscava dizer que era uma sombra acobreada, deixando o castanho de suas orbes muito mais expressivo; seu cabelo estava estilizado e penteado para o lado, deixando sua testa e sobrancelhas à mostra, e havia pequenas argolas douradas adornando suas orelhas. Se não estava ficando louco, poderia jurar que seus lábios estavam muito mais rosados e convidativos do que me lembrava, combinando perfeitamente bem com o tom que suas bochechas adquiriram sob meu olhar faminto.
O barulho repentino e zombeteiro que indicava game over no jogo de Jungkook despertou-me do transe e interrompeu a competição de olhares que travava com Jimin sem perceber, e quando desviei o olhar na direção do mais novo pude notar que eu não era o único que ainda não tinha visto seu figurino de escolha; Jungkook tinha olhos vidrados e os lábios relaxados e boquiabertos de uma maneira quase cômica, o jogo em sua mão esquecido enquanto tinha os dedões pairando estranhamente sobre a tela do celular sem realmente fazer nada. Uma pontada de ciúmes e possessividade por ver alguém encarando de forma tão aberta e descarada meu namorado— alguém me mate se eu algum dia dizer isso em voz alta – fez-se dolorosamente presente em meu peito, então numa tentativa de não parecer óbvio ao matar o garoto e guardar o pouco de dignidade que ainda me restava, engoli em seco e aproximei-me de Jimin com passos cautelosos, usando toda minha força de vontade pra não pular em seu pescoço e marcá-lo com um rosnado territorialista.
— Jimin, você—você está... – gaguejei, encontrando-me sem palavras. Não havia adjetivo no mundo que pudesse descrevê-lo naquele momento. Jimin poderia parecer com o pecado em pessoa, mas o sorriso acanhado e o olhar baixo com o qual me agraciara não me deixava esquecer da doçura e pureza que o moldavam na pessoa maravilhosa que era.
— Gosta do que vê? Eu tenho que admitir, fiz um ótimo trabalho com nosso Jiminie. – interveio Taehyung, sobressaltando-me ao sair do quarto um pouco depois com uma pequena maleta preta em mãos que só poderia conter maquiagem e os mais diversos produtos de beleza que eu jamais sonharia em adivinhar pra que serviam. O sorriso que estampava seu rosto era irritantemente convencido, como se tivesse produzido Jimin com essa mesma reação em mente e eu, feito um idiota, caíra em sua armadilha como um patinho.
— É, n-não... não está nada mal. – assenti um pouco a contragosto, pigarreando nervosamente e derretendo por completo quando voltei a atenção para o pequeno à minha frente. – Você está lindo.
— Obrigado. – veio a resposta tímida, suas bochechas mais vermelhas do que tomates enquanto seus olhos ainda se recusavam a encontrar os meus.
— Me agradeça depois. – Taehyung dirigiu-se a mim ao mesmo tempo, piscando um olho de forma sabida enquanto passava por nós na sua pressa de pegar todas as coisas que precisaria levar. – Jungkookie, você viu meu secador de cabelo?
— Pensei que estivesse no banheiro, onde deveria estar. – foi a resposta seca do mais novo, já recuperado do transe e com sua careta azeda de sempre estampando a face. Entretanto Taehyung não pareceu nem um pouco abalado pelo descaso do amigo ao soltar um oh! estúpido e entrar no cômodo mencionado apenas para sair de lá carregando ainda mais maletas e bolsas.
— Pra quê tudo isso? – perguntei, não conseguindo conter minha curiosidade ao vê-lo com os braços exageradamente ocupados. Quem o visse agora diria que estava indo numa viagem, não numa simples apresentação de dança.
— Já que Jiminie disse que J-Hope não tem muitos recursos por ser um artista underground, eu cumprirei o papel de seu estilista, maquiador e cabeleireiro pessoal quando não estiver no palco, assim me certifico de que estará perfeito em todos os momentos que estiver sobre ele. Serei como a sua coordi-noona, não é, Jiminie? – explicou animadamente, sorrindo como se tivesse encontrado seu verdadeiro propósito na Terra. Jimin apenas concordou com um resmungo fraco de quem não estava cem por cento de acordo com a ideia, mas não tinha muita escolha sobre o assunto.
Como já era de se esperar, foi Jungkook quem deu um basta na conversa, alegando que chegaríamos atrasados caso não saíssemos naquele mesmo instante. Talvez eu até retrucaria com a informação de que o show só estava marcado pra começar daqui a uma hora, se Jimin não fosse uma das atrações principais e provavelmente precisasse chegar lá mais cedo pra se preparar e sabe-se lá o que mais. Por isso deixamos o apartamento com Taehyung liderando o caminho com passos quase saltitantes e Jimin corando profusamente e curvando-se em agradecimento quando recebeu um elogio sincero do porteiro ao passarmos pelo saguão.
A viagem até um dos clubes mais badalados de Hongdae fora até bastante pacífica, se não um pouco irritante. A fim de evitar que o desastre ocorrido na última vez que dei carona para os três ao mesmo tempo se repetisse, deixei que Taehyung ocupasse o assento ao meu lado e escolhesse qualquer música que quisesse, pra revolta de Jimin; o mais velho dos três resmungou durante todo o caminho sobre como era injusto que seu amigo tivesse o privilégio de sentar na frente e escolher a estação de rádio enquanto ele era obrigado a se resignar no banco de trás, ao que Taehyung respondeu dando a língua por cima do ombro e mandando-o deixar de ser tão ciumento. Me surpreendi ao notar que aquela briguinha, apesar de barulhenta e desnecessária, me divertia mais do que gostaria de admitir. Foi uma surpresa ainda maior quando Jungkook finalmente se pronunciou, ralhando com os dois – ainda que meus ouvidos apurados detectassem uma fina camada de divertimento sob a irritação – e dizendo como ele mesmo devia ocupar o banco do carona só pra vê-los finalmente calar a boca. Com a minha falsa súplica de por favor Jungkook, faça isso, nós quatro caímos num ataque de risos bobo e o assunto foi esquecido.
Chegando lá nos deparamos com um clube ainda bem vazio, visto que o show não estava previsto pra começar tão cedo. Antes que pudéssemos entrar, pedi pra esperarmos alguns minutos do lado de fora porque havia combinado de encontrar Namjoon e Seokjin ali, uma informação que Jimin ficou muito contente de ouvir porque, apesar de saber que os dois já estavam de volta à cidade, não fazia ideia de haviam aceitado seu convite de última hora pra comparecer. – Eles já devem estar chegando. – assegurei-lhes, e sem protestar os garotos aceitaram esperar comigo, envolvidos numa conversa animada sobre a estreia de Jimin no palco e o nervosismo que o público trazia.
— ...Taehyungie? É você mesmo? – quando ouvi uma voz familiar chamar detrás de mim, virei-me para encontrar Seokjin se aproximando com uma expressão embasbacada e incrédula na face, os olhos arregalados como se tivesse visto um fantasma mas os lábios boquiabertos puxados num leve sorriso que provavelmente não sabia que estampava, com Namjoon vindo logo atrás parecendo tão confuso quanto me sentia.
