Histórias De Um Garoto
3 Tentando ser invisível
Notas iniciais
participar = conviver com outras pessoas, ter amigos, etc.
Charlie, de AVDSI, era tímido e sem amigos, até conhecer Sam e Patrick, que são meio doidos(eles estão nos anos noventa), ele se apaixona por Sam mas ela tem um namorado muito idiota. Charlie sofre de depressão e é um invisível, apenas observa tudo a sua volta.
"É como quando você olha no espelho e diz seu nome. E chega a um ponto em que nada parece real. Bom, as vezes, eu posso fazer isso. Mas não preciso de uma hora diante do espelho. Acontece muito rápido e as coisas começam a escapulir. E eu abro os olhos e não vejo nada. E depois começo a respirar com dificuldade, tentando ver algum..."
Booow!
- Ai — coloquei a mão na testa, que havia acabado de acertar com tudo na porta de entrada da sala, olhei para dentro pela janelinha de vidro, a sala toda estava caçoando da minha cara de idiota.
Respirei fundo e entrei, me sentando na terceira carteira da parede, atrás de Isabela, ela não estava rindo. Talvez porque percebeu que eu não havia achado graça nenhuma, como sempre.
- Tentei te ligar ontem, mas você não me atendeu — eu tinha ligado várias vezes, mas ela nem retornara, como normalmente acontecia. Sempre que estava me sentindo sufocado com meus pensamentos, ou quando olhava para o espelho e nada parecia real, eu ligava para Isabela. Não falávamos sobre o motivo de eu ter ligado, só dizíamos coisas supérfluas, como forma de ocupar minha mente até que eu esquecesse de tudo.
- Ai Jonathan, me desculpa mesmo — ela não parecia muito culpada, estava distraída — eu teria te retornado. Mas estava com o Mateus e os amigos dele, cheguei tarde. Esta tudo bem?
- Claro, não era nada de mais — mas na verdade eu não estava bem, por mais que eu me esforçasse, que meus pais e meus amigos se esforçassem, nada nunca estava bem, eu sabia que aquilo era meio injusto com eles, mas eu não conseguia evitar.
Era por isso que eu estava lendo As Vantagens de Ser Invisível pela vigésima-sexta vez, tentava aprender com Charlie qual eram essas vantagens, mas não estava sendo muito simples. Eu na verdade não era tão fechado e esquisito como ele, até tinha alguns amigos. Como a Isa, minha melhor amiga, e agora o novo namorado dela, o Mateus, também tinha a Clara, que fazia os trabalhos com a gente, e a a namorada dela, a Fernanda.
E eu também "participava". Saia com eles quase sempre, e costumava me divertir. Mas depois que a risada acabava, a sensação de depressão retornava mais agressiva.
A aula era de física, e por algum motivo eu tinha média 9,5, mesmo não estudando. Então aproveitei para continuar lendo. O melhor de ler um livro várias vezes é que a cada vez se faz uma nova descoberta sobre a história, mas a cada vez que eu lia As Vantagens de Ser Invisível, parecia que as únicas partes que via com mais clareza era a depressão, e isso estava cada vez me impregnando mais, eu não absorvia as partes boas da história.
Depois, tive aula de educação física. Eu gostava de esportes, e jogaria futebol se me deixassem, mas nenhum cara me queria no seu time. No começo eu insistia, até que o professor os obrigava a me aceitar, mas ninguém nunca me dava um passe, e quando eu conseguia pegar de alguém, meus próprios colegas de time a tiravam de mim.
Então eu normalmente praticava corrida ou alguma outra coisa que não precisasse de um grupo, até porque Isa só sabia jogar tênis de mesa, o que eu odiava. Naquele dia o professor Aroldo havia organizado um circuito para quem quisesse, eu estava pulando alguns obstáculos e acabei tropeçando e caindo, é, as vezes eu era meio desastrado.
