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Notas iniciais
Annabeth
27 de Setembro...
“Sem roupas hoje... espero que seu pijama não seja tão horrível quanto suas calcinhas.
– Percy.”
Assim que eu li o bilhete, um grito estrangulado escapou de minha boca e eu me joguei na cama. Minha vida estava de cabeça para baixo e parecia que eu vivia um pesadelo. Percy estava me deixando louca, e não no bom sentido. Bufei e enterrei minha cabeça no travesseiro de fronha com estampa floral. Durante toda a semana eu segui o plano maluco de Percy, o qual incluía refazer muitos dos contratos já assinados e discutir assuntos já passados e arquivados. Eu sabia que tudo isso era loucura, porém, admitia que mesmo com toda essa insanidade, a semana fora incrível, afinal, nos divertíamos como nunca relembrando dos acontecimentos. Percy podia ser um dos empresários mais bem sucedidos da América, mas ainda era um bobão que derramava café em si próprio.
Levantei a cabeça e andei até o banheiro no corredor, pegando um soutien no caminho e vestindo-o por baixo de minha regata branca de dormir. Lavei o rosto e escovei os dentes. Penteei meus cachos loiros com os dedos e os prendi em um rabo de cavalo. Bufei irritada e calcei meus chinelos, andando até a cozinha para tomar café.
– Acordou atrasada filha? – Minha mãe perguntou tomando um gole de seu café.
– Vou trabalhar assim hoje... – Resmungue antes de andar até a geladeira e me servir um copo de leite gelado, bebendo-o de uma só vez e atraindo os olhos curiosos de meus pais.
– Espere... – Meu pai me olhou de cima a baixo, desde a calça moletom cinza com a insígnia da faculdade de Harvard, até minha regata branca manchada na bainha de suco de uva, coberta pelo cardigã creme velho que já fora de minha mãe. – Vai trabalhar de pijama?
Ele lutava contra um sorriso.
– Pelo visto Percy estava com preguiça de escolher minhas roupas hoje... – Resmunguei e minha mãe riu enquanto bebia de seu café, fazendo gotas caírem em seu colo.
Eu mandei um olhar assassino para ela e logo seu sorriso se desfez.
– Melhor eu ir. – Me arrastei até a porta, levando comigo apenas minha carteira, meu celular e minhas chaves. – Até de noite.
– Boa sorte. – Ele gritaram em uníssono enquanto eu fechava a porta. Praguejei baixo e respirei fundo.
– Me aguarde Percy Jackson. – Eu resmunguei e andei em busca de um taxi, atraindo os olhares de todos por onde passava.
Ω
– Nós o que?! – Meu grito saiu fino e eu deixei meus braços caírem pesadamente ao meu redor.
– Dia 9 de Fevereiro. Compras. – Percy continuou a andar com seu terno preto de gravata azul pela Times Square. Eu travei meus calcanhares na calçada e cruzei meus braços. Percy também parou de andar e virou para me olhar. – O que foi?
– Compras? – Eu falei alto para ser ouvida sobre o som da cidade ao nosso redor. Percy assentiu e eu andei até ele. – Você quer comprar mais roupas Percy?! – Ele abriu a boca, mas eu continuei. – Isso é consumismo de mais até para você! E, além disso – Gesticulei para minhas roupas e voltei a encara-lo. – Custava me mandar roupas hoje? – Eu olhei para ele, o sol batendo em nossos rostos e o vento soltando fios loiros do meu elástico de cabelo.
Percy, surpreendentemente, colou cada uma de suas mãos em meu rosto, o qual eu senti esquentar.
– Relaxe. – O encarei, impedindo que o conforto de suas mãos quentes sobre minhas bochechas me preenchesse. – Vamos sim comprar roupas e repetir aquele dia, mas hoje as roupas serão para você. – Eu gaguejei sem jeito, totalmente confusa. – Pare de ser relutante. Vai ser divertido. E, além disso – Ele desviou o olhar de mim e olhou ao nosso redor. – Você vai parar de me envergonhar vestindo esse pijama horrível no meio da rua.
Eu bufei e tirei suas mãos de mim, empurrando-o para fora do caminho e andando pela calçada. Ouvi sua risada em minhas costas e não pude deixar de sorrir. Já que é assim, melhor eu aproveitar.
Ω
– Certo Annabeth, vamos ver como esse vestido ficou em você. – Percy falou impaciente de fora do provador.
