Hold me Tight

14 O grande dia


– Jimin POV -

Com mãos trêmulas, eu vasculhava o armário em busca de alguma peça de roupa agradável para vestir. Sobre a cama no centro do quarto, estavam inúmeras peças que eu havia descartado. Finalmente chegara o grande dia – o dia em que eu competiria contra dançarinos incríveis na esperança de ganhar e participar de um show com o meu ídolo. Pra essa ocasião, eu deveria usar roupas leves e confortáveis que permitissem movimentos, mas ao mesmo tempo eu queria estar bem vestido. Descontente com o conteúdo do meu armário, acabei optando por bermuda de nylon na cor preta que chegava ao joelho, uma regata na mesma cor cuja costas era feita de um material semitransparente, moletom vermelho, Jordans nos pés e um snapback na cabeça. Estava terminando de ajeitar os cabelos sob o boné quando recebi uma ligação no celular. Pude sentir o suor frio que brotava na minha testa começar a escorrer pela lateral do meu rosto quando li o nome no visor. Suga.

– Alô? – chamei, tentando controlar o nervosismo na voz.

Yah, seu moleque. Cadê você? Pensei que não queria se atrasar. – sua voz rouca e levemente arrastada pelo sono ralhou comigo do outro lado da linha. Tentativamente, me aproximei da janela do quarto apenas para confirmar minhas dúvidas: o carro antigo e preto estava estacionado na frente do prédio, do outro lado da rua, com Suga sentado sobre seu capô. Ele usava jeans surrados, um casaco de moletom de cor grafite por cima de uma camiseta branca, coturnos nos pés e um gorro preto na cabeça, emoldurando a franja loira que insistia em lhe cobrir os olhos. Pude assisti-lo acender um cigarro com dificuldade, já que uma das mãos estava ocupada segurando o celular próximo da orelha. – Tô aqui embaixo esperando você. É melhor não me fazer esperar por muito tempo, se ainda quiser minha carona.

– Ok, já estou descendo! – respondi, mas o loiro nem ao menos me deixou terminar antes de desligar na minha cara. Bufando, dei uma última checada no espelho enquanto pegava a bolsa de academia que estava abastecida com tudo que eu iria precisar mais tarde: toalhas, água e uma camisa extra. Melhor prevenir do que remediar, meu pai sempre dizia.

Passei apressado pela sala, chamando Jungkook e Taehyung que assistiam algum programa de variedades na televisão enquanto parava para calçar os tênis no hall de entrada. Os dois se juntaram à mim segundos depois, e logo estávamos todos fazendo a curta viagem de elevador entre o quinto andar e o térreo. Assim que as portas do mesmo se abriram, pude ver a figura magra de Suga dar a volta no carro e sentar-se no banco do motorista, ligando o motor. Sem querer perder mais tempo, atravessei correndo o saguão do prédio e a rua sem sequer olhar para os lados – afoito demais para me preocupar com algo trivial como segurança – recebendo gritos de advertência dos meus dois amigos atrás de mim, que corriam em direção ao carro de forma muito mais responsável do que eu. Sentei-me no banco do carona ao lado de Suga, fechando a porta com mais força do que necessário, enquanto deixava que Jungkook e Taehyung ocupassem o banco de trás.

– A princesa demorou tanto pra ir vestida assim? – zombou Suga, me analisando da cabeça aos pés sem pudor enquanto uma grossa camada de fumaça era expelida por seus lábios.

– Só cala a boca e dirige, vai. Estamos atrasados. – seu olhar sobre mim era tão intenso que me deixou desconfortável. Tentando disfarçar o rubor que coloria minhas bochechas, ajustei os óculos sobre o nariz e puxei o cinto de segurança enquanto Suga tirava o carro da vaga.

– Olha lá o jeito que você fala comigo hein, guri. – rosnou o loiro, dando mais uma tragada no cigarro e jogando as cinzas na rua pela janela aberta do carro. – E pensar que eu ainda aceitei em te fazer esse favor...

– Obrigado. – murmurei, tentando me desculpar.

– O que você disse? Eu não ouvi. – provocou.

– Você por acaso é surdo? – Jungkook vociferou, tendo assistido àquela ceninha de braços cruzados e cenho franzido, claramente insatisfeito.