Cai com o braço por baixo do corpo, e estava doendo muito, mas o problema não foi realmente esse, foi perceber mais uma vez o que realmente pensavam sobre mim:
- Quebrou a unha, bichinha? — gritaram uns meninos, e é claro que todos caíram na gargalhada.
As únicas pessoas que vieram me ajudar foram o Aroldo e a Isa, a Clara não tinha ido a aula. Tive que ir embora, mas mesmo depois que perceberam que o machucado era sério, as pessoas não pararam de caçoar de mim. É como se eu fosse um peixe em um aquário, completamente insignificante, mas que a qualquer momento você poderia parar e falar: 'Nossa, que peixinho esquisito', porque o peixe nunca te ouviria, mas eu ouvia.
Não sei bem quando essa história de odiar o Jonathan começou, talvez porque eu tivesse 17 e nunca ficara com nenhuma garota da escola. É óbvio que ja tinha ficado com algumas garotas, mas nenhuma delas da escola, as meninas da escola me parecem estar sempre fofocando, e eu não gosto de me expor. A impressão que eu tinha é que eu sairia com alguém, e na semana seguinte a escola toda saberia do que aconteceu e do que não aconteceu.
Não que eu tivesse ficado com muitas garotas, podia contar nos dedos. Mas foram todos momentos legais e especias a sua forma, talvez o fato de eu não ser tão obcecado por essas coisas como a maioria dos meus colegas também influenciou na conclusão deles.
Mas o pior de tudo foi quando começaram a falar que eu estava saindo com o Douglas, do segundo ano. Ele era assumido, e eu não tinha nada contra ele, e não entendi porque as pessoas fizeram tanto alarde, e se eu estivesse mesmo com ele, que diferença isso ia fazer?
Mas o que aconteceu foi que eu estava na biblioteca um dia depois da aula, e encontrei o Douglas la. Ele começou a conversar comigo, e de repente, ele colocou a mão na minha e se aproximou. Eu levei um susto na hora, e quase bati na cara dele:
- Eu não sou gay!
Acho que ele também pensava que eu era gay, como todo mundo, porque ele pareceu muito magoado quando sai de la. Não sei bem como as pessoas começaram a falar aquelas coisas alguns dias depois, porque não havia quase ninguém na biblioteca, e eu pensava que ninguém tivesse nos visto. E mesmo que tivesse, não aconteceu nada de mais, não havia espaço para mais de uma interpretação.
Até meus pais ficaram sabendo disso, e me perguntaram se tinha algo a dizer a eles, contei o que tinha acontecido e que não era gay. Eles disseram que tudo bem, logo todos iriam esquecer aquilo, mas que eu sempre deveria ser sincero qunto aos meus sentimentos. Não que eles achassem que eu estivesse mentindo nem nada, mas eles são pais muito legais.
No começo, eu reclamava com as pessoas que caçoavam de mim, mas com o tempo percebi que isso só piorava tudo. Já estava acostumado a ignora-los, e eu tinha com quem contar. Por isso foi difícil pra mim quando a Isa começou a namorar, porque ela nunca estava por perto, e eu não tinha com quem desabafar. No fundo, eu sabia que era errado jogar toda aquela carga de emoções em cima dela, mas Isa nunca pareceu se importar, por isso foi uma grande surpresa quando aconteceu o que vou contar agora.
Já haviam passado alguns dias do incidente na quadra, e eu estava "bem" novamente. A professora de história passou um trabalho qualquer para fazer em dupla, até aí tudo bem, eu faria com a Isa, mas a professora tem algum problema com casais e falou que as duplas deviam ser de menino com menino ou menina com menina.
- Ótimo, agora eu vou ter que fazer tudo sozinho!
- Menos drama Johnny, você é a pessoa mais inteligente que eu conheço.
- Haha, claro, isso deve explicar meu 80 em informática.
= Idiota — ela me deu um empurrão — a sua nota foi ótima comparado com a de todo mundo. Você é a única pessoa que conheço capaz de ouvir A Voz do Brasil.
