Hold me Tight

37 Primeira vez


— Jimin POV -

Apesar de parecer surpreso com a minha presença, Yoongi não conseguira manter-se consciente por tempo o bastante nem pra perguntar o que eu fazia ali. Assisti com a visão embaçada pelas lágrimas seus olhos lutarem para permanecerem abertos, como se suas pálpebras de repente pesassem toneladas. Ele parecia querer me dizer alguma coisa, se o modo fraco que sua mão apertava a minha quando a envolvi pudesse servir de indicação, suas sobrancelhas juntas e erguidas como se algo lhe causasse confusão ou mágoa. Talvez fosse a visão das minhas lágrimas, ou talvez ele só estivesse desorientado depois de enfrentar uma longa e difícil noite. De qualquer maneira, foram poucos os seus minutos de consciência; pude ver claramente o momento exato em que ele, exausto, se entregara aos braços de Morfeu.

A imagem adormecida de Yoongi era tão diferente de sua imagem acordado. Quando desperto, o loiro era todo carrancas, caretas e rosnados; sempre com as sobrancelhas unidas, lábios puxados pra baixo, cenho franzido, nariz puxado numa careta formando aquela linda ruguinha que eu tanto apreciava. Mas quando dormia, todas as linhas duras e tensas de sua expressão fechada suavizavam-se: não haviam mais rugas na testa e no nariz; os lábios ficavam relaxados, até mesmo projetados pra frente num bico manhoso. Adormecido, Yoongi parecia bem mais jovem do que realmente era – sua pele clara e macia, livre de marcas, somada aos lábios rosados e cílios fartos e escuros, lhe davam a aparência de um anjo. O meu próprio anjo da guarda.

Tal pensamento me levou à uma linha de raciocínio que eu preferia evitar – foi justamente sua vontade incontrolável de me proteger que o colocara em apuros. Eu nunca pedira por nada disso. Não queria que outras pessoas se machucassem por minha causa, muito menos ele. E, sem que eu percebesse, todos ao meu redor acabaram se machucando de alguma forma. Claro, nem se quisesse eu poderia negar que o que aconteceu comigo foi uma experiência horrenda e traumatizante, e que só passei por isso pelo envolvimento que tinha com Yoongi e sua gangue. Mas eu não o culpava, nem queria vingança. Sim, eu estava com raiva. Sim, eu queria que Zelo pagasse pelo que fez – com nós dois. Porém, certas coisas simplesmente fogem do nosso controle, e essa era uma delas. O que eu mais queria era esquecer o episódio e seguir em frente, superar os medos e os traumas e viver uma vida tranquila e normal – na medida do possível. Eu nunca concordei com a ideia de vingança que Yoongi tinha de forma tão teimosa e obstinada gravado em sua mente, apegando-se à ela como se sua vida dependesse disso, pois pra mim a violência não era a solução, mas sim a fonte do problema. Sede de vingança só leva à mais vingança, violência e sangue, criando um ciclo vicioso e autodestrutivo, impossível de controlar. Violência não resolve os problemas. Violência machuca as pessoas. Não só aquele que está recebendo a agressão diretamente, mas todos aqueles ao seu redor. Eu sou prova viva disso – e agora Yoongi também.

Eu poderia até mesmo esquecer o que havia acontecido, vendo-o dormir tão pacificamente, se ele não estivesse deitado sobre uma cama de hospital com bandagens envolvendo seu peito e ombro, espreitando por baixo dos lençóis. Receber a notícia de que Yoongi havia sido baleado por telefone fora péssimo, bombardeando-me com as mais diversas sensações, todas elas negativas – choque, confusão, negação, desespero, dor. Mal tive tempo de explicar à Taehyung e Jungkook o que acontecera antes de disparar porta afora rumo ao estacionamento, onde sabia que o encontraria. Era engraçado pensar em como o humor de uma pessoa podia mudar em questão de instantes. Por mais que minha viagem à Busan tivesse sido a melhor de todas, tanto eu quanto os mais novos estávamos ansiosos pra retornar à Seoul, retornar à nossa rotina habitual, por isso decidimos pegar o primeiro trem de volta. O motivo da minha ligação fora justamente avisar alegremente à Yoongi que eu estava na cidade. Mas, ao invés disso, descobri que muitas coisas haviam acontecido durante minha ausência. Yoongi fora baleado. Seu quadro era estável, mas ele sobrevivera por pouco. Agora dormia sob efeito de remédios e anestesias, mas ele poderia acordar a qualquer minuto. E quando acordasse, precisaria de mim lá, ao seu lado. Então eu fui.

Eu pensava que as sensações que me assolaram ao receber a notícia haviam sido fortes e dolorosas, as piores possíveis, mas nem sequer se comparavam ao que senti quando o vi diante de mim – pálido, frio e praticamente imóvel. Eu sabia que estava vivo porque era o que Jin-hyung havia me dito por telefone, mas se olhasse com atenção podia ver o quase imperceptível movimento que seu peito fazia ao respirar, corroborando as palavras do mais velho e servindo-me de alivio, ainda que pouco. Namjoon e Seokjin haviam demonstrado grande compaixão e paciência ao me contarem tudo que acontecera, do começo ao fim: Yoongi, ao correr atrás de Zelo e isolar-se dos demais, acabara levando tiros no ombro e peito, perigosamente próximo do coração. O procedimento para remover as balas era arriscado, e como era de se esperar, houveram complicações no meio do caminho. Seu coração chegou a parar de bater por uns instantes, e se não fosse pela determinação da assistente de Seokjin, eu poderia estar agora de luto diante de um túmulo.

A mera ideia de perder Yoongi me trazia uma dor forte no peito, como se houvesse um punho de ferro prendendo meu coração em seu domínio implacável. Era verdade que eu só o conhecia por alguns poucos meses, mas sua presença causara um impacto tão grande na minha vida, que se de repente eu me visse sem ela, seria como se uma parte de mim se fosse junto. Porém, eu não queria ficar me torturando com as inúmeras possibilidades do que poderia dar errado, os inúmeros “e se?” que a minha mente era capaz de proporcionar, pois agora Yoongi estava vivo e relativamente bem, com batimentos constantes, temperatura corporal normalizada e bochechas com um rubor saudável. Se Yoongi estava bem agora, era graças aos esforços de Seokjin e sua assistente, Wheein. Jin-hyung já sabia o quão grato eu era à ele, pois fiz questão de lembrá-lo disso diversas vezes durante essas poucas horas que passei no estacionamento. Mas ainda não tive a oportunidade de falar com a enfermeira – o mínimo que eu poderia fazer era agradecê-la.

Decidido, resolvi deixar o lado de Yoongi e o recinto quase vazio – salvo por Jin e dois de seus ajudantes, absortos numa conversa sussurrada a alguns metros de distância a fim de me dar um pouco de privacidade – atrás da dita enfermeira, que havia saído com a missão de buscar remédios para o paciente. Não demorei a encontrá-la, caminhando com passos apressados pela extensão do primeiro andar, prestes a subir as escadas que a levariam para o laboratório. Ao me ver, a moça sorriu e interrompeu seu trajeto, fazendo uma breve reverência em cumprimento, a qual eu respondi da mesma maneira.

— O-olá. Wheein-ssi, certo? Meu nome é Park Ji-Jimin. – disse, tentando retribuir-lhe o sorriso na mesma intensidade e torcendo para minha voz não denunciar o leve nervosismo que sentia ao falar com ela pela primeira vez. Não é que eu não era bom em fazer novos amigos, mas Taehyung era muito melhor nisso do que eu.

— Sim, eu sei quem você é. – devolveu com um sorriso doce, que logo morreu em seus lábios quando seus ouvidos captaram o tom vacilante de minha voz. – Está tudo bem? – indagou, sua voz melodiosa pingando preocupação. Eu rapidamente desfiz o mal entendido, sacudindo a cabeça e lhe lançando um sorriso – sincero, dessa vez.