– A gente tem mesmo que levar esse garoto? – Suga me perguntou, ignorando o moreno de propósito. – Eu posso deixar ele na beira da estrada, se você quiser.

Antes que Jungkook pudesse retrucar, Taehyung saltou na direção do painel do carro, assustando tanto à mim quanto à Suga enquanto ele se enfiava entre nós para ligar o rádio. – Podemos ouvir música? – ele perguntou retoricamente, uma vez que seu dedo já estava sobre o botão, pressionando-o. Uma batida forte de hip-hop ecoou, o som tão amplificado pelos alto-falantes do veículo que chegava a reverberar no meu peito. Suga quase perdeu o controle do carro por um instante, a mão que estava casualmente pendurada pra fora da janela com o cigarro preso entre os dedos deixando-o se perder no asfalto enquanto voava para segurar o volante com força até suas juntas ficarem brancas. Passado o susto inicial, ele afastara a mão de Taehyung com um tapa enquanto abaixava o volume da música para um decibel mais agradável.

– Você é maluco, porra? Quer que eu morra do coração? – ralhou com o mais jovem, virando-se para fuzila-lo com os olhos brevemente antes de retornar a atenção para a rua.

– Foi mal. – Tae desculpou-se, abrindo aquele sorriso retangular que desarmava qualquer um. Felizmente para Suga, ele não podia vê-lo.

– Me poupe, guri. – Suga o desconsiderou enquanto estacionava o carro próximo ao clube, que já ficara cheio. – Você me paga. – disse ele, lançando um último olhar severo ao garoto de cabelos lilases enquanto saía do carro. Eu saí logo em seguida, acompanhado pelos outros dois.

Caminhamos apressados a curta distância até a entrada do clube; eu os deixei sozinhos para comprar os ingressos do evento enquanto dava meu nome para um staff que estava na porta com a lista dos participantes da competição. Após confirmar minha identidade e riscar meu nome do papel, o rapaz me deixou entrar. Procurando a área indicada para os competidores, não reparei que ia de encontro à uma figura parada à minha frente. Trombei com o garoto, o impacto com costas sólidas e bem definidas me fazendo perder o equilíbrio. Antes que minhas nádegas fossem de encontro ao chão, pude sentir uma de suas mãos agarrando meu pulso enquanto a outra segurava minha cintura, me puxando para perto de si enquanto me estabilizava.

– Ei, cuidado! – alertou num tom brincalhão, e quando meus olhos se ergueram para vislumbrar o rosto do meu herói, não acreditei no que vi. Fios vermelhos e cuidadosamente desarrumados adornando sua cabeça, olhos de um caloroso tom de castanho e lábios com forma de coração abertos num sorriso espetacular. Eu estava diante de ninguém menos que J-Hope. Minha boca abria e fechava como se eu fosse um peixe fora d’água. Eu estava sem reação, meu cérebro entrando em curto circuito enquanto me mandava fazer alguma coisa, qualquer coisa. J-Hope então me olhou mais atentamente, e pude notar um brilho de reconhecimento em seus olhos. – Espera, eu conheço você. Seu nome é... – ele levou a mão que antes segurava meu pulso até o próprio queixo, olhos estreitando-se em concentração enquanto vasculhava sua mente pela resposta. Contudo, não deixei de notar que sua outra mão ainda estava plantada firmemente na minha cintura. De repente, seus olhos se arregalaram e ele estalou os dedos. – Park Jimin! Acertei, não é?

– S-sim. – esforcei-me para responder, gaguejando. Me desvencilhei de seus braços para fazer uma breve reverência, esperando por tudo que era mais sagrado que ele não notasse o tom forte de vermelho que meu rosto adquirira. – Me d-desculpe por ter tromb-bado em você, eu est-tava distraído. – balbuciei.

– Nah, não se preocupe com isso. – gargalhou, uma risada alta e um tanto escandalosa, mas que era gostosa de ouvir. – Pelo menos eu estava aqui pra te salvar. – fez uma pausa, sorrindo ao notar meu estado constrangido. – Ei, você por acaso vai participar? – perguntou, curiosidade transparecendo na voz, enquanto apontava casualmente com o polegar para o palco atrás de si.

– Vou sim. – respondi com um pequeno sorriso, já capaz de controlar melhor minha ansiedade.