— Sim, sou eu. Hm... eu te conheço? – veio a resposta educada e um pouco hesitante do mais novo, não querendo soar rude mas parecendo igualmente confuso com aquela situação. Entretanto, Jin reagiu exatamente da maneira que o garoto não queria – mas eu já imaginava –, seu rosto fechando-se numa careta ofendida enquanto apoiava as mãos na cintura, batendo o pé num gesto infantil.
— Como assim, “eu te conheço”? Não me reconhece mais? Sou eu, Kim Seokjin! – bufou indignado, revirando os olhos quando o mais novo exclamou estupidamente e estalou os dedos em reconhecimento, olhos tão grandes quanto pratos.
— Espere... vocês se conhecem? – foi a vez de Jimin vocalizar a dúvida que pairava na mente de todos nós, recebendo um sorriso acanhado de Taehyung e um olhar exasperado de Seokjin em resposta.
— Sim, ele meio que é meu primo. – Taehyung respondeu pelos dois com um encolher de ombros, coçando a cabeça de forma tímida e com um leve rubor nas bochechas sob toda aquela atenção. Desnecessário dizer que todos nós não-familiares nos encontrávamos sem palavras diante de tamanha revelação. Eu sabia o suficiente sobre a família de Seokjin, mas nem em um milhão de anos imaginaria que Taehyung fazia parte dela.
— “Meio” que sou seu primo? Aish, essa criança... sinceramente. Ainda não acredito que você não me reconheceu logo de cara. – o mais velho reclamou franzindo o cenho, claramente muito cheio de si pra aceitar o fato de que alguém um dia poderia esquecer seu rosto.
— Perdão, hyung. Faz tempo que não nos vemos. – Taehyung desculpou-se com outro encolher de ombros, arrancando um longo suspiro do mais velho enquanto o restante de nós assistia a conversa desenrolar à nossa frente ainda sem palavras, incapazes de acreditar que por causa de Jimin e sua apresentação estava havendo uma reunião de família que nenhuma das partes esperava.
— Nisso você tem razão. Desde que... bem, não importa. Como tem passado? Como estão Taegeukie e Taekwonie? Parece que faz séculos que não vejo meus priminhos favoritos. Eles devem estar enormes agora. – por um momento pensei ter ouvido a voz de Seokjin adquirir um tom melancólico, logo antes de mudar de assunto. Peguei-me pensando no que exatamente poderia ter causado a separação das duas famílias, mas logo tratei de guardar a curiosidade num canto bem obscuro de minha mente; afinal, nada disso era da minha conta.
— Ah, estou bem. Estamos todos bem. – o mais novo respondeu animadamente, parecendo inabalado por o que quer que Seokjin quase deixara escapar. – Você não acreditaria no quanto aqueles dois cresceram, mas não é como se você não tivesse mudado nada nesses... quantos anos já se passaram? – perguntou num tom pensativo, mas o primo nem teve a oportunidade de dizer nada antes que ele mesmo suprisse a resposta. – Woah, já vão fazer oito anos. Como o tempo passa rápido. Enfim, nós provavelmente deveríamos tirar uma foto. Taegeuk vai precisar de provas quando eu disser que me encontrei com Seokie-hyung. Sabe que ela alimenta um crush secreto por você desde que era um bebê, não sabe?
— Hey, que história é essa sobre alguém tendo crush no meu namorado? Não sabia que tinha concorrentes. – interviu Namjoon em tom de brincadeira, só agora tomando parte na conversa depois de assistir tudo com uma expressão divertida e afetuosa no rosto, o sorriso de covinhas presente mesmo depois de ter recebido um tapa no braço, cortesia do dito namorado.
— Namjoon, Taegeukie tem doze anos. – o médico disse em tom de reprimenda, Taehyung corrigindo-o com um orgulhoso “treze”, como se isso fizesse muita diferença. – Mas já? Aish, é uma pena que a gente não tenha se encontrado antes. Odeio perder datas importantes.
— Não se preocupe, eu mando o parabéns atrasado. – o garoto assegurou-lhe com seu famoso sorriso retangular, arrancando um sorriso de Jimin no processo, que aparentemente não tinha nenhum motivo pra estar feliz a não ser ter causado o reencontro dos dois e poder testemunhar a felicidade do melhor amigo. Logo cada um de nós tinha algum grau de sorriso bobo estampado na face: Jin e Taehyung porque haviam encontrado um ao outro depois de anos, Jimin porque havia sido a causa, Namjoon porque o deixava feliz ver o namorado feliz, eu porque não conseguia me conter ao ver Jimin sorrir e, por mais que não pudesse ver o rosto de Jungkook por estar muito concentrado em Jimin e no modo como seus olhos desapareciam detrás das bochechas, sabia que o maknae também sorria. Era impossível não sorrir, principalmente com esse sentimento tão confortável e familiar que nos rodeava.
Entretanto, nossa pequena bolha de felicidade foi estourada quando uma certa cabeça de fios vermelhos saiu apressada pelas portas do clube, trotando em nossa direção com a respiração ofegante. – Jimin, ai está você! Te procurei por todo lugar. Vamos, precisamos aguardar no backstage antes do público começar a entrar. – Hoseok disse enquanto lutava pra recuperar o fôlego, apoiando-se no ombro do menino por um momento. – Ei, gracinha. Yoongi. – o ruivo cumprimentou, dirigindo um sorriso à Taehyung antes de seus olhos travarem em mim, sua expressão mudando consideravelmente antes de acenar em cumprimento à todos com um sorriso forçado e voltar por onde veio. Minha vontade era respondê-lo com um rosnado, mas contentei-me em apenas encarar suas costas com uma carranca feia enquanto Jimin se desesperava e atrapalhava pra seguir o mais velho.
— Tae, você vem? – o menor dirigiu-se ao amigo com um leve tremor na voz e apreensão evidente nos olhos, mas a pergunta nem era necessária quando o maior tinha a mão pousada na parte inferior de suas costas, empurrando-o gentilmente na direção da entrada com um alegre “logo atrás de você, bro”, onde Hoseok os esperava.
— Hey, Jimin. – chamei, segurando o menor pelo pulso antes que pudesse se afastar e puxando-o para um selinho rápido, sorrindo ao ver todo seu rosto adquirir a cor de pimentas. – Boa sorte. – meu sorriso só aumentou quando vi Jimin abaixar a cabeça e murmurar um agradecimento enquanto era arrastado por Taehyung, porém morreu no instante seguinte quando vi Hoseok com os olhos fixos em mim, expressão indecifrável na face. Pelo canto do olho, pude ver Namjoon e Seokjin trocando olhares antes de ambos voltarem suas orbes curiosas e igualmente preocupadas sobre mim, trazendo-me uma sensação de desconforto que precisava me livrar a qualquer custo. Enquanto os via desaparecer clube adentro, soltei um pigarro forçado pra tentar disfarçar a tensão na minha voz. – Pelo menos Hoseok chegou numa boa hora. Aquela conversa já estava ficando gay demais pro meu gosto.
