Hogo Heiwa ai
1 Capítulo 1 - Vida
Capitulo 1
“Só quando você prova do lado mais triste da vida, é quando você descobre o que realmente importa”.
– Tsuki Hokai
Viver cada dia como se fosse o ultimo, é algo que me acostumei a fazer, cada dia passa em uma lentidão que te corrompe e te quebra de pouco a pouco, um processo duradouro e sofrido, o que chamamos de falta de esperança, é como sobreviver sendo empurrado pela sociedade, como uma necessidade, sem objetivos, sem... Enxergar um por que.
Oito horas da manhã do dia 13 de Março, uma segunda feira, acordei com o despertador infernal tocando sem cessar. Levantei, me espreguicei e andei até o banheiro, tomei duas pílulas de um antidepressivo que necessito dês dos sete anos, escovei os dentes e vesti o uniforme de verão. A cozinha estava vazia e o ventilador girava e esfriava aquele ambiente desanimador. Como normalmente acontece, meu pai não estava em casa há essa hora, comi o café esquentado que sobrará, dei bom dia a minha mãe, calcei meus sapatos e falei “Até mais tarde” na porta de casa, mesmo sabendo que ninguém iria me responder.
No caminho até a escola, as flores de cerejeira brilhavam com o efeito do sol, e a brisa batia no meu rosto me refrescando. Chegando ao colégio, várias pessoas me deram bom dia, e a todas eu respondia com um sorriso forçado, chegando até a turma um do primeiro ano, sentei na minha mesa, a terceira na fileira ao lado da janela, logo quando cheguei, Ryuu já veio me cumprimentar, Ryuu Fuyuki é um amigo que conheço dês do fundamental, talvez o único que mantive contato a tanto tempo, ele é um tanto covarde e precipitado, mas é boa pessoa. Como de costume ele já disse:
– Opa! Bom dia Makoto!
Respondi com um meio sorriso:
– Como vai Ryuu?
Ele respondeu dando um sorriso cumprido:
– Muito bem, com um sol desses e tantas garotas bonitas em nossa turma...
Mantive minha visão focada em meu caderno, ele então disse:
–Ei! Ei! Ouvi dizer que a Misaki-chan da turma 2 está afim de alguém, não vai me dizer que-
O interrompi antes de acabar:
– Não, eu não tenho nada a ver com isso!
Ele respondeu assustado:
– Tá, ta bom, foi mal.
Ele chegou perto e olhou para o meu caderno perguntando:
– Nossa, teve tarefa para hoje?!
Respondi com preguiça:
– Você não fez a redação que o Ryuuji-sensei passou?
Ele de um passo para trás, fez uma expressão desesperada e resmungou colocando a mão na cabeça:
– Ah! Merda!
No mesmo instante, Ryuuji-sensei entrou na sala gritando:
– Todos se sentem! Rápido, vou fazer a chamada!
Todos se sentaram as pressas, o professor abriu o caderno de presença na mesa e começou:
– Arusegaia Yui!
Respondendo um a um:
– Sim!
– Aoichiro Yuusuke!
– Sim!
– Curen Taiga!
– Sim!
Comecei a me perder em meus pensamentos enquanto olhava pela janela, as folhas de cerejeira caiam na quadra de tênis que ficava bem abaixo de nossa janela. Quando me dei por mim, o professor estava me encarando e repetindo o meu nome em tom alto:
– Masao Makoto! Masao Makoto!! Masao Makot-
O cortei respondendo alto também, pelo susto:
– S-Sim!! Presente!
Acalmei-me novamente e olhei para o lado, percebi os outros alunos rindo, as garotas com uma risada mais fina e os homens apenas com sorrisos suaves no rosto.
Me chamo Masao Makoto, tenho 15 anos, e estudo no primeiro ano do colegial do colégio Shinmei, situado no sul de Hiroshima, moro aqui dês de minha infância, um local que pode ser considerado isolado, o máximo que conseguimos ver são campos de arroz e as montanhas ao fundo. A grande maioria dos meus colegas dizem que odeiam morar tão longe da cidade, mas sinceramente, eu aprecio.
