Quando iniciei os meus estudos em Hogwarts imaginei que seria maravilhoso. Nada de ruim poderia me acontecer em um local seguro como aquele. Bom, ao menos era o que os meus pais diziam. Meu irmão mais velho vivia falando que tudo lá era maravilhoso, a começar pelo trem. Havia um carrinho de doces que passava de vagão em vagão e não haveriam os meus pais para me impedir de comprar tudo o que minhas moedas conseguissem pagar.

E acredito que tenha sido nesse momento, na minha primeira viagem pelo expresso de Hogwarts, que minhas frustrações começaram. Eu esperei e esperei e esperei, mas aquele carrinho de doces nunca apareceu. Uma criança havia comprado simplesmente todos os doces. Os outros no trem inteiro passaram a viagem sem sequer uma bala, inclusive eu.

O resto do ano pareceu transcorrer bem. Fui colocado na Corvinal, onde fiz bons amigos e me empenhei muito nos estudos. Sempre tirávamos boas notas e nos comportávamos excepcionalmente bem. Houve o incidente de um trasgo das colinas aparecer no banheiro, mas por sorte ninguém se machucou.

Apesar das nossas boas notas e comportamento, a taça das casas iria para Sonserina. No último momento, porém, o diretor da escola revelou que escondia um cão de três cabeças na escola, atrás de uma portinha de madeira com tranca comum, que escondia uma série de armadilhas letais para guardar um tesouro que o pior bruxo das trevas queria para si.

Sim, nosso diretor escondeu um artefato desses dentro de uma escola. E o bruxo das trevas invadiu a escola para alcança-lo, usando para isso a cabeça do nosso professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Que magnífico profissional ele era. E eu tive aulas com ele o ano inteiro! Imagino qual não foi o processo de seleção.

Aí três alunos da Grifinória, por algum motivo, passaram por todos esses perigos mortais e derrotaram o tal bruxo. Um deles era Harry Potter, o menino que sobreviveu. Ele já derrotou o bruxo quando era um bebê, e por isso tinha uma cicatriz e rios de dinheiro. Era um menino esquisito, com notas baixas e rendimento medíocre. Tinha o cabelo muito bagunçado e os olhos verdes que, diziam, eram iguais aos de sua mãe. Seu melhor amigo era Ronald Weasley, um ruivo que também ia mal na escola. Era o mais novo de uma família imensa, todos ruivos e sardentos como ele. E a menina, a única que efetivamente ia bem na escola, era Hermione Granger. Uma garota inteligente, de cabelos cacheados e pele branca que poderia muito bem ser negra, pois isso nunca foi diretamente apontado ou questionado.

Em função desses três, o diretor inventou um monte de regras e deu a vitória da copa das casas para a Grifinória. Não que eu tenha ficado chateado por não ter visto o meu esforço recompensado, mas enfim. Fiquei com pena dos alunos da Sonserina. Pelo menos, depois disso, vieram as férias.

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O segundo ano começou melhor. Pude, finalmente, provar dos famosos doces no Expresso de Hogwarts. E toda a cerimônia de boas-vindas ocorreu sem maiores problemas. Havia um novo professor de Defesa Contra Artes das Trevas com muito renome, mas tinha o péssimo hábito de ensinar coisas completamente diferentes dos livros.

Poucos meses depois do início das aulas, alunos começaram a ser petrificados e mensagens racistas espalhadas pela escola inteira. Aparentemente um aluno chegou a morrer na escola, cinquenta anos antes. Mas os professores diziam para não nos preocuparmos. Eu seguia com meus estudos, apesar dos colegas desaparecendo um após o outro.

O fato de nenhum dos professores saber o que, exatamente, estava acontecendo com as crianças era perturbador. Afastaram alguns funcionários da escola, mas nada foi esclarecido até as últimas semanas de aula. Aparentemente havia um santuário secreto escondendo uma fera mortal logo abaixo do banheiro feminino. E meio que só isso, o santuário todo só tinha a cobra gigante dentro. Nenhum tesouro perdido ou algo assim. Descobriram também que o professor de Defesa Contra Artes das Trevas era uma fraude desde o começo, o que me deixou mais aliviado pois eu sempre estudei por outros livros, mesmo. Mas ainda preocupado com o sistema de seleção desses profissionais.