— Tirou as palavras da minha boca. – Jungkook concordou enquanto adentrávamos o recinto pela mesma entrada que os três haviam usado com o passe VIP que Jimin havia nos dado de antemão e procurávamos um bom lugar pra assistir o show, arrancando uma risada de Namjoon e um olhar sabido de Seokjin.
Acontece que o passe não só nos garantia acesso livre e gratuito ao clube sem que precisássemos enfrentar a fila que já começava a se formar do lado de fora, mas também nos dava acesso ao seu camarote, situado no mezanino que ficava diretamente em frente ao palco, nos dando visão privilegiada do mesmo. O lugar era bastante espaçoso e aconchegante, mobiliado com alguns pufes e sofás pra quem estava mais interessado em curtir o ambiente do que o show em si, nos poupando o sacrifício que era dividir a pista logo abaixo com centenas de corpos suados e desagradáveis. Eu estava bastante contente em apenas debruçar-me sobre o parapeito do mezanino e aguardar o início da apresentação em silêncio, mas aparentemente Seokjin tinha outros planos.
— Então... você e... Hoseok, não é? Parece haver uma história aí. – disse no tom mais casual que conseguia forjar, mas eu o conhecia bem o bastante pra saber que não passava de uma armadilha.
— É uma história bem longa. – assenti de forma seca, com ombros tensos e sem encontrar seus olhos; aquela seria a única informação que o mais velho tiraria de mim sobre o assunto, pelo menos por hora. Eu sabia o quão persistente ele conseguia ser quando queria.
— Ok, não está mais aqui quem perguntou. – tentou defender-se com as palmas erguidas para cima, um claro sinal de trégua. – Mas você sabe que não pode se fechar pra mim por muito tempo, não é? Mais cedo ou mais tarde vai ter que me contar essa história, longa ou não.
— Olha só, as pessoas estão começando a entrar. – comentei casualmente com os olhos fixos na pista, onde uma pequena multidão já se aglomerava, ignorando-o de propósito. Hoseok era um tópico delicado pra mim, sempre fora, e vê-lo mais cedo só serviu pra piorar meu humor. Não que eu já não esperava encontrá-lo em algum momento, visto que ele era a estrela da noite, mas não estava preparado pra tal encontro até o final da apresentação, pelo menos. Felizmente Jin sabia como tomar uma dica e deixou o assunto morrer, suspirando enquanto também voltava sua atenção para o palco.
Não demorou muito pra Namjoon – sempre o observador – notar a tensão no ar, prontificando-se a deixar-nos à sós com a desculpa de comprar bebidas pra todos enquanto o show não começava; Jungkook muito espertamente foi logo atrás pra ajudá-lo, arrecadando uma bufada de Seokjin enquanto o mais velho assistia-o partir indignado. – Esse garoto ao menos tem idade pra beber?
— Ah, não comece, Seokjin. Não vá dar uma de mãe agora. – resmunguei, revirando os olhos com sua reprimenda de “estou falando sério, Yoongi!” – Acredite em mim, se alguém nesse mundo merece uma bebida, é aquele garoto. Então pare de ser tão responsável o tempo todo e o dê uma folga.
— O que te faz dizer isso? – indagou o moreno quando despertei sua curiosidade, o queixo apoiado na palma enquanto tinha o cotovelo apoiado no parapeito, imitando minha postura.
— Bom, pra começar, ele é obrigado a ver o homem que ama ser feliz com outro homem, e está tentando viver com isso. O mínimo que posso lhe dar é o meu respeito. – minha resposta era vaga, mas Jin não precisava de mais elaborações. O mais velho já havia entendido tudo, e felizmente não chiou quando os ambos retornaram com duas garrafas de cerveja em mãos, Namjoon passando uma pra Jin enquanto Jungkook me oferecia sua garrafa extra. Eu gostava de pensar que seu sorriso contido e um pouco forçado era sua forma de superar nossas diferenças e pedir trégua, nem que fosse apenas por uma noite, pelo bem de Jimin, então aceitei a bebida de bom grado enquanto lhe devolvia o sorriso. Pensei ter visto alívio e algo estranhamente parecido com embaraço passar por seus olhos, mas não tive tempo de indagar-me sobre o assunto antes que tivesse minha atenção desviada para o palco novamente, justo quando todas as luzes foram apagadas e a multidão começou a gritar enlouquecida, ansiosa pelo show que estava prestes a começar.
As cortinas se ergueram pra revelar uma figura de costas no centro do palco, mas com a escuridão e distância eu não conseguia distinguir se era Jimin ou Hoseok. No entanto, minhas dúvidas logo foram sanadas quando um único holofote focou sua luz na figura, revelando roupas brancas e cabelos vermelhos, ao mesmo tempo que uma batida forte de hip-hop explodiu pelos alto-falantes e o corpo do dançarino começou a vibrar como se a música lhe desse vida. Hoseok se movia como se não tivesse ossos no corpo, dobrando braços e pernas em ângulos impressionantes e executando com maestria passos quase humanamente impossíveis. Vendo-o daquela maneira, não podia negar que uma pequena pontada de orgulho – uma que jamais admitira sentir, nem sob tortura – invadiu meu peito com a realização de que sua paixão pela dança permanecera a mesma desde a última vez que nos vimos, e que o mais novo agora se empenhava pra fazer uso dessa paixão ao máximo.
Por mais que estivesse impressionado e até um pouco hipnotizado pelas habilidades de Hoseok, o que eu mais aguardava era o momento em que veria Jimin sobre o palco. Como se atendesse minhas preces, Hoseok finalizou sua coreografia solo dobrando-se como uma maldita folha de papel e desabando com as costas no chão, dando abertura para uma segunda figura que até então não tinha notado correr em sua direção e executar uma acrobacia arriscada sobre seu corpo estendido, aterrissando com graça e elegância a centímetros da cabeça ruiva do mais velho e arrancando arquejos de surpresa do público. Jimin não estava usando o mesmo casaco felpudo de antes mas sim um moletom grosso e escuro que escondia a regata reveladora que usava por baixo, sem dúvida para dar-lhe um elemento surpresa pra usar mais adiante na apresentação, a cor de suas roupas contrastando com as de Hoseok como se os dois fossem forças contrárias e inimigas.
O corpo de Jimin poderia não ter a mesma maleabilidade do de Hoseok, mas seus movimentos tinham uma graça e leveza incontestáveis, presentes até em coreografias mais poderosas como essa. Assim como eu sabia que iria, a plateia torcia pelo menino tão animadamente quanto por seu ídolo, gritando e batendo palmas no ritmo da música enquanto Jimin mostrava a que veio. Na verdade, o louvor do público só pareceu incentivá-lo ainda mais, dando-o aquela dose extra de coragem que precisava pra finalmente se soltar e nos mostrar sua verdadeira performance. Sua presença de palco era tão hipnotizante, a força de seu olhar tão magnética, que nem percebi ter prendido a respiração até a batida mudar e meus pulmões protestarem pela falta de ar.