A partir daí a aula seguiu normalmente, sem muitas interrupções, no horário do almoço, peguei minha marmita e segui pelo corredor, vendo os diversos alunos passando por mim com uma felicidade e sorrisos que realmente me faziam questionar o porquê, comprei uma lata de chá verde na maquina de bebidas e subi até o telhado, subi novamente até a caixa d’água que dava vista para o local, via o caminho que pegava todo dia para ida e volta da escola, todo o local era coberto de cerejeiras, e os campos de arroz eram gigantes, um local que me acomodava.
Ao descer do telhado, encontrei-me com Ryuu no corredor, ele me segurou pelo ombro e disse:
– Almoçando sozinho de novo? Você vai acabar na solidão pela vida inteira em!
O respondi sem me preocupar muito:
– Ah... Não ligo...
Ele me olhou meio surpreso:
– Ãhn?! Sério, logo você, que consegue o que quiser quando quiser.
Minha vida sempre foi assim, consigo tirar boas notas e ir bem nos esportes sem fazer muito esforço, sempre achei tais coisas simples de se fazer, mas para os demais, isso acaba sendo um tanto incrível, não vejo nenhuma vantagem em tais atos, apenas faço por que é necessário ser feito. Desconversei com Ryuu:
– Não faço essas coisas esperando por recompensas.
Ele me olhou com desanimo:
– Ah! Tá... Sei...
Nos entramos novamente na sala, o próximo período estava para começar. A aula seguiu como de costume, o professor estava para acabar de explicar algumas frases sobre filosofia quando o sinal tocou, anunciando o final das aulas.
Eu estava arrumando minha mochila, quando uma garota com cabelo castanho até os ombros apareceu na porta da sala, mostrando apenas metade do corpo, ela disse um tanto alto:
– Éééé... Masao-kun está?
Todos olharam pra mim com uma cara bem comum, algo parecido com desanimo e pena, Ryuu que estava do meu lado, me deu um tapa nas costas, quando olhei para ele, apresentava uma expressão séria e um tanto irada. Ele sinalizou “vai” com a cabeça. Eu peguei minha mochila e caminhei até a garota. Ela então abriu um sorriso e disse:
– Prazer! Sou Mitsuko Misaki!
Eu respondi em tom normal:
– Prazer.
Ela então me perguntou:
– Você tem um tempo?
Eu pensei por alguns milésimos, mas acabei respondendo:
– Claro.
Nos fomos até os fundos do ginásio, toda a caminhada até lá passou como uma eternidade, eu já sabia o que iria ocorrer, eu já imaginava, mas não podia fugir.
Mitsuko-san então parou de andar, ela se virou para mim com um sorriso humilde no rosto, eu percebi na profundidade do olhar dela que seria algo sério, ela então começou a falar:
– É-é-é... Sabe... Masao-kun... Você já pensou em como sua vida anda?
Eu realmente não entendi o que ela disse, mas antes que eu perguntasse o que significava, ela continuou:
– Você já teve algum tipo de pensamento como, “eu preciso mudar em algo”, ou, “algo precisava acontecer”?
Eu abri meus olhos bem, o que ela disse entrou na minha cabeça como uma música, algo que me fez lembrar... Algo que justificava...
Ela então continuou:
– Eu passei toda a minha vida assim, continuava cada dia na esperança que algo poderia acontecer...
Eu pensei comigo:
–Esperança?...
Eu abaixei o rosto com desanimo, o vento bateu na cerejeira ao nosso lado, e então eu escutei:
– Enfim eu encontrei!
Olhei para ela no momento com espanto, ela então prosseguiu:
– Obrigada.
Eu continuava á olhando, ela chegou perto de mim, me olhou com um sorriso mais definido, corou até certo ponto, e disse:
– Você me daria uma chance?
Minha expressão foi a pior, eu pensei novamente:
–Esperança?...