Por terem derrotado um basilisco, desmascarado um professor, e quebrado praticamente todas as regras da escola, a taça das casas foi dada, novamente, a Grifinória. Tudo bem, eles tinham os seus méritos, embora as notas da minha casa sempre tenham sido superiores. Ao menos, férias.

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Quando eu imaginei que nada de anormal poderia acontecer no terceiro ano, dementadores surgem no expresso de Hogwarts. O tal do Harry Potter desmaiou. O diretor ficou muito bravo com tudo isso, especialmente por terem machucado o protegido dele. Além disso, o professor novo de Defesa Contra Artes das Trevas era, obviamente, um lobisomem. Mas na época de lua cheia ele sumia, e sempre tomava todos os devidos cuidados, então eu nunca tive porque me preocupar. Ele ainda pareceu melhor que os últimos dois.

A presença dos dementadores no colégio realmente preocupava. Especialmente porque significavam que o fugitivo de Azkaban provavelmente estava indo para Hogwarts. Me achavam paranoico ou revoltado, mas eu tinha certeza de que tinha algo a ver com o tal do Harry Potter. E eu estava certo! Era o terceiro ano seguido, deuses! Meu irmão nunca viu algo parecido. Minhas cartas para casa estavam cada dia mais revoltadas.

Mas fora o clima pesado, a atmosfera terrível, o medo constante de ser atacado dentro do colégio, o professor lobisomem, o fugitivo da prisão à solta, o torneio de quadribol cancelado e e Grifinória ter, por algum motivo, ganhado a Taça das Casas de novo, tudo correu bem nesse ano.

De toda forma, eu sobrevivi o suficiente para estar de férias.

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O quarto ano não poderia ser ruim! Torneio Tribruxo! O evento que acontecia uma vez a cada quinhentos anos e eu estava vivo e estudando para assistir! Ainda muito novo para participar, mas, sinceramente, quem é que efetivamente quer participar de uma loucura dessas? A escola estava lotada, cheia de estrangeiros. Estava tudo certo, não? Não. Harry Potter deu um jeito de colocar o seu nome no Cálice de Fogo. E aí negou que colocou. E aí participou da droga do torneio mesmo assim! Quem ele queria enganar? Não era só ter dito “Oi, eu não coloquei o meu nome e não preciso participar desse torneio, eu tenho duas heranças”? Enfim, deixaram ele burlar as regras. De novo.

Boa parte do ano girou em torno do torneio. Éramos dispensados da aula para assistir as provas. A primeira foi muito boa. Vimos dragões de verdade e os candidatos eram incríveis. Na segunda, ficamos observando a superfície do lago por uma hora inteira! E na terceira ficamos olhando para paredes de grama! Sério! Eu juro! Os professores nos obrigaram a ficar olhando para a parede por horas sem fim! E eu não podia nem levar meus livros, atrasei todos os meus estudos. Foi terrível.

No final um aluno morreu, nosso professor de Defesa Contra Artes das Trevas havia sido sequestrado antes mesmo de ser contratado e tivemos aulas com um farsante o ano inteiro, por Deus, quem é que contrata esses caras?! Pior. Ano.

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Quinto ano. Já entrei no trem esperando que algum tipo de atrocidade fosse acontecer naquele ano. Qual desastre nos assolaria? Por que coroariam Harry Potter herói mais uma vez? Muitas perguntas. Mas, aparentemente, ninguém apoiava o cara. Ele só chorava a morte daquele outro aluno que ele nem conhecia e dizia que o Lorde das Trevas tinha voltado. Mas era fácil de saber que ele não tinha voltado por um simples motivo: Potter ainda estava vivo.

Nossa professora de Defesa Contra as Artes das Trevas nos ensinava com cartilhas do governo, extremamente censuradas. Apenas aulas teóricas. Por sorte ninguém supervisionava a biblioteca e eu podia estudar em paz por lá. De todo modo, não pretendia seguir carreira de auror, então nem me preocupei com as práticas.

