Sequestro

Para minha surpresa, Hyesung estava engajado em nos ajudar. Pensar sempre no plural já estava me irritando. Eu precisava voltar a ser uma pessoa independente. Sempre achei que aquelas invencionices de Consuelo iriam causar problemas, mas nunca pensei em nada como aquilo. Tentamos colocar a cabeça para funcionar, enquanto Hyesung avisava a Eric, Minwoo, Andy e Junjin que Dongwan estava mal. Ele inventou alguma mentira para os amigos, qualquer coisa que os fizesse pensar que Dongwan passaria o dia todo no quarto de hotel, chateado.

Colocamos o cérebro para funcionar e a única solução pensada foi: sequestrar o corpo. Como tudo que já estava acontecendo parecia uma loucura só, sequestrar o corpo chegava a não ser um pensamento totalmente insano. Afinal, precisávamos mesmo do corpo colocado no local indicado por Consuelo, nas condições em que ela disse.

Hyesung pegou o telefone e descobriu, por seus contatos em Seoul, para onde eu estaria sendo levada. Claro, para o Hospital Memorial de Seoul. Para Hyesung e Dongwan foi um raciocínio óbvio, mas eu sequer imaginava onde aquele lugar ficava.

_O Memorial é o melhor hospital daqui. – Hyesung pensou alto. – E o mais seguro também... vamos precisar de jeito para entrar.

_Vamos precisar de um plano. – Eu imaginei. – Vamos usar a fama de vocês para conseguir entrar.

_Qual a sua idéia?

_Oras... Hyesung vai seduzir uma enfermeira enquanto eu... quero dizer, enquanto Dongwan vai comigo até o necrotério. De lá damos um jeito de sair comigo. Que confuso!

Coçei a cabeça com força, e Dongwan resmungou.

_Ei! Não é porque está sem corpo que pode destruir o meu.

_Isso está completamente fora do normal... – Hyesung pensou alto novamente. – Ok, vou seduzir a enfermeira. Como se fosse fácil assim!

_Para Shin Hyesung, seduzir uma mulher deveria ser moleza. – Dongwan brincou.

_Ok, vamos fazer isso. Mas vamos logo, pois já vai começar a escurecer e... logo, logo precisaremos estar em algum lugar que ninguém nos veja.

Eu agarrei Hyesung pela mão e saímos do hotel às pressas. Por sorte, estavam todos tão comovidos com a minha morte que nem notaram alguma coisa esquisita entre nós. Nem poderiam notar que ali haviam três pessoas maquinando o sequestro de um... cadáver. Entramos na Mercedes de Hyesung e voamos para o hospital, literalmente. Ele correu tanto que senti o estômago passear por todos os cantos.

_Não fique enjoado, Dongwan. – Reclamei.

_Você é quem está enjoada. – Ele protestou.

_Os dois estão. Agora calem-se, quem ouve vocês pensa que estão malucos.

Estacionamos em uma via lateral, pois Hyesung não queria ser reconhecido. Afinal, eles estavam em casa, o lugar mais propenso para os delírios de uma fã. Caminhamos sorrateiramente até a entrada do hospital e fomos surpreendidos por um segurança, que quis saber aonde íamos. Dongwan gaguejou alguma coisa, mas eu tomei a frente das negociações.

_Viemos saber sobre Débora Mendes. – Fui enfática.

_Quem? – O segurança não entendeu.

_Ela deu entrada hoje, queremos notícias.

O homem parrudo sorriu e nos apontou um balcão onde uma moça de branco falava no telefone. O hospital parecia vazio, o que nos ajudaria a cometer o crime. Não seria exatamente um crime, pois o corpo era meu... e eu poderia pegá-lo quando quisesse. Porém ninguém ali sabia que eu estava dentro de Dongwan, e se soubesse não acreditaria. Assim como eu não acreditei em momento algum que aquela barbárie pudesse se tornar real.

Hyesung perguntou sobre mim, e a recepcionista procurou informações em seu computador. Enquanto isso, eu fingi uma vontade de ir ao banheiro, que me foi prontamente indicado pela mocinha simpática. Talvez ela não fosse tão simpática se eu fosse eu mesma, mas como pensava ser Kim Dongwan falando com ela... nada que a fama e a beleza não pudessem resolver.

Ao invés de irmos ao sanitário, eu e Dongwan caminhamos pelos corredores em busca do necrotério. Nem imaginamos que conversa mole Hyesung precisaria usar para enrolar a recepcionista, era importante apenas que ela não percebesse nossa demora. Seguimos as placas informativas do hospital até o décimo segundo andar, escuro e frio, onde ficavam as geladeiras. Se eu tivesse sorte, o andar estaria vazio e meu corpo estaria intacto.

Em passos miúdos e nervosos, fomos até uma lista que estava pregada em uma das portas e descobrimos que os corpos ficavam armazenados por ordem de chegada. Bastante organizados; se fosse no Brasil eu teria problemas para me encontrar. Encontramos a sala dos corpos mais recentes e entramos. Fazia frio, bastante frio. E Dongwan tinha se recusado a colocar um casaco.

