Hold me Tight

19 Derrubando muros


– Yoongi POV -

As palavras de Seokjin ecoavam na minha cabeça sem parar, como um disco quebrado. No momento eu me encontrava aconchegado entre os lençóis da minha cama, sendo embalado pela total escuridão que as pesadas cortinas do quarto proporcionavam, fitando o teto sem realmente vê-lo. O relógio ao lado da cama indicava o horário com uma luz vermelha fraca e artificial: três e quarenta da madrugada. Cruzei os braços atrás da cabeça e suspirei. Mais uma boa noite de sono estava sendo completamente tomada por Park Jimin.

Flashes daquela tarde se repetiam na minha mente pela enésima vez. Era engraçado como as coisas podiam dar tão errado em tão pouco tempo; num momento todos estavam bem e contentes, no outro, tudo que podia ouvir eram gritos de dor e histeria. A expressão de choque no rosto de Jimin ficará para sempre gravada à fogo no fundo de minha memória. Naquele momento, eu percebera que a minha vontade de protegê-lo falava mais alto que todo o resto. Não existia mais Namjoon, não existia mais Seokjin, nem sequer o garoto que morria no chão de asfalto. Só existia Park Jimin; ele precisava de mim, assim como eu precisava dele.

Infelizmente, era esse tipo de sentimento – esse desejo, essa necessidade – que eu odiava sentir. Era só meu coração bater um pouco mais forte a cada sorriso, cada olhar, cada palavra direcionada à mim, que minha mente era rápida em esmagar aquelas sensações confusas e varrer os cacos pra debaixo do tapete. Você sempre mantém as pessoas à uma distância segura de si mesmo, nunca dando oportunidade pra elas te conhecerem melhor. As palavras de Jin agora pareciam zombar do meu estado aflito. Foi justamente esse hábito nocivo de ignorar meus desejos e vontades pelo mais novo que me deixou em apuros. Parece que, quanto mais era ignorado, mais meu coração apertava e palpitava na presença do garoto. Ao tentar não desejá-lo, acabei desejando-o mais.

Eu precisava dele, não havia como negar. Constantemente me peguei desejando ouvir sua voz melódica, suas risadas borbulhantes e infantis, seus lábios moldando-se ao redor do meu nome. Ansiava saber mais sobre ele, seus sonhos e seus medos, se tinha família, como fora sua infância, se sentia o mesmo por mim. Maldição. Lá estava eu me afogando em dúvidas e suposições novamente. Como sempre, eu podia confiar em minha mente para apagar tais pensamentos como se nunca tivessem surgido, me embalando num sono pesado e sem sonhos juntamente com o nascer do sol.

Assim que acordei, o relógio marcava pouco mais de duas horas da tarde. Nada no ambiente além do relógio indicava aquilo, já que as pesadas cortinas não deixavam passar um raio de sol sequer, inundando o quarto com a mesma escuridão da noite passada. Levantei-me da cama, ouvindo minhas juntas estalarem ao me espreguiçar, mas não abri as cortinas, optando por acender a luz artificial que pendia do teto. Caminhei com passos lentos até o banheiro, escondendo um bocejo atrás do punho. Franzi o cenho ao abrir a porta, apertando os olhos devido à claridade que invadia pelo pequeno basculante. O cômodo não tinha muito espaço e precisava de uma faxina, que eu provavelmente enrolaria mais algumas semanas pra fazer. Despi-me e joguei a roupa de qualquer jeito sobre a tampa fechada do vaso sanitário, ligando o chuveiro e esperando alguns segundos até que esquentasse. Após uma demorada ducha quente, sequei-me e voltei para o quarto enrolado na toalha, escolhendo uma cueca e uma calça de moletom preta no armário. Descalço e sem camisa, toalha molhada esquecida em cima da cama, fiz o caminho até a cozinha com o estômago roncando, pronto pra preparar um miojo fácil de três minutos. Após o tempo estipulado, sentado no sofá, copo de miojo em mãos, peguei o celular e procurei entre os contatos o número que eu queria. Apertando a tecla de discar, encostei o aparelho no ouvido e esperei até que a ligação fosse atendida.

...Alô? – sua voz estava baixa, cautelosa, talvez um pouco contida. Não o culpava, não depois da tragédia que presenciou no estacionamento. Revirando o macarrão com os hashis a fim de esfriá-lo um pouco, suspirei na tentativa de acalmar meus nervos.

