Notas iniciais
Cheguei com o último capítulo uhuuul Um ótimo final de semana pra vocês, seus lindos, lindas e lindes ♥

Harry estava cansado.

Não apenas naquela noite.

Cansado havia semanas.

Fazia mais de um mês que parecia acordar todos os dias com uma parte dele ainda presa à noite em que Draco tinha ido embora.

Não gostava de admitir isso.

Principalmente porque Hermione havia perguntado várias vezes.

E Harry Potter possuía uma habilidade particularmente irritante de insistir que estava bem justamente quando não estava.

Com um movimento preguiçoso da varinha, murmurou:

— Accio vinho.

A garrafa veio da cozinha, seguida por uma taça.

Harry serviu uma quantidade generosa e olhou para a pilha de pergaminhos sobre a mesa.

Tinha levado trabalho do Ministério para casa.

Não estava com vontade de fazer absolutamente nada.

A primeira batida na porta foi ignorada.

A segunda fez Harry franzir a testa.

Já passava da meia-noite.

Pegou a varinha e caminhou até a entrada.

Abriu a porta com cautela.

E parou.

Draco estava do outro lado.

Durante alguns segundos, Harry simplesmente o encarou.

Mais magro.

Cabelos desalinhados.

Olheiras.

Lindo.

Infelizmente ainda lindo.

— Draco.

— Oi, Harry.

Outro silêncio.

— Posso entrar?

Harry apertou os dedos ao redor da varinha.

— Poderia ter mandado uma coruja.

Draco fechou os olhos por um instante.

Atingido.

Bom.

Harry abriu espaço.

— Entre.

Draco passou por ele.

Os dois seguiram até a sala.

Harry sentou-se na poltrona.

Draco ficou no sofá.

A distância entre os dois parecia maior do que algumas semanas.

— Vinho? — perguntou Harry.

— Não, obrigado.

Silêncio outra vez.

Harry esperou.

Draco respirou fundo.

— Me desculpe.

Harry não respondeu.

— Pelo que eu disse. Por ter desconfiado de você. Por ter ido embora. Por não ter voltado naquela mesma noite.

A voz falhou um pouco.

— E por ter passado seis semanas me escondendo atrás de corujas.

Harry ergueu os olhos.

Draco continuou.

— Eu sei que pedir desculpas não apaga nada.

— Não apaga.

— Eu sei.

Harry apertou os lábios.

Draco colocou a mão dentro do sobretudo.

Por um instante, Harry quase riu.

Claro.

Outra carta.

Draco depositou o pergaminho dobrado sobre a mesa.

Mas não foi embora.

— Dessa vez, sem corujas.

Harry olhou para ele.

Depois para a carta.

Esticou a mão.

Leu lentamente.

Draco escrevera sobre as lembranças.

Sobre o primeiro passeio dos dois pelo Beco Diagonal.

Sobre dormir abraçado a Harry.

Sobre a comida espalhada pela cozinha.

Sobre o espelho embaçado.

Sobre a lasanha ruim.

Harry soltou uma risada involuntária ao ler essa parte.

Depois vieram as outras palavras.

As difíceis.

Draco escrevera sobre medo.

Sobre culpa.

Sobre orgulho.

Sobre a sensação permanente de que Harry acordaria algum dia e perceberia que poderia ter alguém melhor.

E terminara com uma única frase:

"Se ainda existe alguma chance de construirmos alguma coisa depois disso, desta vez eu quero ficar para conversar."

Harry abaixou o pergaminho.

As mãos estavam úmidas.

— Você é um idiota.

Draco assentiu.

— Sei.

— Não. Acho que você não sabe.

Harry levantou-se.

A raiva que guardara durante semanas começou a subir.

— Você perguntou se eu usei meu nome para conseguir aquele cargo para você.

— Eu sei.

— Eu estava escondendo aquele jornal porque estava preocupado com você!

— Eu sei.

— E depois você foi embora.

Draco permaneceu em silêncio.

— E sabe o que aconteceu depois? — Harry continuou. — Eu esperei você voltar.

Draco ergueu os olhos.

— Naquela noite. Eu fiquei sentado naquela sala esperando você aparatar de volta e dizer que tinha sido um completo imbecil.

A garganta de Draco se contraiu.

— Harry...