Eu alisei o vestido roxo escuro com as mãos e fiz uma careta para o espelho. A única alça do mesmo escorregava pelo meu ombro e eu, já irritada, subi-a toda vez que o vestido mostrava alguma parte de meu seio. A saia rodada e cheia de babados não chegava nem a metade de minha coxa, o que fazia eu me achar cada vez mais desproporcional.
– Hmm... acho melhor procurarmos out... – Percy abriu a cortina do provador e eu gritei, pulando para longe dele e tentando abaixar a saia do vestido, o que consequentemente expunha parte de meu seio, me deixando desesperada.
Percy me olhou de cima a baixo e eu senti o sangue subir por todo o meu rosto. Ele inclinou a cabeça para traz e soltou uma gargalhada, fazendo minha vergonha ser substituída rapidamente pela raiva.
– Silena! – Ele virou de costas para mim e começou a andar novamente pela loja, eu fechei a cortina e me encostei no espelho, bufando os fios loiros que caiam em meus olhos. – Acho que esse também não ficou bom!
Ele conversava com a dona – e nossa antiga amiga – sobre outros modelos de roupas, contendo perceptivelmente o riso na voz.
– Ok Percy – Eu ouvi a voz de sinos da morena. – Porque você não vai dar uma volta pela loja com Luke enquanto eu resolvo essa crise de moda sim?
Justei as mãos e dei graças por ter Silena na minha vida. Ouvi Percy resmungar relutante, mas logo seus paços foram se distanciando e a cortina foi escancarada novamente, me fazendo dar um novo pulo.
– Muito bem, agora sim começa a diversão. – Silena soltou uma risada diabólica e me arrastou para fora do provador. Eu tropecei e quase cai de cara no tapete carmim da ala reservada da grande loja.
A morena soltou o meu pulso e abriu os braços para as araras repletas de roupas.
– Aqui na Beauregard’s, como você já sabe, temos a melhor coleção de roupas de toda a New York. – Ela pegou um vestido vermelho na mão. – Desde vestidos de gala, até lingeries ousadas. – Ela pegou um conjunto de calcinha e soutien pretos e mostrou para mim.
Eu soltei uma risada e olhei para a porta de madeira onde Percy passara mais cedo. Eu nunca gostei de gastar muito dinheiro, mas a verdade é que, eu gostava dessa atenção, e depois de toda a tiração de sarro de Percy com minhas roupas, ele merecia isso.
– Ok – Olhei para Silena. – Hora de começar a diversão e, por favor, não economize na provocação.
Silena soltou uma risada junto de mim e andou até o radio perto da parede. Ela apertou um botão e a musica One Way Or Another, Blondie, começou a tocar nos altos falantes. Ela rebolou até as araras e ri mais alto enquanto ela jogava montes de roupas em meus braços.
Ω
Eu ria junto de Silena enquanto descíamos as escadas na parte da frente da loja. Eu vestia um vestido preto justo de alças, junto de saltos também pretos e milhares de sacolas da Beauregard’s. A maquiagem leve e meus cachos modelados davam graça a todo o modelito.
Percy estava de costas para nós e conversava com um homem loiro de olhos claros. Assim que o mesmo nos avistou, um sorriso brotou em seu rosto e Percy virou para nós.
– E então? – Perguntei assim que chegamos perto deles. – Como estou?
O moreno me olhou de cima a baixo e engoliu em seco. Em seguida deu de ombros.
– Melhor do que o pijama, com toda certeza. – Dei um tapa em seu braço e joguei minhas sacolas para ele, fazendo-o se desequilibrar momentaneamente e praguejar baixinho.
– Sinceramente Annabeth – Silena gesticulava com as mãos enquanto falava. – Não sei como você ainda suporta esse idiota.
Eu ri e dei um passo para traz, batendo em um manequim e quase caindo de meus saltos. O braço de plástico, vestido com um paletó, pendeu bobamente sobre toda a estrutura e eu tentei arruma-lo o mais rapidamente, porem, todos já olhavam para mim e as risadas de Percy eram audíveis.
Minhas bochechas ficaram quentes e eu senti uma mão pesada em meu ombro.
– Deixa comigo. – O loiro pegou o braço e o colocou em seu devido lugar, me lançando um sorriso em seguida. – Sou Luke.
– Annabeth – O cumprimentei simpaticamente enquanto observava suas feições, desde os olhos azuis até os lábios finos.