– Sou eu, Suga. – me apresentei, não que fosse necessário, já que ele provavelmente lera meu nome no visor do celular. Decidi que a melhor maneira de prosseguir era ir direto ao ponto. – Que horas você sai do trabalho hoje?

Hm... hoje eu troco meu turno à meia noite. Por quê? – Jimin respondeu incerto, sem dúvida tentando compreender minhas reais intenções.

– Você não tem aula aos sábados, certo? – fiz uma pausa, ouvindo uma negativa do outro lado da linha. – Eu queria te levar pra algum lugar, conversar um pouco. Você sabe, compensar pelo fiasco no estacionamento aquele dia. O que você acha? – acrescentei um pouco constrangido, deixando minhas palavras tropeçarem e embolarem umas nas outras. Apertei os olhos numa careta, sem acreditar que eu pudesse ser tão estúpido ao fazer um simples pedido. Eu só queria chamá-lo pra sair, sem parecer grande coisa, mas o nervosismo era evidente na minha voz. Merda.

Ah... me parece... ótimo. – sua resposta era calculada, quase como se ele estivesse escolhendo as palavras certas. Franzi o cenho. Será que eu havia sucedido em o afastar?

– Ótimo. – repeti, como um completo idiota. – Eu passo pra te buscar na loja então. Até mais. – desliguei sem nem ao menos esperar uma resposta, tamanha humilhação que estava sentindo. Qual é o seu problema, Min Yoongi?

Pouco antes da meia noite eu já estava dentro do carro, estacionado em frente à loja de conveniências onde Jimin trabalhava, esperando pacientemente – tudo bem, talvez não tão pacientemente assim – até que ele trocasse o turno. Eu vestia a mesma calça de moletom preta, um casaco esportivo de gola alta na mesma cor, com algumas listras brancas estampando os braços e zíper fechado até o queixo, tênis surrados nos pés e, pra completar o look, o snapback que Jimin esquecera no meu carro. Definitivamente, eu não estava vestido pra impressionar. Na verdade, eu me esforçara tanto em não parecer excessivamente arrumado que chegava a ser óbvio. Ouvia alguma música pop qualquer no rádio, o volume baixo para servir apenas de som ambiente, caso fique preso num silêncio constrangedor com ele. Já estava prestes a acender um cigarro quando avistei a figura pequena de Park Jimin atravessar a rua na direção do carro. Ele vestia jeans rasgados nos joelhos, uma camiseta branca estampada, e Converse vermelho nos pés. Seus óculos de aro quadrado deslizaram até a ponta do nariz, dando-lhe uma aparência engraçada, e seus fios castanhos eram bagunçados pelo vento conforme corria. Não pude deixar de notar que ele trazia uma sacola plástica nas mãos, carregando algo volumoso consigo.

– Boa noite. – exclamou sorrindo timidamente ao entrar no carro, sua apreensão de horas mais cedo ainda presente na voz, mesmo que um pouco mais controlada. Ergueu a sacola para que ficasse na altura de meus olhos, abrindo ainda mais o sorriso. – Trouxe cerveja.

– Tá pretendendo me embebedar, Park Jimin? – brinquei, na tentativa de quebrar o gelo, observando sua pele ficar rosada. Recebi um aceno negativo da sua cabeça em resposta, abafando o riso enquanto dava partida no carro e seguia pelas ruas relativamente desertas de Seoul. Essa parte da cidade não era exatamente popular por sua vida noturna, sendo um bairro relativamente perigoso e tudo o mais. Perdido em pensamentos, deixei que o silêncio se instaurasse entre nós. Me xinguei internamente por isso, abrindo a boca pra dizer algo, mas Jimin fora mais rápido e quebrara o silêncio por mim.

– Posso aumentar o volume? Eu realmente gosto dessa música. – perguntou um pouco acanhado, e pela primeira vez parei pra escutar o que tocava na rádio. Era uma música pop que eu não reconhecia, o rapper cuspindo suas linhas com uma voz enjoada.

– Você sabe quem canta? – perguntei-lhe, aumentando o volume eu mesmo. Jimin me encarou como se eu tivesse crescido uma nova cabeça.