— Está sim, não se preocupe. Suga ainda está dormindo. – assegurei-lhe, ouvindo Wheein soltar um suspiro de alivio. Me sentindo um pouco auto consciente, fiquei a observar meu tênis chutando distraidamente alguma pedra imaginária no piso cimentado do estacionamento enquanto formulava a melhor maneira de dizer aquilo que me impelira a vir até ela. – Eu só... eu só queria te agradecer.

— Pelo quê? – Wheein parecia genuinamente curiosa, se não espantada com a minha súbita declaração. A moça me encarava com ambas as sobrancelhas erguidas e olhos atentos e curiosos, estudando cada pedaço de minhas feições.

— Por ter salvo a vida dele. – esclareci, sorrindo ao ver a maneira como a garota prontamente negava com um aceno de cabeça, como se dissesse que ela não tinha parte nenhuma naquele feito. – Não precisa ser tão modesta. Jin-hyung me contou tudo. Ele e Namjoon-hyung já haviam desistido enquanto você persistiu. Sempre serei grato por isso.

— Não, Jimin-ssi. Eu não fiz nada merecedor de aplausos ou gratidão. – disse abanando a cabeça, seu semblante de repente tornando-se sério. – A única coisa que fiz foi meu dever, o que Jin já esperava de mim. É pra isso que eu sirvo: estar presente quando Seokjin mais precisa.

— Wheein. – chamei, adotando uma postura de falsa repreensão. – Apenas aceite meus agradecimentos.

— Já que insiste. – a moça por fim resignou-se, rindo com a minha insistência. – Será que você poderia levar esses remédios até Jin? Eu mesma levaria, mas estou exausta e preciso mesmo de algumas horas de sono. E já que está aqui... Você não está indo embora, está?

— Não, eu pretendo ficar mais um pouco ao lado de Yo—Suga. Eu posso fazer esse favor pra você, sem problemas. – sorri, um pouco nervosamente, temendo ter sido descoberto ao quase proferir o nome verdadeiro do outro. Eu não sabia quantas pessoas o conheciam por esse nome, mas felizmente Wheein não deu o menor sinal de ter captado meu pequeno deslize. A enfermeira apenas sorriu de forma radiante e me estendeu a sacola que apresentava o nome de uma farmácia local, a qual eu peguei sem hesitações. Subimos as escadas de volta lado a lado até ela se despedir num dos pavimentos anteriores àquele para o qual me dirigia, onde eu sabia que abrigavam os dormitórios para aqueles que não tinham onde ficar. Segui para o último andar pensando em como era bom saber que Yoongi tinha boas pessoas ao seu redor.

Não só Seokjin e Namjoon, que eu tinha como fato que eram capazes de mover montanhas para ajudar o melhor amigo, mas também a doce Wheein com sua inigualável modéstia, ou Jia, que embora eu admitia não conhecer muito bem – ao ponto de ser capaz de arranjar alguns mal entendidos de início –, sabia que era amiga de Yoongi e isso pra mim já era o bastante. Ou até mesmo Hoseok-hyung – até certo ponto. Esses eram apenas aqueles que eu podia nomear, sem contar as outras tantas pessoas que ainda não conheci – tanto dentro da gangue quanto fora. Eu não era estúpido: sabia que no ramo que Yoongi trabalhava, merdas de todos os tipos estavam fadadas a acontecer. Eu só me sentia aliviado por saber que existiam pessoas dispostas a ajudá-lo a superar qualquer dificuldade na estrada, qualquer pedra que por ventura pudesse surgir em seu caminho. Por que sozinho não seria capaz de protegê-lo e evitar que o loiro se metesse em mais problemas do que o normal, disso eu estava certo. Então essa realização me tranquilizava, de certa forma.

Tal fato só se mostrou mais verdadeiro quando atravessei a porta pesada do laboratório para encontrar Jin, aparentemente à contragosto, ajudando um Yoongi desperto e irritado a colocar as roupas de volta. Quando entrei, o loiro terminava de abotoar as calças enquanto Seokjin puxava sua camisa a fim de cobrir-lhe o tronco, resmungando coisas um para o outro que parecia ser o início de uma briga. Ver Yoongi de pé me traria um profundo sentimento de alívio e alegria se não soubesse que ainda era muito cedo para tal feito. Ele precisava permanecer deitado, repousando; seus ferimentos eram recentes e sem dúvidas seu corpo ainda estaria muito debilitado. Aproximei-me com passos decididos para dizer-lhe exatamente isso quando cheguei próximo o bastante para distinguir sobre o que discutiam. Pelo pequeno trecho da conversa que pude captar, Yoongi queria ir pra casa e ficar sozinho, mas Seokjin insistia para que ele ficasse no laboratório, ou ao menos em seu apartamento em Gangnam – lá seria bem mais confortável para o outro.

— Eu posso ficar com ele, se quiser. – disse com um encolher de ombros, sobressaltando ambos com a minha aparição repentina. O loiro tomou a dianteira assim que pôs os olhos sobre mim, impedindo-me de sequer elaborar minha sugestão.

— Então você realmente está aqui. – constatou com a voz controlada, tensa, deixando um suspiro escapar de seus lábios. – Por um momento pensei que estava sonhando.

— Por que diz isso? Não posso estar aqui? – indaguei, torcendo para que a pontada de dor que sentira não pudesse ser percebida através de minhas palavras. Aparentemente eu havia falhado, pois Yoongi desviara o olhar tão logo vocalizei meus questionamentos.

— Não é isso. É só que... como você descobriu? – perguntou-me com algo semelhante a vergonha tingindo seu tom de voz, ainda recusando-se a encontrar meu olhar.

— Eu contei pra ele. – interveio Jin antes que eu pudesse responder. – Ou melhor dizendo: ele ligou pra você, então eu atendi a ligação e lhe expliquei tudo.

— Você não tinha o direito, Seokjin. – Yoongi protestou, tentando colocar um pouco da rispidez usual nas palavras, mas sua fala ainda tingida pela vergonha soou mais como um sussurro contrariado. Pude sentir novamente aquela pontada de dor no peito. O que ele queria dizer com aquilo? Será que Yoongi realmente pretendia me deixar no escuro?

— Eu tinha todo o direito, Yoongi. – rebateu o mais velho, partindo mais uma vez em minha defesa antes mesmo que eu pudesse protestar. – Jimin não merecia ficar alheio à toda a merda que aconteceu essa noite. Ele precisava saber.

— Isso era algo pra eu mesmo decidir. – rosnou, tentando cutucar o outro no peito numa tentativa fraca de intimidação, esquecendo-se por um instante do braço machucado e sibilando de dor antes de completar o movimento. Lá estavam eles de novo, brigando como dois cães raivosos; eu não suportava vê-los sendo hostis um com o outro dessa maneira, e a dor de Yoongi era minha deixa para tentar apartar a briga antes que tomasse proporções descomunais.

— Eu trouxe os remédios que Wheein foi comprar. – anunciei enquanto erguia a sacola entre os dois, na altura da visão do médico, e atraía sua atenção imediatamente. Tive de reprimir um suspiro quando notei que minha distração tinha dado certo; todo aquele papo que me envolvia direta e indiretamente já estava me dando nos nervos.

— Oh, perfeito. – Jin regozijou-se, tomando a sacola plástica de minhas mãos e vasculhando seu interior num único movimento. O mais velho parecia absorto com o conteúdo da sacola até algo clicar em sua mente, fazendo-o hesitar. – Onde está Wheein?

— Ela disse que precisava dormir. Pediu-me pra trazer isso no lugar dela. – reportei.

— Ah, mas é claro. Que cabeça a minha. – disse, estalando a língua no céu da boca como se repreendesse à si mesmo. – Wheein merece um bom descanso, sua ajuda foi mais do que valiosa. Preciso pensar num jeito de recompensá-la depois.