– Wah, que demais. – seu sorriso agora era ainda mais largo, mostrando uma série de dentes grandes e incrivelmente brancos. – Vou esperar ansiosamente pela sua performance, então.

Antes que eu pudesse responder, fui interrompido por alguém atrás de mim chamando meu nome. Me virei na direção da voz, constatando pertencer à Taehyung ao vê-lo acenando os braços à alguns metros de distância, acompanhado por Jungkook e Suga, este último apresentando uma carranca raivosa na minha direção. Eu não sabia o que havia feito para receber tamanha reação do loiro, mas apenas acenei de volta para Taehyung quando este, usando gestos, me informou que iriam procurar um bom lugar para apreciar o show. Voltando minha atenção para J-Hope, notei que seus olhos ainda acompanhavam o trio que lutava para abrir caminho entre a multidão. De repente, seus olhos encontraram os meus enquanto um pequeno sorriso travesso puxava o canto de seus lábios.

– Você devia tirar isso. – comentou, me sobressaltando quando ergueu as mãos para retirar meus óculos cuidadosamente. – Óculos só atrapalham na hora de dançar. E além do mais... – abriu mais o sorriso, alcançando minha mão com a sua e depositando o objeto na minha palma aberta. – Você fica bem mais bonito sem eles. – disse numa voz baixa e sensual, e se eu não estivesse tão próximo dele, com certeza perderia a piscadela que lançou na minha direção. Sem mais, J-Hope me deu as costas e se afastou, perdendo-se na multidão.

Apenas quando uma voz feminina soou nos alto-falantes do clube pedindo para que todos os participantes se dirigissem aos bastidores foi que eu acordei de meu transe. Tendo dificuldade para enxergar, coloquei os óculos de volta até que enfim encontrei a sala de espera reservada para os competidores. Escolhi uma cadeira ao fundo para me instalar, deixando minha bolsa no chão enquanto retirava dela uma garrafa de água e tomava grandes goles do líquido gelado. Todos ao meu redor se preparavam de alguma forma: alguns faziam alongamentos, outros repassavam os passos de dança a fim de executar tudo perfeitamente e sem erros, e outros ainda ficavam grudados em suas respectivas cadeiras, rezando. Pude sentir o nervosismo tomar conta de mim enquanto eu lutava para respirar normalmente e sentia suor acumulando-se na minha testa e nas minhas costas. Tirei o pesado moletom que vestia, sentindo alívio imediato quando o ar gelado do ar-condicionado entrou em contato com a minha pele através do tecido fino da regata que eu vestia por baixo. Sequei o suor da testa com o moletom antes de pendurá-lo de qualquer jeito no encosto da cadeira na qual eu sentava. Perdi a conta de quantas vezes eu havia tirado o boné da cabeça apenas para colocá-lo novamente, mudando a posição vez ou outra, quando avistei um rosto familiar se aproximando.

– Jackson-hyung! – chamei, recebendo um sorriso caloroso do mais velho.

– E ai, Jiminie! Tá preparado? – perguntou, animado, enquanto me dava um forte aperto de mão.

– Na verdade eu estou quase mijando nas calças. – brinquei, arrancando uma gargalhada do outro, o que acabou me fazendo rir também. Jackson se sentou na cadeira livre ao meu lado, tentando me distrair com comentários bobos sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Só ficamos em silêncio quando o apresentador do evento subiu ao palco, dando as boas-vindas ao público e apresentando os três jurados da competição. Acompanhávamos tudo ao vivo pela televisão presa à parede, filmagens feitas por câmeras espalhadas pelo clube que depois eram transmitidas para telões nas áreas mais distantes do palco e, claro, na sala de espera onde estávamos. Vimos a pequena elevação preparada especialmente para abrigar a mesa dos jurados, diretamente em frente ao palco, quase colado ao mesmo, mas um pouco mais baixa para não atrapalhar a visão do público que estava logo atrás. Haviam três pessoas sentadas à mesa, que sorriam e acenavam conforme eram apresentadas. Gong Minji, uma coreógrafa muito prestigiada no mundo do show business, responsável pelas coreografias de boa parte dos grupos idols do país, sejam eles femininos ou masculinos; Lee Hyukjae, um ex-bailarino mundialmente reconhecido, e atual professor da minha universidade; e por último, J-Hope, que acenava alegremente, deliciando-se com a euforia de seus fãs ao ter o nome pronunciado.