– E você não? – indagou, incrédulo.

– Não costumo acompanhar o cenário mainstream, garoto. – confesso que estava um pouco irritado com a intensidade de seu olhar como se eu tivesse cometido algum tipo de pecado capital. Jimin me encarava com a boca ligeiramente aberta, e após uma longa pausa constrangedora, caiu na gargalhada. – Qual foi a piada?

– Você não conhecer Big Bang, essa é a piada. – riu mais alto, o que me irritou ainda mais. – Essa é a última música que eles lançaram.

– Não é que eu não conheça. – tentei me defender, olhos grudados na pista e juntas dos dedos brancas de tanto apertar o volante. – Eu só conheço as músicas antigas, é isso.

– Aham, claro. – Jimin fingiu acreditar, e por mais que eu ainda estivesse irritado, não poderia esperar mais do que isso. Em pouco tempo Jimin cantava junto, colocando um pouco mais de esforço no canto quando era a voz de um determinado membro que eu não reconhecia. Quando notou que eu o olhava de soslaio, lançou-me um daqueles sorrisos que me tiravam do sério. – Taeyang é meu cantor favorito.

– Deu pra notar. – zombei, recebendo um soco brincalhão no ombro. – Aish, seu moleque. Tá querendo que eu te largue na rua, é?

– Não! – protestou entre risinhos, incapaz de levar minhas palavras à sério. – Por favor, hyungnim. Não me deixe sozinho.

– Então se comporte. – adverti, deixando o tratamento passar despercebido dessa vez. Assisti Jimin concordar freneticamente com a cabeça, usando sua expressão mais inocente, enquanto eu estacionava o carro num beco mal iluminado. – Venha, nós chegamos. – chamei, desligando o motor e saindo para o ar frio da noite.

Jimin me seguia com os olhos arregalados, passando-os por cada canto, assustando-se com cada mínimo ruído ao nosso redor. Usando o pé de cabra que estava escondido atrás de uma caçamba de lixo, puxei a escada de incêndio para que ficasse no nível do chão. A escada era tão firme quanto poderia ser, seus degraus de ferro rangiam sob nosso peso, fazendo os parafusos que a prendiam na lateral do prédio protestarem de tempos em tempos. O prédio em questão era antigo e baixo, de quatro pavimentos, e como a maioria dos prédios ao redor, estava abandonado. Subi os degraus com a mão de Jimin agarrada nas costas do meu casaco, engradado de cerveja seguro contra seu peito. O medo e a apreensão eram visíveis em suas feições, tanto que chegava a ser engraçado. Parei entre dois lances da escada e virei meu rosto levemente para que pudesse olhá-lo por cima do ombro. – Você confia em mim?

Ele encontrou meu olhar levemente sobressaltado, mas mordeu os lábios e assentiu com um aceno de cabeça. Satisfeito, subi o restante do caminho até o telhado do prédio. Sorri ao perceber que estava tudo intacto no lugar. No canto mais distante da escada, estava uma espécie de cabana improvisada com pedaços de madeira, ferro e plástico. O trabalho era péssimo, eu tinha que admitir; mas pelo menos servia pra manter o projeto de casa livre da chuva. Sob dita cabana, estava um sofá velho e puído de dois lugares, uma manta igualmente puída sobre o braço do sofá, uma mesa de centro improvisada com caixas de madeira e uma caixa de isopor que antes servia de geladeira. O guiei até lá, tirando a sacola de suas mãos e apoiando-a sobre a mesa, retirando duas cervejas de dentro dela enquanto indicava o sofá para Jimin se sentar.

– Que lugar é esse? – o garoto não conseguia conter a curiosidade na voz, sentando-se desconfortavelmente na beirada do sofá enquanto aceitava a cerveja com ambas as mãos.

– Era aqui que eu costumava morar, assim que cheguei em Seoul. Antes de conhecer Namjoon e me mudar pro atual apartamento. – respondi casualmente, abrindo a lata em mãos enquanto me acomodava ao seu lado. – De vez em quando eu volto aqui pra pensar.

Jimin me observou por um minuto antes de abrir a própria lata e tomar um grande gole da mesma. – Esse prédio já estava abandonado? O que ele era antes?

– Já. Se eu não me engano, era um hotel. – respondi, tomando um pequeno gole da minha cerveja.