— Não sei se ela vai aceitar uma recompensa muito bem. Tive dificuldades pra fazê-la sequer aceitar minha gratidão. – disse em tom brincalhão, porém minha piada tinha uma porcentagem considerável de verdade para arrancar uma risada do mais velho.

— Isso soa mesmo com a Wheein que eu conheço. – concordou.

— Onde está Rapmon? – Yoongi o questionou de repente, como se só agora notasse a falta do outro, cortando abruptamente nossas risadas.

— Rastreando Zelo, eu imagino. – foi a resposta simples e direta que o moreno lhe deu, mas não parecia ser o que o loiro queria ouvir. Yoongi encarou-o por alguns minutos com uma expressão indecifrável no rosto, fechando as mãos em punho, antes de começar a procurar freneticamente por seus sapatos como se estivesse com pressa pra ir embora. – Onde você pensa que vai?

— Ajudá-lo. – respondeu curto e grosso, sem sequer lhe dirigir o olhar.

— Não precisa. Namjoon já foi até Zico pedir-lhe ajuda pra isso. – Seokjin informou-lhe, os braços cruzados na altura do peito e parecendo nenhum pouco disposto a deixá-lo sair.

— Mais um motivo pra ir. Rap Monster só pode estar louco se pensa que pode pedir mais um favor pra Zico depois de levarmos seus homens pra uma emboscada. – disse enquanto enfiava o pé num dos sapatos bruscamente, antes de saltitar até o outro par e fazer o mesmo.

— Você está muito enganado se pensa que eu vou permitir que saia nesse estado, Yoongi. Neste momento você só tem duas escolhas: ou você fica aqui onde eu possa te ver, ou vai pra casa e deixa que Jimin cuide de você. Ir atrás de Zelo não é uma opção. – Jin anunciou com uma voz firme e decidida, uma voz que não permitia retruques, enquanto o segurava no lugar com a mão pousada em seu ombro. Yoongi parecia querer ignorar essa voz e rebater, talvez até empurrá-lo pra fora de seu caminho, mas Seokjin calou-o com um dedo pousado sobre seus lábios. – Não há motivos pra você se preocupar. Namjoon e Jiho tem uma amizade de longa data, não há nada que eles não possam resolver amistosamente. Tenha um pouco de confiança no seu líder, sim?

— Você não entende, Jin—

— Não, quem não entende aqui é você. – cortou o outro, usando a mão que antes o calava para erguer dois dedos na frente de seus olhos conforme enunciava suas possíveis escolhas. – Você só tem opção a: ficar aqui comigo. Ou opção b: ir pra casa com Jimin. Qual delas vai ser?

— ... Opção b. – Yoongi respondeu com um grunhido irritado depois do que pareceu horas de debate e análise de todos os prós e contras. Claramente o loiro não estava satisfeito, mas dada sua posição impotente diante de escolhas limitadas, Yoongi pareceu escolher o menor dos males.

— Ótima escolha. Vamos, eu levo vocês. – Jin anunciou num tom de voz animado e contagiante, parecendo bem satisfeito consigo mesmo. Yoongi hesitou por um instante, ainda com aquela carranca contrariada no rosto, mas acabou por o seguir. O loiro andava com um pouco de dificuldade, devido à que eu não sabia exatamente: talvez fossem os ferimentos, ou o efeito dos anestésicos em seu corpo. De qualquer maneira, Jin notou a vacilação em seus passos e prontificou-se a ajudar o amigo, envolvendo um dos braços do outro sobre seus ombros enquanto seu próprio braço apoiava suas costas. Pus-me a copiar suas ações, tomando o lado oposto de seu tronco, e juntos caminhamos em direção à saída. – Aguenta mais um pouco, Suga. Eu te dou os remédios quando chegarmos lá.

Acontece que mesmo com duas pessoas o escorando, Yoongi ainda andava muito devagar e dificultosamente; some isso ao fato de que três pares de pernas tentando descer as escadas ao mesmo tempo não era uma tarefa muito fácil, e tínhamos um problema. Impaciente e incomodado com o progresso lento que estávamos fazendo, abaixei-me para encaixar o braço livre atrás dos joelhos do loiro, pegando-o no colo sem aviso. Tinha que admitir que Yoongi era leve até demais para um garoto em seus vinte e poucos anos, mas apesar disso eu quase perdi o equilíbrio por um momento – o que já era de se esperar, pois eu mesmo tinha acabado de me recuperar dos meus próprios ferimentos, então meus músculos ainda estavam bem fracos. Era hora de voltar à academia, decidi, ajeitando-o nos braços de modo a distribuir seu peso mais confortavelmente.

— Que porra você está fazendo?! Me coloque no chão! – Yoongi protestou depois do susto que levara, contorcendo-se violentamente na tentativa de livrar-se de mim, sacudindo braços e pernas num súbito ataque raivoso.

— No passo que estamos só vamos chegar ao térreo quando anoitecer. Assim é mais rápido. – dei de ombros, fazendo questão de ignorar seus protestos enquanto descia as escadas num ritmo bem mais agradável com um Seokjin extremamente entretido no meu encalço.

— Mas que merda, Park Jimin! Eu não estou brincando! Já falei pra me colocar no chão! – vociferou, sendo capaz de agitar-se ainda mais nos meus braços e quase conseguindo me fazer perder o equilíbrio novamente e deixá-lo cair. Apertei-o contra meu corpo, tentando deixá-lo seguro contra meu peito e mal obtendo sucesso.

— Suga, pare de ser tão dramático. Do que você tem medo? – Jin indagou com divertimento colorindo sua voz. – Namjoonie te trouxe aqui da mesma maneira, então essa não será a primeira vez que os outros te veem sendo carregado por aí. Relaxe.

Aparentemente as palavras de Seokjin surtiram o efeito desejado, pois ao ouvi-las o loiro arregalou os olhos e imediatamente ficou calado e imóvel, com uma expressão de completo pavor no rosto. Se pudesse confiar em meus olhos, diria que havia um leve rubor constrangido colorindo suas bochechas também. Entretanto, assim que Yoongi se recuperou do choque, tais palavras não foram capazes de impedir que balbuciasse uma infinidade de xingamentos e obscenidades pelo resto do caminho, cruzando os braços na altura do peito e evitando à todo custo encontrar tanto o meu olhar quanto o de Jin-hyung. Não consegui segurar uma risadinha que borbulhava em meu peito, louca pra escapar; de fato, orgulho próprio era tudo pra Min Yoongi.

Saímos do estacionamento em pouco tempo agora que Yoongi já não nos atrasava mais, e do lado de fora podia ver seu carro preto estacionado não muito distante, o único veículo visível nas proximidades. Deixei que Seokjin liderasse o caminho até que o mais velho parou diante do automóvel e pediu as chaves para o loiro, a qual lhe foi estendida segundos depois, tirada de um de seus bolsos traseiros. Jin ajudou-me a acomodar Yoongi no banco traseiro antes que eu mesmo ocupasse o lugar ao seu lado, ignorando seus olhares tortos e grunhidos sussurrados, para só então contornar o veículo e tomar-lhe a direção. As ruas estavam cheias devido ao horário de almoço, mesmo naquela parte da cidade, fazendo com que a viagem para o apartamento de Yoongi fosse interrompida diversas vezes por tráfego lento e semáforos no caminho.

— Será que você poderia ir mais rápido? Tem gente sofrendo aqui atrás. – protestou Yoongi, irritado, mas eu imaginava que seu drama fosse proposital; o loiro era capaz de fazer qualquer coisa para conseguir que fizessem suas vontades.

— Existe algo conhecido como leis de trânsito, Yoongi. Você deve conhecer. – Jin devolveu sarcasticamente, trocando olhares com o outro através do espelho retrovisor no interior do carro.