Com a mudança de música Hoseok se ergueu num salto, começando o que parecia ser uma batalha de dança com o mais novo. Jimin tinha mais gingado enquanto Hoseok era pura técnica, mas nem por isso um era inferior ao outro – por mais que meu óbvio favoritismo sempre apontasse Jimin como meu dançarino favorito. Na verdade, talvez fosse justamente essa diferença nos estilos que os complementasse tão bem; as forças de um suprindo as fraquezas do outro, assim tornando-os uma unidade coesa e imbatível. Pude ouvir a plateia embaixo de mim aclamando pelos dois dançarinos, aparentemente dividida enquanto torciam por seus favoritos, e não me surpreendi muito quando peguei-me gritando incentivos à Jimin, acompanhado por Jungkook e Seokjin – Namjoon ainda tentou bancar o diferente e clamar por J-Hope, mas um tapa do namorado e três pares de olhos julgadores em sua direção o fizeram mudar de time num instante.
Em algum ponto da coreografia, a batalha havia se transformado num tipo diferente de disputa: os dois agora pareciam competir pra ver quem conseguia arrancar mais gritos e suspiros das fãs com movimentos provocantes e sugestivos, utilizando-se dos mais diversos e baratos truques, desde mordidas nos lábios até uma forte investida dos quadris. Jimin parecia que ia ganhar o duelo quando tirou o moletom com movimentos lentos e sensuais como se fizesse strip-tease, revelando a roupa que usava por baixo e fazendo minha imaginação correr a mil por hora, mas Hoseok conseguiu virar o jogo quando se aproximou decidido e num ato de ousadia agachou-se diante dele, levantando a camisa do mais novo e deslizando o nariz desde seu umbigo até o pescoço, onde se instalou e fingiu atacar o local com os lábios, mantendo o corpo de Jimin preso contra o seu com uma mão firme na sua cintura.
Se a plateia já havia ido à loucura antes, agora pareciam experimentar um tipo de orgasmo coletivo, de tanto que gritavam. Não conseguia entender o fascínio que certas garotas tinham em ver dois homens se tocando dessa maneira, chegando ao ponto de se deixarem enganar por esse teatrinho ridículo. Porque aquilo que via no palco não passava disso: um teatro. Uma tática barata de atrair a atenção do público e um golpe baixo da parte do mais velho pra vencer a disputa. Eu sabia que aquilo fazia parte do show business, que era inclusive uma tática muito popular entre idols, mas por alguma razão tudo que via estava tingido de vermelho; não tinha olhos pra mais nada além da mão do ruivo na cintura de Jimin, seu nariz enterrado no pescoço do menino, seu tronco colado no abdômen desnudo do outro, e toda a intimidade que aquele gesto sugeria. Sabia que aquilo não passava de teatro, mas isso não me impedia de querer descer até o palco num pulo só e pintar o chão com o sangue de Hoseok. As bochechas coradas e olhar arregalado de quem fora pego desprevenido que a face de Jimin apresentava só piorava as coisas, pra ser sincero.
Não percebi que estava segurando a barra de aço que me separava do meu objetivo com tanta força que minhas juntas empalideceram, nem que meu cenho estava franzido numa carranca tão feia que minha cabeça chegava a doer até sentir Namjoon – que em algum momento do show envolvera seus braços ao redor de Seokjin, colando seu peito às costas do moreno numa desnecessária demonstração pública de afeto – me cutucar na costela, sorrindo aquele sorriso de covinhas sem esconder seu divertimento mesmo quando voltei toda minha fúria para si. – Hey, man, cuidado. Você vai acabar entortando o metal desse jeito. – gritou em minha orelha, tentando ser ouvido mesmo com todo aquele barulho. Rosnei em resposta, mas infelizmente o clamor do público engoliu o som.
— Cala a boca, Namjoon. Antes que entorte seu pescoço também. – ameacei, retornando minha atenção ao palco quando a música cessou e ignorando completamente a risada grave que recebi do outro. Suspirei aliviado ao ver que Jimin estava novamente vestido – na medida do possível, com a quantidade de pele que aquela regata expunha – e à uma distância razoável do dançarino mais velho, corando profusamente enquanto Hoseok tentava acalmar a plateia pra fazer as apresentações.
— Aigoo, como o esperado, minhas fãs são as melhores. As mais selvagens! – Hoseok riu no microfone, o sorriso radiante que ia de orelha a orelha me deixando com mais raiva do que pensava ser possível. – Gostaram do que viram, não foi? Prometo que tem muito mais de onde isso veio. – brincou ao receber uma resposta uníssona e positiva, piscando um olho de forma sugestiva enquanto nos dava a língua e, ok, agora eu estava puto. Se a mera ideia não fosse totalmente ridícula, poderia pensar que o ruivo fazia aquilo de propósito. – Eu acho que dispenso apresentações, mas pra quem não me conhece, meu nome é J-Hope. E esse pedaço de mal-caminho aqui do meu lado é Jimin. Ele ganhou o primeiro lugar numa competição de dança alguns meses atrás onde fui um dos jurados, e seu prêmio foi ter a oportunidade de subir no palco comigo no meu próximo show, então aqui está ele. Por favor, vamos todos dá-lo uma salva de palmas. Isso, façam barulho! Mais alto, não estou ouvindo! – dessa vez tive que dar créditos à Hoseok, porque o ruivo sabia como incitar as massas. O clube pareceu tremer sob toda a euforia das fãs, a grande maioria jovens garotas que não faziam nada da vida a não ser frequentar lugares como esse e gritar o nome do seu “oppa”. Eu sabia porque tinha minha cota considerável delas, fiéis seguidoras que não perdiam um show sequer, por mais raros que eles fossem.
Assim que Jimin se apresentou formalmente e agradeceu o carinho do público com uma reverência respeitosa e bochechas em brasa, uma nova batida invadiu o clube pelos alto-falantes indicando que o show deveria continuar, rapidamente colocando-os em posição; mas pra ser sincero eu nem prestava mais atenção nas coreografias que os dançarinos apresentavam em dupla, por mais fascinante que fosse vê-los dançando em perfeita sincronia, concluindo os passos um do outro e vice-versa. Tudo que conseguia pensar era por quantos dias Jimin ficara preso num ambiente fechado com o ruivo repetindo esses mesmos movimentos até atingir a perfeição e no quão próximos os dois devem ter se tornado por conta disso. Apesar de saber que não passava de teatro, não podia negar que aquela maldita ceninha me incomodava mais do que gostaria de admitir. Afinal de contas, ninguém tinha permissão pra tocar em Jimin além de mim.
Após algumas apresentações com coreografias elaboradas e perfeitamente executadas Jimin saiu do palco, deixando-o livre pra Hoseok fazer sua apresentação solo de rap e eu não poderia estar mais pronto pra ir embora, mas sabia que precisava esperar até o mais novo voltar ao som da minha música. Obriguei-me a manter o foco no palco e não fazer uma careta de desdém muito forte enquanto via Hoseok cuspir letras fracas no microfone num ritmo que deixava muito a desejar, incapaz de manter o corpo quieto mesmo quando o foco da apresentação era seu rap, não a dança. Lembrava-me que o mais novo parecia ter um certo fascínio pelo assunto durante nossa juventude em Daegu enquanto me via cuspir letras furiosas e obscenas no palco improvisado atrás da escola, mas ele ainda tinha um grande caminho a percorrer; quando, na letra, mencionara algo sobre fazer seus anti-fãs vomitar, era exatamente isso que quis fazer, principalmente quando olhei pro lado e vi Namjoon balançando a cabeça no ritmo da música, uma expressão impressionada na face que eu ao mesmo tempo queria questionar e apagar com um soco. Até mesmo Jungkook e Seokjin tinham um certo brilho nos olhos, o mais velho tentando acompanhar a letra o melhor que podia – o que era péssimo, na realidade. Mas a opinião dos dois últimos não importava, porque nenhum deles sabia apreciar a beleza de um rap bem executado – o que não era o caso, definitivamente. Era por causa de Namjoon que me sentia traído. Namjoon e seu gosto extremamente duvidoso.
