Hold me Tight
41 Deixe-me cuidar de você
— Jimin POV -
Estava um típico dia de verão lá fora, sol quente e céu livre de nuvens, imperceptível de dentro do apartamento escuro e abafado de Yoongi. Olhei para cima, aproveitando o calor e o sentimento que um belo dia me proporcionava, ainda que a luz intensa me obrigasse a apertar os olhos e protegê-los com a mão; como um garoto nascido em Busan, naturalmente o verão era minha estação do ano favorita. Sorrindo, comecei a caminhar na direção do mercado mais próximo, aproveitando o fato de que havia acordado antes de Yoongi para fazer compras. Era difícil forçar meu corpo a levantar da cama e deixar seu calor pra trás, mas a falta de comida saudável na despensa do outro me preocupava, e eu mesmo não sobreviveria à base de macarrão instantâneo e cereal por muito tempo. Ainda que todas as vezes em que sugeri sair do apartamento para uma rápida viagem até o mercadinho tivesse me arrecadado estranhas reações por parte do loiro, que me chantageava e impedia de ir em todas as tentativas, deixando-me tocado em cada uma delas, a necessidade de colocar algo comestível em ambas as nossas barrigas não havia desaparecido. Talvez ficasse contrariado ao acordar e não me encontrar na cama ao seu lado, mas se eu bem conhecia o mais velho, ele provavelmente não acordaria antes que eu retornasse.
Chegando ao meu destino, perambulei por entre as diversas seções analisando produtos e comparando preços, escolhendo tudo aquilo que meu bolso podia pagar. Mesmo com dois empregos, eu não tinha muito dinheiro de sobra, mas era o suficiente pra encher um carrinho de forma satisfatória. Jin ficaria tão orgulhoso de mim se me visse agora, era o tipo de pensamento que tinha em mente ao estender o cartão de crédito para a atendente no caixa e despedir-me com um sorriso e uma breve reverência, rindo de mim mesmo pelo sentimento de realização que sentia com a mera ideia de cozinhar algo que Yoongi de fato comesse. Será que eu era assim tão fácil de agradar? Aparentemente a resposta era sim, pois não conseguia pensar em nada que pudesse me alegrar mais naquele momento.
Enquanto fazia o caminho de volta, deixei que minha mente divagasse por assuntos que preferia evitar, mas que agora invadiam meus pensamentos mesmo sem querer. Eu ficara tão aflito e honestamente de coração partido quando soube que Yoongi havia se machucado, mais ainda por ter o conhecimento de que tudo fora por minha causa. O sentimento que me assolara quando o vi inconsciente numa cama de hospital rodeado por máquinas e conectado por tubos era tão devastador que prometi à mim mesmo, naquele exato momento, que cuidaria dele e o protegeria, não querendo passar por aquilo nunca mais. Claro que era uma promessa ingênua, pois a verdade é que não podia fazer muita coisa para livrá-lo do perigo, não contra uma gangue poderosa que tinha homens de sobra e armas de fogo ao seu dispor. Mas eu podia cuidar de Yoongi até que ficasse saudável de novo, pronto para o que quer que o futuro nos reservasse, e com certeza me certificaria de que ele estivesse em sua melhor forma.
Pouco mais de duas horas depois que havia saído avistei o prédio de apartamentos velho e mal-cuidado que já estava acostumado à frequentar, sol quente sobre minha cabeça e sacolas de compras pesando meus braços ao lado do corpo, mas nem por isso o bom humor havia me deixado. Nem mesmo ter que desviar de bêbados e sabe-se lá o que mais nos corredores até encontrar a porta certa havia tirado o pequeno sorriso que parecia gravado no meu rosto. Nem quando abri a porta com a pintura descascada para encontrar o apartamento exatamente do jeito que o deixei, cortinas pesadas escurecendo o ambiente e um leve fedor de cigarros impregnando minhas narinas – e nenhum sinal de Yoongi – eu deixei de acreditar que hoje seria um bom dia; um dia que poderia cozinhar comida de verdade para o mais velho, cuidar de suas feridas, observá-lo trabalhar na música que compunha especificamente pra mim, quem sabe até mesmo relaxar no sofá ao seu lado, aproveitando o calor do seu corpo. Se tudo corresse como planejado, eu diria que hoje seria um ótimo dia, até.
Após deixar as sacolas sobre a bancada da cozinha, prometendo que as arrumaria depois, coloquei-me a abrir todas as cortinas e janelas a fim de deixar a luz do sol entrar e talvez, se estivesse me sentindo otimista o bastante, tirar um pouco do cheiro de mofo, cigarros e bebida. Uma vez satisfeito com a claridade e a brisa suave que invadia a sala de estar, chamei por Yoongi algumas vezes, pensando que o mais velho talvez estivesse acordado, mas não obtive resposta alguma. O silêncio acendeu uma pequena luz vermelha no fundo de minha mente, ainda que eu não soubesse explicar muito bem o motivo; afinal, não me surpreenderia nenhum pouco se encontrasse Yoongi ainda adormecido com os lençóis presos entre as pernas e o rosto enfiado no travesseiro que usei durante a noite, agora seguro em seus braços. Pelo pouco tempo que dividia a cama com ele – não por opção, que fique bem claro –, pude perceber que o outro tinha um péssimo hábito de dormir tarde e acordar mais tarde ainda. Mesmo assim, um estranho e inexplicável nervosismo se instalou na boca do meu estômago enquanto me dirigia ao banheiro e abria a porta para encontrá-lo vazio. Naquele momento, vários cenários terríveis passavam por minha cabeça: e se Yoongi passou mal de alguma forma enquanto não estava aqui? Ou pior, e se alguém da gangue rival invadiu o apartamento e fez algo à ele? Tentei respirar fundo e livrar-me de qualquer pensamento errado que pudesse ter, convencendo-me de que estava sendo ridiculamente irracional; Yoongi certamente estaria na cama, em seu sétimo sono. Caso não estivesse, aí sim eu poderia entrar em pânico, mas não antes de obter a confirmação.
Ao me aproximar mais da porta entreaberta do quarto, soltei a respiração que não tinha percebido que estava prendendo até ouvir um pequeno choramingo vindo de dentro, tão fraco que teria perdido se não estivesse tão alerta e o apartamento tão mortalmente quieto. Um alívio imediato inundou minhas veias e relaxou meus músculos, porque aquilo indicava que Yoongi estava logo ali, mas um pouco da tensão retornou logo em seguida quando o loiro choramingou de novo e eu pude perceber dor em seu tom. Sem perder mais tempo, abri a porta do quarto para encontrá-lo escuro como breu, iluminado apenas pela luz natural que vinha da sala atrás de mim, e mais abafado do que nunca devido ao dia quente e ensolarado. Yoongi ainda dormia, se seus olhos fechados serviam de algum indício, mas seu sono parecia inquieto e desconfortável, e aquele brilho na sua testa era suor?