— Que se foda você e suas leis de trânsito. Só quero que aprenda de uma vez por todas pra que serve o acelerador. Você dirige muito mal. – pude notar uma certa tensão na sua voz, e quando me virei encontrei-o se remexendo no banco traseiro, mordendo o lábio inferior para impedir que mais sons escapassem da sua boca enquanto uma careta de dor adornava sua face. Eu não sabia se aquela dor era real ou fingida, mas fora o suficiente pra deixar-me em estado de alerta.

— Corrigindo: você dirige muito mal. – rebateu o outro, parecendo não perceber a mudança no tom de voz do loiro, pois mostrava-se nenhum pouco abalado pelas palavras anteriores.

— Não podemos cortar caminho? Sei lá, pegar outra rota? Quanto antes chegarmos lá, melhor. – sugeri, tentando não ofender o motorista e não denunciar o estado de Yoongi para o caso de ser alarme falso, mas impaciente e nervoso demais pra ficar quieto.

— Viu só? Até Jimin concorda comigo. – Yoongi provocou com a voz áspera, deixando um fraco sorriso vitorioso estampar seus lábios, ainda que este sorriso se transformasse num rosnado mudo logo em seguida.

— Calem a boca, vocês dois. Já estamos chegando. – Jin deu a palavra final, seu tom finalmente transparecendo a preocupação que sentia enquanto acelerava um pouco mais o carro, demonstrando ter conhecimento sobre o estado sofrido do amigo. Quando uma nova onda de dor surgiu em seu corpo, Yoongi estendeu a mão para apertar meu joelho com força, fechando os olhos e deixando um sibilo escapar por entre os lábios. Antes que me desse conta do que estava fazendo, apoiei minha mão sobre a sua numa fraca tentativa de confortá-lo. Aguente firme, Yoongi. Estamos quase lá.

Uma espécie de suspiro coletivo ressoou pelo interior do automóvel no momento que Jin o estacionara ao lado do prédio de Yoongi. Pelo restante do caminho o ambiente havia se tornado quieto e tenso, com os ocasionais ruídos de dor que Yoongi deixava escapar servindo de som ambiente. À essa altura eu já estava uma pilha de nervos, sobrecarregado com tanta ansiedade e apreensão, tanto que não perdi tempo em pular pra fora do carro assim que este parou na calçada. Seokjin e eu ajudamos o loiro a descer com um pouco de dificuldade, e no momento que Yoongi estava erguido sobre os dois pés no pavimento duro peguei-o no colo como havia feito no estacionamento e segui prédio adentro, deixando o mais velho de nós encarregado de trancar o carro atrás de si.

— Me solte, Jimin. Pare com isso, eu ainda consigo usar minhas próprias pernas. Que inferno! – protestou, adotando a mesma posição hostil de antes, agitando-se como uma criança petulante.

— Se não estou enganado, seu prédio também não possui elevadores, certo? – perguntei, mesmo que já soubesse a resposta. – Se eu deixar você subir as escadas sozinho nós vamos demorar muito. Não reclame, você sabe que desse jeito será mais rápido. Além do mais, você está com dor, não está?

Yoongi não desistira de protestar, mesmo que seus protestos tivessem diminuído consideravelmente de intensidade; ele sabia muito bem que nada que dissesse me faria mudar de ideia. Se tentasse, ele só estaria gastando fôlego e saliva, pois eu apenas ignoraria todas as suas investidas e ameaças. Ao entrarmos no prédio, fui nocauteado pelo forte odor de mofo, vômito e cigarros que impregnava o local. Não era minha primeira vez ali, mas peguei-me indagando se o cheiro sempre fora tão forte e eu apenas não me recordava, ou se de alguma forma havia ficado pior. Percorremos corredores estreitos e escuros entre lances de escada que rangiam sob nosso peso, fazendo o possível para não tropeçar em pessoas que pareciam muito chapadas pra encontrar a porta de seus apartamentos e que decidiram dormir por ali mesmo, no meio do caminho. Eu não queria julgar, mas não pude evitar de torcer o nariz diante de tal visão. Já fazia um tempo desde a última vez que eu viera aqui, mas sinceramente não me recordava do local ser tão imundo e decrépito – não que das outras duas vezes eu tivesse tempo ou cabeça pra parar e analisar o ambiente, mas ainda assim. Me pergunto como Yoongi conseguia morar num lugar como esse.

— Por que insistiu tanto em vir pra cá? Nós podemos ir pro meu apartamento se quiser, tenho certeza que Taehyung e Jungkook não vão se importar. – sugeri com a voz mais inocente que conseguia fazer, tentando não chateá-lo ou deixar muito na cara meu desgosto pelo lugar.

— Não adianta, Jimin. Eu também já ofereci meu próprio apartamento pra ele, mas Yoongi prefere essa pocilga. Esse garoto consegue ser teimoso como uma mula quando quer. – bufou Jin, revirando os olhos.

Yoongi por sua vez não se dignou a responder nenhum dos dois, contentando-se em resmungar coisas inteligíveis para si mesmo, num tom tão baixo que me perguntava se ele não estaria xingando a nós e a todos os nossos ancestrais. Contudo, acho que consegui captar algo como “não há nada de errado com o meu apartamento”, mas não tinha certeza.

Quando chegamos no terceiro andar, mais especificamente diante da porta com tintura branca descascada e número 302 enfeitando a madeira – ou melhor, o número 30 e apenas o contorno do número 2 – Seokjin pediu novamente pelas chaves, dessa vez da casa, recebendo-as logo depois. A primeira coisa que nos saudou ao abrir a porta foi a total escuridão, seguida pelo cheiro forte de licor e tabaco, tão característico de Yoongi. Após tirar os sapatos, Jin cruzou o apartamento acendendo todas as luzes em seu caminho, sendo seguido de perto por mim, já que eu não estava familiarizado o bastante para encontrar meu próprio caminho. O mais velho me conduziu até onde assumi ser o quarto de Yoongi, um cômodo simples mobiliado com uma cama de casal, um guarda-roupa, uma escrivaninha com um notebook apoiado sobre o tampo e pesadas cortinas nas janelas, deixando o ambiente escuro como o resto do apartamento. Com um singelo sentimento de auto consciência, depositei Yoongi gentilmente na cama, tomando especial atenção ao tirar seus sapatos e puxar os lençóis que estavam amassados no pé da mesma sobre seu corpo.

— Você poderia pegar um copo de água pra mim, Jimin? – pediu Jin enquanto separava os remédios que tinha na sacola, depositando-os sobre o criado-mudo ao lado da cama.

Prontamente atendi seu pedido e me dirigi até a cozinha, um pouco perdido por não saber onde ficavam as coisas, mas depois de muito vasculhar armários e mais armários, consegui encontrar um copo relativamente limpo pra usar. O enchi de água da torneira – visto que só encontrei álcool na geladeira – e retornei para o quarto, onde Yoongi já tinha dois comprimidos em mãos. Sem pensar muito no assunto tentei dar-lhe água na boca, a fim de evitar que usasse desnecessariamente o braço ferido, mas o gesto pareceu ofendê-lo. Yoongi tomou o copo de minhas mãos bruscamente enquanto enviava adagas em minha direção com os olhos.

— Eu posso segurar o copo sozinho, obrigado. – disse rispidamente, tomando os comprimidos em grandes e poucas goladas. Desviei o olhar, sentindo-me igualmente envergonhado pelas minhas ações e assustado por sua reação violenta. Não era minha intenção insinuar nada com o pequeno gesto, apenas ajudá-lo, mas ainda assim eu consegui irritá-lo de alguma forma. Muito bem, Park Jimin.