Depois do que pareceu uma eternidade de tortura sem fim, Hoseok finalmente deixou o palco sem ao menos uma despedida, causando uma certa confusão generalizada quando ficou tudo escuro e silencioso por longos e torturantes minutos – o burburinho do público se assemelhava bastante com um enxame de abelhas, as pessoas na pista sem saber se o show havia acabado ou não. Entretanto, antes que o primeiro impaciente desse as costas e fosse embora, o ambiente fora invadido por um som que eu conhecia muito bem. Com as primeiras notas graves do contrabaixo surgiu a figura de Park Jimin, vestido como o encontrara no apartamento: todo de preto com um casaco branco e felpudo por cima que o dava a aparência de uma estrela de cinema, caminhando até o centro do palco como um jaguar à procura de sua presa. Assim que estava em posição e ergueu a cabeça, iluminado pelo holofote como se fosse um anjo, pude jurar que nossos olhos se encontraram por um breve instante antes de começar a se mover, tempo suficiente pra me fazer engolir em seco ao redor da obstrução que tinha na garganta, todos os pensamentos odiosos sobre Hoseok esquecidos.
Eu não era nenhum estranho à coreografia, mas estaria mentindo se dissesse que era o mesmo vê-lo executá-la agora em seu elemento: passos confiantes sem o menor rastro do embaraço anterior, jogando-se no chão e deslizando pelo palco sem medo, dando tudo de si como se tivesse nascido pra dançar aquela música, expressão concentrada e pele reluzente, brilhando com o sex appeal que pingava de seus poros ao invés de suor. Os movimentos de Jimin me passavam o curioso e conflitante sentimento de tesão e angústia de um casal que fazia amor pela última vez antes de se separar, o que era um pouco estranho já que não havia mais ninguém no palco pra ser seu parceiro, mas de algum modo o garoto nos fazia imaginar alguém consigo ali. Me fazia imaginar eu mesmo consigo ali. Se ele não tinha consciência do que estava fazendo, ignorante ao efeito que causava em mim, então ele estava em grandes apuros.
Os movimentos sugestivos de sua pélvis me trazia memórias do dia anterior, memórias ainda frescas que seria melhor trancar a sete chaves – pelo menos em público –, a extensão de pele exposta em seu pescoço, ombros e tronco me dando uma fome que nada tinha a ver com comida enquanto o via possuir o palco com o casaco preso pelos cotovelos. Por mais que sua voz estivesse presente na música ele não tentava dublar, concentrando-se apenas em mover seu corpo de forma fluida e sensual e nos fornecer material suficiente pra ter sonhos eróticos durante um ano inteiro – o único momento em que o menino realmente interpretou a canção foi durante sua high note, simulando o ápice do casal imaginário. Pra falar a verdade, se Park Jimin realmente não sabia o que estava fazendo, então era eu quem estava com problemas.
Enquanto a apresentação solo de Hoseok pareceu se entender por uma longa e torturante eternidade, a de Jimin pareceu acabar num piscar de olhos, e logo o ruivo se juntava ao garoto ofegante no palco para as considerações finais antes de encerrar o show. Mal fiquei pra ver o final, nem sequer registrando os agradecimentos e despedidas antes de descer apressado as escadas que davam ao camarote e me dirigir aonde sabia que ficava o backstage – afinal conhecia minha cota de bares, boates e clubes como esse, e uma vez que se conhece um, se conhece todos – apenas pra ser barrado na porta por um dos staffs; bastou uma rápida olhada no meu passe VIP e surpreendentemente o caminho estava livre mais uma vez. Encontrei Jimin na companhia de Hoseok e Taehyung, ignorante à minha presença com suas costas voltadas pra mim, casaco desaparecido e uma garrafa de água em mãos, os três conversando animados sobre algo que preferia não ter escutado.
— Espero não ter passado dos limites, Chim-Chim. Eu sabia que não podia competir contra seu corpo, mas podia ganhar com ele. – Hoseok riu, fazendo piada com algo que não tinha a menor graça ao meu ver. E que tipo de apelido ridículo era esse, afinal?
— Ah—t-tudo bem hyung, não foi nad—Yoongi! – a surpresa na face de Jimin quando o segurei pelos ombros e o girei em torno do próprio eixo de modo que ficasse de frente pra mim era evidente, mas não lhe dei muito espaço pra falar quando tomei seus lábios no instante seguinte, silenciando-o com um beijo ardente e faminto. Eu não dava duas fodas se estávamos sendo assistidos enquanto devorava os lábios do menino com minhas mãos afundadas em seus cabelos ou não – talvez até gostasse um pouco. Minha atitude poderia até ser infantil, semelhante com a de um cachorro marcando seu território, mas não ia negar que a expressão embaraçada que encontrei na face de Hoseok ao me separar de Jimin trouxe um pequeno sorriso vitorioso aos meus lábios úmidos.
— Sua apresentação foi perfeita. O que eu te disse? Você só precisava parar de duvidar de si mesmo. – disse com um sorriso afetuoso para o menino, deliciando-me ao vê-lo corar ainda mais sob o elogio, afinal de contas vingança não era a única coisa que me motivara a roubar-lhe os lábios num beijo de tirar o fôlego. Queria que Jimin soubesse exatamente como me senti ao vê-lo dançar daquela forma ao som de uma música que escrevi, e nada parecia transmitir o sentimento melhor do que aquilo.
— Obrigado, hyung. Por tudo que fez por mim, obrigado de verdade. – sorriu de volta, apoiando suas mãos nas minhas quando elas permaneceram em suas bochechas, deixando o momento agradável durar até sermos brutalmente interrompidos.
— Será que podemos parabenizar a estrela da noite ou o senhor Yoongi não está afim de dividir? – o responsável pelo distúrbio não poderia ser ninguém menos do que Seokjin, acompanhado de perto por Namjoon e Jungkook, dirigindo-me um olhar que achava irritantemente perturbador. Afastei-me do garoto a contragosto, cruzando os braços na altura do peito enquanto o vigiava como se fosse um maldito cão de guarda, mas concedendo permissão de qualquer forma.