— Onde você estava? – a pergunta sobressaltou-me, principalmente porque não esperava que o loiro estivesse acordado, mas o que realmente me assustou foi o esforço colocado por trás dela. Sua voz parecia estrangulada, como se o mero ato de falar fosse um desconforto, e quando o mais velho abriu os olhos, cenho franzido numa expressão dolorida, soube imediatamente que algo não estava certo.
— Yoongi! Você está bem? – coloquei-me ao seu lado mais rápido do que podia piscar, ajoelhando no chão ao lado da cama para ficar na mesma altura que seus olhos. Corri meus dedos por seus fios descoloridos apenas para constatar que os mesmos estavam encharcados de suor, algumas mechas inclusive coladas na testa. Quando fiz menção de afastar o cabelo da região, meus dedos encontraram uma pele úmida e quente como brasa. – Oh, não. Hyung, você está ardendo de febre. Não me lembro de estar assim ontem à noite. O que houve?
— Não sei... acabei de acordar. Eu estava com calor e você não estava aqui... – resmungou baixinho, quase um miado, fechando os olhos novamente com o contato frio de meus dedos contra sua pele superaquecida. Sua expressão era de puro sofrimento, e bastou uma olhada para perceber que as roupas que usara para dormir estavam ensopadas e grudadas em sua silhueta magra. Yoongi apresentava um caso sério de febre, e eu não tinha ideia de como isso aconteceu.
— Me desculpe, eu tinha ido no mercado... – comecei, sentindo-me no dever de me justificar para o outro, mesmo que a preocupação com seu estado fosse maior. Continuei correndo os dedos por seu cabelo, mesmo já tendo retirado todos os fios grudados em sua testa com sucesso, apenas porque não sabia o que fazer. Eu sempre tive minha mãe pra cuidar de mim quando estava doente, era filho único, ganhei minha independência à pouquíssimo tempo; ou seja, não fazia ideia de como cuidar de alguém. Tal realização foi como um punho de ferro fechando-se ao redor do meu coração e congelando meu sangue. Eu me sentia tão inútil. Como poderia cuidar de Yoongi, se não sabia nem como lidar com uma simples febre? – Espere um pouco, vou ligar pra Jin-hyung. Ele deve saber o que fazer.
Saí em direção à sala sem esperar uma resposta, procurando o contato com dedos trêmulos. Quando o médico finalmente atendeu, depois de torturantes cinco toques, ele teve que me pedir calma e explicar-lhe a situação direito, pois meu hábito de falar rápido quando estava nervoso não o deixava entender nada. Assim que, depois de repirar fundo pelo menos três vezes, contei-lhe sobre o caso de febre, Jin assegurou-me com o seu melhor tom de conforto que isso era esperado. Tudo que eu precisava fazer era certificar-me de que o loiro tomaria todos os medicamentos corretamente, se mantesse hidratado e alimentado e, se necessário fosse, eu também poderia dar-lhe um banho frio pra baixar a temperatura. – Está tudo bem, Jiminie. Isso é normal. — ele me assegurou mais uma vez, percebendo o quão aflito e inseguro estava. O mais velho então despediu-se com um desejo de boa sorte e a promessa de que, se até o cair da noite Yoongi não melhorasse, ele viria pessoalmente dar um belo chute naquela bunda branca e magrela do outro – usando as palavras do próprio médico.
Sentindo-me um pouco mais calmo depois de ter falado com Seokjin, fui até a cozinha pegar um copo d’água e os remédios que Wheein havia comprado sob ordens do mesmo, notando que a cartela parecia suspeitosamente cheia. Quando retornei novamente ao quarto, encontrei Yoongi deitado na mesma posição, respirando pesadamente pelo nariz, a pele tão suada que chegava a brilhar contra a luz. Aquela visão despedaçava meu coração em mil pedaços, mas eu precisava ser forte e fazer aquilo que havia prometido. Coloquei o copo e a cartela de comprimidos sobre a mesa de apoio ao lado da cama e toquei-lhe novamente os cabelos, na intenção de despertá-lo. – Yoongi... pode sentar-se um pouco? Você precisa tomar os remédios.
— Não preciso de remédios. – grunhiu, tentando se afastar dos meus toques, ainda que estivesse fraco demais pra obter qualquer sucesso.
— O que quer dizer com isso? Claro que precisa. – rebati, incrédulo, até que tudo fez sentido. – Min Yoongi. Você estava tomando os remédios no horário correto? – nunca antes eu havia me ouvido falar de forma tão autoritária com alguém, mas dessa vez não pude evitar. O modo como ele estava sendo difícil, as cartelas quase completas... Tudo indicava que Yoongi havia negligenciado uma importante parte na sua recuperação, e agora aqui estávamos. O fraco sinal negativo da cabeça loira que recebi foi toda a resposta que precisava. Agora, ao invés de preocupado, eu estava puto. – Ah, então tá explicado porque acordou com febre. O que pensou que ia acontecer, ignorando a medicação e ainda se exaurindo como estava nos últimos dias? Francamente, às vezes você age como uma criança, aish.
Se era com isso que Seokjin-hyung tinha que lidar todas as vezes que o outro se machucava, meu respeito por ele foi elevado à décima potência. Eu sinceramente não sabia no que estava me metendo ao me oferecer pra ficar de olho em Yoongi, senão teria pensado duas vezes. Não era minha intenção ralhar com ele, mas o descaso que tinha com a própria saúde me dava nos nervos. Quando vi que não faria a menor menção de tentar se levantar, teimoso como sempre, enganchei meus braços sob suas axilas e o forcei a ficar numa posição sentada com as costas apoiadas contra a cabeceira da cama, da forma mais gentil que podia apesar da minha raiva. – O que está fazendo? – protestou, uma expressão de puro descontentamento no rosto.
— Cuidando de você, como prometido. – respondi de forma simples, forçando um comprimido em sua mão e estendendo-lhe o copo d’água. – Tome. – ordenei, transbordando autoridade na voz quando notei sua relutância. Yoongi podia até ser mais velho do que eu, mas agia como uma criança de cinco anos quando estava doente. O assisti colocar o comprimido na língua – ainda que contrariado – e empurrá-lo garganta abaixo com um grande gole de água, não parando até que o copo estivesse vazio. Ao me devolver o mesmo, seus olhos tinham uma fraca chama de desafio neles, como se me perguntassem “satisfeito?”. Não poderia estar mais satisfeito do que isso, era o que meu sorriso triunfal lhe respondia.
Deixando o copo sobre a mesa de cabeceira, sentei-me na beirada da cama e levei minhas mãos até a gola de sua camiseta, aproveitando-me do fato de que era larga o bastante para que pudesse puxá-la até expor seu ombro enfaixado, com a finalidade de inspecionar o ferimento. Yoongi tentou me impedir, claramente desconfortável, mas bastou um olhar para que ele deixasse os braços caírem imóveis ao lado do corpo. Aparentemente nenhum ponto havia aberto e o curativo de ontem à noite ainda estava limpo, então ajeitei sua camisa no lugar, satisfeito. O rubor que encontrei nas bochechas e orelhas de Yoongi quando voltei meus olhos para si era de um adorável tom de rosa, mas logo atribuí a cor ao seu estado febril.