– Se era um hotel, então deve estar cheio de quartos. Por que você não se instalou em algum deles?

– Se as portas não estivessem emperradas por desuso, eu faria exatamente isso. – observei Jimin soltar um leve oh, como se não tivesse pensado naquela hipótese. Constrangido, o garoto acabava com metade da lata em dois goles, esticando-se para pegar mais uma. Eu, por outro lado, bebericava a cerveja em pequenos goles; pela primeira vez na vida, não queria ficar embriagado.

– Então você não é daqui, Suga-ssi? – indagou, sentando-se um pouco mais à vontade no sofá, seus ombros relaxando visivelmente. Parecia que Park Jimin era o tipo que encontrava coragem na bebida.

– Não, sou de Daegu. – respondi, falando no dialeto característico da minha terra natal. Algo na mente de Jimin pareceu clicar, pois ele estalou os dedos e apontou pra mim, reconhecimento nos olhos.

– Eu sabia que conhecia seu sotaque de algum lugar! Era de Daegu esse tempo todo. – balançou a cabeça como se não acreditasse na própria estupidez, tomando outro gole.

– E você, de onde é? – perguntei, subitamente interessado.

– Meu sotaque ainda não me entregou? – brincou, me olhando de soslaio. – Sou de Busan.

– Não, acho que você sabe mascará-lo muito bem. – elogiei, recebendo risinhos infantis em resposta. – Então é por isso que você tem a pele bronzeada desse jeito. – comentei, colocando minha mão próxima da sua para comparar as tonalidades.

– E por acaso em Daegu não tem sol? – brincou, empurrando minha mão de leve.

– Tem sim. No meu apartamento que não tem sol nenhum. – respondi no mesmo tom brincalhão, olhando para cima a fim de observar as estrelas.

– Nesse tinha. – comentou entre risinhos, imitando minha postura. Abafei o riso.

– É verdade. Eu era bem menos branco naquela época.

– Não consigo nem imaginar. – Jimin riu e por um momento nos encaramos, divertimento estampado no olhar. De repente, seus olhos desviaram-se para o boné que eu tinha na cabeça. – Ei! Isso é meu. Eu achei que tinha perdido.

– Você esqueceu no meu carro daquela vez. Peguei pra mim. – dei de ombros, tomando mais um gole da cerveja.

– Haha, engraçadinho. – escarneceu, apertando os olhos e estendendo a mão livre com a palma pra cima na minha direção. – Devolva.

– Por que eu deveria? Achado não é roubado. – escondi o sorriso atrás da latinha ao ver seu olhar se intensificar.

– Não estou brincando, Suga. Me devolve.

– Nem eu. – não fiz questão de esconder o sorriso dessa vez, deixando a lata de cerveja pela metade sobre a mesa enquanto me virava pra ficar de frente pra ele, uma perna dobrada sobre o sofá e o cotovelo apoiado nas costas do mesmo, minha cabeça apoiada na mão. A expressão do meu rosto indicava claramente que eu o estava desafiando a vir pegar o boné, e felizmente ele mordeu a isca. Quando sua mão estendeu-se na minha direção, me levantei de supetão e corri para longe do seu alcance. Irritado, Jimin correu atrás de mim, latinha na mão e tudo. Fiz com que me perseguisse por um tempo, mas cansado de brincar, Jimin se chocou contra mim, levando-me ao chão por conta de sua força e peso. Ele caiu sobre mim, machucando a testa com a aba do boné enquanto deixava a latinha cair de sua mão e fazer uma bagunça no chão.

– Ai! – gemeu de dor, rolando para o lado com a mão na testa. – Que droga.

– Você está bem? – perguntei entre risadas, me levantando para estender-lhe a mão, que a aceitou de bom grado. – Eu te devolvo o boné, não precisa tentar nos matar.

– Pode ficar. – vociferou, voltando pro sofá um pouco tonto, jogando-se no mesmo com uma careta de dor. – Não quero mais essa porcaria.

– Ora, Jiminie. Não seja assim. – zombei, usando uma voz meiga de propósito, como se eu estivesse falando com uma criança birrenta. – Tome, aqui está seu boné. – coloquei-o sobre a cabeça dele com um pouco mais de força do que o necessário, puxando a aba para baixo até trazer sua cabeça junto.

