Hoje a Noite Não tem Luar
8 VIII – Hoje a Noite Não tem Luar.
Cheguei lá por volta das sete horas e cinco minutos, atrasado por causa da Clara que me fez trocar de roupa três vezes, e fui embora meia-noite e meia.
Esperei por ela, liguei para ela, procurei nos lugares que nós passamos, nos lugares que nós cogitamos ir e até nos lugares em que eu iria leva-la naquela noite, mas não a vi. Quando voltei para perto da estátua, peguei mais uma vez naquela pulseira. Era uma promessa, não era?
Os vários casais que passavam ali perto continuavam a me irritar. Todos juntos, felizes e apaixonados. Igual a mim, noite passada. Infelizmente, não naquele momento. Não tinha como eu fingir felicidade se eu estava tão decepcionado, tão triste, tão abandonado.
“E eu estou sem ela.”
Meu telefone tocou de novo, mas eu sabia que não era a Liz — já tinha perdido a esperança que ela me ligaria. E eu tinha razão, era a Marcella, porém eu não queria atender. Eu queria aquela menina que passou a ultima noite comigo, a menina que me sujou de sorvete, a menina cujo livro favorito era Pequeno Príncipe, a menina que estava irritada com os amigos, a menina que adorava a minha risada, a menina com tatuagem de lua no pulso. Eu queria a Elizabeth. A Liz.
Quando o telefone tocou pela quarta vez, atendi.
— Cauã, eu estou ligando para você há séculos! O que houve?
— A Liz não chegou. Quer dizer, não veio.
— Sério? Mas tem certeza? E se ela está te esperando em outro lugar? Já ligou para ela?
— Sim, claro que liguei. Já nem sei onde procurar. Não sei onde ela está.
— Que merda, Cauã. Mas... Volta para a pousada, vamos sair pela manhã. Não se preocupe, depois você vai conseguir falar com a Liza.
— Não, ainda dá para esperá-la. São só... Meia-noite e meia.
— Cauã, você já está ai há horas! Vem para cá.
— Mas, Marcella, ela prometeu! Ela deixou a pulseira comigo!
— Cauã! – ela me interrompeu e começou a chorar pelo telefone – Eu preciso falar com você! Por favor, venha logo!
— Marcella, o que está acontecendo? Por que você está chorando?
— Só venha, rápido.
— Me diz logo o que está acontecendo!
— É sobre a sua avó! – O mundo parou de girar por um segundo. — Agora você vai vir?
— Estou indo. – Desliguei o telefone, trêmulo.
Vinte e quatro horas atrás, eu era um garoto bobo apaixonado. Agora, naquele mesmo lugar, eu era um garoto triste abandonado. Antes de partir, lembrei-me da garota com tatuagem de lua e tentei ligar para ela uma ultima vez, porém foi apenas para me frustrar mais. Peguei sua pulseira que ainda estava guardada no meu bolso. Olhei para o cima e a lua havia sumido entre as nuvens que se acumulavam no céu.
— Parece que hoje a noite não tem luar – sussurrei e joguei a pulseira no mar.
E realmente não tinha.
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