O olhar que recebi do loiro quando tentei fazê-lo levantar-se por completo e sair da cama era de puro estranhamento e confusão, quase como se eu tivesse crescido uma segunda cabeça. Se antes achava que Yoongi estava se fazendo de difícil, agora estava impossível, jogando todo seu peso pra trás na tentativa de permanecer deitado. Percebendo que poderíamos ficar nesse cabo de guerra pela eternidade se dependesse dele, soltei seus braços e com eles um suspiro frustrado. – Vamos, levante-se. Tome uma ducha fria, você vai se sentir melhor. Eu te ajudo se quiser. – tentei persuadi-lo com o tom mais doce que possuía, mas pela sua expressão o loiro não estava nenhum pouco convencido.
— Não quero tomar banho. Quero dormir. – foi o que me respondeu com a voz mais dengosa que já ouvi sair de sua boca, aconchegando-se entre os lençóis e fechando os olhos como que para provar seu ponto. Fitei sua expressão de falsa serenidade com olhos grandes, incapazes de acreditar no que viam; como poderia cuidar dele se o próprio não me permitia? Eu estava tão frustrado que era capaz de chorar.
— Por favor hyung, não seja assim. Eu só quero te ajudar. – pedi, o tom de voz quase tão dengoso quanto o dele, sentindo-me vergonhosamente derrotado. Yoongi abriu apenas um olho para me fitar, mas sua teimosia ainda se fazia bastante visível em suas feições.
— Estou bem, Sunshine, sério. Não precisa se preocupar. Eu só preciso dormir um pouco, e estarei novo em folha. – disse, tornando a fechar os olhos, deixando-me completamente desprovido de opções. Suspirei, pegando o copo esquecido para levá-lo de volta à cozinha.
— Ao menos me deixe pegar uma tolha úmida pra colocar na sua testa. – anunciei ao sair do quarto, ainda que soasse mais como uma súplica. Como Yoongi não protestou, peguei uma bacia com água na cozinha e uma toalha de rosto no banheiro, retornando ao quarto para então mergulhar a toalha na água e ter certeza de que havia espremido o excesso do líquido antes de pousá-la sobre sua testa. Yoongi permanecera quieto e de olhos fechados, mas o som de alívio que escapou de seus lábios com o contato frio da toalha indicava que ainda não havia adormecido completamente.
Devo ter perdido alguns segundos apenas encarando seu rosto e admirando a beleza do mesmo, a curva do seu nariz, o constraste de seus cílios negros contra a pele clara como porcelana, o tom róseo que coloria tanto suas bochechas quanto seus lábios entreabertos. Quando me dei conta do que estava fazendo, castiguei-me mentalmente por estar desejando beijar alguém que estava doente e precisava de nada mais do que meus cuidados. Fiz menção de voltar à cozinha e ocupar-me com qualquer coisa que tirasse minha mente de lugares impróprios, mas fui impedido por uma mão no meu pulso antes que pudesse dar sequer o primeiro passo.
— Onde... aonde vai? – perguntou-me com a voz fraca e olhos entreabertos, apresentando uma mistura de sono e desconforto que lhe dava uma aparência frágil. Era o tipo de expressão que me desarmava por completo, e no mesmo instante eu sabia que cederia até ao menor de seus caprichos.
— Comprei comida, comida de verdade. – disse em tom de brincadeira, na esperança de trazer ao menos um sorriso ao seu rosto, nem que fosse um de puro escárnio. Desnecessário dizer que meu peito ficou ainda mais apertado quando não funcionou. – Estava pensando em preparar alguma coisa.
— Não estou com fome. Fique. – eu tinha quase certeza que a intenção de Yoongi era soar autoritário, mas tudo que ouvi foi um pedido manhoso. Para dar ênfase às suas palavras, o loiro puxou levemente meu braço para perto e para baixo, como se me convidasse a deitar consigo.
— Você precisa se alimentar, hyung... – tentei resistir, ainda que soubesse que estava travando uma batalha perdida. O mais velho já havia me ganhado no “fique”.
— Depois. – insistiu, puxando-me com um pouco mais de propósito. O fiz prometer que comeria o que tivesse preparado quando acordasse antes de ocupar o lado vazio da cama, deitando-me de lado para observar seu perfil impecável.
Assim que me fiz o mais confortável possível, Yoongi imediatamente procurou minha mão por baixo dos lençóis, prendendo-a na sua de forma gentil, mas com uma firmeza resoluta. Não pude deixar de sorrir com o gesto, pois nunca imaginaria que ao ficar doente, Yoongi se tornasse tão... carente. Não havia outra palavra pra descrever o que acabara de presenciar. O loiro exalava carência, parecendo e soando mais como um bebê que precisava de carinho e atenção constantes do que membro de uma grande e temida gangue no underground de Seoul. Deixei que meu polegar acariciasse as costas de sua mão num ritmo lento e ininterrupto, observando fascinado suas feições relaxarem até estar imerso num sono profundo.
Como tinha literalmente acabado de acordar, eu não tinha sono algum para aproveitar e tirar um cochilo junto ao mais velho, então a única opção que me restava era assisti-lo dormir. O silêncio do quarto criava uma atmosfera propícia para minha imaginação correr solta, embalada pelo sobe e desce de seu peito e pelos pequenos sons que escapavam de seus lábios a cada expiração. Antes que pudesse me conter, percorri com o olhar o caminho de sua boca rosada – lábios entreabertos e úmidos, tão convidativos –, passando pela extensão de pele clara como neve de seu pescoço desprotegido, o monte proeminente do pomo de Adão subindo e descendo conforme sua garganta trabalhava para engolir a saliva acumulada, até chegar à fração de clavícula que podia ver por conta da camiseta larga que nunca parava no lugar. Corei com a súbita vontade de me mover até chegar mais perto, perto o bastante pra encostar meus lábios no vale formado após o osso e plantar ali uma marca roxa com o formato de meus beijos.
A partir daí os pensamentos que invadiam minha mente eram cada vez piores, deixando-me assustado tanto com o teor quanto com a vivacidade de minhas fantasias. Imaginei-me com meu corpo colado ao dele, sentado com seus quadris presos entre minhas pernas, nossos lábios envolvidos num beijo ardente, movendo-se um contra o outro num ritmo apressado, sedento; minhas mãos agarrando o travesseiro ao lado de sua cabeça, suas unhas arranhando minhas costas por baixo da camiseta, deslizando por elas até encontrar a curva de minhas nádegas, apertando-as com propósito e tirando de mim um som que jamais pensei ser capaz de emitir. A leve fisgada que senti na região da virilha era quase imperceptível, mas estava ali, lembrando-me que eu estava sonhando acordado com alguém que estava bem ao meu lado, dormindo e ainda por cima doente. Imediatamente fui tomado por um sentimento que era composto por excitação e vergonha em igual medida, e por alguma razão fui levado de volta até algumas manhãs atrás, quando pensei ter acordado com uma presença quente nas costas e um incômodo na parte inferior. Eu havia atribuído aquilo aos delírios da minha mente sonolenta, mas se parasse pra analisar o comportamento estranho de Yoongi pelo resto do dia, talvez minha mente não estivesse tão delirante assim.