O ano transcorreu bem, exceto quando descobriram que um grupo de alunos organizava uma milícia sob o comando daquele-que-não-deve-ser-nomeado para lutar contra Voldemort quando ele surgisse. Ninguém mais tinha dúvidas de que o Potter era pirado, mas agora ele parecia perigoso, também.

Surpreendentemente, nenhum desastre atingiu a escola naquele ano. Digo, sim, o Lorde das Trevas retornou, nossa professora perdeu o emprego, o antigo diretor voltou e a milícia realmente tinha razão de existir, mas nada disso interferiu nos meus estudos, então beleza. Férias.

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O novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas seria nosso antigo professor de Poções. Sério. Eles simplesmente realocaram um professor ao invés de contratar um novo. Talvez tivessem esperança que ele pudesse ser demitido, como os outros. Já o novo professor de Poções reservou um vagão inteiro do trem para ele e seus chegados. Nem havia entrado na escola e já achava que esse cara ia acabar preso. Quero dizer, um senhor de idade trancado em uma reunião secreta com um grupo de adolescentes? Isso não podia estar certo.

A volta do Lorde das Trevas gerou um sentimento constante de insegurança. Todos os adultos diziam que ele não podia entrar em Hogwarts, que o diretor não permitia. Bom, estamos falando do mesmo cara que tinha um cachorro de três cabeças e um basilisco dentro da escola. Ficava difícil confiar nele.

As aulas estavam surpreendentemente boas. Nenhum lunático, farsante ou lobisomem revelado até agora. Nenhum incidente com dementadores. Nenhum bandido foragido andando pela escola. Só um aluno sendo completamente dilacerado pelo Potter por causa de um feitiço extremamente maligno que ele usou. E também o tal do clubinho do professor, onde ele reunia um grupo de adolescentes para festinhas particulares e ninguém tinha coragem de falar o que acontecia lá dentro. A polícia não teria autoridade dentro desse colégio?

A essa altura da graduação eu já estava pouco me importando com a Taça das Casas. Nem sei que desculpa usaram para Grifinória ganhar nos últimos anos. Imagino que tenham sido eles. O quadribol seguiu normalmente, também.

Aí, quando a gente pensava que tudo ia dar certo e terminar bem, nosso Diretor – aquele que ia manter a escola segura – resolveu que era uma boa hora para morrer. E assim o fez. A vice diretora, por algum motivo, não foi quem assumiu o cargo. Nosso professor esquisitão de Defesa Contra Artes das Trevas foi quem assumiu o cargo. Pelo jeito esse o novo emprego dele na escola: Tapa buraco. Eu não entendo o funcionamento desse lugar.

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Todos os cargos públicos sendo trocados, todos professores, diretores, tudo um caos. Climão de guerra na escola. Nem sinal do trio problema de sempre, mas boatos de que estavam vivos. Aquela milícia secreta continuou treinando, um monte de gente aderiu. Eu tentei estudar, mas só queriam ensinar artes das trevas, e eu, pessoalmente, não sou muito chegado nessas coisas.

As punições se tornaram mais severas, as bonificações inexistentes, muita gente com a mesma tatuagem entrando e saindo da escola. Eu só queria me formar em paz, que nem o meu irmão e os meus pais. Mas parece que essa não era uma possibilidade.

No final do ano, para melhorar, aconteceu uma guerra completa, com um grande número de mortos. Sabem aqueles feitiços “proibidos”? Era só o que os atacantes usavam. Teve luta de lobisomem, também. E a gente descobriu que o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas esquisito – que agora era nosso diretor esquisito – era daquele jeito porque levou um fora de uma menina quando ele tinha uns dezesseis anos de idade. O grande bruxo das trevas era daquele jeito porque queria ser imortal. Ele deve ter vivido, tipo, uns trinta anos ao todo. E o menino que sobreviveu continuou fazendo jus ao nome.

Eu? Graduei. E hoje entendo porque Hogwarts era o local mais seguro para se estar. Porque o Lorde das Trevas não entrava lá enquanto o antigo diretor estava vivo. A bem da verdade, eu não sei porque eu continuava indo para lá.

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