Em pouco tempo o primeiro competidor era chamado ao palco, tendo o nome anunciado por uma staff que lia os nomes na ordem que estavam em seu papel. Através das filmagens que passavam na TV, pude ver dançarinos habilidosos dando tudo de si, tanto homens quanto mulheres, cada um apresentando um estilo mais único e excepcional do que o outro. Os aplausos pareciam aumentar de intensidade a cada apresentação. Quando o nome Jackson Wang fora chamado, me esforcei para sorrir e dar apoio ao outro, mesmo que por dentro eu quisesse gritar e espernear como uma criança mimada, tamanho meu nervosismo. Assisti Jackson dar um show no palco, mostrando movimentos precisos e cambalhotas perigosas, se tornando facilmente o dançarino favorito do público até então. Se eu não estivesse tão ansioso, com o coração acelerado, respiração descompassada e mãos suando, eu estaria torcendo por ele também. Jackson era muito bom no que fazia, e no fundo, eu era extremamente agradecido à ele por passar todos aqueles dias treinando comigo e me ensinando alguns truques; graças à isso, eu tinha uma pequena chance de derrotá-lo.

– Park Jimin. – chamou a garota na porta da sala, me despertando dos meus devaneios. Eu nem havia reparado que a apresentação de Jackson chegara ao fim, e que agora a plateia gritava enlouquecida seu nome. Olhei ao meu redor apenas para constatar que eu era um dos últimos a se apresentar. Tomando três longos goles da garrafa de água que eu tinha em mãos, me levantei para seguir até o palco, retornando brevemente para deixar sobre a cadeira meus óculos de grau. Fui conduzido até o palco por uma segunda staff, que me impediu de subir até que o apresentador chamasse meu nome de forma animada, para aí sim me permitir passagem. Ao subir as escadas, pude ouvir um leve “boa sorte” vindo dela, e me virei a tempo de vê-la piscar pra mim, levantando o polegar em aprovação. Aquele comportamento me pegou de surpresa, mas não tive tempo de pensar muito sobre ele. Logo eu estava parado no centro do palco, diante de centenas de pessoas, cegado pela luz forte vinda dos holofotes somada à miopia natural que eu possuía. Apertei os olhos na tentativa de distinguir meus três amigos na multidão, sem sucesso. Contudo, eu conseguia ter uma visão melhor de J-Hope, que agora sorria pra mim, levantando o polegar da mesma forma que a staff fizera. Lhe retribui com um sorriso fraco, aproveitando os últimos segundos de silêncio para ajeitar o boné sobre meus olhos e ficar na posição certa antes da música começar. Quando meus ouvidos finalmente registraram a batida, todo o nervosismo foi extinguido do meu corpo. Meu rosto agora apresentava um semblante sério e concentrado, enquanto meus braços e pernas se moviam de acordo com o ritmo; eu misturava movimentos fortes e precisos com outros mais fluidos e sensuais, lançando sorrisos provocantes para o público cada vez que meus quadris rebolavam de maneira lasciva. Nos momentos finais da minha apresentação, eu tirei o boné e brinquei um pouco com ele, girando-o de um jeito e de outro até jogá-lo no canto do palco. Com isso, eu me preparava para o ato final: ainda dançando, tomei o máximo de distância da borda do palco possível e, tomando impulso, dei um giro no ar e aterrissei num pé só, aproveitando para fazer uma profunda reverência ao final da música.

Por alguns segundos – que pareciam intermináveis e angustiantes pra mim – a plateia ficara silenciosa. Mas então pude ouvir uma salva de palmas tímida, solitária, até que aos poucos todo o clube se juntou. Olhei descrente para o mar de pessoas que torciam por mim, inclusive os jurados. A coreógrafa chamada Minji causava um alvoroço, me aplaudindo de pé e gritando meu nome junto com os outros. Mas foi a reação de J-Hope que me deixou mais desconfortável. Ele batia palmas como todos, porém de forma mais lenta; seus lábios estavam puxados num sorriso de canto e seus olhos sobre mim pareciam famintos. Eu não havia percebido que estava encarando até ser desperto pelo apresentador, que agradeceu minha presença e pediu que eu me retirasse para dar lugar ao próximo participante. Saí de lá apressado, pegando o boné no caminho para as escadas, enquanto o público ainda entoava meu nome com fervor.

