Notas iniciais
O 2. sai amanhã.

Aquela semana passou rápido. Valquíria estava cada vez mais aérea e ansiosa. Alguém tocou a campainha de sua casa naquela manhã de sábado. Ela abriu a porta, era Demas. Ele estava com a chave do carro em mãos e, infelizmente, não trazia nenhuma mochila ou entrara sem bater.

“Oi. Entra.” Valquíria sorriu tímida.

“Oi.” Ele respondeu, entrando. Evitava olhar para Valquíria, então observou por alguns segundos os pés dela, que estavam descalços.

“Eu deixei tudo separado aqui.” Ela pegou a caixa que estava no chão E colocou no sofá. “E o telescópio eu não desmontei, porque... Bom, eu não sei desmontar.” Ela apontou para o objeto que mirava a janela.

Ele não disse nada, só foi até o telescópio e começou a recolher. Ela pegou a bolsa em que ele viera e deixou ao lado de Demas.

“Quer alguma coisa?” Ela perguntou.

“Não.” Ele disse “Obrigado.”

Ele terminou de desmontar o telescópio em poucos minutos. O guardou na bolsa e colocou sobre o sofá, ao lado da caixa. Ao abrir a mesma, tirou de lá sua abóboda celeste feita de papel.

“Eu não tenho porque levar isso daqui, você quer ficar?” ele perguntou, mostrando a abóboda que ela gostara de deixar pendurada na parede. Ele ainda não a olhava, fazia tudo de cabeça baixa. Percebeu que Valquíria se aproximou pela sombra dela, ela pegou a abóboda de papel envernizado e a observou.

“Quero sim. Obrigada.” Ela sorriu.

“É. Acho que é isso.” Ele disse, fechando a caixa de novo. A levantou, junto com a bolsa do telescópio e já ia se despedir.

“Eu posso te falar umas coisas antes de você ir?” Valquíria perguntou antes que fosse tarde.

Ele pousou as coisas sobre o sofá novamente e maneou com a cabeça.

“Eu senti sua falta esses dias.” Ela disse. Ele franziu o cenho, pensando que tipo de problema essa frase o geraria. “E quando eu senti sua falta eu descobri.” Valquíria estava agitada, tentava respirar fundo, mas o nervosismo a atacou quando percebeu os olhos de Demas sobre os seus. Finalmente, Demas a olhou nos olhos.

“Descobriu...?” Ele tentava não mostrar emoção nenhuma. Não queria se arrepender.

“Descobri que de um tempo pra cá eu andava me permitindo.” Ela deu dois passos para frente, diminuindo a distância entre eles, mas continuava distante o suficiente. “Que me apaixonei por você. Que te amo, ou amei. Eu nem sei mais.” Ele continuava em silêncio, a observando. Parecia surpreso. “E eu precisava admitir, eu tive medo. Medo de perceber que eu não tinha controle sobre o que sentia por você.”

Ela abaixara a cabeça. Deixou uma lágrima escorrer pelo rosto, que ela secou rapidamente. Ficava incomodada com o silêncio de Demas, mordia a boca para não insultá-lo por ficar quieto. Mas, de repente, recebeu um abraço. Os braços dele se cruzaram em suas costas, ela também o abraçou e encostou sua cabeça no ombro dele. Ele fez o mesmo.

“Você não sabe o quanto estou me segurando para dizer que te amo.” Ele disse. Ela já abria a boca para dizer que ele devia falar, mas ele foi mais rápido. “Eu estou indo pro Chile em três semanas. É pro meu mestrado.”

“E você vai ficar lá?” Ela perguntava, deixando lágrimas escaparem e molharem a camiseta dele.

“Por alguns meses, depois vou pra outros países.” Ele respondeu, deixando uma lágrima escapar pelo canto do olho.

“Você não ia me contar isso antes?” Ela parecia muito triste.

“Eu ia esperar você pegar férias e te chamar pra ir junto, pelo menos por um tempo.” Ele mais ainda.

“Eu te odeio por fazer tudo certo.”

Demoraram-se mais um pouco antes de se soltarem. Seus rostos estavam inchados, os olhos de Valquíria estavam vermelhos e os de Demas ainda mais fundos.

“De qualquer forma, nós éramos amigos, certo?” Ele disse, tentava aliviar a situação.

“Amigos não deixam os hematomas que você deixava.” Valquíria riu, secando as ultimas lágrimas com as mãos.

Ele riu. Adorava o humor de Valquíria.

“Te vejo hoje a noite?” Ele disse, pegando suas coisas.

“Onde?”

“Naquele bar, no alto da colina.”

“Sim.”

Ele saiu, a deixou sozinha. Valquíria fechou a porta do apartamento e se sentiu mais leve por um segundo. Deu um pequeno sorriso para o nada. O que Valquíria não sabia é que aquela sensação estranha, que a fizera se sentir tão bem, era estar satisfeita com ela mesma.

***

Como prometido, Valquíria foi até o bar mais tarde. Os amigos dele também estavam lá e ela se sentia um pouco mais feliz. Não conseguira falar com ele por muito tempo, afinal era uma espécie de despedida e todos queriam falar com Demas, o parabenizar pela viagem. Ela não se importou, mas preferiu sair do bar. No lado de fora, se sentou no gramado. Deitou-se sozinha, olhava as estrelas.

“Posso?” Ela se assustou com Demas, que acabara de chegar.

“Claro.” Ela respondeu. Ele se deitou ao seu lado.

“A alaranjada ali é Antares.” Ele disse, apontando.

“Deve ser enorme.”

“Tem um raio de cerca de oitocentas vezes o do sol.”

Valquíria soltou um assovio impressionado. Arrastou seu corpo para um pouco mais perto de Demas.

Conversaram por alguns minutos sobre o céu naquela noite. O silêncio se fez entre eles outra vez. Durou tempo o suficiente para Demas passar seu braço por debaixo da nuca de Valquíria e ela levantar o braço, segurando a mão dele.

“Você estava fugindo de mim, não é?” ela perguntou. Ele fechou os olhos e balançou a cabeça, concordando. “Quer voltar?”

“A ser o que éramos antes?” Ele sorriu

“Não exatamente. Só aproveitarmos enquanto podemos.” Ela sorriu, ele também. Aproveitar enquanto podiam parecia justo.

“Estou desocupando meu apartamento, vou alugar enquanto estou fora.”

“Rende uma grana a mais.”

“Só que eu saio do apartamento em uma semana, por causa da imobiliária, e eu ia ficar na casa dos meus pais. Só que eu não me sinto a vontade...”

“Nem precisa falar mais nada!” ela sorriu, se virando apoiando a cabeça sobre o peito dele “Você fica em casa.”

Notas finais
Comentem, seus dedos não caem por isso.