Saber que em algum momento o loiro esteve na mesma situação na qual me encontro agora era reconfortante, se não deveras interessante; ser desejado era um sentimento ao qual não estava habituado, definitivamente. Apesar de sempre ter sido aberto quanto à minha sexualidade, na verdade era muito tímido pra tentar qualquer coisa além de beijos e carícias leves, tanto com Yoongi quanto com amantes passados – tão poucos que eu podia contar nos dedos de uma mão, inclusive. Mas agora era diferente. Agora sentia uma vontade incontrolável de tocar e ser tocado, de explorar cada extensão de pele branca e macia, de conhecer seu corpo tão bem quanto conhecia o meu próprio. Fazê-lo sentir prazer e emitir sons exclusivos apenas aos meus ouvidos. Enchê-lo de beijos e toques sutis, ou mordidas e marcas de amor. Eu queria Min Yoongi todo pra mim, e isso me animava e amendrontava ao mesmo tempo.
Eu não sabia se era pelo aumento natural da temperatura conforme o sol subia mais e mais no céu, se pela febre de Yoongi ou pelo rubor das minhas próprias bochechas, mas de repente me senti quente e sufocado, a palma da mão que permanecia presa à de Yoongi agora suada e desconfortável. Decidi que seria melhor pra todo mundo se fosse me ocupar com outra coisa antes que fizesse algo do qual me arrependeria no futuro. Delicadamente, tomando todo o cuidado para não perturbar o sono do mais velho, desvencilhei nossas mãos e levantei-me da cama, saindo do quarto na pontas dos pés e fechando a porta silenciosamente atrás de mim. Tive uma rápida visita ao banheiro pra jogar água gelada no rosto, certo de que poderia acalmar meus ânimos excitados, e consegui. Agora que pensava claramente e tinha espaço para outras necessidades além das carnais, senti meu estômago roncar de fome; o que não era pra menos, visto que se aproximava do horário de almoço e só tive uma tigela de cereal no café da manhã. Certamente o loiro sentiria fome quando acordasse também, então coloquei-me a primeiro guardar as compras esquecidas sobre o balcão, e só depois preparar o almoço.
O que juntava agora na panela era uma antiga receita de família, passada de geração em geração, uma sopa capaz até de trazer os mortos de volta à vida. Eu sabia que funcionava porque minha mãe preparava a mesma sopa pra mim sempre que me encontrava doente, seja com um simples resfriado ou uma perigosa e quase mortal pneumonia, certa vez. Era uma comida leve mas que alimentava bem e aquecia o estômago enjoado, ideal para o estado febril de Yoongi. Só esperava que ele gostasse da minha comida.
Eu não sabia ao certo quanto tempo passei em frente ao fogão, mas apostava que não era muito. Por isso me assustei quando um par de braços finos envolveram minha cintura, as palmas abertas contra minha barriga enviando-me arrepios por todo o corpo. Dentro de instantes pude sentir a presença sólida do peito de Yoongi contra minhas costas e o queixo apoiado no meu ombro, sua respiração leve contra meu pescoço multiplicando aqueles arrepios iniciais por três. Fiquei petrificado no lugar, completamente sem reação, inebriado com sua presença e o calor às minhas costas. Minha vontade era de virar-me em seus braços e roubar-lhe os lábios de forma voraz, liberando todo o desejo contido que tinha dentro do peito. Ao invés, contentei-me em piscar os olhos algumas vezes para me livrar de imagens impróprias e continuar cozinhando como se a proximidade não me afetasse em nada.
— Por que continua fugindo de mim? – indagou-me, a fala dificultada como se tivesse uma bochecha amassada contra meu ombro, o que, pensando bem, devia ser exatamente o caso. Fiquei confuso pela pergunta, porque em momento algum me vi fugindo do mais velho; muito pelo contrário.
— Eu não fugi. – respondi simplista, tentando entender qual era sua lógica.
— Quando acordei você não estava mais na cama comigo. Já é a segunda vez que isso acontece. – demandou, soando mais como o Yoongi carente que havia encontrado momentos atrás. Era engraçado como essas coisas funcionavam; bastava uma pequena febre pro loiro se desmanchar em miados e resmungos manhosos.
— Desculpe, mas eu tinha que cuidar de um certo bebê que conheço. – brinquei, recebendo um cutucão na costela em resposta.
— Yah, eu não sou nenhum bebê. – resmungou, mas não fez nenhuma menção de mudar de posição ou afastar-se de mim. Quando percebeu que não iria concordar consigo ou muito menos pedir desculpas, apenas rir de forma brincalhona, resolveu mudar de assunto. – O que é isso? – perguntou, referindo-se ao que mexia na panela.
— Uma sopa, pra se recuperar melhor. Receita de família. – respondi com um sorriso nos lábios, feliz pela curiosidade e nostálgico pelas lembranças que o aroma me proporcionava. Yoongi apenas murmurou em reconhecimento, indicando-me que prestava atenção nas minhas palavras, mas eu sinceramente duvidava disso enquanto ele esfregava o rosto contra minha escápula em movimentos lentos e dengosos como um gatinho, apertando-me ainda mais contra si.
— Tão cheiroso... – murmurou contra minha orelha, mas não sabia se falava da comida ou de mim mesmo; principalmente depois de deslizar o nariz pela lateral da minha garganta, encostando-o na junção entre meu pescoço e ombro e inalando profundamente, quase como se lhe faltasse o ar.
Aquele contato, apesar de simples, era tão íntimo que não pude conter as ondas de calor que insistiam em caminhar na direção sul, originadas no forte rubor de minhas bochechas e com destino ao pequeno incômodo que começara a se formar dentro das calças. Tudo que podia fazer era reunir forças para não agarrar uma de suas mãos entre as minhas e guiá-la até o problema que ele próprio havia criado. Mas como era fraco, oh tão fraco, tombei minha cabeça pra trás, apoiando-a em seu ombro, oferecendo-lhe meu pescoço desprotegido e deixando-me à sua mercê.
Yoongi aceitou o convite de bom grado, deslizando a ponta dos dedos por baixo da minha camiseta e acariciando suavemente a pele logo abaixo do meu umbigo, enquanto a outra mão prendia com firmeza minha cintura. Senti seu hálito quente contra a pele já sensível e arrepiada de meu pescoço antes mesmo de sentir o músculo úmido de sua língua correr por toda a extensão que lhe era oferecida, do início do ombro até o ponto sensível que ficava logo abaixo da orelha. Após pressionar o lado plano da língua contra o mesmo ponto algumas vezes, o loiro então selou os lábios no local, sugando-o forte o bastante para me forçar a morder os lábios na tentativa de conter os ruídos que ameaçavam transbordar mas não para deixar marcas. A mão que acariciava minha barriga ficara mais insistente, usando as unhas para arranhar de leve a pele macia que tinha ali, deixando-me tão desequilibrado que tive que me apoiar na bancada, segurando o mármore como se minha vida dependesse disso. Quando estava prestes a roçar meu corpo descaradamente contra o seu, Yoongi mudou sua atenção para meu ouvido apenas para murmurar algo baixinho com divertimento colorindo a voz. – A comida está queimando.