De volta à sala de espera, fui recebido com salvas de palmas e assobios dos meus adversários. Antes que eu pudesse registrar o que estava acontecendo, fui pego num abraço de urso por Jackson que, mesmo sendo da mesma estatura e porte físico que eu, ainda conseguiu me erguer do chão e nos girar. Quando ele me soltou, não consegui conter o sorriso constrangido e o rubor nas bochechas.

– Cara, você foi incrível! – disse um dos competidores, me dando tapinhas amigáveis no ombro.

– Melhor coreografia que eu já vi na vida. – uma garota ao seu lado concordou.

– Viu só? Todo mundo te ama! – Jackson riu, me conduzindo de volta ao fundo da sala onde estavam nossas coisas quando os aplausos e vivas cessaram. Eu não sabia o quanto estava sedento até sentar na cadeira, acabando com uma garrafa inteira de água num gole só, enquanto secava o suor com a toalha que eu trouxera. – Com certeza você vai ganhar a competição. – o moreno acrescentou, tomando goles da sua própria água.

– Tá brincando? Você foi o melhor, Jackson. – retruquei, colocando os óculos de volta no lugar, aliviado por poder ver seu rosto detalhadamente.

– Nah, eu cometi uma penca de erros. – ele riu, coçando a nuca enquanto mostrava a língua de forma divertida. – Mas você, Jimin-ah... Você foi impecável. Sério. Se você não ganhar, vou arranjar briga aqui. – brincou.

– Você é muito bobo, hyung. – ri de suas brincadeiras, me envolvendo numa conversa animada com ele enquanto assistíamos o resto das apresentações. Agora que eu já me apresentara, podia sentir meu coração bem mais leve; ousava dizer até que sairia de lá me sentindo contente e satisfeito, mesmo que não ganhasse. Ao final, fomos todos chamados ao palco para a revelação do ganhador. O apresentador executava bem o seu papel ao criar um clima de suspense e ansiedade, tanto para a plateia quanto para nós competidores. Depois do que pareceu uma eternidade de provocação, enquanto os jurados debatiam entre si, finalmente o veredito fora tomado.

– Primeiramente, eu gostaria de dizer que todos vocês são ótimos dançarinos cheios de potencial. – ouvi J-Hope dizer no microfone que lhe estenderam. – Se pudesse, eu trabalharia com todos, e meu coração dói ao saber que só posso escolher um. – o ruivo fez uma pausa, seus olhos passeando pelo grupo de jovens diante de si. Suspirou, abrindo um enorme sorriso em seguida. – Contudo, é com grande orgulho e alegria que eu anuncio o vencedor. Seu nome é... – novamente ele fez uma pausa, dessa vez mais dramática, com Minji e Hyukjae tamborilando na mesa como se fosse tambores. Prendi a respiração. – Park Jimin! – anunciou, arrancando gritos histéricos da plateia. Fui puxado para abraços por pessoas que nem conhecia, recebendo tapinhas nas costas e afagos no cabelo. Do apresentador, recebi um pequeno troféu dourado e um cheque exageradamente grande. Não consegui conter o sorriso, já sentindo minhas bochechas ficarem dormentes. Fiz diversas reverências: para o público, para os jurados, para meus adversários e para o apresentador. Depois da cerimônia, fomos todos conduzidos de volta aos bastidores, onde pudemos juntar nossos pertences e ir embora. Recebendo um último abraço de Jackson, me despedi dele e fui procurar meus amigos, louco para sair e comemorar. Porém, antes fui agraciado com a presença de outra pessoa.

– Meus parabéns. – desejou J-Hope, se aproximando de mim com aquele sorriso magnífico estampado no rosto. – Estou ansioso pra trabalhar com você.

– Muito obrigado, J-Hope-ssi. – agradeci, me curvando novamente. – Espero não te decepcionar.

– Ah, por favor. Me chame de Hoseok. – ele riu, tirando a franja dos meus olhos. – Eu só me torno J-Hope quando estou em cima do palco.