— Depois esperei no dia seguinte.

Harry riu sem humor.

— Aí chegou uma coruja.

Draco desviou o olhar.

— Depois outra. E outra.

— Eu tive medo.

— Eu também!

A voz de Harry ecoou pela sala.

Os dois ficaram parados.

— Você acha que foi fácil para mim? — continuou Harry, mais baixo. — Você acha que eu não pensei em responder? Pensei. Todos os dias.

— Então por que não respondeu?

Harry riu, incrédulo.

— Porque eu não queria uma carta, Draco!

Silêncio.

— Eu queria você.

Aquilo atingiu Draco com mais força do que qualquer grito.

Harry passou as mãos pelo cabelo.

— Eu não escolhi ser o Menino que Sobreviveu. Não escolhi ter meu nome nos jornais desde que era um bebê. Não escolhi passar a vida inteira sendo observado. E eu entendo que isso também afeta você.

Respirou fundo.

— Mas eu preciso saber que, quando isso ficar difícil, você não vai olhar para mim como se eu fosse o problema.

Draco levantou-se.

— Você não é.

— Naquela noite eu fui.

— Não.

Draco aproximou-se.

Harry não recuou.

— Naquela noite, eu estava com medo e transformei meu medo em raiva. Depois transformei a raiva em culpa. E então fiz o que sei fazer melhor quando acho que vou perder alguma coisa.

— Fugiu.

— Fugi.

Harry cruzou os braços.

— Isso não pode acontecer toda vez.

— Eu sei.

— Eu estou falando sério.

— Eu também.

Draco chegou um pouco mais perto.

— Não posso prometer que nunca vou sentir medo. Nem que nunca vou ser inseguro. Provavelmente continuarei sendo insuportavelmente orgulhoso.

— Isso é garantido.

Draco quase sorriu.

— Mas posso prometer que não vou fugir de você de novo.

Harry o encarou por alguns segundos.

— E sobre o trabalho?

Draco respirou fundo.

— Eu acredito em você.

— Não foi isso que perguntei.

Draco entendeu.

— Não. Eu não acho que você conseguiu aquele cargo para mim.

— Porque eu não consegui.

— Eu sei.

— Você conseguiu.

Draco baixou o olhar.

Harry aproximou-se mais um passo.

— Você trabalhou por aquilo. Você estudou. Você mereceu.

Draco sentiu os olhos arderem.

— Obrigado.

Harry soltou o ar lentamente.

— Ainda estou com raiva.

— Justo.

— Muita.

— Também justo.

— E ainda quero te dar um soco.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Isso parece particularmente grifinório.

Harry tentou não rir.

Falhou.

Draco sorriu.

E talvez tenha sido aquele pequeno sorriso que terminou de quebrar alguma coisa entre eles.

Harry segurou a frente do sobretudo dele.

Draco olhou para sua mão.

Depois para seu rosto.

— Eu senti sua falta — disse Harry.

A voz saiu quase como um sussurro.

Draco fechou os olhos.

— Eu senti sua falta todos os dias.

Harry puxou-o.

O abraço não foi delicado.

Foi apertado.

Urgente.

Draco enterrou o rosto nos cabelos dele e respirou.

Amora.

Merlin.

Ainda era o mesmo cheiro.

Harry escondeu o rosto contra seu pescoço.

Ficaram assim durante muito tempo.

Nenhum dos dois parecia disposto a ser o primeiro a soltar.

Foi Draco quem falou.

— Harry?

— Hum?

— Eu também preciso dizer uma coisa.

Harry afastou-se apenas o suficiente para olhá-lo.

Draco segurou seu rosto entre as mãos.

— Meu maior medo sempre foi não ser suficiente para você.

Harry abriu a boca, mas Draco continuou.

— Eu olho para você e vejo tudo o que você é. Tudo o que fez. Tudo o que representa para as pessoas. E às vezes ainda existe uma parte idiota da minha cabeça dizendo que um dia você vai olhar para mim e enxergar apenas...

Ele respirou.

— Um ex-Comensal da Morte.

Harry segurou seus pulsos.

— Eu sei quem você foi.

Draco ficou imóvel.

— Eu estava lá, lembra?

Uma lágrima escapou antes que Draco pudesse impedi-la.

Harry passou o polegar por sua pele.