Aquilo me serviu como um balde de gelo sobre a cabeça, despertando-me do estupor e da lascívia de forma brutal. Afastei-o de mim com um empurrão, como se o mesmo estivesse em chamas – se parasse pra pensar estava mesmo –, corando como nunca corei na vida. Eu não sabia se sentia mais raiva por ter deixado tudo aquilo começar ou por Yoongi ter estragado o mometo. – Aish, saia de perto de mim, você só atrapalha. Não era nem pra estar de pé ainda, o que estava pensando? – ralhei enquanto tentava salvar o que podia da sopa, sendo rápido em desligar o fogo para não piorar a situação. Yoongi riu travesso enquanto ia se empoleirar sobre um dos bancos altos do outro lado do balcão, suas risadas apenas servindo de mais combustível para minha ira.
— Eu disse que só precisava de um cochilo e estaria novo em folha. – brincou, assistindo-me servir duas tigelas de sopa fervente antes de colocá-las diante de si e juntar-me à ele num dos bancos reserva. Ainda estava um pouco contrariado, então não lhe respondi nada, apenas concentrei-me na minha própria tigela sem lhe dirigir sequer o olhar. Depois de alguns segundos em silêncio, Yoongi finalmente percebeu minha irritação e chocou de leve seu ombro bom contra o meu, chamando-me a atenção. – Jiminie, meu ombro ainda dói. Pode me dar comida na boca?
Sem acreditar no que meus ouvidos captaram, encontrei seu olhar apenas para perceber o quão grandes e brilhantes seus olhos estavam, piscando inocentes para mim, acompanhados de uma sombra de beicinho que ameaçava puxar-lhe os lábios a qualquer instante. – Não acredito que você está recorrendo ao aegyo pra cima de mim. O que aconteceu com todo aquele discurso de “não preciso da ajuda de ninguém, posso fazer tudo sozinho, obrigado”?
— Yah, Sunshine, isso não é justo. – choramingou, lábios puxados num bico completo agora. – Não use minhas palavras contra mim.
O que eu gostaria de dizer realmente era que injusto mesmo era o modo como ele usava os apelidinhos carinhosos que me dera para conseguir o que queria, mas contentei-me em apenas rir e balançar a cabeça, incrédulo. – Eu só gostaria de saber pra onde foi o Min Yoongi que conheço, porque você certamente não é ele.
— Tsc, tudo bem, então. Eu como sozinho. Não quero mais sua ajuda. – explodiu por fim, pegando a colher e virando o rosto como a criança mais birrenta que eu já conhecera. Isso só me fez rir mais, sorrindo de tal forma que meus olhos desapareciam por trás das bochechas enquanto tirava a colher de suas mãos gentilmente.
— Não precisa ser tão difícil comigo, hyung, só estava brincando. Todos nós temos o direito de querermos mimo de vez em quando, certo? – provoquei, mantendo o tom de voz o mais inocente que podia enquanto lhe oferecia uma colherada de sopa depois de assoprá-la bem e certificar-me de que não queimaria sua língua. Yoongi murmurou algo muito semelhante à um “eu te odeio” ao redor da colher, mas decidi fingir-me de surdo. – Não fale de boca cheia. – repreendi ao lhe oferecer uma segunda colher, lançando-lhe um olhar que o silenciara até que a tigela estivesse vazia.
— Eu não acredito que fui me arrumar uma versão pequena de Seokjin. – lamentou-se uma vez que a minha tigela também estava vazia, a sopa morna depois de ter esperado tanto tempo. Se ainda estivesse comendo, com certeza teria engasgado.
— Espere, eu ouvi direito? Quem é que está chamando de pequeno? – desafiei. – Você tem a mesma altura que eu.
— É aí que se engana, Sunshine. Sou mais alto que você por pelo menos dois dedos. – Yoongi falava como se vangloriasse do seu mísero centímetro a mais; isto é, se é que esse centímetro sequer existia.
— Pare de ser mentiroso, hyung! – acusei, embasbacado com a sua cara de pau. – Você sabe que isso não é verdade. Se não estivesse doente, eu te desafiaria à tirar a prova agora mesmo. Considere-se com sorte.
— Não seria necessário de qualquer forma. – rebateu dando de ombros, abrindo um sorriso convencido logo em seguida. – Nós dois sabemos que você perderia.
— Pare de falar bobagens, antes que eu envenene seu jantar. – disse em tom de ameaça, apesar de estar apenas brincando, enquanto levava as tigelas até a pia para lavá-las. Minhas costas estavam viradas para ele, mas pude ouvir os passos arrastados de Yoongi se aproximando antes que sentisse suas mãos apoiadas na minha cintura e seu queixo no meu ombro novamente. Definitivamente, Yoongi doente era um Yoongi carente.
— Oh não, seria uma pena estragar a comida... – murmurou ao pé do ouvido, causando-me uma nova onda de arrepios. Será que essa tortura nunca cessaria?
— Isso quer dizer que você gostou? – não consegui conter a curiosidade, mesmo que tivesse medo da resposta. Era irracional, eu sabia, mas a opinião do outro era mais importante do que calculara inicialmente. Tentei ao máximo manter minha voz firme e inalterada, mas acho que Yoongi deve ter percebido meu nervosismo pois mal esperou eu terminar de secar a louça antes de girar meu corpo em seus braços, de modo que ficasse frente à frente consigo.
— É claro que gostei. Foi você quem fez, não foi? – o tom de sua voz e o sorriso que adornava seus lábios eram tão carinhosos, tão apaixonados, que não sabia o que fazer. Deixei que seus olhos negros, tão cheios de ternura, travassem os meus no lugar, puxando-os para sua órbita enquanto eu era reduzido à uma poça de manteiga derretida. O toque suave que senti nos lábios em seguida teriam me desestruturado por completo caso não tivesse as mãos de Yoongi plantadas firmes na minha cintura, dando-me suporte.
Mal tive tempo de registrar o beijo antes que meu rosto entrasse em combustão, meu peito sobrecarregado de emoções. Finalmente o comportamento incomum de Yoongi estava obtendo sucesso em dizimar a já fraca barreira que eu tentara, inutilmente, construir para proteger meu pobre coração. Se não tivesse tanta certeza que estava completa e perdidamente apaixonado por Min Yoongi antes, agora não restaria a menor dúvida. E, por alguma razão, esse conhecimento me deixava nervoso. Eu não sabia como reagir, o que dizer, o que fazer com as mãos; então fiz a primeira coisa que me passou pela cabeça. – Acho que ainda está com febre. – anunciei, sentindo a temperatura de sua testa através da palma que apoiei ali, empurrando a franja loira para cima para que pudesse tocar sua pele. Tudo que recebi em resposta foi um revirar de olhos e um resmungado “estou bem”. – Não, é sério. Sua temperatura pode ter baixado um pouco, mas você ainda está febril. Nós devíamos medi-la, só pra ter certeza. Você tem um termômetro?