= É divertido, e eu preciso, pro vestibular
Ela revirou os olhos para mim e virou para conversar com a Clara sobre o trabalho, passei a aula toda divagando sobre como as pessoas ficam empolgadas quando o tema era trabalho em grupo, não tem graça nenhuma. Se você quer passar mais tempo com uma pessoa, não precisa de um trabalho para isso, eu e a Isa passávamos menos tempo junto quando tínhamos trabalho do que quando não tínhamos.
Isso me deixou um pouco cansado e nervoso, então eu passei o dia todo xingando que estivesse a minha volta, foi aí que tive a pior conversa da minha vida.
- Isa , você quer assistir a Estrada para a Cabana Verde comigo hoje?
— De novo esse filme idota?! Hahaha, não vai dar, o Mateus vem la em casa.
— É claro que vai — reclamei — ele sempre inventa alguma coisa, você nunca mais tem tempo pra nada. Você sabe que eu preciso falar com você. E agora esse idiota não me deixa nem isso, eu to muito cansado ultimamente, não aguento mais...
— É, você, você, você. É sempre sobre você, nunca te ocorreu que eu também tenho problemas? Que eu também gostaria de desabafar, mas você não me da espaço? Eu estou cansada dos seus dramas. Não tenho culpa se você não tem coragem de sair do armário!
Tenho que admitir que fiquei muito surpreso, ela nunca tinha me dito aquilo antes, e ela me chamou de gay também. Isa era meu único alicerce para não desabar, a única que me conhecia de verdade, eu nunca quis ser um fardo pra ela, nunca. Mas pelo visto era isso que eu era. Percebi de repente que tudo que ela sentia por mim era pena, mas que então essa pena não era mais maior que o nojo que ela sentia de mim.
Todas as pessoas que estavam passando na hora ouviram ela gritando na hora, e 5 minutos depois todo mundo estava falando sobre isso. Eu fui caindo, aos poucos, me escondendo em uma máscara de indiferença. Depois da aula, corri para casa. Como nos filmes clichês, começou a chover, e eu continuei correndo, passando direto pela minha casa. No livro, quando Charlie briga como os amigos, ele compra maconha, me pareceu uma boa ideia na hora.
Mas graças a Deus eu não sabia onde encontrar maconha, então eu só fui até um barzinho e comprei uma cartela dos melhores cigarros que encontrei. Entenda, os melhores cigarros que você encontra em um bar de bêbados não é exatamente bom. Dei uma tragada forte, e tudo que consegui foi me engasgar com a fumaça e tossir compulsivamente, aquele negócio era horrível. Que coisinha medíocre, eu não conseguia nem ficar drogado. Por isso comprei uma bebida qualquer e continuei andando, a noite toda e parte do outro dia.
Tudo que fiz foi mandar uma mensagem de texto para minha mãe dizendo que estava na casa da Isabela e não iria voltar para casa. De todas as minhas noites de insônia, aquela foi a pior, nunca tinha me sentido tão abandonado, nem mesmo antes de conhecer a Isa, nem mesmo quando mudei de cidade.
Eu me mudei para Sorocaba quando tinha 14 anos, mas não queria, porque na época eu gostava muito de uma menina chamada Carol. Para mim, ela era a garota mais perfeita do universo, era meu primeiro amor, mas ela me odiava, porque até aquela época eu era o tipo de garoto idiota que toda menina odeia. Então, quando me declarei para ela, ela me rejeitou na frente de todo mundo, para um garoto metido de 14 anos, isso é a pior coisa que pode acontecer. E como logo nos mudamos, nunca tive a chance de faze-la mudar de opinião. Foi então que decidi que nunca seria um idiota, e pensei que não estivesse sendo.