— Eu conheço o seu passado. Mas também conheço você.

Aproximou-se.

— O homem que passa horas estudando porque tem pavor de errar um diagnóstico.

Draco soltou uma pequena risada.

— O homem que finge odiar meus amigos e depois pergunta casualmente se Hermione gostou do presente de aniversário.

— Eu nunca perguntei isso.

— Perguntou três vezes.

— Informação falsa.

Harry sorriu.

— Eu conheço você, Draco.

O sorriso desapareceu devagar.

— E amo você.

Draco fechou os olhos.

Encostou a testa na dele.

— Eu te amo.

— Eu sei.

— Arrogante.

— Aprendi com você.

Dessa vez os dois riram.

Draco começou a distribuir pequenos beijos pelo rosto de Harry.

Na testa.

Na bochecha.

Na ponta do nariz.

Harry tentou escapar.

— Draco, isso faz cócegas!

— Problema seu.

— Para!

— Não.

— Malfoy!

Harry ria tanto que mal conseguia protestar.

E Draco percebeu, de repente, que aquele era o som de que mais sentira falta.

Parou.

Continuou segurando o rosto dele.

Harry recuperou o fôlego.

— O quê?

Draco o encarava com uma expressão estranha.

— Não quero perder isso de novo.

Harry ficou sério.

— Então não perca.

— Não vou.

Draco hesitou.

Durante algumas semanas, imaginara aquele momento de dezenas de maneiras diferentes.

Em quase todas elas, havia um discurso preparado.

Na realidade, nenhuma das frases parecia suficiente.

— Eu quero uma vida com você.

Harry não disse nada.

— Não estou falando de esquecer o que aconteceu hoje e fingir que está tudo resolvido. Eu sei que não está.

Harry o observava em silêncio.

— Estou falando de amanhã. E depois. E depois.

Draco sorriu de leve.

— Quero acordar com você reclamando que eu roubei o cobertor. Quero comer sua lasanha péssima.

— Minha lasanha não é péssima.

— Harry.

— Continue.

— Quero ir ao Beco Diagonal segurando sua mão. Quero discutir sobre Quadribol. Quero reclamar dos seus amigos. Quero envelhecer reclamando dos seus amigos.

Harry começou a sorrir.

— Você está muito fixado nessa parte.

— É importante.

— Evidentemente.

Draco respirou fundo.

— Quero tudo isso.

Harry passou os braços por seu pescoço.

— Parece bastante trabalhoso.

— Horrível.

— E mesmo assim você quer?

Draco olhou nos olhos dele.

— Mais do que qualquer coisa.

Harry puxou seu rosto para perto.

— Então fique.

Draco não perguntou duas vezes.

Beijou-o.

Devagar dessa vez.

Sem urgência.

Sem desespero.

Como se tivessem todo o tempo do mundo.

E, pela primeira vez em semanas, Draco acreditou que talvez tivessem.

♦

Meses depois, Harry encontrou a mesma carta guardada em uma gaveta.

O pergaminho já estava um pouco amassado nas bordas.

— Você ainda tem isso?

Draco olhou por cima do livro que lia.

— Evidentemente.

Harry sentou-se ao lado dele.

— Pensei que tivesse jogado fora.

Draco pareceu genuinamente ofendido.

— Foi a melhor carta que já escrevi.

— Foi a única carta sua que eu realmente li.

— Você poderia ter mencionado isso antes de eu mandar outras quinze.

Harry riu.

— Dezessete.

Draco arregalou os olhos.

— Você contou?

— Talvez.

Harry abriu novamente o pergaminho.

No fim da última página havia uma frase acrescentada posteriormente, em uma tinta ligeiramente diferente.

Ele lembrava perfeitamente do dia em que Draco a escrevera.

"Valeu pela vida inteira."

Abaixo dela, havia outra caligrafia.

A de Harry.

"Ainda não. Temos muito tempo pela frente."

Draco fechou o livro.

— O que está fazendo?

Harry dobrou cuidadosamente a carta.

— Lembrando.

— De quê?

Harry olhou para ele.

Sorriu.

— De coisas que eu nunca esqueci.

Notas finais
Eeeeee.. fim! Espero que tenham gostado. hehe ♥ E pra quem acompanha "La Passion", juro que semana que vem eu atualizo sem falta, tá?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!