– Ei, isso dói! – resmungou, tirando o snapback da cabeça apenas para colocá-lo novamente, aba virada para trás. Ele tinha uma expressão emburrada no rosto, com uma pequena ruga formada entre as sobrancelhas enquanto seus lábios estavam projetados num bico. Não consegui impedir o sorriso de se formar nos meus próprios lábios, um sorriso verdadeiro, sem qualquer traço de escárnio ou zombaria. A expressão de Jimin foi suavizando lentamente, a irritação dando lugar à admiração.

– O que foi? – franzi o cenho, sem entender sua reação.

– Seu sorriso é... é bonito. – elogiou, suas bochechas tão vermelhas quanto pimentas. – Você devia sorrir mais vezes.

– Pare de falar bobagens, garoto. – tentei desviar o assunto, pigarreando e olhando para qualquer lugar que não fosse seus olhos.

– Sua namorada nunca te disse isso? – dava pra ver que Jimin tentava soar casual enquanto estendia a mão pra pegar mais uma cerveja, mas falhara miseravelmente. Franzi o cenho novamente, incapaz de saber sobre o que se tratava a pergunta. Mas que diabos ele estava falando?

– Que namorada, guri?

– Aquela menina... no seu apartamento. Não é sua namorada? Pensei que fosse. – Jimin falava atrapalhado, atropelando as palavras umas nas outras entre grandes goles de cerveja, olhando pra qualquer lugar menos pra mim. Ah, então era disso que se tratava. Não consegui conter o riso, o que rapidamente atraiu sua atenção.

– Quem, a Jia? Deus me livre. – brinquei, pegando a latinha que estava esquecida sobre a mesa e esvaziando seu conteúdo num gole só. – Nunca namoraria aquela lá, a garota é louca.

– Então... Por que...? – parecia que ele realmente estava lutando pra encontrar as palavras certas, então eu resolvi ajudá-lo.

– Por que ela estava seminua no meu apartamento? – Jimin concordou veementemente com a cabeça, olhos vidrados em mim, cheios de expectativa. – Bem, quando um homem sente tesão... – comecei, fingindo que daria uma palestra sobre os porquês e comos do sexo, o que fez Jimin engasgar com a bebida, orelhas tão vermelhas que parecia que entrariam em combustão a qualquer minuto.

– P-pare! Pode parar. Já en-entendi. – gaguejou, arrancando uma risada baixa de minha parte. Apesar do constrangimento, Jimin parecia um pouco aliviado. Sorri, ajeitando seus óculos que caíram novamente pra ponta do nariz. Seus olhos encontraram os meus, e por alguns segundos ficamos nos encarando.

– Você é fofo. – comentei, deliciado com a cor que suas bochechas adquiriram com o elogio. Jimin desviou o olhar, estremecendo um pouco. – Está com frio?

– Sim. – abraçou-se, esfregando o braço nu com a mão livre. Me estiquei sobre ele a fim de pegar a manta que estava dobrada sobre o braço do sofá ao seu lado, notando com um meio sorriso que ele prendera a respiração, depois batendo-a longe de nós para tirar um pouco da poeira antes de colocá-la sobre seus ombros. – E você, Suga-ssi?

– Nah, eu tô bem. – tentei assegurar-lhe, mas um vento particularmente gelado me trouxe arrepios na espinha. Rindo, Jimin esticou a manta para que ela envolvesse meus ombros também. Dobrando as pernas e colocando os joelhos junto ao peito, obteve sucesso em se encasular com a coberta, terminando sua agora terceira lata de cerveja. Era estranho tê-lo tão perto de mim; podia sentir o calor que emanava de seu corpo. Estremeci.

– E ainda diz que está bem. – brincou, notando meu estado, risinhos escapando de seus lábios como uma criança. Com olhos pidões, me estendeu a latinha vazia e indicou as duas últimas na mesa com a cabeça. – Poderia pegar mais uma pra mim?

– É um folgado mesmo. – resmunguei, mas atendi seu pedido, aproveitando pra pegar a última lata pra mim. Jimin abriu a lata com um pouco de dificuldade, rindo do barulho característico que fazia, e foi então que percebi que ele estava bem alterado. Era engraçado como o garoto conseguia se embriagar com três latas de cerveja, enquanto eu ainda estava na minha segunda, completamente sóbrio.