— Você se saiu melhor do que esperava, Jimin. Parabéns. – Jungkook foi o primeiro a se manifestar, provocando o outro com um sorriso travesso muito mal contido e um afago na cabeça, rindo quando o mais velho afastou sua mão com um tapa e ralhou com um “é hyung pra você, seu pivete!” indignado. Não ia negar que estranhei ver o maknae se comportando como era devido pra variar, principalmente quando estava rodeado de pessoas que não conhecia muito bem, pelo menos até me lembrar da cerveja que tomou mais cedo. Jungkook realmente não tinha idade pra beber, senão não estaria agindo assim agora.
— Mil desculpas por não ter falado direito com você antes, Jiminie. Fiquei tão distraído com o Tae que esqueci meus modos. Mas o show foi maravilhoso! Se soubesse que podia dançar assim tinha pedido pra me ensinar alguns passos, porque sou péssimo. – o mais velho dentre todos disse, envolvendo um Jimin tímido e risonho num abraço apertado.
— Que bobagem é essa agora que está falando? Você é um ótimo dançarino, Jinnie. Mas realmente, Jimin é melhor. – brincou Namjoon, arrancando ainda mais risadas do mais novo enquanto recebia outro tapa do namorado; devia ser o quinto ou sexto da noite, já havia perdido a conta. – E você também, cara. Não só dança bem como é ótimo no rap. Mas não lembro de ter visto você nas batalhas underground. Já nos conhecemos? – a pergunta fora dirigida à Hoseok, pegando-o desprevenido e fazendo-o parecer quase tímido com a atenção repentina. Bufei com a mera ideia, porque sinceramente: onde já se viu Jung Hoseok tímido?
— Ah, não, não. Eu não participo de batalhas de rap, prefiro me contentar apenas com a dança. O que faço nos meus shows é mais por diversão do que qualquer outra coisa. – respondeu de forma educada, sorrindo um pouco sem graça por ser o foco de tantos olhares. Revirei os olhos em desdém.
— Que pena. É um ótimo rapper, o cenário underground poderia usar alguém como você. – pior do que ver Hoseok corar sob as palavras de Namjoon – e eu não estava sonhando, porque pisquei várias vezes pra ter certeza – era saber que o elogio era sincero. Pior ainda era ter que admitir que se não fosse por meus ciúmes e amargura, seria obrigado a concordar. Hoseok tinha se tornado não só um dançarino esplêndido mas um bom rapper também, o que poderíamos chamar de artista completo. Mas era óbvio que não admitiria isso em voz alta nem sob tortura ou ameaça de morte, não importa o quão mesquinho isso seja da minha parte.
— Acho que esse dia merece uma comemoração, não concordam? – Jin sugeriu, atraindo a atenção de todos imediatamente pra si.
— Sim! Podemos ir num karaokê? Por favor hyung, diz que sim! – Taehyung choramingou, agarrando-se ao braço de Seokjin com olhos grandes e lábios projetados num bico, utilizando-se de qualquer truque barato pra fazer o mais velho ceder aos seus desejos. Felizmente pra Taehyung – e infelizmente pra Jin – Jungkook e Jimin pareceram comprar a ideia na hora, pois logo o médico tinha que lidar com não uma, mas três pestinhas pidonas e cheias de aegyo.
— Aish, essas crianças. Eu estava pensando em algo mais sofisticado como um restaurante, mas acho que um karaokê serve. – resignou-se com um suspiro, recebendo três exclamações vitoriosas em uníssono como resposta.
— Você também vem, Hobi-hyung? – Jimin perguntou ao dançarino mais velho, e no mesmo instante a atmosfera ficou tensa. Eu tentei ao máximo não deixar transparecer meu desagrado com a ideia de ter Hoseok nos acompanhando, nem a pontada que senti ao ouvir Jimin usar o apelido que eu mesmo costumava usar tantos anos atrás, em épocas mais simples e alegres, mas pelo visto falhei miseravelmente. Sabia disso pelo sorriso triste que Hoseok abriu quando seus olhos se encontraram com os meus pela primeira vez desde que entrei naquela sala.
— Ah, não quero atrapalhar o momento de vocês. Podem ir, tenho um compromisso muito sério com a minha cama de qualquer maneira. – o ruivo riu, mas eu ouvira suas risadas por tempo suficiente pra saber quando eram verdadeiras ou não. O que senti no fundo do estômago não era culpa, me recusava. Entretanto ninguém parecia ansioso em deixá-lo pra trás enquanto se despediam: alguns com um simples aceno, Jimin e Taehyung com um abraço. Eu fui um dos primeiros a sair, incapaz de suportar o ar pesado depois de despedir-me com um quase imperceptível aceno de cabeça; bom, digo quase porque fora imperceptível pra maioria, menos pra Hoseok. – Tchau, gracinha! Até mais, Chim-Chim! Divirtam-se!
Felizmente o dançarino não entrara nos tópicos de conversa durante nenhum momento enquanto fazíamos nosso caminho a pé para o karaokê mais próximo, parando apenas para deixar as inúmeras bolsas e maletas que Taehyung carregava no meu carro antes de prosseguir. Hongdae era o lar de muitos clubes, boates e bares, incluindo alguns bons karaokês, então não precisaríamos ir muito longe até encontrar um que fosse de nosso agrado. Acabou que Taehyung já tinha um lugar específico em mente quando fez a sugestão, então não demorou até sermos todos obrigados a seguir um garoto de cabelos lilases e dono de uma animação imensurável pelas ruas de Hongdae até chegarmos ao nosso destino – um bar e karaokê chamado À la Vôtre.
Ao que tudo parecia o garoto era frequentador assíduo do lugar – ou conhecia alguém que trabalhava lá, não entendi direito – pois num piscar de olhos estávamos numa das saletas reservadas com garrafas de soju e porções de fritas distribuídas na mesa de centro diante de nós, mesmo que geralmente lugares assim tivessem uma fila de espera pra utilizá-las. Taehyung agradeceu a pessoa que nos trouxera toda aquela comida e bebida e desse modo, sem mais perguntas, Jungkook se voluntariou pra ser o primeiro a cantar naquela noite, o que não me surpreendeu nem um pouco, visto a paixão que o garoto tinha pelo canto – talvez, mas só talvez, a cerveja que bebera anteriormente tenha ajudado no processo de quebrar a casca onde se escondia, mas se foi o caso ninguém comentou.
Jungkook abriu a noite com uma balada bastante popular, nos impressionando com seu alcance e técnica vocal, e ninguém se surpreendeu quando a máquina lhe dera a pontuação máxima. Logo foi acompanhado por Taehyung numa música trot, ambos nos dando a performance mais zoada que conseguiam fazer, arrancando boas risadas de todos os presentes e assim obtendo sucesso em quebrar o gelo e tornar a atmosfera instantaneamente mais familiar e agradável. O álcool ajudava, claro, mas era divertido rir das bobeiras que os dois mais novos faziam enquanto Jimin filmava tudo com o celular.
