Histórias Cruzadas
30 A primeira vez para os dois
— Você quer ir na minha casa hoje? — Eu já esperava esse convite de Olivier, há algum tempo, e não sabia o que fazer, eu queria muito ir, mas ao mesmo tempo tinha um certo receio.
— E a senhora Marie?
— Ela não se importa com nada, só vê TV o dia inteiro, nem sabe quando eu entro ou saio. – Ele deu de ombros.
Como aluno de intercâmbio, ele morava com uma senhora idosa, que aceitava esse tipo de hóspede para complementar seus rendimentos, além da parca aposentadoria, em troca de casa e comida aos jovens estrangeiros. Mas, a velha senhora não se intrometia na vida do seu hóspede que podia chegar e sair quando quisesse, pela sua própria entrada.
— Sarah, não precisamos fazer nada, só quero ficar com você e está muito frio para ficar do lado de fora da sua casa – ele completou após perceber a minha hesitação
Tinha consciência que ele estava certo, pois, naquela época, estava muito frio e o tempo chuvoso impedia de ficarmos no jardim da minha casa, não tinha coragem de convidá-lo para entrar, como medo que minha mãe descobrisse e implicasse com o meu namoro. E eu queria fica junto dele, era quase uma necessidade física, como respirar, precisava dos seus beijos, seus abraços e das suas carícias, então concordei com a cabeça, essa seria a primeira vez que aceitei ir a sua casa, pois ele já havia me convidado antes, mas por receio do que poderia aconteceu, recusava e ele aceitava numa boa. Naquele instante, meu coração batia mais forte, cheia de expectativas.
Depois da escola, andamos abraçados até lá, eu tentava disfarçar o meu nervosismo, não queria parecer uma boba assustada. A casa onde ele morava ficava no sentido oposto à minha, era antiga e estreita, com dois andares. Ele me levou pelos fundos, tirou o molho de chaves do bolso e abriu a porta, para entrarmos no calor da cozinha, por um pequeno corredor chegamos a escada, podíamos ouvir o som da TV e um gato miar.
— Olivier, tem comida na cozinha – A voz idosa falou lá de dentro.
— Obrigado, madame Marie, mas não estou com fome agora – ele respondeu, colocando o dedo em riste diante dos lábios, para manter silêncio, puxando-me pela mão escada acima, onde ficava o quarto dele.
Olivier abriu a porta para me deixar entrar e acendeu a luz, porque as cortinas estavam fechadas impedindo a entrada da luz do dia, senti-me um tanto estranha por ultrapassar esse limite tão íntimo e pessoal.
O lugar tinha o cheiro familiar dele, misturado com o de cigarro, a cama de solteiro junto a parede estava desfeita e bagunçada, havia algumas roupas espalhadas sobre ela e outras na cadeira, e, em cima da mesa, os livros escolares.
Ele tirou a sua jaqueta de couro e atirou sobre a cadeira, sem nenhum cuidado, e de dentro da mochila pegou um maço de cigarros, ofereceu um para mim e tirou outro para ele, acendeu os dois com mesmo isqueiro prateado. Afastou os objetos sobre a cama para sentarmos lado a lado, fumando sem pressa, isso me tranquilizou um pouco. Então, eu me lembrei, dei um pulo e alcancei minha bolsa esquecida sobre a mesa, abri-a e puxei um papel de lá de dentro e estendi para ele.
— O que é isso? – Ele me olhou desconfiado.
— É para você – Dei-lhe um sorrisinho, incentivando-o a pegar o papel.
Nas suas mãos, ele admirou seu conteúdo, seus olhos se arregalaram e um sorriso se abriu, iluminando seu rosto.
— Está incrível! – disse, olhando para mim. – Sou eu! Ficou muito bom!
— Eu fiz vários desses, quando você estava fora.
Eu mesma havia ficado admirada com a qualidade do meu desenho, havia melhorado muito. Aliás, foram vários desenhos deles que fiz durante o feriado de Natal, na tentativa inútil de matar a minha saudade imensa, mas não tinha coragem de mostrar nenhum a ele até hoje.
— Obrigada – Estava orgulhosa e muito feliz que ele gostou.
Olivier colocou o desenho de lado e me trouxe pela mão para a cama ao junto dele e começamos a nos beijar e abraçar com intensidade, mas respeitando os limites das nossas roupas, as carícias são feitas por cima do tecido, as mãos deles chegam somente até as minhas coxas, mas os beijos estão cada vez mais selvagens e audaciosos.
Durante o resto do inverno, minhas visitas ao quarto de Olivier tornaram-se frequentes, já os botões e os limites das nossas roupas não eram mais tão respeitados, às vezes, ficávamos só de roupas íntimas. Nossas peles queimavam no anseio de serem tocadas, nossos corpos mais e mais desejosos e famintos um pelo outro, no entanto, para o próximo passo, precisaríamos nos precaver, não queríamos nenhum problema.
Fui eu que decidi que era o momento exato para transarmos, estávamos perdidamente apaixonados, iludidos que seria um sentimento eterno e não havia razão para esperarmos mais por algo que tanto desejávamos.
Naquela tarde depois da escola, fomos para o quarto de Olivier, nervosos com a iminência do que estava por acontecer, seria primeira vez para os dois, mas estávamos determinados, mesmo assim meu coração batia forte de medo e excitação. Na penumbra do lugar, tiramos nossas roupas, tímida, escondi-me debaixo das cobertas, enquanto ele colocava a proteção. Apesar de Olivier ser cuidadoso e carinhoso, o ato foi desajeitado e doloroso no começo, contudo não me importei, desejava muito fazer isso com ele e por ele, era a prova contundente do meu amor. Ficamos até o começo da noite, deitados e abraçados, na cama dele, mas precisava ir para que minha mãe não se preocupasse nem desconfiasse do que estava acontecendo. Olivier me levou até a minha casa, despedimos sem vontade, no portão, com um longo e intenso beijo.
Assim minhas idas para o quarto de Olivier passaram a ser uma rotina de toda a tarde após colégio e nos fins de semana. Achava que ninguém havia percebido o que estava acontecendo, até o dia que olhei sem querer dentro dos olhos de Jean-Pierre e enxerguei angustia e tristeza, então, eu percebi que ele sabia da verdade.
Em uma tarde qualquer, mais uma vez estávamos, no quarto de Olivier, que deu um pulo súbito e ficando de pé.
— O que foi? – perguntei, assustada com sua atitude.
— A camisinha estourou – revelou, com ar preocupado.
— Você tem certeza? – Agarrei-me em uma tola esperança.
— Sim, eu tenho – confirmou, sem dúvidas para o meu desespero.
— O que faremos agora, Olivier?
— Eu não sei – respondeu em um sussurro.
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