— Eu tenho cara de quem tem um termômetro? – devolveu com sarcasmo pingando da voz, uma sobrancelha arqueada como se não acreditasse no rumo que a conversa tomou, mas suas mãos nem por um segundo largaram minha cintura. – Pare de ser tão chato, senão vou realmente acreditar que arranjei a versão mini de Seokjin. Eu não preciso de mais uma babá.
— Oh, é mesmo? Não é o que parece. – rebati brincalhão, apertando suas bochechas de modo que seus lábios formassem um bico em forma de peixinho, sentindo-me ousado de uma hora pra outra. Eu poderia não saber como lidar com um Yoongi carente ou atencioso demais, mas esse vai-e-vém de sarcasmos e provocações já estava mais do que acostumado. Quando Yoongi choramingou alto e agudo como um garotinho mimado, apenas ri e soltei suas bochechas, escolhendo segurar sua mão para guiá-lo até a sala. – Vamos nos sentar um pouco, você não devia se cansar tanto. Prometi à Jin-hyung que daria um jeito na sua febre antes do anoitecer, caso contrário ele teria permissão pra vir até aqui chutar sua bunda pessoalmente.
Não precisou mais do que isso para convencê-lo a sossegar e se entregar de vez ao meus cuidados, o que me fez rir e me deixou sorrindo de orelha à orelha por um bom tempo. Nos acomodamos no sofá a fim de assistir algo na televisão, mas ao invés de sentar-se ao meu lado como esperava, Yoongi empurrou-me para o lado, contra o braço do sofá, e deitou-se de lado com a cabeça apoiada na minha coxa esquerda como se fosse o dono da mesma. – Jiminie? – chamou de olhos fechados, o qual respondi com um murmúrio quieto, incentivando-o a continuar. – Você poderia me fazer um cafuné? Me sinto tão cansado.
Aquilo conseguiu arrancar uma risada nervosa de mim, porque francamente, Min Yoongi. – O que aconteceu com aquela história de ficar novo em folha após um cochilo? – não fui capaz de manter-me quieto e não importuná-lo sobre o assunto, mas minhas mãos já estavam em seus cabelos de qualquer forma.
— Já disse que usar minhas palavras contra mim é feio, não disse, Park Jimin? – repreendeu-me, ainda que sua voz não tivesse nenhuma mordida por trás.
— Me desculpe. – pedi entre risinhos. – É só que você fica tão fofo quando está doente.
— Se contar isso pra alguém eu te mato. – seu tom indicava ameaça e irritação, mas suas ações expressavam algo totalmente diferente. O loiro parecia mais um gatinho sob meus toques, olhos fechados e feições relaxadas, a sombra de um sorriso satisfeito colorindo seus lábios finos, um leve rubor nas orelhas que eu não sabia muito bem a que atribuir; não me surpreenderia em nada se começasse a ronronar ali mesmo.
— Ah, aí está. Sabia que o Yoongi que conhecia estava perdido em algum lugar aí dentro. – brinquei, esperando receber algum tipo de retruque sarcástico, mas me sobressaltei ao receber uma mordida brincalhona na coxa, na parte onde o shorts esportivo que usava não cobria.
— Cale a boca, Jimin. Me deixe dormir. – resmungou, acomodando-se de modo que ficasse de barriga pra cima no sofá, o cenho levemente franzido pelo incômodo que eu supostamente estava causando. Não pude fazer nada além de sorrir para si, meus dedos nunca cessando o cafuné. Depois de algum tempo em silêncio, um tempo que me fizera acreditar que o mais velho tinha finalmente pegado no sono, Yoongi abriu lentamente os olhos, olhando-me com aquela ternura que não sabia como responder. – Obrigado. Eu sei que não é fácil me aturar o dia inteiro, mas você faz o seu melhor. Então... obrigado.
Bastaram aquelas simples palavras para que me encontrasse sem fala, reduzindo minha resposta para a única que seria capaz de dar: debrucei-me gentilmente sobre si, nossos olhares travados um no outro e ambos os lábios puxados num sorriso tímido, até que estivesse próximo o bastante para selá-los num beijo casto e agradecido. Quando me afastei, seus olhos encontravam-se novamente fechados, mas o sorriso continuava lá.
Deixei que um silêncio confortável nos envolvesse, quebrado apenas pelo barulho suave e constante que vinha de algum programa na televisão, um que eu mal registrava por conta da presença sólida na minha perna e dos fios que corriam ininterruptamente por entre meus dedos. Abdiquei de assistir qualquer que fosse o programa cômico que estivesse passando em favor de observar fascinado o modo sereno com que dormia e brincar com seus cabelos, puxando sua franja para trás a fim de afastá-la da testa. Os fios descoloridos tinham uma certa aspereza e fragilidade, mas nem por isso deixavam de apresentar um brilho natural e saudável. O que mais me encantou mesmo foi descobrir um pedacinho de raiz negra onde Yoongi havia esquecido de retocar a tintura, enchendo-me com imagens de um garoto mais jovem, de pele branquinha como a neve e cabelos escuros como breu.
Desnecessário dizer que tais imagens me inundaram com uma curiosidade mórbida que não sabia nem de onde vinha. De repente me vi querendo saber tudo e mais um pouco sobre a vida do outro, como fora sua infância, o que ele mais gostava e desgostava de fazer, sua jornada até aqui. Era verdade que me sentia mais próximo de Yoongi a cada dia, mas parecia que ainda tinha tanto a descobrir, tantos mistérios a desvendar. Eu poderia até me sentir triste por isso, mas tudo que conseguia era ficar ainda mais curioso e instigado. Min Yoongi era uma criatura fascinante, e eu estava determinado a conhecê-lo por completo.
Como se lesse meus pensamentos, Yoongi mexeu-se brevemente no sono, resmungando coisas ininteligíveis com a voz grossa e carregada de sotaque. Talvez chamasse tal visão de adorável, se o movimento não tivesse causado um leve reajuste em suas roupas de modo que a camiseta já larga e gasta revelava não só suas clavículas, mas também um pedaço do seu quadril, bem acima da linha da cueca; agora, a última palavra que passaria por minha mente seria adorável.
Eu tentei me controlar, juro que tentei; usei de toda minha força de vontade para tirar os olhos da fatia de pele clara e imaculada, mais clara ainda do que a pele de seus braços e rosto, tentando me concentrar apenas no que os apresentadores diziam na TV. Mas as palavras soavam como zunidos em meus ouvidos, e as risadas forçadas já não faziam mais sentido algum. A cada cinco segudos meus olhos eram trazidos de volta àquele pequeno, quase insignificante pedaço de pele desnuda que me atraía como um ímã, e nem havia reparado que a mão em seus cabelos estava completamente imóvel.