— Yah, olha como fala. Sua mãe não lhe ensinou bons modos? – Jin ralhou com o loiro, suspirando ao não receber resposta quando tirou o copo vazio de suas mãos e o depositou no criado-mudo ao lado do rádio-relógio. Quando Yoongi não deu o menor indício de que iria respondê-lo eventualmente, o médico voltou-se para ele com algo semelhante à preocupação no olhar. – Os remédios vão fazer efeito em pouco tempo, você pode sentir uma sonolência quando isso acontecer. Está com fome? Quer que eu faça algo pra você comer? – sugeriu.

— Não, estou bem. Prefiro que parem de me tratar como um maldito inválido. Eu posso muito bem me virar sozinho. – rosnou cheio de amargura na voz, como se de repente não nos visse mais como seus amigos, mas sim inimigos.

— Não, você claramente não pode. – Jin explodiu, cansado da atitude do outro. – Eu não queria falar “eu te avisei”, mas... Eu te avisei. Se você tivesse me escutado, não teria se metido na merda que se meteu. Mas você é muito foda pra ouvir conselhos, não é? Você precisa fazer as coisas exatamente do seu jeito, e quando dá errado, somos nós que ficamos pra trás limpando sua bagunça.

— Eu não pedi pra ninguém fazer nada. Ir atrás de Zelo era interesse meu, e meu apenas. – retrucou. Eu podia sentir o sangue do loiro fervendo, sua respiração se tornando pesada, sua mente obscurecida pela raiva. As palavras de Jin sem dúvidas haviam atingido algum nervo.

— Você não entende, Suga. – disse o mais velho, balançando a cabeça como se sentisse pena do outro. – Não se trata de você pedir ou não. Nós somos seus amigos e nos importamos com você, por isso te ajudamos. Nós queremos te ajudar. Então, por favor, tire sua cabeça do rabo uma vez na vida e permita-nos.

Yoongi o encarou por longos segundos com uma expressão indecifrável no rosto. Pouco a pouco, a raiva foi dando lugar à vergonha, e pude ver o modo como seus ombros caíram e como seu queixo tentava se encontrar com seu peito na tentativa de esconder seus olhos. – Me desculpe. – disse por fim num quase sussurro, incapaz de nos encarar.

— O que disse? Eu não ouvi. – provocou Seokjin, cruzando os braços na altura do peito, desafiando-o a falar mais alto ou manter-se calado.

— Eu disse me desculpe. – disse com mais convicção na voz, elevando seu olhar para encontrar o de seu hyung sem vacilar.

— Não é pra mim que você precisa falar isso. – devolveu, e eu simplesmente sabia que ele estava se referindo à mim. De repente aquele sentimento de auto consciência tinha voltado com força total, fazendo-me querer me esconder apenas para fugir daquela situação embaraçosa. Por um breve instante meus olhos encontraram os de Yoongi, tão negros e misteriosos, mas a pressão era demais pra mim, então os desviei rapidamente, envergonhado. Jin suspirou pelo que parecia a milésima vez, notando nossa pequena troca e parecendo insatisfeito. – Eu não posso ficar, mas volto à noite pra ver como você está, ok? Tente não ser um completo escroto com o menino.

— Eu posso te acompanhar, se quiser. – ofereci ao vê-lo sair do quarto, louco por uma desculpa pra me livrar do ambiente pesado e incômodo. Tentei lhe lançar uma súplica com o olhar, mas Seokjin apenas sorriu piedosamente e me devolveu um olhar de pena, antes de balançar a cabeça em um gesto negativo.

— Não precisa, Jiminie. Eu conheço a saída. – lançando um último olhar afiado como forma de aviso à Yoongi, Jin foi embora, tomando a liberdade de gritar “comportem-se!” por cima do ombro antes de fechar a porta atrás de si.

Com sua saída, o quarto ficara novamente imerso num silêncio desconfortável, a tensão tão grande que chegava a ser palpável. Eu ainda me recusava a encontrar o olhar de Yoongi, preferindo olhar para meus próprios pés ou para algum ponto interessante no carpete, qualquer coisa que me impedisse de erguer a cabeça. Eu não sabia o que fazer ou o que dizer. Seu tratamento brusco me dizia que minha presença não era bem-vinda, mas eu disse que cuidaria dele, então assim o faria. Alguns minutos que mais pareciam horas passaram-se dessa forma, nenhum dos dois querendo dar o braço a torcer e iniciar uma conversa, até que o loiro pigarreou pra chamar minha atenção.

— O que foi? – indagou. Sua súbita pergunta me trouxe confusão, e com isso o loiro conseguira atrair minha atenção por completo. Ergui meu olhar confuso para lhe questionar silenciosamente o significado daquelas palavras, quando eu mesmo não havia proferido nenhuma. Entretanto, Yoongi apenas sustentou meu olhar, sem elaborar mais adiante.

— Eu não disse nada. – respondi ainda sem entender.

— Ainda não, mas quer dizer. Então desembucha logo. – comandou, dando tapinhas no colchão ao seu lado num convite silencioso para que me sentasse. Aceitei seu convite, apesar de manter uma distância respeitosa enquanto sentava-me na beirada da cama, costas eretas e ombros tensos, mãos brincando nervosamente no colo e olhos aflitos percorrendo todos os cantos do quarto, menos aquelas orbes negras que me estudavam com afinco. Era como se eu não soubesse como agir perto dele, como se tivéssemos voltado àquela época onde não havia a familiaridade, os contatos íntimos, nem as palavras doces. Logo percebi que odiava esse sentimento.

— Foi por isso que você não quis ficar mais um pouco em Busan, não é? Porque precisava ir atrás de Zelo. Por que não me contou? – percebi que dançar ao redor do problema não resolveria nada, então decidi ir direto ao assunto. Tomei coragem para olhá-lo nos olhos enquanto esperava uma resposta; Yoongi parecia pensar cuidadosamente nas palavras que diria a seguir, mordendo o interior das bochechas enquanto sustentava meu olhar.

— Do que adiantaria? Você não poderia fazer nada à respeito, de qualquer forma. – respondeu por fim, dando de ombros.

— Se soubesse pra onde estava indo, o que iria fazer, teria tentado te impedir. Ter te convencido à ficar comigo. Dormir um pouco pelo menos, não sei. – sugeri, copiando o movimento de seus ombros, mas logo em seguida corri as mãos pelos cabelos em aflição. Eu deveria ter insistido para que ficasse. Deveria ter feito mais.

— Eu sei que sim. E sei também que se tentasse, eu provavelmente acabaria cedendo. Por isso você não podia saber. Não podia deixar que ninguém atrapalhasse meus planos. – disse seriamente. Como Yoongi era capaz de dizer algo tão cruel? Eu sinceramente não o entendia. Será que ele não sabia o quanto suas palavras machucavam?

— Atrapalhar seus planos? – repeti, incrédulo. – Hyung, você consegue ouvir a barbaridade que está falando? Você foi baleado! Isso estava nos seus planos? – juro que não era minha intenção jogar a verdade nua e crua na cara dele dessa maneira, mas não consegui me controlar. Yoongi falava como se sua vingança fosse a coisa mais importante para si; mais importante até do que sua saúde. Mais importante até mesmo do que eu.

— Vou fingir que não ouvi isso. Essa pergunta é estúpida demais pra receber uma resposta. – falou entredentes, seu olhar adquirindo uma tonalidade fria e dura novamente. Era visível o esforço que ele fazia pra não gritar, não descontar sua raiva em mim. Mas eu também o podia ver perdendo o controle sobre suas emoções pouco a pouco. – Eu sabia que era perigoso, ok? Eu sempre soube. Mas de qualquer jeito, não podia deixar de ir atrás dele. Eu precisava fazê-lo sofrer pelo que você sofreu, antes que ficasse louco.