Desviei o olhar para a esquerda e á respondi:
–Desculpa... E-eu...
Ela deu mais um sorriso, que cobriu seu rosto por inteiro, então disse:
– Bom! É justo, você nem nunca falou comigo antes.
– Ai deus, e eu ainda disse aquilo tudo, que vergonha...
Eu continuava a olhando, ela então estendeu a mão e perguntou:
– Posso falar com você mais vezes?
Eu então dei um meio sorriso, estendi a mão e a cumprimentei, falando:
– Tudo bem.
Ela então sorriu, se virou, e foi-se.
Eu continuei lá, de pé, sentindo o cheiro das cerejeiras, que sempre presenciavam todas as situações vivenciadas, a brisa que batia chegava a ser confortante.
Ryuu estava saindo da escola, eu estava sentado no banco que fica a sua frente, ele veio até mim, sentou ao meu lado e disse:
– Vida difícil a sua em...
Eu olhava para o céu, quando respondi:
– Pois é, mais ou menos...
Ele deu uma risada e falou:
– Haha, mais uma pra lista!
Eu olhei pra ele meio irritado:
– Não fala assim, retardado!
Ele olhou para mim meio aborrecido:
– Cara, que inveja, e pensar que a Misaki-chan realmente ia se confessar para você.
Eu voltei a olhar paro o céu, e o respondi:
– Ela é diferente...
Ele se assustou e me respondeu gritando:
– O que?! Q-quer dizer que, vocês agora estão namor-
Eu o cortei:
– Não, não estamos.
Ele se jogou no banco desapontado:
– Ããhn... Maldito seja você...
– Bom, tenho que ir, minha mãe falou para buscar o meu irmão antes que escureça, até amanhã.
O respondi:
– Até.
Ryuu pegou sua bicicleta e saiu pedalando, eu continuei sentado no banco, pensando no ocorrido.
Isso ocorreu várias outras vezes, mas sempre foi o mesmo resultado, nunca me interessei em namoro, parece que o amor é algo meio impossível para mim. Suspirei, me levantei do banco e comecei a caminhar até em casa. Ao fundo, na paisagem, assistia ao por do sol. No mesmo instante, eu comecei a escutar uma música, calma, parecia algo como um desabafar de alguém triste, um violino soando devagar, antes que eu pudesse pensar no que era, uma brisa forte bateu sobre a cerejeira ao meu lado, várias pétalas voaram para cima de mim, neste momento, um flash surgiu em minha frente e uma pontada de dor forte atingiu minha cabeça, eu coloquei a mão no rosto, fechei os olhos e me ajoelhei pela dor, de um instante para outro, eu voltei a olhar para a estrada, as folhas já estavam no chão, e a dor avia sumido, olhei para os lados, não vi ninguém, a música também avia cessado. Me levantei, e continuei andando, tentando ignorar o que tinha acontecido.
Cheguei à porta de casa, destranquei e abri, notei os sapatos de meu pai ao lado, então disse:
– Estou de volta!
A voz de meu pai soou ao fundo, vinha da sala:
– Bem vindo!
Fui até ele, estava comendo alguns petiscos e tomando cerveja, enquanto assistia à televisão. Acabei perguntando:
– Tem algo para jantar?
Ele respondeu sem dar muita atenção:
– Sim! Comprei lanche na loja de conveniência.
Fui até a cozinha e vi dois onigiris e uma garrafa de refrigerante em cima da mesa.
Subi até meu quarto e troquei de roupa, de volta a cozinha, comecei a comer os onigiris, me lembrava do que avia ocorrido na escola, do que Misaki-san avia dito, e como Ryuu tinha reagido, acabei prestando atenção no que a televisão dizia ao fundo:
–“A previsão aponta que á uma grande probabilidade de chuva na região Norte do Japão, a previsão para Hiroshima, Kochi e oeste de Okayama é de chuva pesada com relâmpagos, entramos em alerta de tufão e aconselhamos aos moradores não saírem de suas residências na parte da tarde. Prosseguindo agora para o show d-“
Meu pai desligou a televisão no momento, eu pensei comigo que estaria na escola durante o tufão, então não ocorreria problemas. Meu pai chegou até a cozinha, pegou meu refrigerante e serviu meia garrafa para si mesmo, bebeu tudo de uma só vez e deu uma resmungada:
– Poxa, você nem pra deixar um onigiri para mim.