Várias músicas e garrafas de soju mais tarde, Jimin tinha performado Eyes, Nose, Lips com uma emoção exagerada induzida pelo álcool, e se às vezes o mais novo olhava pra mim ao cantar ninguém pareceu notar até o término da música – só então Taehyung e Namjoon se juntaram pra infernizar minha vida e testar minha paciência com brincadeiras e provocações sem fim. Depois foi a vez de Jin nos agraciar com sua bela voz, cantando uma música tão antiga que nenhum de nós sequer conhecia; logo em seguida Namjoon exaltou-se com uma faixa de hip-hop americano bastante popular, mas ninguém além dele era confiante o bastante no seu inglês pra arriscar algumas palavras. Até mesmo eu fui obrigado a tomar o microfone em determinado momento, bêbado o suficiente pra escolher uma das minhas músicas preferidas de Epik High sem protestar. Claro que ter Jimin com um braço ao redor dos meus ombros enquanto dividia o microfone comigo e falhava miseravelmente na parte do rap ajudava e muito.
Não foi até o momento que os mais novos decidiram reencenar o videoclipe de Bang Bang Bang enquanto eu morgava no sofá extremamente confortável que rodeava as paredes da sala, com o que possivelmente era minha terceira ou quarta garrafa de soju nas mãos ao lado de Namjoon e Seokjin, que o líder resolveu iniciar uma conversa comigo. Talvez fosse uma conversa interessante, se não estivesse tão ocupado assistindo Jimin levar seu papel como Taeyang um pouco a sério demais enquanto cantava os versos com a alma e rebolava os quadris de forma hipnotizante. Era difícil tirar meus olhos dele, principalmente quando sua regata semitransparente exibia os músculos de suas costas e a calça de couro que usava abraçava sua bunda de forma tão perfeita. Era realmente uma pena que as palavras de Namjoon sequer tinham chances de competir com aquela visão magnífica, tenho certeza que em outra ocasião estaria mais do que disposto a dar-lhe ouvidos – mas não essa noite.
— ...então acho que se a polícia não está mais na nossa cola, talvez seja seguro voltar pro estacionamento. Primeiro preciso me certificar de que a investigação realmente foi suspensa até segunda ordem, depois podemos convocar uma reunião. Suga, está me ouvindo?
— Uhum. – respondi sem desviar minha atenção de Jimin, nem mesmo pra piscar os olhos. Pelo menos eu tinha presença de espírito suficiente pra saber quando chamavam meu nome, ainda que não fizesse ideia do que Namjoon perguntava. Entretanto uma afirmativa pareceu ser a resposta certa a se dar naquele contexto.
— Tem certeza? Você parece mais interessado na bunda do Jimin do que no futuro da sua gangue. – era engraçado como minha mente funcionava no momento, não sei se por culpa do álcool na minha corrente sanguínea ou dos movimentos sensuais que o garoto insistia em fazer com a pélvis: os ouvidos registravam as palavras, mas meu cérebro era incapaz de processar seu significado. Como não sabia o que lhe responder, só concordei com um murmúrio genérico, esperando que isso o satisfizesse e me deixasse em paz.
— Yoongi-ah, Bang Yongguk acabou de me mandar uma mensagem. Ele disse que quer vê-lo. – ouvi a voz de Seokjin dizer de forma casual, mas até suas palavras soavam como um barulho irritante e sem sentido pra mim. Quando é que eles iam entender que eu não estava a fim de papo?
— Tá bem, mande-o subir. – peguei-me dizendo sem realmente registrar as palavras, apenas soltando o que parecia certo na hora. Diria que até agora estava indo muito bem, inclusive; provavelmente os dois estavam tão bêbados que nem perceberiam se estivessem conversando com a porta esse tempo todo.
— Yah, Min Yoongi! – Jin ralhou, desferindo um tapa abrupto e doloroso na minha nuca que acabou sendo a única forma de despertar-me do meu estupor. Ok, talvez eles não estivessem tão bêbados quanto pensava. – Preste atenção quando estamos falando com você. Você terá tempo pra devorar Jimin o quanto quiser quando formos embora, não precisa comê-lo com os olhos em público.
— Aish, do que está falando?! – exclamei indignado enquanto acariciava o lugar do golpe com o cenho franzido, confuso com aquele tratamento brusco, até suas palavras finalmente fazerem algum sentido e encontrar-me gaguejando e corando como um idiota, tanto pela sugestão da frase quanto por ter sido pego em flagrante. – O q-que—n-não—nós não... nós nunca...
— Nunca o quê? Nunca fizeram sexo? – Jin indagou em tom de brincadeira, rindo da própria piada sem graça logo em seguida, mas meu silêncio era resposta suficiente. Logo todo o divertimento sumira de suas feições, deixando surpresa e incredulidade no lugar. – Puta que pariu. Vocês nunca fizeram sexo?
— Shh, fala baixo! – repreendi num grito sussurrado, arriscando um olhar na direção dos mais novos apenas pra ficar aliviado ao ver que estavam ocupados demais escolhendo outra música do Big Bang pra ouvir o que estávamos dizendo. – Você ouviu o que eu disse, não é surdo nem nada.
— Mas... eu achei que estavam juntos? – sua voz adquirira mais um tom de pergunta do que de afirmação; a confusão do mais velho chegava a ser palpável, emanando do seu corpo em ondas frustradas. – Quer dizer, vocês não precisam fazer nada se não quiserem, mas... Por que não fariam?
— Nós estamos. É que... Jiminévirgem.— resmunguei a última parte, falando tão baixo e embolado pela vergonha que ninguém entendeu nada e fui obrigado a repetir minha sentença. – Jimin é virgem.
— O quê?! – Namjoon e Seokjin exclamaram ao mesmo tempo, alto demais pro meu nível de conforto mas felizmente não alto o suficiente pra vencer a voz estrondosa de Taehyung no microfone. De qualquer maneira, tapei a boca de ambos com as mãos mais rápido do que alguém conseguiria piscar, encarando-os com uma carranca ameaçadora até que estivessem calmos o bastante antes de soltá-los.
— Não precisam fazer estardalhaço. Não é nada demais. – reclamei.
— Desculpa, cara. É só que... é um pouco difícil de acreditar. – o líder disse de forma pensativa, voltando sua atenção para o garoto em questão com olhos avaliadores. Minha vontade inicial era de furar suas orbes e só então perguntar o que ele queria dizer, mas Jin fora mais rápido ao atrair minha atenção pra si, provavelmente sentindo o perigo em que o namorado se encontrava.
— Tem razão, Yoongi. Não é nada demais. Na verdade, isso é ótimo. É ótimo que seja você a compartilhar essa experiência com Jimin e que esteja disposto a esperar o momento em que o garoto estiver pronto. – o mais velho tinha um sorriso afetuoso no rosto, como uma verdadeira mãe orgulhosa. Desnecessário dizer que da mesma maneira me sentia mortificado como o filho que era obrigado a ter a famosa conversa sobre sexo com os pais. Se o chão por acaso me engolisse naquele exato instante, eu seria eternamente grato. – O que pretende fazer quando chegar a hora?
— Como assim? – pisquei os olhos de forma idiota, confuso e genuinamente perdido no rumo que a conversa tomara de repente. O que mais poderia fazer além de finalmente tomar o mais novo pra mim? O soju deve ter me deixado estúpido, pensei. – ...Sexo?