— E por acaso você conseguiu? – alfinetei com a voz ácida e cheia de veneno. Eu também já não tinha mais controle sobre minhas ações ou palavras. Só queria que ele enxergasse e admitisse que cedeu à sua ira e tomou a rota mais fácil, a rota que quase custou sua vida. Estava cansado de ouvi-lo tentar se justificar ao me usar como desculpa. Eu não me recordava de ter pedido por nada daquilo, muito pelo contrário. – Até onde eu saiba, Zelo escapou.

— Eu sei! – explodiu, sua voz aumentando consideravelmente de tom ao mesmo tempo que, num ímpeto de raiva, Yoongi golpeou os objetos dispostos sobre o criado-mudo ao lado da cama, lançando-os todos ao chão com um estrondo; rádio-relógio, cinzeiro, o copo vazio que eu mesmo fora buscar. Estavam todos espatifados sobre o carpete. – Eu sei, tá legal? Eu fui um idiota, um imbecil, um completo inútil e incompetente que o deixou escapar. Finalmente tive a oportunidade de acertar as contas, de ter algum tipo de paz de espírito, mas acho que foi pedir demais para que as coisas funcionassem à meu favor. Eu fui fraco. Eu fui descuidado, deixei que Zelo brincasse comigo e me manipulasse como uma maldita marionete. Deixei que ele usasse minhas fraquezas contra mim, como se eu já não soubesse exatamente onde ele queria chegar. Sabia que tudo não passava de um truque pra atingir meus nervos, pra me tirar do sério, mas eu simplesmente o deixei fazer o que quisesse. Eu sei que absolutamente nada foi de acordo com os meus planos, e já me odeio o bastante por saber que eu sou o único a culpar por isso. Não preciso de você me jogando os fatos na cara também. – ao terminar seu desabafo, Yoongi bufava e tinha a face vermelha de raiva. Eu, por outro lado, estava petrificado. Primeiro, por ter me assustado com sua súbita explosão e hostilidade; segundo, eu simplesmente não conseguia parar de encarar sua orbes negras – era como se estivesse hipnotizado. Era tão raro ver Yoongi falando francamente desse jeito. Expondo todos os medos e frustrações sem freios que lhe segurassem a língua. Era fascinante, mas triste ao mesmo tempo. Eu não fazia ideia de que era assim que o loiro se sentia. Pude sentir minha própria raiva murchando como um balão diante de sua sinceridade.

— Minha intenção nunca foi te irritar, Yoongi. Muito menos te ofender. Eu só estou preocupado com você. – comecei, o tom de minha voz baixo e desprovido de qualquer fagulha. Encarei as pistas remanescentes de sua fúria, os cacos de vidro que antes formavam um copo espalhados pelo chão do quarto. Era uma comparação estúpida, eu sabia; mas de alguma maneira achava que aqueles objetos quebrados refletiam muito bem como eu me sentia no momento. – Você tem ideia de como me senti quando recebi a notícia através de uma porcaria de telefonema? E a informação nem veio diretamente de seus lábios, tive que descobrir por outra pessoa. Não sabe como isso dói? É como se todos os bons momentos que tivemos juntos em Busan se estilhaçassem em mil pedaços. – como esse copo, pensei, encarando o objeto sem realmente vê-lo enquanto imagens da praia de Busan passavam diante de meus olhos como um filme. Eram imagens tão felizes, mas ao mesmo tempo pareciam tão distantes. Inalcançáveis. – O que você estava pensando, quando foi me ver? O que pretendia ao me fazer aquela surpresa? Aquilo era pra ser algum tipo de despedida? Aquilo era você dizendo adeus? Me diga a verdade. Eu temi te perder, Yoongi. Ainda temo. Por favor, não faça mais isso. Não quero que se vingue por mim, não quero que se machuque por minha causa. Eu só peço que fique ao meu lado.

Quando me calei, eu precisava morder o lábio com força para impedir que caíssem as lágrimas teimosas que surgiram no decorrer de minhas palavras dolorosamente sinceras. Eu ainda não havia tirado meus olhos dos cacos no chão, encarando-os pateticamente com medo do que poderia ver nos olhos de Yoongi caso resolvesse encontrá-los. Assim como ele, eu também havia deixado meu coração sangrando e completamente exposto para que visse exatamente como me sentia. Eu sentia dor. Não só por mim, mas por ele também. Senti uma única lágrima fujona aterrissar em meus punhos fechados sobre o colo, e funguei; logo em seguida veio o contato morno da mão de Yoongi sobre a minha, fazendo-me finalmente voltar os olhos para si. O que encontrei ali foi uma mistura de culpa, compaixão, e afeto. – Sinto muito que tenha lhe causado dor, Jiminie. Sinto mesmo. A última coisa que queria era te machucar mais. Sinto que tenha te decepcionado de alguma forma, e não suporto isso. Mas eu não poderia ficar parado e deixar Zelo, ou quem quer que fosse, sair impune depois do que fez. Não depois de machucar alguém tão importante pra mim.

Suas palavras me atingiram em cheio, como uma flecha certeira. Todo tipo de emoção explodiu em meu peito após ouvir palavras aparentemente tão simples, mas que eram cheias de significados maiores escondidos. Surpresa, lisonjeio, excitamento, afeto, felicidade. Minha mente era um verdadeiro turbilhão, cada pensamento competindo com o outro por atenção, e nenhum deles conseguindo fazer sentido por mais de dois segundos. Eu estava simplesmente extasiado, mas não sabia o que fazer a seguir. Então o beijei. Não foi um beijo doce e terno, nem lento e envolvente. Era um beijo apressado, meio sem querer, meio proposital. Eu não sabia o que estava fazendo, só sabia que precisava demonstrar tudo que estava sentindo da forma mais rápida e eficiente que conseguia pensar. E um beijo naquele momento me pareceu uma ótima ideia.

O contato começou casto, apenas um pressionar – um tanto brusco, admito – de bocas, mas como já havia percebido em ósculos passados, eu logo ansiava por mais. Deixei que meus lábios se movessem contra os dele de forma afobada, apressada, sedenta. Em pouco tempo Yoongi saiu de seu estado de estupor, e retribuiu o gesto com a mesma ansiedade. Envolvi seu rosto com as mãos ao aprofundar o beijo, descansando minhas palmas contra suas bochechas macias e levemente rosadas. Era um beijo de tirar o fôlego, mas nenhum de nós parecia se importar. Ambos precisávamos igualmente do contato, do carinho, da atenção. Com um simples moldar de lábios contra lábios e um entrelaçar de línguas, era como se todos os nossos problemas se esvaíssem. Todas as dúvidas, todas as culpas, todas as dores simplesmente dissipadas e levadas pelo vento. Só havia eu e Yoongi naquele quarto abafado que fedia a cigarros e uísque. Pela primeira vez não encontrei traços de nenhuma das duas substâncias no gosto de seus lábios, e logo descobri que gostava muito disso. Pela primeira vez eu podia sentir seu real gosto, ouvir os problemas que enchiam sua mente, ter seu coração desprotegido e à mostra para que eu – e somente eu – visse. Pela primeira vez estava conhecendo Yoongi, o verdadeiro Yoongi, sem barreiras e muros ao redor para me impedir. E então descobri que sim, era possível amá-lo ainda mais.

— Por q-que... Por que fez isso? – constrangido, indagou assim que nos separamos em busca de ar. Era uma pergunta curiosa, uma pergunta para a qual eu não sabia se tinha resposta. Fora pura e simplesmente impulso? Talvez. Eu apenas sabia que precisava dos lábios dele, como um viciado precisa de sua droga favorita.

— Hyung, você acabou de dizer que sou importante pra você. – disse depois de alguns segundos de consideração, tentando manter a travessura longe de meus olhos e tom de voz – e falhando miseravelmente. Eu ainda tinha sua face gentilmente presa entre minhas mãos, mas isso logo mudou quando Yoongi as afastou com um tapa e um empurrão – ainda que não fossem frutos de sua revolta, mas sim do seu constrangimento.