_E se encontramos outros corpos? – Dongwan resmungou.

_Vamos encontrar. Isso é um necrotério.

Adquiri coragem e levantei o lençol do corpo sobre a primeira mesa. Era um homem ferido a bala. Senti as pernas fraquejarem mais uma vez, e por pouco não caímos.

_Dongwan, por favor, tente ser firme. Precisamos encontrar meu corpo, e a única forma de fazermos isso é olhando de um em um.

_Está bem, está bem...

Dongwan respirou fundo, e olhamos sob o segundo lençol. Para nossa sorte, ali estava eu.

_Que abuso, eles me deixaram nua! – Reclamei.

_Claro... você está morta, para que precisa de roupas?

_Não estou morta. Quero dizer... não estou!

_E agora, como vamos sair daqui? Com você?

_Não faço a menor idéia.

Enquanto maquinávamos uma forma de sairmos, ouvimos passos. Ficamos estáticos, e os passos passaram por nós. Precisávamos ser rápidos, ou seríamos pegos. Olhei em volta, tentando encontrar alguma coisa para colocar o corpo dentro, quando algo ainda mais surpreendente aconteceu. Se pudesse haver algo mais surpreendente do que dividir o corpo com outra pessoa, claro. Dongwan apoiou-se na beirada da mesa onde estava o corpo, e encostou em minha pele. Senti imediatamente um calafrio, enquanto meu corpo levantou-se da mesa, assustado.

_Débora?

Eu olhei para Dongwan. Ou melhor, meu corpo olhou para o corpo de Dongwan. O feitiço tinha se completado.

_Madre de Dios... só faltava essa! – Falei, passando as mãos no rosto, nervosa.

_O que aconteceu? – Dongwan percebeu-se em meu corpo, e agarrou-se ao lençol que me cobria.

_O feitiço se completou. Na verdade, era para termos trocado de corpo, como fizemos agora. Por algum “defeito”, nos misturamos no mesmo corpo. Agora, quando você me tocou, você “saltou” para dentro do corpo vazio.

_E por que não foi você quem saltou??? Quero dizer, por que você não voltou a ser você?

_Porque estamos enfeitiçados! Bem... pelo menos sabemos como levar o corpo, agora.

_Você está sem roupas!

_Vamos improvisar com o lençol.

Utilizei-me das minhas qualidades e amarrei o lençol no meu corpo como se parecesse um vestido. Um vestido bastante demodê, mas parecia uma roupa. O importante era que eu não transitasse nua pelo hospital. Ninguém poderia desconfiar de nós.

Percorremos os corredores tentando parecer o mais naturais possível, porém estávamos nervosos. Era como se duzentos olhos nos observassem, como se todos se importassem conosco. Cruzamos com algumas pessoas, que sequer reconheceram Dongwan. Mesmo assim, estávamos preocupados. Meu corpo, vestindo um lençol, não aparentava ser a pessoa mais normal do mundo. Quando vimos Hyesung na recepção, eu senti um alívio terrível. Dongwan agarrou-se em mim, ele também deve ter ficado aliviado.

Nos aproximamos de Hyesung, que parecia estar gostando de conversar com a recepcionista. E ela, encantada, nem se deu conta da nossa presença.

_Hyesung... – Eu disse. Ele se virou e nos olhou, surpreso.

_Dongwan.... e Debby! – Ele viu meu corpo lhe olhando, visivelmente ansioso.

_Eu a encontrei aqui... coincidência, não? – Tentei disfarçar.

_Sim, muita. Então... podemos ir, eu acho.

_Não vai querer saber da sua amiga? – A recepcionista lembrou do falso motivo que nos fizera ir até o hospital.

_Não... é uma boa razão para eu voltar novamente.

Hyesung piscou o olho para a recepcionista e praticamente empurrou Dongwan e eu para fora do hospital. Passamos pelo segurança como se tivéssemos fazendo uma coisa muito errada. Era errada, mas era muito mais ainda fantástica. Como contaríamos que estávamos sequestrando um corpo morto que estava, então, vivo? Nunca seria racional, por isso eu nunca acreditaria. Sem tempo para sentar e pensar na situação, eu tinha era vontade de acordar do pesadelo.

Praticamente corremos até o carro. Hyesung desligou o alarme e entramos apressados. Ele ligou o veículo e dirigiu por alguns metros, até pararmos em um local totalmente deserto.

_Agora os senhores vão me explicar como conseguiram desfazer essa lambança sem a coisa mágica da amiga mexicana da Débora. – Hyesung desligou o carro e olhou para mim e Dongwan.

_Não desfizemos nada, eu acho. – Dongwan disse. – Eu agora estou no corpo da Debby, por isso ele está aqui, andando.

_Mas isso é um absurdo. Bem... mais absurdo não pode ser. Como isso se explica, ou não se explica?