– O-ok, Hoseok-hyung... – disse tentativamente, recebendo um sorriso acolhedor do mais velho.

– Bem melhor. – lá estava aquele olhar faminto que ele me lançara mais cedo. Estremeci. Hoseok abrira a boca para dizer algo mais, mas fora interrompido.

– Jimin! – pude ouvir a voz grossa de Taehyung gritar atrás de mim, e antes que eu me desse conta, estava sendo virado na sua direção e tomado por um abraço mais apertado que o de Jackson. Lutei para respirar, e quando eu estava certo de que morreria sufocado, Tae me soltou. – Caramba, você foi incrível! Onde é que você aprendeu a dançar daquele jeito? Meu Deus, senti até calor quando você me lançou aquele sorrisinho safado enquanto rebolava essa bunda gigante. Foi pra mim que você sorriu né? Ótima escolha de figurino, Jiminie. As meninas iam à loucura toda vez que você mostrava suas costas, essa regata é realmente muito provocativa. Tá com fome? Eu tô com fome. Quem quer pizza? – lutei pra acompanhar seu monólogo, Taehyung estava tão animado que parecia estar sob o efeito de dezenas de energéticos.

– Parabéns. – Jungkook disse simplesmente ao seu lado, me lançando um sorriso sincero. Sorri de volta, mas o sorriso morreu nos meus lábios quando não vi Suga perto deles. Olhando em volta à procura de um familiar par de olhos negros acompanhados por pele pálida e cabelos platinados, franzi o cenho, preocupado, ao não encontrar o menor sinal dele.

– Cadê o Suga? – perguntei.

– Sei lá, foi embora. – Jungkook respondeu, dando de ombros.

– O quê? Como assim foi embora? – insisti, incapaz de acreditar na sua resposta.

– Assim que você terminou de dançar ele saiu, dizendo que precisava cuidar de alguma coisa. – Taehyung explicou, tentando se desculpar por ele.

– Jimin. – Hoseok chamou, me lembrando que ele ainda estava presente. – Eu preciso ir. Mas antes... – estendeu a mão pra mim, que apenas a encarei, sem entender. – Me dê seu celular. – atendi seu pedido, depositando o aparelho na sua palma estendida, enquanto o observava digitar uma mensagem para o próprio número. Em seguida, o aparelho em seu bolso apitou, e então ele se pôs a salvar meu número nos contatos. Sorrindo, ele virou o visor de seu celular para que eu pudesse ler “Jiminie ♥” acima de uma foto minha no palco, que ele devia ter tirado enquanto eu me apresentava. Em seguida, ele tirou uma foto de si próprio usando meu celular, levando alguns segundos para salvar o contato. Quando devolveu meu aparelho, pude ver que ele salvara seu nome como “Hobi-hyung ♥”. Dei risada, achando graça de suas brincadeiras. Hoseok riu comigo, mas fez algo além que eu não esperava. Quando dei por mim, ele se inclinava na minha direção e seu hálito quente pairava sobre minha bochecha, dando uma breve pausa antes de plantar um leve beijo ali, fazendo os pelos da minha nuca se arrepiarem. Encarei seus olhos, incrédulo, enquanto ele apenas abria um sorriso travesso. – Até mais, Jiminie. Qualquer hora dessas eu te ligo. – despediu-se, acenando enquanto se afastava.

– Que porra é essa? Quem esse cara pensa que é? – Jungkook brandiu, indignado, e só então eu percebera que ainda estava encarando a silhueta esguia de Hoseok se afastar, sem acreditar no que acabara de ocorrer. Hoseok tinha um jeito bem peculiar de se expressar, mas eu não tinha tempo pra pensar nisso agora. Precisava encontrar Suga.

– Vão vocês dois na frente. – disse, já tomando caminho para a saída. – Eu preciso resolver uma coisa primeiro. Vejo vocês em casa! – acenei em despedida, tirando o celular do bolso pra digitar uma mensagem.

Onde você tá?

Recebi sua resposta ao mesmo tempo que atravessava a porta da frente, porém ela já não era mais necessária: eu podia vê-lo.

Aqui fora.