Tentativamente, de forma quase hesitante, levei a mão livre até seu peito, pousando-a sobre o tecido da camisa tão gentilmente que quase não o toquei de forma alguma. Mantendo os olhos fixos em seu rosto para analisar sua expressão e perceber qualquer indício de despertar, comecei a fazer um carinho leve na região com movimentos lentos e calculados, como se testasse as águas antes de mergulhar por completo. Como não recebi reação alguma além do constante sobe e desce de sua respiração, senti-me incentivado a continuar. Deslizei a mão por toda a extensão de seu tronco até que a ponta de meus dedos encontrassem o pedaço de pele que incitara minha curiosidade e meus atos destemidos, pele clara e macia e tão, tão quente. Prendi a respiração quando, sem perder a ousadia, acariciei a região com o mais sutil dos toques, deliciando-me com a delicadeza mesmo onde a pele esticava-se sobre o osso.
Nesse exato momento uma dúvida maliciosa tomou conta de meus pensamentos, coçando para ser respondida: se no quadril sua tez era tão aveludada quanto seda, imagine o quão deleitosa seria na barriga, logo abaixo do umbigo?
Eu sabia que se não fosse a onda de adrenalina e audácia que corria em minhas veias, não teria a coragem necessária pra percorrer a distância até o ponto que almejava, nem mesmo com a ponta dos dedos, nada mais do que uma carícia suave, como fazia agora. O que senti ao tocá-lo ali não poderia ser descrito em palavras. O abdômen de Yoongi, apesar de magro ainda retinha um pouco da gordura infantil, como provado naquela área em que agora tinha minha palma apoiada e dedos espalhados, tentando absorver o máximo de sensações que podia. Era necessária uma força de vontade tremenda apenas para não apertar a região, de tão afável que era.
O que eu não sabia era de onde vinha a coragem para continuar em frente, a ousadia que levaram meus dedos a ultrapassar o elástico de sua bermuda e ir além, além do tecido suave de algodão da cueca, até encontrarem a pelagem fina e rala que adornavam sua virilha e guiavam o caminho até sua intimidade. Se não estivesse delirando, poderia jurar que tinha visto um volume proeminente já meio formado, no processo de se tornar uma ereção completa. Só então percebi que na minha avidez para tocá-lo havia desviado por completo a atenção de seu rosto. Quando voltei-me para si, me assustei ao encontrar seus olhos abertos, orbes negras me encarando com uma expressão indecifrável, de forma tão íntima que pareciam enxergar dentro da minha alma.
Com o susto veio a vergonha, uma urgência sufocante para me esconder em algum lugar e morrer. Ser pego com as mãos dentro das calças de alguém que estava dormindo inocentemente no seu colo era o último item na lista de coisas que gostaria que acontecesse comigo. Com o rosto em chamas, na pressa de tirar minhas mãos dele, não percebi que Yoongi havia fechado o punho ao redor do meu pulso a fim de prender minha mão exatamente onde estava. Tive que desviar o olhar para onde nossas mãos estavam escondidas, procurando estupidamente por confirmação, uma vez que estava pra lá de confuso. Yoongi nada disse, mas também não moveu um músculo, nem para me afastar ou para me guiar adiante. Ficamos os dois assim, petrificados, sem tomar atitude alguma a não ser encarar profundamente os olhos um do outro, procurando respostas, hesitações – ou qualquer outra coisa, eu não saberia dizer –, por sabe-se lá quanto tempo; pra mim pareceu uma eternidade, até o momento em que os dedos da mão livre do loiro encontraram os fios curtos de minha nuca e guiaram-me gentilmente para baixo, para seus lábios.
Eu já podia sentir o hálito quente contra minha pele, encorajando-me a mover a outra mão – a mão que permanecia vergonhosamente enfiada dentro de suas calças, tão próxima do calor que emanava de sua agora evidente ereção –, e tomar-lhe para mim se não fosse o guincho de surpresa que ecoou pela sala naquele exato segundo, impedindo-me de prosseguir e despedaçando toda a tensão sexual ao nosso redor. Assim que percebi que o som não tinha vindo de Yoongi, virei-me juntamente com o loiro na direção da porta da frente, onde encontramos Namjoon tampando os olhos com as mãos. De novo não, pensei, enquanto desvencilhava-me às pressas do outro. Não sabia como sequer arranjara forças pra preguejar num momento como aquele, não quando estava morto de vergonha, mas a quantidade de interrupções que sofríamos chegava a ser absurda.
— Eu não vi nada, juro! – exclamou o intruso tentando se justificar, ainda com os olhos cobertos. Por um momento peguei-me pensando em como exatamente o líder conseguira entrar no apartamento, até ver um molho de chaves acoplado à fechadura. Ah, que ótimo. Tudo que precisava agora era que Namjoon tivesse uma cópia das chaves do apartamento de Yoongi.
— O que está fazendo aqui, Namjoon? – rosnou enquanto tentava se fazer parecer mais descente, o descontentamento claro e evidente na voz. Enquanto isso, me perguntava como não ouvimos o ruído das chaves antes que a porta fosse aberta. Nos pouparia todo esse agravamento se tivéssemos.
— Jin me mandou aqui para saber como anda sua febre. – respondeu com a voz ainda trêmula, claramente tão envergonhado quanto nós dois, abrindo uma pequena fresta entre os dedos para avaliar a situação e saber se já podia abaixar as mãos. Quando deu-se por satisfeito, escondeu ambas nos bolsos da calça jeans de forma a parecer casual, falhando miseravelmente em manter o rubor longe da face bronzeada. – E também trago notícias.
— Por acaso essas notícias são assim tão importantes que você não poderia me dar por telefone? – Yoongi questionou, ainda bastante irritado.
— Temo que sim. – essas três palavras foram tudo que bastaram para dissipar a estranheza do ambiente e preenchê-lo com outro tipo de tensão. Era incrível o quão rápido os dois conseguiam colocar as máscaras frias e calculistas de quem estava ali para tratar de negócios. Dentro de instantes não eram mais Yoongi e Namjoon, mas sim Suga e Rap Monster, líderes de uma gangue e traficantes de droga.
Pedi licença para sair da sala com a desculpa de preparar café pra todos. A verdade é que não queria fazer parte daquela conversa, principalmente porque sabia que qualquer coisa que fosse dito me deixaria num estado nervoso que não ajudaria ninguém. Eu não era burro, sabia em que Yoongi estava envolvido e no que estava me metendo ao me envolver com ele, mas isso não significava que aprovava suas ações. Além do mais, se ficasse mais um segundo nas proximidades de Namjoon, acho que seria capaz de explodir em chamas.