— Yoongi. – sua voz imediatamente adquiriu um tom repreensivo, e de alguma maneira o médico conseguia soar ainda mais maternal do que antes. – Você não está achando realmente que a primeira vez de um homem é igual a de uma mulher, né? Acha que Jimin apenas vai se deitar na cama, molhado e disposto, e esperar por você? As coisas não funcionam desse jeito num relacionamento entre homens. Existe todo um ritual, preparações a serem feitas, complicações a serem levadas em conta. Sinceramente, eu esperava mais bom senso da sua parte.
Recebendo nada além do meu silêncio envergonhado como resposta para seu sermão, Seokjin bufou, revirando os olhos com impaciência diante da minha ignorância. Porém, em minha defesa, não era como se não soubesse o que devia fazer, eu só... nunca tinha pensado nisso antes. O que já não era mais o caso, pois o mais velho havia me dado muito no que pensar agora. Depois de sua reprimenda o ambiente ficara tenso ao nosso redor, imerso num silêncio desconfortável – salvo pelos três que ainda cantavam animados, ignorando tudo que acontecia do outro lado da sala – enquanto pegava-me imaginando como seria minha primeira vez com Jimin. Como já confessara pro mais novo, a vez em que perdi minha virgindade não foi lá grande coisa; desde então eu tive experiências melhores, claro, mas nunca tive a oportunidade de tirar a virgindade de ninguém. O que deveria fazer? Como deveria me comportar? Como o deixaria seguro o bastante pra confiar seu corpo em minhas mãos? Essas eram apenas algumas das muitas perguntas que sobrevoavam minha cabeça, perguntas que estava louco pra saber a resposta, e infelizmente o álcool não me permitia ficar de boca fechada.
— Então... – meu pigarro forçado atraiu a atenção imediata do casal, fazendo-me crer que estavam atentos esse tempo todo, apenas esperando o momento inevitável onde finalmente cederia. – O que devo fazer? C-como... como devo prepará-lo?
— Bem, primeiro você vai precisar de um tubo de lubrificante, e... o quão bom você é com os dedos? – indagou Namjoon de forma sugestiva, mordendo o lábio inferior numa tentativa porca de esconder o sorriso e fazendo-me arrepender amargamente de ter aberto a boca. Na verdade, me arrependia mais de ter vindo beber com esses idiotas. Não, minto: meu maior arrependimento era não ter fugido de Seoul quando tive a chance.
— Não—não, ok, mudei de ideia. Não preciso saber disso. Não quero. Muito obrigado. – continuei balançando a cabeça em negação, tentando fazer-me de surdo enquanto Namjoon ria e insistia na importância de uma preparação bem feita. Naquele momento, não sabia se morria de vergonha ou de nojo: vergonha porque estávamos falando de mim e Jimin, e nojo porque Jin achava que seria relevante pra conversa contar-me todos os detalhes de suas experiências passadas com o líder. – Cala a boca, pelo amor de Deus. Não quero saber sobre a sua vida sexual.
— Mas é importante saber dessas coisas, Yoongi! Você quer que Jimin se sinta bem e não se machuque, certo? – por mais que detestasse admitir, Seokjin tinha razão; eu queria que Jimin realmente aproveitasse sua primeira vez, e jamais me perdoaria caso o machucasse por ignorância. Mesmo que isso fosse custar minha sanidade mental no futuro, peguei-me assentindo com um tímido aceno da cabeça, incapaz de formar palavras e de encontrar seus olhos.
O que se seguiu depois de assinar minha sentença de morte foi uma longa e vergonhosa conversa sobre sexo, o casal narrando com mais detalhes do que gostaria de ouvir todas as suas experiências e peripécias na cama. Felizmente Jimin, sendo o anjo que era, salvou-me da tortura ao sentar do meu lado no sofá e acabar de vez com o assunto anterior, alegando estar cansado e com a garganta doendo de tanto cantar. Não era pra menos, pensei, visto que já estávamos ali por algumas boas horas e os três mais novos eram os que mais monopolizaram o microfone dentre todos nós – mesmo depois de Jimin ter jogado a toalha, Jungkook e Taehyung continuaram berrando letras melosas apaixonadamente como um casal que confessa seu amor eterno um pelo outro, fazendo-me indagar se as pestinhas por acaso estavam ligadas na tomada, e onde poderia desligá-las.
— Ei, Sunshine. Como está se sentindo? – perguntei com um sorriso afetuoso ao ver Jimin lutar contra o sono, piscando as pálpebras pesadas como se apenas isso fosse capaz de mantê-lo acordado. Não me surpreendia que estivesse tão cansado, não quando acabara de dar tudo de si numa apresentação de dança e ainda passara horas brincando e rindo com seus amigos; isso sem contar o fato que Jimin nunca tivera uma boa tolerância ao álcool, pra começo de conversa.
— Estou bem, hyung. E você? – devolveu com aquele sorriso que tanto amava, mas dessa vez seus lábios eram puxados de uma maneira quase preguiçosa: se pelo sono ou pelo álcool eu não sabia, mas era muito difícil me controlar pra não beijar aquele sorriso.
— Melhor agora. Estou aqui me lembrando de como estava bonito ao dançar minha música. Você foi simplesmente perfeito. – Jimin corou sob o elogio sincero, soltando risadinhas embriagadas antes de esconder o rosto no meu pescoço, fazendo-me cócegas com sua respiração quente.
— Eu deixei o hyung orgulhoso? – sabia que o mais novo estava chegando ao seu limite quando indagou com a voz um pouco arrastada, passando o braço por meu tronco num meio abraço desajeitado. Jimin parecia estar tentando se fazer confortável pra dormir ali mesmo no sofá, e de repente peguei-me puxando suas pernas pra descansar sobre as minhas com uma mão enquanto a outra acariciava seus cabelos. Quem nos visse agora diria que tinha um bebê gigante e sonolento no colo, mas felizmente Seokjin fora se juntar ao primo pra cantar trot enquanto Namjoon e Jungkook performavam algum tipo de coreografia esquisita ao seu lado, nenhum deles prestando atenção em nós.
— Mais do que orgulhoso, Sunshine. A melhor coisa que fiz foi escrever aquela música pra você. – afirmei, e nunca falara tão sério. Ali naquela sala de karaokê, com Jimin dormindo profundamente no meu ombro e rodeado por amigos, encontrei-me embriagado não só pelo soju mas pelo sentimento confortável de pertencer a algum lugar, de pertencer a alguém. Se olhasse pra trás não veria arrependimentos, apenas coisas pelas quais agradecer. Era grato por sempre poder contar com Namjoon e Seokjin, era grato por conhecer pessoas como Taehyung e Jungkook, mas era grato principalmente por ter Jimin na minha vida.
Por sua causa eu era uma versão melhor de mim mesmo, alguém que sempre quis ser mas nunca tive coragem ou motivação suficiente. Por sua causa sentia como se tivesse encontrado meu lugar no mundo: ali naquela sala de karaokê, com Jimin dormindo profundamente no meu ombro e rodeado por amigos. Jimin era a causa de tudo isso, e uma simples música era só o começo de uma lista de coisas que gostaria de lhe dar em agradecimento. Se pudesse, eu lhe daria o mundo. Mas por enquanto vou me contentar com uma música... e meu amor.
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