_MADRE DE DIOS!!! – Consuelo gritou, jogando o livro no chão e correndo para me ajudar a levantar. – Bien que abuella disse... ella disse!!

_Disse o que, mulher? – Sacudi a cabeça, meio zonza. Sentia ainda um tremor me percorrer o corpo. – Que você é completamente maluca?

_Non!!! Que não devemos invocar os espíritos!! Não devemos!

_Consuelo... não aconteceu nada. Estou aqui, inteira, não estou?

_Sim... mas aconteceu sim, alguma coisa. Aconteceu, isso eu sei...

Consuelo agarrou-se com o livro e desapareceu pela porta, descendo as escadas a galope. Até parecia um cavalo de corrida. Eu me sacudi como um cão sarnento, tentando reorganizar os ossos e órgãos no lugar. Olhei em volta e o sótão estava virado de pernas para o ar. Naquele dia, tive certeza que minha mãe me trancaria no calabouço e me faria escrava para sempre. A parede que amorteceu meu impacto estava rachada.

_Débora! Débora! – Minha mãe gritou. – O que está acontecendo? Por que Consuelo desceu correndo? Vocês brigaram? Que barulho foi esse?

Mamãe e suas perguntas, todas ao mesmo tempo. Mostrei-me pela porta, para evitar que ela subisse as escadas.

_Nada aconteceu... Consuelo lembrou-se de um compromisso. E o barulho... foi uma experiência.

_Você quebrou alguma coisa??

_Não, claro que não!

Minha mãe desistiu de dialogar comigo e voltou às suas futilidades do dia a dia. Eu estava salva momentaneamente. Mas tive que organizar toda a bagunça que fiz e disfarçar as rachaduras e móveis quebrados.

No jantar, fiquei sabendo que teria o prazer de ir à Coréia conhecer o Shinhwa. Quase dei um beijo em Brad, quando ele me contou, mas precisei manter a fama de “difícil”. Eu não ficava distribuindo beijos nem abraços para ninguém. A família, porém, tinha feito minha felicidade. Fazia tempo que eu não tinha tanta vontade de fazer um programa familiar, principalmente se Bob e Luke estavam envolvidos. Eu adorava meus irmãos, mas mamãe os mimava demais. Privilégios que eu não tive.

Passei na casa de Consuelo, para levá-la à faculdade, mas ela não estava. Sua mãe me disse que ela havia saído muito cedo, com o tal livro da magia. Maldisse minha amiga, não queria mais ver aquele livro desastrado em minha frente. Todo o meu ceticismo não me permitia ver que, apesar de não estar aparente, alguma coisa esquisita acontecera no sótão, na tarde anterior. O nada não teria feito os móveis mudarem de lugar, nem teria me arremessado contra o concreto. Mas eu não acreditava, e não acreditar era suficiente para ter certeza que estava tudo normal.

Minha amiga passou a manhã toda na biblioteca lendo o livro idiota, herança de sua vó. Perdeu a belíssima apresentação do trabalho de Benito, e também a oportunidade de elogiá-lo. Benito era lindo... o homem mais lindo da faculdade. E estudava citologia na nossa classe. Estava dois períodos adiantado, mas pagava aquela matéria. Viera transferido da Espanha, com a família, a trabalho. Todas as mulheres eram apaixonadas por Benito, ele tinha a imagem ideal do latino caliente que ululava nos sonhos das simples mortais. Eu não perdi a oportunidade de dizer o quão eloquente ele era. Nem de cumprimentá-lo com um singelo beijo.

Encontrei-me com Consuelo ao final da aula, morrendo de fome e com apetite para comer um boi inteiro.

_Chica, vamos comer tacos? – Invadi a biblioteca, escandalosa.

_Debby... estamos em uma biblioteca. – Consuelo me puxou para baixo e me fez sentar.

_Tá bom... mas vamos?

_Não acho prudente, estou descobrindo como reverter o feitiço.

_Não tem feitiço nenhum, Consuelo!!!! – Aquela história começava a me irritar.

_Tem sim, chica! Aqui diz... usted cambia cuerpo con los otros que miram em sus ojos.

_Ahá! Mas eu encarei Benito hoje! – Vibrei com a revelação de que o feitiço era uma fraude. – O tempo todo, para ser honesta... como ele é lindo! E nada aconteceu, eu continuo sendo eu.

_Benito olhou para você???? Ele... olhou profundamente em seus olhos?

_Claro que não! Quem me dera!

_Entonces, la magia aúnque non se... gracias.

_Detesto quando você fala assim. Bem... hoje à noite estou partindo para a Coréia. Vou conhecer o Shinhwa!

Consuelo despregou os olhos do livro e me olhou, sem, no entanto, focar meus olhos.

_Debby... non se vá. Se for, ao menos cuida-te de não permitir que ninguém troque olhares com você. Eu ainda não sei reverter o feitiço, e, com você na Ásia...

Fiz uma careta para Consuelo e a deixei falando sozinha. Fui ao melhor restaurante de tacos da cidade, com minha amiga correndo atrás de mim e querendo provar-me algo que considerava um absurdo. Estratosférico. Mas deixei que ela falasse enquanto saboreava meus apimentados mexicanos. Afinal, eu ia ver o Shinhwa, tinha passado a manhã inteira “de olho” em Benito... nada melhor para um fim de semana.