Mesmo que a cozinha não ficasse tão distante, eu podia dar um semblante de privacidade à eles, ainda que pudesse ouvir tudo que diziam. Tentei não xeretar, ocupando-me com a máquina de café velha à minha frente, mas era impossível não ficar ao menos um pouco curioso. Aparentemente Namjoon percebera a proximidade da cozinha e ficara hesitante em dizer o que quer que tenha vindo dizer, pois logo pude ouvir a voz arrastada de Yoongi repreendendo-o. – Vamos, desembuche logo. Qualquer coisa que disser Jimin vai acabar descobrindo de qualquer maneira, então. – Yoongi deixou a conclusão em aberto, e não sabia se me sentia ofendido ou não. De qualquer forma, tentei convencer-me de que a pontada que sentia no peito era tolice.
— Bom... antes de tudo, saiba que perdemos o apoio de Zico. – Namjoon disse por fim, tom cuidadoso como se esperasse uma reação violenta.
— O quê?! O que quer dizer com isso? – Namjoon esperava certo; não conseguia imaginar uma reação mais violenta do que essa. – Como assim, Zico nos abandonou? Aquele filho duma puta! Como pôde fazer isso com a gente?
— Yoongi, espere. Não foi bem assim. Me deixe explicar. – com o melhor tom apaziguador que já ouvi saindo da boca do líder, Namjoon contou como esse tal de Zico estava em apuros, perdendo homens para Yongguk e se metendo com a polícia. Quando terminou, até eu senti compaixão pelo cara. Não devia ser nada fácil ser o líder de uma gangue, afinal.
— Temos que nos preocupar com a polícia também? Porra. – praguejou o loiro, e mesmo que não pudesse vê-lo, sabia que estaria correndo as mãos pelo rosto num gesto cansado. A mera ideia de Yoongi ser caçado pela polícia me enchia de uma aflição que não sabia como controlar. Agora me arrependia de não ter saído do apartamento por completo, pra não ter que ouvir nada disso; me perguntava como conseguiria dormir com toda essa preocupação sobre meus ombros. Me perguntava também como Jin conseguia.
— É o que parece. Pelo que Jiho falou, esse detetive não vai descansar até colocar as mãos em algum de nós pra obter informações sobre Yongguk. – suspirou o outro, a exaustão evidente no pequeno ato. – Por isso eu e Jin vamos sair da cidade por alguns dias, esperar a poeira baixar, talvez visitar seus pais. Não se preocupe, já avisei à todos no estacionamento para manterem distância e já nos livrei de qualquer evidência. Tudo que quero que faça é que fique quietinho aqui dentro do seu apartamento e não dê bobeira na rua. A polícia pode não saber onde você mora, mas conhece seu rosto. Existem dezenas de escórias por aí dispostos a apontar o dedo na sua direção. Então tome cuidado, sim?
— Se tudo que esse detetive quer é Bang Yongguk, porque não o damos à ele? Deixar alguém fazer o serviço sujo, pra variar. – indagou Yoongi.
— Muito arriscado. – respondeu simplista. – Nunca podemos ter certeza do que exatamente a polícia está atrás, você sabe disso. Essa história de vingança pessoal pode ser verdadeira, ou pode ser uma isca pra pegar todos nós. Eu nunca arriscaria minha família pela palavra de um homem que nem conheço.
As palavras de Namjoon faziam sentido, mas mais do que isso, elas foram capazes de me tocar de um jeito que não sabia ser possível. Principalmente porque nem era de mim que o líder falava; eu não fazia parte da gangue, ou da família, como ele chamava. Mas de qualquer forma, saber que Yoongi não só fazia parte como era um membro importante dessa família já era o suficiente para me oferecer um pouco de conforto. Por mais que a situação fosse preocupante, por mais cruéis que fossem os inimigos, eu sabia que Namjoon sempre cobriria Yoongi e vice-versa. O forte elo que existia entre os dois era algo inquestionável, algo que ultrapassava a simples amizade, tão raro e bonito de se ver. Eu já era capaz de respirar mais aliviado sabendo que, mesmo que não pudesse servir de grande ajuda em situações como essa, sempre teria alguém pra preencher meu lugar.
Voltei para a sala a tempo de ver o discreto rubor que coloria as pontas das orelhas de Yoongi e o sorriso com covinhas estampado no rosto de Namjoon, proporcionando-me uma adorável imagem dos dois melhores amigos e também algo para importunar o loiro mais tarde. Vendo que equilibrava precariamente três canecas de café fumegante em apenas duas mãos, Namjoon foi ligeiro em oferecer-me ajuda, porém atrapalhou-se todo na hora de segurá-las e acabou derramando um pouco do conteúdo sobre o sofá, desculpando-se profusamente com o dono do móvel enquanto ouvia Yoongi resmungar algo como “aish, essa criança desastrada”. Eu não podia fazer nada senão rir, logo antes de, ainda sorrindo, me oferecer para limpar a bagunça; oferta que Yoongi não hesitou em recusar. – Não se atreva, Jimin. Deixe que esse desastre ambulante arrume a merda que fez.
O resto da tarde foi passado de um jeito leve e descontraído, em boa parte graças à presença desastrosa de Namjoon, que me acarretava boas risadas. Pela primeira vez me dava conta de que nunca havia passado um tempo de qualidade com o líder à sós, já que ele quase sempre estava acompanhado do namorado. Logo descobri que gostava de sua presença, e entendia o amor de Seokjin e a admiração que Yoongi sentia pelo outro. Por fim, decidi que Namjoon era um bom hyung. Sabia que podia confiar nele para manter Yoongi seguro quando eu mesmo não podia. Quando o sol começou a baixar, despediu-se de nós alegando que tinha uma pilha de malas à fazer o esperando em casa, rindo quando Yoongi pediu-lhe que transmitisse um recado. – Diga à Seokjin que já me sinto melhor, e que seu delicado pé não precisará fazer contato com a minha bunda branca dessa vez.
Uma vez que a porta foi fechada atrás do outro e nós estávamos novamente sozinhos no ambiente, pigarreei para lhe chamar a atenção, um sorriso pequeno e um pouco triste adornando meus lábios. – Acho que a situação é realmente tão ruim assim, não é?
— Desculpe, Jiminie. – pediu, suspirando ao puxar-me pela cintura e envolver-me num abraço cansado. – Eu não queria que tivesse ouvido aquilo tudo. Não queria te envolver nisso.
— Tudo bem. Já estou envolvido, e nós dois sabemos disso. – assegurei-lhe, tomando distância para conseguir olhá-lo nos olhos e envolver seu rosto com ambas as mãos num gesto cheio de ternura, tentando transparecer um pouco mais de sinceridade no meu sorriso. – Eu me preocupo com você, não vou mentir. Mas fico feliz em saber que sempre terão pessoas dispostas a cuidar de você quando eu não estiver olhando.
— É... acho que tem razão. – o sorriso que estampava o rosto de Yoongi era um dos que mais gostava. Não era largo o bastante para criar ruguinhas no canto dos olhos ou mostrar suas gengivas rosadas, mas transbordava carinho e afeto. Por alguns instantes, poucos e preciosos instantes, éramos apenas eu e Yoongi no mundo. Não existia gangue, não existia polícia, não existia perigo. Então, aproveitando o momento, o beijei como se aqueles instantes pudessem durar pela eternidade.
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