Histórias Cruzadas

39 O príncipe guerreiro


— Estou tão orgulhosa de você, doutor! – falei, emocionada, dando um abraço apertado no meu amigo Jean-Pierre, depois de esperar que fosse cumprimentado por todos os seus parentes, assim que terminou a cerimônia de formatura na faculdade de medicina.

— Eu estou muito feliz por você ter vindo, Sarah! – Ele retribui o abraço de um jeito carinhoso. – Onde está David?

— Ficou com minha mãe, que lhe mandou seus parabéns. Um garoto de seis anos ainda é muito pequeno para esse tipo de cerimônia, ficaria entediado.

— Agradeça a sua mãe por mim. E Carlos?

— Carlos já era, terminamos há algum tempo atrás, não era mesmo para durar. Eu, também, deixei o meu trabalho na cafeteria, consegui um emprego em um pequeno escritório de designer. O salário não é grande coisa, mas, pelo menos, é um começo e faço algo que eu gosto.

— Que bom, Sarah! Quem sabe, um dia, você abrirá a sua própria empresa de designer.

— Jean-Pierre! – Uma garota bonita e magra de cabelos escuro, usando a roupa de formando se aproximou e se enroscou, sem cerimônias, no braço dele, os dois trocam olhares de cumplicidade. – Algumas pessoas da turma vão sair para comemorar e querem saber se iremos com eles. – Ela falou sem prestar atenção em mim, aquela cena me incomodou e eu nem sabia o porquê, afinal, deveria estar feliz por meu amigo ter encontrado uma garota a sua altura, uma médica como ele.

— Sarah, essa é Monique. Monique, eu lhe apresento minha grande amiga Sarah.

— Eu já ouvi falar de você – Ela disse com um certo tom de sarcasmo na voz, mão gosto disso, não gosto dela.

Trocamos cumprimentos educados, porém Monique está indócil, esperando por uma resposta de Jean-Pierre. Pressinto a sua hesitação entre ir com ela ou ficar comigo, então o ajudo na sua decisão.

— Eu já estou indo. Vou pegar uma carona com Mariane.

— Muito obrigado por ter vindo – ele disse, mais uma vez e me abraçou forte.

— Somos amigos desde sempre. Você acha que eu perderia isso?! – falei, antes de me afastar.

No carro da minha amiga do tempo da escola, Mariane, voltando para casa, trocamos fofocas e fazemos comentários sobre pessoas conhecidas, então, ficamos caladas por alguns minutos, sem saber o que falar.

— O que você achou da nova namorada de Jean-Pierre? – Mariane quebrou o silêncio.

Fiquei imaginando por que ela perguntou isso, seria só fofoca ou ciúmes, já que ela namorou Jean Pierre no passado ou foi para me provocar?

— Não sei, eu só a vi por cinco minutos.

— Ele não parece muito empolgado em relação a ela.

— Por que você acha isso?

— Não sei – Deu de ombros. – Acho porque sempre achei que ele gostasse de você, mesmo no tempo que a gente namorava e que você estava com Olivier, tinha ciúmes da sua amizade com ele, mas eu era apenas uma adolescente boba. Levei um bom tempo para entender, que para mim, Jean Pierre é só um bom amigo, nada mais. Imaginava que vocês dois ficariam juntos algum dia.

— Ele merece alguém bom, que esteja a sua altura, sem tantos problemas.

— Jean-Pierre merece alguém que ele ame e que também o ame, sem essa de problemas ou não.

— Talvez, essa pessoa seja Monique.

— Eu acho que não. – Ela sacudiu a cabeça para enfatizar. – Eu reparo a forma como ele olha para você. É o mesmo olhar há anos. – Ela fala sem desviar os olhos da rua a nossa frente, eu me virei para ela, abismada. – Vai dizer que nunca notou?

— Não, quer dizer, não exatamente. Imaginava que era só uma paixonite da adolescência, nada sério.

— Pois já deixamos de ser adolescente há algum tempo, Sarah, e ele ainda tem o mesmo olhar.

Ao regressar para minha casa, ainda estou tonta com a conversa com Mariane a respeito de Jean-Pierre, mas minha atenção se voltou para outro assunto, quando encontro minha mãe aflita, na sala, esperando por mim.

— O que foi? Aconteceu alguma coisa com David? – perguntei, exaltada, querendo ver meu filho.

— Sim e não.

— Como assim? – Fico confusa.

— Ele chegou da escola, chorando, perguntando porque não tinha um pai como os outros garotos.

Não sei o que falar, sinto um aperto no peito, uma imensa dor pelo meu garotinho, mesmo já esperando que esse momento chegasse algum dia, mas não imaginava que fosse tão rápido, pois, ele só tinha seis anos. Subi as escadas, apressada, queria abraçá-lo e acalentá-lo, amenizar sua dor, abri a porta bem devagar e entrei no quarto que dividimos, está escuro, só com a luz do abajur acesa.

— Oi, garotão! – disse com a voz suave, ao encontrá-lo deitado na cama, com um ar triste, percebo que ele andou chorando, e permaneceu em silêncio, sentei-me no chão ao seu lado. – O que aconteceu?

— Os outros garotos me falaram, que eu jogo futebol muito mal, porque eu não tenho um pai para me ensinar.

— Bobagem! Você não joga mal, apenas teve um dia ruim – Esforço-me para não deixar transparecer minha raiva, por terem sido tão grosseiro e feito o meu filho sofrer dessa maneira.

— Mas, por que eu não tenho um pai?

— Muita gente não tem.

— Você tem e meus amigos têm. Por que meu pai não me quis?

— Quem disse isso? Claro que seu pai quis você, ele o amava muito, só que ele teve que ir embora, para muito longe – minto, como coração apertado.

— Por quê?

— Porque... porque ele não pertencia a esse mundo, ele é um príncipe em outro planeta, precisou voltar para sua casa e lutar para defender o universo contra guerreiros extraterrestres muito, muito maus, que querem dominar o universo.

David me encarou com os olhos arregalados.

— Por que você nunca me contou isso antes? – ele quis saber, espantado.

— Porque é um segredo – sussurrei. — Ninguém pode saber a verdade.

— Conte mais sobre o meu pai – pediu e eu inventei histórias sobre um jovem, belo e valente príncipe guerreiro, que viajava pelo espaço em seu potente foguete, salvando planetas em perigo e como ele se apaixona por uma terráquea e tiveram um filho. Porém, o príncipe não podia ficar, pois precisava terminar sua missão. Ele partiu, mas prometeu que voltaria para ficarem juntos para sempre.

David adormeceu, com o semblante mais relaxado, eu o observei dormir por algum tempo. Então, ergui-me, vou até a minha velha escrivaninha, acendo a luminária e começo a desenhar as histórias que acabei de criar para meu filho. Assim, nasce o valente príncipe Olly, de cabelos escuros e profundos olhos azuis, defensor das galáxias, um viajante intrépido, que vai de planeta em planeta ajudando todos.