Após um momento de silêncio contemplativo, Jimin apoiou a cabeça sobre meu ombro e passou a observar as estrelas. – Suga-ssi, onde está sua família? – perguntou com a curiosidade de uma criança. Porém, não pude evitar a carranca que se formava na minha face. Não gostava daquele assunto.

– Mortos. – respondi simplesmente. Jimin virou um pouco a cabeça pra me fitar, olhando-me com um misto de culpa e pena. – E a sua? – perguntei num tom mais sereno, olhando pra baixo à procura de seus olhos, buscando mudar o foco para ele. Felizmente, Jimin estava bêbado o suficiente pra se deixar levar pela maré, contando-me tudo sobre seus pais em Busan. Eu descobrira que ele era filho único, sua mãe era enfermeira e seu pai trabalhava num escritório, ele tinha três tios por parte de mãe e um por parte de pai, apenas um avô materno e cerca de nove primos. Deixei minha imaginação fluir enquanto ele descrevia os cenários encantadores das praias de Busan onde ele costumava brincar com os amigos. A infância de Jimin tinha sido boa. Feliz e despreocupada, ao contrário da minha. – Nossa, você era um pestinha. – comentei com falsa repreensão na voz.

– Isso porque não te contei a história onde eu enterrei meu primo mais novo na areia enquanto ele dormia. – Jimin riu e ficamos imersos num silêncio confortável, cada um bebendo sua respectiva cerveja. Com cãibras nas pernas, Jimin esticou-as para apoiá-las na mesa à nossa frente, parecendo perdido em pensamentos. Conforme os segundos passavam, eu podia sentir a atmosfera ficando mais pesada e estranha. – Aquele garoto morreu, não é? – sua voz saiu tão baixa e suave que, se eu não estivesse tão próximo, talvez não conseguisse escutá-lo. Suas palavras me deixaram tenso imediatamente; a última coisa que eu queria pensar era aquilo. Não na presença dele. Suspirei.

– Não quero falar disso, está bem? – pedi, firme, enquanto esvaziava a lata num gole e a amassava nas mãos.

– Eu preciso saber, Suga-ssi. Meus pensamentos sempre me levam de volta praquele dia, às vezes os gritos até invadem meus sonhos. Eu preciso saber. – pediu, virando olhos grandes e marejados na minha direção. Suspirei pela segunda vez.

– Sim, ele está morto. – pude ver seu lábio inferior tremer, mas limpei a lágrima com o dedão antes que ela pudesse cair por completo. – Não chore.

Jimin fechou os olhos e soltou uma respiração pesada, franzindo o cenho. – Eu não sei porque isso me deixa tão triste. Eu nem sequer o conhecia. Mas... acho que sua vida é realmente perigosa, não é? – lá estavam seus olhos grudados nos meus novamente, grandes e castanhos, tão terrivelmente tristes que chegavam a ser belos.

– Muito. – deslizei o mesmo dedão que antes secava suas lágrimas por sua bochecha macia, observando a pele adquirir um tom rosado conforme eu a tocava. Achava aquilo estranhamente encantador. Abaixei a mão, expressão séria no rosto. – Seu amigo tem razão, Jimin. Eu não sou uma boa pessoa. Não posso ser, no ramo em que trabalho.

– Não quero acreditar nisso. – choramingou, balançando a cabeça em negação, novas lágrimas surgindo no canto de seus olhos. – Eu quero acreditar que você é uma pessoa boa, mas eu não sei nada sobre você. Não sei nada sobre seu passado, não sei nada sobre o que você faz. Estou perdido no escuro, Suga-ssi.

– Me desculpe, Jimin. – abaixei a cabeça, fitando as mãos que repousavam no meu colo. – Eu te trouxe aqui pra tentar remediar isso, mas acho que não sou bom com esse tipo de coisa. – retornei meu olhar para o seu, fixando-o ali. Soltei uma respiração trêmula, passando os dedos pelos meus fios loiros. – O que você quer saber? Pode me perguntar qualquer coisa.

– Qualquer coisa? – repetiu, aproximando seu corpo levemente do meu. Engoli em seco, de repente ciente da grande enrascada em que me metera. Assenti com a cabeça. Jimin fez uma pausa, desviando o olhar para minha boca antes de retornar para meus olhos. – Qual é seu nome?