Caminhei em passos largos a distância até onde seu carro estava estacionado, assistindo-o se levantar do capô onde estivera sentado e apagar um cigarro no asfalto com a sola do coturno. Fazendo sinal para que eu o acompanhasse, entrou no carro pelo lado do motorista e ficou me observando com as mãos casualmente apoiadas sobre o volante. Deixei minha bolsa de qualquer jeito no banco de trás e me acomodei no banco ao seu lado, fechando a porta com um baque e puxando o cinto de segurança em silêncio, olhos grudados na rua à nossa frente. Suga continuou me observando por alguns momentos e escarneceu, ligando o carro e tirando-o da vaga. Deixei que ele me conduzisse para um lugar ainda desconhecido por mim, sem quebrar o tratamento de silêncio que eu lhe dava – não que o loiro fizesse questão de mudar isso. Alguns minutos mais tarde, reconheci o bairro onde eu morava quando Suga estacionou o carro numa área mais reclusa do quarteirão, à algumas quadras de distância do meu prédio. Ao invés de sair do carro, ele se contentou em apenas desligar o motor e soltar um longo suspiro.

– Você ganhou? – me perguntou numa voz fraca, tentativa, enquanto virava o rosto para analisar minha reação.

– Você saberia se tivesse ficado até o final. – eu não escondia minha irritação. Desviei o rosto fazendo uma careta, cruzando os braços enquanto observava a rua pela janela.

– Me desculpe. – pediu, suspirando. Virei o rosto depressa na sua direção, procurando seus olhos, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir. Suga pedindo desculpas? O mundo só podia estar acabando. – Eu não consegui ficar lá por muito tempo. Mas eu vi sua apresentação até o final. Você... – pigarreou, era notável como ele escolhia as palavras cuidadosamente. Franzi o cenho. – Você foi muito bem.

– Não conseguiu ficar lá por quê? O que aconteceu? – insisti.

– Eu sou claustrofóbico. – respondeu casualmente, mas algo em seus olhos denunciou a mentira. – E então? Quem ganhou? – acrescentou rapidamente, antes que eu pudesse contestá-lo.

– Fui eu. – tentei controlar o pequeno sorriso orgulhoso que teimava em puxar meus lábios. Suga estava agindo muito estranho, e eu precisava descobrir o porquê.

– Há, eu sabia. Parabéns, garoto. – o loiro estendeu a mão para bagunçar meus fios castanhos. Fazendo de tudo para impedir o rubor que ameaçava colorir minha face, afastei sua mão com um tapa e passei a ajeitar minha franja. – Ganhou algum prêmio? – perguntou, rindo levemente da minha reação.

– Sim. Um troféu, um cheque de dois milhões de won e a oportunidade de subir no palco com J-Hope no seu próximo show. – anunciei, incapaz de conter o sorriso dessa vez. – Mal posso esperar pra trabalhar com ele. J-Hope é meu ídolo, eu o admiro muito-

– Não! – Suga gritou involuntariamente, percebendo tarde demais que falara em voz alta. O observei cobrir a boca com o punho brevemente e em seguida virar sua atenção para frente, apertando o volante nas mãos.

– Não? Não o quê? – indaguei, sem entender.

– Não acredito que você é fã desse cara. – forçou um riso. – Existem tantos melhores que ele por ai.

– Ah é? Tipo quem? – provoquei, vendo-o lutar para me dar uma resposta, sua boca abrindo e fechando como um peixe enquanto vasculhava sua mente sem sucesso. – O que é que você está escondendo?

– N-nada. – balbuciou. Quando viu que eu apertava meus olhos em descrença, ele voltou a adotar a posição hostil de sempre. – Não é da sua conta.

– Você por acaso está com ciúmes, Suga-ssi? – provoquei, lançando um olhar significativo e um sorriso travesso em sua direção.

– Ciúmes? – escarneceu. – Não seja ridículo, Jimin. – seus olhos me olhavam como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo, um pouco entre o ofendido e o enojado.

Suspirei, me inclinando até o banco de trás para pegar a bolsa e abrindo a porta do carona. – Quer saber? Cansei desse joguinho. – saí do carro e fechei a porta atrás de mim, me inclinando para encará-lo através da janela. – Muito obrigado pela carona. A partir daqui eu posso ir andando. Até a próxima. – me afastei com passos duros, sem olhar pra trás nem mesmo quando o ouvi gritar meu nome.