_Bem... – eu tentei dar um parecer de quem já estava entediada de ouvir a amiga falar sobre o assunto – eu acho que, quando Dongwan me encostou lá no necrotério, alguma coisa desencadeou uma reação e ele foi para meu corpo, como deveria ter acontecido antes.

_Então era para ter havido uma troca? Ah, então está tudo normal, agora.

Hyesung caiu na gargalhada com a besteira que tinha acabado de dizer. Dongwan ficou furioso e quis dar um soco no amigo, mas logo percebeu que estava frágil demais para conseguir brigar.

_Deixe-me voltar ao normal, Shin Hyesung. Vou acertar as contas com você.

_Vai nada. – Intrometi-me. – Ele é o único que está nos ajudando, e precisaremos dele, mesmo.

_Obrigado.

_Não me agradeça, me leve para comer. – Eu sorri.

Hyesung sacudiu a cabeça por alguns instantes e ligou novamente o carro. Eu estava ao lado dele, no banco do carona.

_É engraçado... olho para você e vejo Dongwan. Mas quando você fala, apesar de ouvir a voz dele, sei que não é ele. Que coisa doida.

_Espero que só você perceba isso. – Dongwan divagou.

Fomos até uma lanchonete McDonalds, que ficava nos arredores de Seoul. Hyesung achou que, quanto mais ficássemos longe dos holofotes, mais seguros estaríamos. Não entendia por que precisávamos ficar escondendo de todos, mas era um instinto natural. Se eu, que sofri o feitiço, resisitia até aquele momento em acreditar que tudo aquilo estava acontecendo, poderia imaginar o quanto assustada ficaria a pessoa que soubesse do ocorrido.

Sentamos em uma mesinha de canto enquanto Hyesung foi pedir nosso lanches. Eu e Dongwan ficamos novamente frente a frente, sozinhos. Quando aquilo acontecia, uma química enorme era liberada em nossos corpos. Mesmo que eles estivessem trocados.

_Não acredito que estou olhando para mim mesmo. – Dongwan disse, enquanto me observava, do outro lado da mesa.

_E você acha divertido querer olhar para você e me ver em seu lugar? Quero dizer... estou atraída pelo corpo que estou usando.

_Está?

_Sim... não estou no seu corpo?

_Quero dizer atraída por mim.

Senti a face corar e não acreditei que tinha dito aquilo. Claro que era verdade. Eu não conseguia mentir, e discrição também não era o meu ponto forte. E Dongwan... ele era tão fácil de se conversar. Era tão fácil olhar em seus olhos e... eu não podia olhar em seus olhos naquele instante. Mas sabia a sensação da noite anterior.

_Sim, eu me sinto.

_Porque sou Kim Dongwan, quem não estaria atraído por mim, certo?

_Claro que não.

_Não pode fingir que não me conheçe, agora.

_Não estou fingindo. Se quer saber, sempre adorei o Shinhwa. Bem, eu sou um tipo de fanática pela banda. Mas meu ídolo, o cara que me deixava doida na frente do vídeo, era Hyesung.

_Hyesung???

_É.

Dongwan olhou para o amigo que chegava com os sanduíches e mudou de lugar. Sentou-se ao meu lado, sem explicar por que, fazendo com que Hyesung ficasse de frente para nós. Hyesung colocou a comida sobre a mesa e mais do que imediatamente começou a devorar suas batatas. Dongwan ajudou-me a abrir a sacolinha dos guardanapos. Eu era mesmo desajeitada.

_Estava morto de fome. – Hyesung disse, com a boca cheia.

_Ainda bem que educação nunca foi seu forte, mesmo. – Dongwan alfinetou.

_Quieto, Wannie. Você pode estar se escondendo por trás de uma mulher, mas não pense que não posso te deixar de olho roxo quando isso acabar.

_Rapazes... não discutam. Não chamem atenção, por favor.

Talvez a meu pedido, eles pararam de reclamar e ficaram apenas rosnando um para o outro. Dongwan segurou o sanduíche com uma das mãos e pousou a outra sobre minha perna. Fechei os olhos, como se estivesse sentindo algo extraordinário. Sim, eu estava atraída por Kim Dongwan. Mas aquela situação era esdrúxula.

Comemos em silêncio, mas parecia que Hyesung havia percebido algo estranho no ar. Eu também percebi, mas não entendi o que era. Saimos do McDonalds e o céu já estava escuro. Algumas poucas estrelas brilhavam no céu.

_Para onde vamos, agora?

_Precisamos de algum lugar escuro, silencioso, onde ninguém vá aparecer. – Eu disse, observando algumas nuvens que pareciam trazidas pelo vento.

_Vamos para os fiordes de Busan. – Dongwan sugeriu.

_Fica a quase duas horas daqui, Dongwan...

_Temos tempo... até meia noite.

Hyesung deu de ombros e ligou o carro. Sentei no banco de trás para deixar Dongwan ir com o amigo, mas ele sentou-se ao meu lado.

_Vou ficar de motorista? – Ele protestou.

_Sim, vai. – Dongwan sentenciou.