— É, eu, bem... – gaguejou, suas bochechas e orelhas adquirindo um tom absurdo de vermelho antes de bufar e desviar o olhar com uma carranca no rosto, cruzando os braços na altura do peito para maiores efeitos. Tive que reprimir uma risada; esse comportamento era tão típico dele. – Pronto, eu disse. Está feliz?

— Sim, muito. – admiti, não conseguindo conter o sorriso dessa vez. Eu podia sentir meus olhos desaparecendo por detrás das bochechas, de tão largo e radiante que meu sorriso se tornara. Parecia que havia uma eternidade desde que não sorria daquela maneira. Era bom, esse sentimento. Libertador. Neste momento, eu poderia afirmar com absoluta certeza de que me sentia feliz. Yoongi me deixava feliz.

— Senti falta desse sorriso. Sunshine. – sussurrou, pegando-me de surpresa enquanto passava os dedos por meus lábios, um toque delicado e quase inexistente, como o de um fantasma. À essa altura meu sorriso já havia morrido, substituído por uma expressão perplexa e envergonhada, entretanto seus toques não cessaram. Yoongi continuou contornando o desenho de meus lábios com os dedos, como se quisesse gravar as formas na memória. Aquilo fazia cócegas, então mordi os lábios na tentativa de acabar com elas. Os dedos de Yoongi se afastaram, mas sua mão continuou pairando no ar diante de meu rosto, imóvel, enquanto seus olhos mantinham-se fixos no pequeno gesto – curiosos, cobiçosos, desejosos.

— Não me encare tanto, eu fico sem graça. – pedi numa voz pequena e tímida, despertando-o de seu transe. Yoongi então decidiu mover a mão para a lateral da minha cabeça, logo acima da orelha, antes de correr os dedos por meus cabelos num carinho lento e gostoso. Não pude deixar de fechar os olhos e me inclinar na direção de sua mão, ansiando por mais contato. Eu gostava de receber sua total atenção. – Não vamos mais brigar, ok?

— Ok. – concordou, mudando suas carícias para minha nuca, onde deixou que seus dedos se perdessem nos curtos fios castanhos dali. Eu continuava de olhos fechados, girando minha cabeça conforme sua mão mudava de direção, perseguindo o contato; se eu fosse um gato, com certeza estaria ronronando. – De qualquer forma, não adianta brigar por coisas que não podemos mudar. A merda já está feita, e eu estou bem. Isso é o bastante.

— Me prometa que você não vai tentar fazer algo semelhante de novo? – implorei, finalmente abrindo os olhos pra fitá-lo. Encontrei uma careta incomodada, mas Yoongi continuou calado. – Por favor, hyung. Eu não suportaria te ver machucado novamente.

— Está bem, está bem. – cedeu depois de longos e torturantes segundos em silêncio e um suspiro pesado. – Eu prometo que não vou mais atrás de Zelo. Mas, – continuou, cortando todo o alívio que sentira com sua sentença anterior. – se ele vier até mim, eu não vou desperdiçar a oportunidade de ter o que quero.

— Parece justo. – admiti um pouco a contragosto, mesmo sabendo que aquele acordo era o melhor que eu poderia ganhar. Ficamos em silêncio por um tempo, apenas apreciando o momento; a mão de Yoongi, já cansada de tanto fazer carinho, deslizou por meu ombro e braço até encontrar minha própria mão e segurá-la. Assisti com leve interesse seus olhos ficarem cada vez mais pesados e, gradativamente, suas pálpebras piscando de maneira lenta e cansada. O remédio que Jin lhe deu finalmente estava fazendo efeito, concluí. – Está com sono?

— Um pouco. – admitiu com um grunhido sonolento. Um pouco era apelido. Yoongi estaria dormindo dentro de poucos minutos.

— Vou te deixar descansar então. – disse ao tentar me levantar da cama e sair do quarto, dando-lhe privacidade pra dormir em paz. Entretanto, a mão de Yoongi não largara a minha; pra falar a verdade, seu aperto apenas ficou mais intenso. Interrompi o ato de me levantar no meio, voltando a sentar sobre o colchão quicando levemente. – O que foi?

— Deita aqui comigo. – pediu. Levei alguns segundos pra analisar a situação: a voz de Yoongi já estava embargada pelo sono, seus olhos mal passavam de duas fendas. Claramente o mais velho estava cansado, mas mesmo assim se recusava a entregar-se ao mundo dos sonhos de uma vez. Por fim concluí que não faria mal ceder aos seus desejos; afinal, a ideia de deitar-me ao seu lado e aproveitar o calor de seu corpo também era bastante atraente pra mim.

Yoongi serpeou cuidadosamente para o lado, abrindo um espaço mais generoso no colchão para que eu pudesse me acomodar confortavelmente. Deitei-me de lado, virado para si, vendo o loiro espelhar minhas ações. Por alguns momentos, ficamos apenas observando o rosto um do outro, absorvendo todos os mínimos detalhes que ainda não havíamos percebido antes; alguma pinta escondida, uma falha na sobrancelha, alguma cicatriz antiga e quase imperceptível. Eu havia me perdido nos traços delicados e perfeitos de seu rosto, até que mais uma vez Yoongi me pegara desprevenido ao percorrer o indicador pela ponta de meu nariz e toda a extensão da ponte, até contornar a sobrancelha direita e descer pela maçã do rosto, apenas para retornar ao nariz e repetir o processo do outro lado. Deixei que o loiro continuasse brincando até ficar satisfeito, intrigado pela motivação por trás de seus toques.

— Estou com saudades dos seus óculos. – esclareceu finalmente, trazendo-me divertimento e auto consciência em igual medida. – Sem eles, seu rosto parece... incompleto. Como se você não fosse o Park Jimin que eu conheço. O meu Park Jimin. – à essa altura, mal conseguia compreender suas palavras balbuciadas, tornadas emboladas e desajeitadas pela sonolência; os dedos de Suga há muito já haviam ficado imóveis, sua mão descansando no espaço que havia entre nossas cabeças. Mesmo assim, uma determinada frase soara alta e clara em meus ouvidos. Meu Park Jimin. Yoongi usara a palavra “meu” para qualificar meu nome. Eu tinha vontade de indagar o significado por trás daquela palavra, ou quem sabe guinchar como uma garotinha apaixonada, mas infelizmente nenhuma dessas opções estavam disponíveis. Sem nem mesmo me dar a oportunidade de respondê-lo, Yoongi finalmente pegara no sono.

Eu poderia ficar observando-o dormir pelo resto da eternidade, e estava seriamente determinado a fazer exatamente isso, se minha barriga não escolhesse justo esse momento para protestar de fome. Contrariado, levantei-me da cama e segui para a cozinha com passos leves e o mais silenciosos possível para não acordá-lo, torcendo pra encontrar algo minimamente comestível em sua despensa. Tudo que encontrei foram variedades infindáveis de macarrão instantâneo, mas por enquanto eles teriam de servir. Tomei a liberdade pra usar seus utensílios culinários na preparação na comida, que eu tinha que admitir que não exigia muita coisa: apenas uma panela com água fervente e algo para mexer o macarrão.

Depois de encontrar uma tigela limpa para colocar a comida pronta e um de muitos hashis descartáveis nos armários, não consigo comer nem metade antes de ser interrompido por uma ligação no celular. A curiosidade logo se transforma em choque e desespero quando vejo o nome no visor. Hobi-hyung. Eu havia me esquecido completamente de que tinha marcado uma prática de dança no seu estúdio/casa, a fim de nos preparar para o concerto onde eu faria uma participação especial, que seria daqui a poucas semanas. Por eu ter acabado de me recuperar, havia pedido pra Hoseok esperar o dia que eu voltasse da minha viagem à Busan para treinarmos, assim poderia me focar exclusivamente na dança. Infelizmente as coisas não estavam bem como eu imaginava que estariam quando voltei, e o susto acabou tirando completamente nosso encontro da memória. Atendi a ligação com mãos trêmulas e voz nervosa, inventando uma desculpa qualquer para adiar o compromisso, não querendo denunciar que estava ocupado cuidando de Yoongi. O dançarino parecia um pouco desapontado, mas compreendeu. Nos despedimos com a promessa de que o procuraria mais tarde durante a semana e que trabalharia duas vezes mais para compensar a falta de hoje.