A pergunta me pegara desprevenido. Encarei-o, estupefato. Eu poderia gargalhar, tamanha absurdidade da questão, se não fosse um assunto tão delicado pra mim. Desviei o olhar, coçando a nuca um pouco incerto. – Ahn... não pode ser outra pergunta? – uma pequena ruga começara a se formar entre as sobrancelhas de Jimin, indicando sua insatisfação. Tentei arranjar uma desculpa. – Não gosto muito do meu nome.

– Você disse qualquer coisa. – Jimin resmungou, o semblante fechando-se numa careta. Céus, ele podia ser tão birrento quando queria.

– Tá bem... – pausei, soltando um longo suspiro. Quando me virei novamente pra ele, seus olhos estavam expectantes sobre mim. – Min Yoongi.

Jimin ficou alguns segundos em silêncio, as sobrancelhas arqueadas como se não esperasse por aquilo, como se imaginasse que outro nome combinaria mais. Lentamente, seus lábios foram se abrindo conforme seus olhos se fechavam, formando aquele sorriso característico que eu tanto admirava. – Yoongi. – repetiu, tentativamente, sua voz doce e suave. Descobri que gostava do som do meu nome nos seus lábios. Meus olhos foram instantaneamente atraídos por eles, a súbita vontade de beijar aqueles lábios rosados e carnudos me assolando de tal forma que eu chegava a ficar tonto. Passei a língua pelos meus próprios lábios finos, umedecendo-os. Nossos corpos se aproximavam sem que eu me desse conta, e um pouco tarde notei que os olhos de Jimin também estavam grudados na minha boca. Podia sentir seu hálito quente acariciando minha face, podia sentir o cheiro da cerveja, podia sentir minha mão subindo por sua coxa por vontade própria. – Yoongi.

A voz de Jimin não passava de um sussurro, mas fora o suficiente pra me despertar do transe em que estava envolvido. Me afastei de seu corpo de súbito, arrependimento se fazendo presente na mesma hora, enquanto o ar gelado substituía o calor que emanava de sua pele. O olhar que Jimin me lançava era demais pra suportar; pus-me de pé, mantendo-me ocupado em colocar as latinhas vazias dentro da sacola, inclusive aquela esquecida devido à nossa brincadeira. Quando retornei, Jimin já havia se recomposto, mas não estava contente. Lançando um meio sorriso apologético em sua direção, estendi a mão para que aceitasse. – Vamos. Está ficando tarde.

Jimin aceitou minha mão de mau grado, tremendo levemente ao deixar a manta pra trás. Fizemos todo o caminho de volta para o carro em silêncio, com apenas nossos passos servindo de trilha sonora. Chegando ao chão, joguei a sacola na caçamba de lixo e destranquei o carro. Esperei que Jimin entrasse primeiro, para então abrir a porta do motorista. O motor acordou com um ronco, e toda a viagem para o apartamento de Jimin foi feita em total e completo silêncio. Tentei me desculpar inúmeras vezes, mas toda vez o pedido ficava preso na garganta. Jimin só olhou pra mim quando estacionei na frente de seu prédio.

– Boa noite. – ele mal continha a decepção, mas antes que pudesse ir embora, tomei coragem e segurei seu pulso, atraindo sua atenção. Fiquei a observá-lo por um instante, tentando memorizar cada detalhe de seu rosto. Tentativamente, levei a mão livre até o topo de sua cabeça, puxando um pouco o boné para que sua testa ficasse completamente livre. Lentamente, mantendo meus olhos grudados nos seus em busca de qualquer reação negativa, aproximei meu rosto e depositei ali um leve beijo. Pude sentir a respiração pesada que ele soltara contra meu pescoço, arrepiando-me os pelos do braço e da nuca, e então me afastei. Os olhos de Jimin ainda apresentavam o descontentamento de antes, mas agora havia algo mais neles que eu não conseguia identificar. Seus lábios apresentavam o fantasma de um sorriso, mas ele não disse mais nada. Saiu do carro e atravessou a rua rumo ao conforto de sua casa, sem olhar pra trás sequer uma vez.

– Boa noite, Jimin. – sorri, o segundo sorriso sincero daquela noite, enquanto via a figura pequena dele se afastar.