Eu o respondi com cara desleixada:
– Você já tinha comido alguns petiscos com a cerveja, e, por favor, deixe refrigerante para mim.
Ele fez uma cara de teimosia e seguiu até a pia, falando:
– Não se esqueça de levar um guarda chuva amanhã em!
Eu o respondi sem paciência:
– Tá.. tá...
Ele tirou a forma de gelos do freezer, parou um pouco e disse:
– Ei, eu já vou ir dormir...
Eu já fui respondendo:
– Já?! Amanhã que horas você começa a trabalhar?
Ele respondeu com a mão na nuca e rindo:
– Meu turno começa às quatro horas.
Eu continuei comendo o resto do ultimo onigiri, ele então ficou serio, olhou para baixo e disse:
– Então, de boa noite para sua mãe, por mim também.
Eu abri os olhos até um ponto, depois tornei a olhar para baixo e respondi:
– Tá.
Meu pai então saiu da cozinha, com um copo d’água com gelo, dizendo:
– Então, obrigado, boa noite!
O respondi:
– Boa noite.
Terminei de comer o onigiri, bebi o resto do refrigerante, lavei as mãos e segui até um quarto que fica ao lado da porta da casa, o abri, no fundo do quarto, avia um memorial, um armário com várias rosas, suportes para incensos e no centro, a foto de minha mãe, Masao Kaori, eu me ajoelhei na frente, acendi um incenso, e comecei a rezar, no final, falei com um pequeno sorriso:
– Boa noite, mãe.
Minha mãe avia morrido quando eu tinha apenas 9 anos, eu não me lembro bem do ocorrido, mas uma das coisas que consigo me lembrar, é que ela tocava violino, e que eu realmente gostava de ouvi-la.
Me levantei e caminhei até o banheiro, tomei banho e me preparei para dormir, já na cama, eu olhei para o relógio, que já marcava nove e cinquenta da noite, eu parei e percebi que a lua brilhava na janela do quarto, de uma maneira incrível. Então deitei em minha cama, e peguei no sono de uma maneira rápida.
No meio da madrugada, comecei a sonhar com algo estranho, eu suava e em minha mente, ouvia a mesma musica que escutei no caminho para casa, minha visão estava ofuscada, não conseguia enxergar direito, mas percebi que a minha volta, avia várias arvores de cerejeira, e quando dei por mim, na minha frente, percebi a presença de uma garota, ela tinha cabelos pretos que iam ate a cintura, usava o que parecia com um vestido, totalmente branco, minha visão parava no meio de seu rosto, ela tinha um sorriso brilhante e marcante, e quando me dei por mim, o único ponto em que conseguia ver claramente, era um colar que estava em seu pescoço, um colar que tinha o kanji de História, aquilo me chamou a atenção, mas no momento em que comecei a prestar atenção na musica, notei que ela ia fincando mais triste e cada linha, e a garota foi se distanciando, senti a vontade de esticar a mão para tentar alcança-la, mas me segurei e não fiz, num momento triunfal da musica, acordei assustado, bufando na cama, me sentei e olhei pro relógio, ele marcava seis horas, faltavam apenas duas horas para o horário de acordar, olhei para a janela, e não conseguia mais ver a lua.
Neste momento, eu não imaginei, pensei novamente na vida que estava traçando, o que eu estava fazendo, e se realmente “algo precisava acontecer”, mas eu não percebia que o que realmente estava faltando, o que realmente daria sentido novamente a minha vida sem esperança, estava tão perto de mim, que aquele sonho, que aquela música, mudaria tanto assim, o destino que eu achava que ia percorrer...
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