Hoje a Noite Não tem Luar
3 III – Liza.
Já se passavam poucas horas depois do anoitecer e eu era a única que se encontrava do lado de fora da casa de Samuel. Todos os outros estavam provavelmente fumando maconha lá dentro enquanto eu estava deitada sobre a grama observando o céu e as estrelas. Alguém já havia percebido o quanto a lua era linda? Aliás, longe das luzes e do barulho de São Paulo, tudo parecia mais bonito.
Desde que chegamos tudo o que todos faziam era beber, fumar maconha e transar em todos os cômodos possíveis e imagináveis. Aquilo não era para mim. Que dizer, não mais. Era por isso que eu preferia ficar assim, deslocada, excluída, com meus próprios pensamentos.
Levantei faminta. Isso só significava uma coisa: precisaria entrar para ver se ninguém havia comido todo o espaguete que haviam feito para a janta. Torcendo para que quando eu entrasse na casa ninguém da vizinhança chamasse os bombeiros, segurei o ar e entrei na cozinha. Ao respirar novamente, notei um estranho cheiro de chulé misturado com queimado o qual embrulhou meu estômago. Apesar disso, para minha alegria, ninguém estava na cozinha. Porém, ela acabou assim que Rose apareceu pulando e gritando pela sala:
— Liza, você ainda está aqui! Tínhamos feito uma aposta que você só apareceria amanhã acompanhada por policiais – uma de suas mãos estava pendurada no meu pescoço, nos deixando bem próximas, possibilitando-me sentir um cheiro forte de vodka que exalava de seu hálito. A outra mão segurava seu biquíni, que estava quase caindo – Amarra aqui, por favor? Temos que tirar a virgindade daquela piscina.
— Eu tenho quase certeza que não é essa expressão...
— Obrigada! – interrompeu-me. – Aliás, sabe o George? Ele te achou muito gostosa... Acho que ele quer dormir com você – o rosto dela se aproximava tanto do meu que até seria capaz de ouvi-la caso estivesse sussurrando, só que esse não era o caso.
— Rose, você vem? Estamos te esperando – gritava um cara perto da porta que dava para o quintal, acompanhado de outro casal que usavam também roupas de banho.
— Tchau amiga, pensa naquilo que eu te falei. Ah, e vai se divertir um pouco, você está tão... – Ela não completou a frase, apenas interrompeu-se e correu para a piscina. Mas eu sei o que ela iria falar, estava óbvio.
Respondi que pensaria sim, mas com o som que tocava Forfun no ultimo volume, acho que ela acabou não me ouvindo.
∞
Samuel tinha me convidado no dia anterior falando que uma viagem para búzios seria uma ótima maneira de relaxar um pouco do estresse que havia sido as ultimas semanas. Ele sabia do que eu precisava. E não era por menos. Ele estava lá do meu lado, há três meses, quando eu havia recebido a noticia de que a meu pai falecera durante uma viagem de negócios. Com sua amante. Num hotel em Viena.
Fui logo visitar minha mãe em campinas para ver como ela reagira com a notícia. Após passar três dias consolando-a através da porta do quarto de visitas, a qual ela não abriria até removerem todos os pertences do meu pai da casa, voltei para casa e tive meu próprio momento de luto no meu quarto, sozinha. E foi assim nas semanas seguintes, até que Rose apareceu e me resgatou daquele poço que eu não conseguia e nem queria sair.
Isso foi há um mês. É, Samuel tinha razão, eu realmente precisava relaxar um pouco.
∞
Depois de passar um tempo dentro daquela casa, depois de umas três ou quatro doses de tequila e duas garrafas de vodca, eu percebi que aquilo não me satisfazia mais como antes. Talvez eu tivesse percebido isso tarde demais, pois eu já estava indo para o quarto com o tal de George.
Tranquei-me no banheiro. Provavelmente o garoto encontrou outra companhia, porque ali passei uma hora, novamente sozinha. Fiquei lá, refletindo sobre tudo que tinha passado naquelas semanas, naquele meu quarto. Não me reconhecia mais há muito tempo. A Liza do ano passado não estaria aqui trancada no banheiro.
As pessoas esquecem que a felicidade que um pouco de sacanagem e um pouco de álcool trazem é apenas... Superficial. No final os problemas voltam do mesmo jeito, não é? Bem, descobri isso da pior maneira. “Olhe para mim, estou ridícula.” Eu encarava meu reflexo no espelho e só o que via era uma maquiagem borrada e um rosto pálido. Parece que a Elizabeth de um mês atrás tinha voltado para assombrar-me novamente.
∞
No dia seguinte decidi que eu não iria passar o fim de semana presa em uma casa em que a maior diversão era beber tequila no corpo da Rachel e depois passar meia hora com ela no armário.
Para minha sorte, quando chegamos à Búzios, uma senhora que trabalhava em um mercado próximo da casa do Samuel tinha me dito que havia uma praia ali perto onde eu poderia passar um tempo sozinha. Então, quando ninguém percebesse, pegaria meu telefone e sairia para dar um passeio e pegar o ar fresco daquela manhã de sábado. E foi exatamente isso que eu fiz.
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