Eu não fui na escola, nem naquele dia, nem nos outros três dias seguintes, menti que estava doente. Fiquei em casa, ouvindo música, lendo As Vantagens de Ser Invisível e pensando que nada poderia ficar pior. Num domingo de manha eu fui ao banheiro e encontrei um pote velho de remédios para depressão, tarja preta. A ideia veio repentinamente, por mais triste que já havia ficado nunca tinha pensado seriamente naquilo.
Virei o pote quase inteiro na palma da mão, e comecei a engolir,um de cada vez. E teria engolido tudo, se o meu celular não tivesse milagrosamente tocado naquela hora.
Quando olhei a tela, quase não acreditei. Era a Isabela me ligando:
- O que você quer? — Falei, o coração ainda palpitando pela adrenalina.
- Pedir desculpa — ela estava com uma voz estranha, como se estivesse chorando — eu preciso de você também Johnny, por favor, eu te amo. Aquilo que eu disse, eu só estava com a cabeça quente — ai ela começou a chorar de verdade.
- Hey, calma, calma. Você tem razão, pelo menos da parte de que eu sou um perfeito egoísta. Mas agora preciso me de mais um favor, você pode me levar no médico.
Eu tinha tomado o triplo de minha dose normal, e estava drogado, finalmente. Tive que tomar um pouco de soro, para limpar meu sangue, mas não aconteceu nada de grave. Nem cheguei a contar aos meus pais, eles não mereciam aquilo.
- Como você pode pensar numa coisas dessas Jonathan? Você faz ideia do que é isso, você não pensou nos seus pais, não pensou em mim?
- Você foi em quem eu mais pensei.
- Ah, sinto muito — ela me abraçou apertado, eu nunca mais quera largar aquele abraço, mas no fim, acabamos nos separando.
Acho que nós devíamos fazer alguma coisa, para desestressar. O que você acha?
- Tudo bem, nesses cinco dias abandonado, eu costumava ir ao ginásio municipal correr — ela me olhou com uma cara de quem comeu e não gostou — mas eles tem um parque la perto, que acho que seria mais divertido, hâ?
— É, parece legal, vamos la então.
Compramos dois churros de doce de leite e ficamos conversando em um banco, logo começou a escurecer. Eu fui até uma lanchonete lá perto pegar uns refris, e quando voltei, Isabela estava gritando com alguém. Fui correndo ver o que tinha acontecido, e me deparei com ela tentando bater no Mateus, muito nervosa, enquanto ele só se protegia, ele estava com uma garota que eu nunca tinha visto perto dele, então eu meio que entendi oque havia acontecido.
- Seu idiota, porque você fez isso?
— Eu ia te contar — sempre as mesmas desculpas, é incrível.
Corri até Isa e agarrei ela por trás, tirando-a de cima dele.
- Vamos embora, AGORA!
É óbvio que ela não consentiu comigo, mas eu a carreguei para longe dali mesmo assim. ´Minha vontade era de ensinar ao Mateus que nunca se deve mexer com garotas como ela, mas não era disso que Isa estava precisando, e eu vou confessar que provavelmente perderia uma briga com ele, porque Mateus era do tipo bombado e eu ainda estava me recuperando das drogas.
Em vez disso nós só fomos embora, Isa chorando desesperada, e eu também, por ter deixado algo assim acontecer com ela. A levei para minha casa, e não disse nada, apenas deixei que ela descansasse no meu colo até se acalmar.
- Não ligue para isso, nós homens fomos uns idiotas as vezes,
- E o que você sabe sobre isso? — perguntou ela, olhando dentro dos meus olhos — Você...
- Eu não sou gay — disse, e lhe deu um beijo. Tímido, no começo, porque pensei que ela iria recusar, mas quando vi que ela aceitou, a beijei com vontade, por todos os anos perdidos. Quando paramos, ela disse:
-Não era isso que eu is dizer seu bobo, hahaha. Eu amo você! — e me abraçou de novo.
-Quem diria em!
- Que dia!
- Hahahaha — rimos juntos da nossa extrema idiotice.
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