Uma vez livre pra terminar de comer, esvaziei o conteúdo da tigela em poucas bocadas e resolvi que o mínimo que eu poderia fazer era lavar aquilo que sujara. Acontece que Yoongi parecia não ter o costume de lavar a louça com frequência, pois tinham pilhas e mais pilhas de pratos, copos e talheres sujos na pia. Concluindo que eu não tinha nada melhor pra fazer de qualquer maneira, pus-me a lavar também a louça acumulada, até não restar mais nenhuma. Porém, uma vez que você começa a limpar as coisas, começa a se incomodar com tudo que ainda não foi limpo. Corri os olhos pelo apartamento, torcendo o nariz com o que encontrara: haviam garrafas vazias jogadas por todos os cantos, cinzeiros abarrotados com bitucas de cigarro, caixas de comida pra entrega acumuladas num canto da bancada da cozinha – eu tinha certeza absoluta que aquela embalagem de comida chinesa era do restaurante que trabalhava; há exatamente quanto tempo isso está aqui? – e uma camada grossa e visível de pó no chão. Mais uma vez eu me peguei indagando como diabos Yoongi conseguia viver num lugar como esse. “Não há nada de errado com o meu apartamento”, ele dissera. Está mais pra “não há nada de certo”.

Antes que eu pudesse pensar bem no que estava fazendo, encontrei algumas sacolas vazias e inutilizadas e comecei a juntar todo o lixo, começando pelas caixas de comida velha. O que encontrei ali era simplesmente asqueroso, e o cheiro então, nem se fala. Com o problema principal resolvido e bem seguro dentro de sacolas plásticas, passei a recolher as garrafas vazias, torcendo pra Yoongi não ser nenhum tipo de colecionador esquisito. Aproveitando a deixa, voltei ao quarto na ponta dos pés para recolher os cacos de vidro e os restos do cinzeiro e jogá-los fora também – o rádio-relógio ainda tinha salvação, ainda bem. Permiti-me alguns instantes pra apreciar a serenidade de seu rosto ao dormir antes de voltar ao trabalho, decidindo não atrapalhar seu sono; quando terminei de recolher tudo, haviam cerca de quinze sacolas cheias até a boca. Levei tudo pra fora em algumas poucas viagens, despejando-as pelo tubo da coleta de lixo interna que o prédio felizmente possuía. Quando retornei ao apartamento, me deparei novamente com o ambiente escuro e abafado que as janelas tampadas por pesadas cortinas produziam. Essa era a próxima coisa que eu precisava resolver, decidi, caminhando com passos decididos até a janela da sala e abrindo as cortinas sem rodeios. Imediatamente fui atacado por uma nuvem de poeira – que me traria uma reação alérgica em pouco tempo – mas ao menos o ato trouxera um pouco de claridade natural para o recinto. Sentindo-me ousado, resolvi abrir a janela em si, deixando entrar também um pouco da brisa fresca de uma tarde de verão.

Enquanto limpava e arrumava o apartamento de Yoongi da melhor maneira que podia com recursos limitados – passando por sala, cozinha e banheiro, porém evitando o quarto –, acabei perdendo completamente a noção do tempo. No momento eu estava de joelhos diante do sofá da sala, com o tronco abaixado até encostar no chão e o braço esticado por baixo do mesmo, tateando o assoalho em busca de uma ponta de cigarro que tinha deixado escapar. No exato instante que meus dedos encontraram o que procurava, escuto um pigarreio vindo de algum lugar atrás de mim. Na mesma posição que estava, virei o pescoço na direção do som para encontrar exatamente quem eu imaginava que fosse, ainda que sua visão fizesse meu sangue gelar.

— O que está fazendo? – indagou Yoongi, encostado contra o batente da porta do quarto e os braços cruzados na altura do peito, olhando-me atentamente. Sua voz estava firme e controlada, mas pude perceber o modo como seus olhos demoravam-se sobre meu traseiro, que estava erguido no ar para quem quisesse ver. Senti minhas bochechas esquentarem de imediato, e sem demora sentei-me sobre os calcanhares, mostrando-lhe a bituca de cigarro com um sorriso amarelo no rosto.

— Estava procurando isso aqui. – disse timidamente.

— Não, eu quero dizer... o que está fazendo? – repetiu, gesticulando para o apartamento minimamente limpo e apresentável numa forma genérica.

— Ah, isso. Bem... – comecei, depositando a ponta de cigarro na sacola que tinha ao meu lado pra jogar fora tudo que tinha escapado a primeira leva, para em seguida brincar nervosamente com a barra da minha camisa, sem saber o que lhe dizer. – Eu estava com fome, então fiz macarrão instantâneo pra comer. Eu só ia lavar os utensílios que utilizei, mas acabei lavando toda a louça suja na pia e... quando vi... já tinha limpado todo o seu apartamento.

— Você não precisava. – disse num tom que eu pensava ter ouvido reprimenda, mas não tinha certeza. Teria feito algo errado? Será que ele estava bravo comigo? Yoongi não deixou que eu continuasse me questionando infindavelmente sobre as consequências de minhas ações, aproximando-se com passos lentos para ajudar-me a ficar de pé. Aceitei sua mão de bom grado, apesar de temer sujar as suas com poeira.

— Eu sei que não. Mas eu quis fazer mesmo assim. – respondi sinceramente, arriscando alguns olhares em sua direção pra medir suas reações. Felizmente Yoongi não parecia bravo ou irritado, o que já era um começo. – Além do mais, se eu vou ficar aqui pra cuidar de você, o apartamento deve estar no mínimo limpo, não é?

— O que disse? Você vai ficar aqui? – indagou, uma mescla de choque, surpresa e incredulidade estampada em seu rosto.

— Sim, vou cuidar de você. Eu pretendo levar isso à sério. – assegurei-lhe, sorrindo com uma pontada de orgulho enchendo meu peito.

— Eu não preciso de nenhuma babá, Jimin. Você pode ir pra casa se quiser, Jin já deve estar de volta em pouco tempo. – apenas com a menção do nome de Jin-hyung, me dei conta de exatamente quantas horas haviam se passado; o céu já estava escuro e repleto de estrelas, e a forte luz artificial de um outdoor no prédio vizinho invadia a sala pela janela aberta, confundindo-se com a luz amarela da luz acesa no teto do cômodo. Lembrei-me das palavras do médico, avisando que voltaria mais tarde para checar Yoongi. Eu só esperava que trouxesse comida também – comida de verdade, não macarrão instantâneo –, pois estava morto de fome.

— Eu não estou aqui pra ser sua babá. Pense nisso como uma retribuição de favores. – insisti, não pretendendo aceitar “não” como resposta dessa vez; eu faria o possível para que as coisas saíssem do meu jeito, pra variar. Yoongi ergueu uma sobrancelha como um pedido silencioso para que elaborasse. – Lembra quando eu fiquei machucado e você cuidou de mim? Eu pretendo fazer o mesmo por você agora. E nada do que você disser me fará mudar de ideia, então senta a bunda nesse sofá enquanto eu vou jogar o resto do lixo fora. Você não deveria estar de pé ainda. – comandei enquanto pegava a sacola e me dirigia à porta da frente, sendo obedecido com um “sim, senhor” e sentindo-me poderoso como nunca antes.

Pela primeira vez, era eu quem ditaria as regras.