– Vamos então Sabidinha? – Percy me chamou, já andando até a porta da loja e se despedindo de Silena.
Eu assenti e comecei a ir até ele, um pouco confusa pela pressa repentina. Despedi-me de Silena e agradeci pela ajuda, ela apenas riu e me mandou uma piscadela. Quando estava quase na porta, Luke segurou meu braço e colocou um papel em minha mão.
– Me ligue qualquer coisa... – Ele falou galanteador e eu saí da loja, encontrando um Percy serio dentro de uma limusine preta.
O vento morno de New York me atingiu junto da fome. Olhei para o céu e já deveria ser entorno do meio dia.
– Ãh Percy? Que tal almoçarmos agora? – Eu falava com a mão sobre minha barriga.
Ele deu de ombros.
– Estava escolhendo o restaurante agora...
Uma ideia passou pela minha cabeça e eu sorri.
– Sei um lugar perfeito para irmos.
Percy levantou uma sobrancelha.
– Entre então. – Ele apontou para o banco ao seu lado e o meu sorriso se alargou.
– Vamos a pé, é aqui perto.
Percy pareceu estranhar e olhou entorno da rua, descrente. Depois de alguns segundos ele saiu do carro e pediu para o motorista, Tony, vir nos buscar em cerca de uma hora.
Assim que o carro se foi, nós andamos pela rua lotada da Times Square. Olhares ainda eram atraídos para nós, porem agora, não mais por causa de meu pijama.
Avistei o carrinho de cachorro quente e parei de andar de frente ao mesmo. Percy continuou a andar e quando percebeu onde eu estava, surpresa passou pelo seu rosto e ele andou até mim, apreensivo.
– Perfeito não? – Eu sorria enquanto olhava para Percy e espera minha vez na fila de duas pessoas.
– Você esta brincando certo? – Percy colocou as mãos nos bolsos e eu ri com suas feições de repugnância escondida.
– Vamos Percy, não sabia que você era tão frouxo.
Irritação passou pelo seu rosto e eu levantei minhas sobrancelhas desafiadoramente.
Assim que chegou nossa vez, pedi dois cachorros quentes com tudo de direito e esperei Percy recuar, porem, ele permaneceu ao meu lado com o nariz empinado e o olhar decidido.
Deixei soltar um risinho quando Percy teve que tirar uma das mãos dos bolsos para pegar o seu próprio cachorro quente engordurado. Eu peguei o meu e ele tirou uma nota de cem dólares do bolso e entregou ao senhor de bigode que nos serviu. Percy saiu andando e eu fiquei tão perplexa quanto o vendedor, porem, corri ate ele na rua, parando ao seu lado.
– Serio? Cem dólares por dois cachorros quentes? – Percy olhava meticulosamente para as duas salsichas cobertas de mostarda e ketchup.
– Eu não tinha troco... – Revirei os olhos e dei uma grande mordida em meu lanche, saboreando cada gosto, desde as salsichas até a batata palha.
Percy ainda escavava com os olhos as profundezas de seu lanche. Eu parei no meu lugar e apontei para ele.
– Come logo!
– Mas... – Ele também parou e alterou o olhar entre mim e o cachorro quente. Eu bati um de meus saltos na calçada e esperei.
Então, foi naquele momento, no meio de todas aquelas pessoas, que Percy Jackson comeu seu primeiro cachorro quente de barraquinha. Sua primeira mordida foi apreensiva, mas depois de perceber a maravilha que era toda aquela mistura, ele deu uma grande mordida, se sujando todo no roso com maionese.
– Isso é muito bom! – Ele falou de boca cheia e apontando para o lanche.
Eu ri alto e peguei um de meus guardanapos, limpando a borda de sua boca e rindo de sua expressão maravilhada.
– E com o tempo você até consegue comer sem se sujar. – Apontei para mim. – Leva prática, mas é possível. – Percy engoliu e riu junto de mim.
Continuamos a andar pelas ruas de Nova York parecendo dois turistas, mesmo eu usando vestido e Percy terno. Depois do cachorro quente, Percy decidiu experimentar todos os tipos de comida vendida na rua, mas eu o alertei antes que ele pegasse uma doença.
Tony deve ter nos esperado durante horas em frente à Beauregard’s porque naquele dia, só voltei para casa depois do anoitecer, e felizmente, não foi porque Percy me encheu de trabalho.
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