Histórias Cruzadas

5 A história de Olivier


Com aquela revelação, fico totalmente desnorteada, eu abro e fecho a boca sem saber o que falar, tomo um grande gole da minha Coca.

— Por que você não acha que o garoto é seu filho? – questionou, bastante interessada, ao mesmo tempo que, mentalmente, faço as contas, quantos anos Olivier deve ter? Trinta? E o garoto, quantos anos teria?

— É só uma hipótese, não tenho certeza, porque eu abandonei Sarah quando soube que estava grávida, nunca me interessei se ela teve ou não essa criança – confessa, para a minha completa surpresa.

Essa era uma boa razão para Sarah o odiar.

— Por que você fez isso? – indaguei, não querendo parecer tão exaltada.

— Eu sei que não é uma boa desculpa, mas nós só tínhamos dezesseis anos na época. Apesar de amá-la, tive medo de tanta responsabilidade, era apenas um garoto! Então fugi, voltei para casa dos meus pais na Inglaterra, nunca mais nos encontramos novamente. Até há pouco tempo, achava que ela tivesse feito um aborto, só antes de morrer ela me telefonou falando a respeito garoto, mas não disse que era meu filho, apenas deduzi. Foi um choque para mim, pois eu não pensava sobre esse assunto há anos.

— Então, ela ligou para você porque sabia que estava morrendo, mas não revelou se ele era o bebê que esperava na época?

Ele concordou com a cabeça.

— E esse tal de Jean Pierre, quem é?

— O marido da Sarah, ele não deixou eu visitá-la no hospital, nem chegar perto do garoto.

— Foi por isso que você deu um soco nele?

Ele sacudiu a cabeça, afirmativamente.

— Sim, eu tentei revê-la, conversar com ela, pedir o seu perdão, porém Jean Pierre me impediu, proibiu a minha entrada no hospital. Ele sempre teve inveja do amor que Sarah sentiu por mim.

— Ele também devia amá-la muito – cogitei. – E você não tentou falar com ele, explicar suas razões?

Olivier assentiu com a cabeça.

— Sim, tentei, mas ele me disse que Sarah não queria me ver.

— E você acreditou?

— Sim, e eu, simplesmente, fui embora, viajei por um tempo, só voltei quando soube que ela morreu.

— Você fugiu outra vez! – Deixei escapar, meio chocada, para logo em seguida me arrepender. – Desculpe, não devia falar assim com você.

— Não, você está certa. – Ele fica em silêncio, com o olhar vazio.

— Meu Deus! Que horas são? – Consultei o meu telefone. – Três horas! Preciso voltar, tenho um jantar com uns amigos em Londres.

— Não se preocupe, estamos uma hora a frente de Londres, você chegará a tempo para o seu jantar. Vamos! – Ele jogou uma nota de cinquenta euros sobre o balcão e ganhamos a rua. Para minha surpresa, alguns raios de sol ultrapassavam as nuvens, refletindo–se no chão ainda molhado, dando outras cores ao lugar e deixando a temperatura agradável. – Você não conhece Paris, gostaria de ir andando até o hotel? Deveremos levar cerca de uma hora.

Aquela era uma oferta tentadora, não tinha ideia de quando voltaria lá de novo, assim aceitei.

— Você conhece bem Paris?

— O suficiente, morei algum tempo aqui, quando era jovem, para aprimorar o meu francês, foi quando conheci Sarah e Jean Pierre. Atualmente, venho sempre aqui a negócios.

Começamos a andar na direção apontada por ele, não tinha a menor ideia de onde estava ou para onde ia. Olivier afrouxou a gravata e tirou o paletó e o segurou, displicentemente, sobre o ombro. Caminhamos sem pressa e em silêncio por algum tempo. Sinto o cheiro das ruas ainda molhada pela chuva recente, reparo o movimento nas lojas de comércio de bairro com as pessoas comuns atarefadas, vivendo o seu dia a dia, bem diferentes daquelas outras lojas conhecidas de marcas famosas e da imagem chique da cidade, assim chegamos na beira de um grande rio.

— O Sena – Ele anuncia o óbvio.

Vou me envolvendo e pressentindo o espírito da cidade, que imaginou como uma mulher, como um certo ar petulante por estar, inteiramente, ciente da sua sedução, beleza e do efeito que causa nos que a observam. Reparo nos prédios suntuosos, nas ruas aprazíveis e, sobretudo, nas pessoas. Na mulher que pedala sua bicicleta usando saltos altos, no policial de patins, na senhora de cabelos brancos que pinta um quadro às margens do rio, no homem idoso com uma boina, que volta para casa com um pão sob o braço, são naturalmente elegantes. Sendo assim, é bem fácil distinguir os residentes dos turistas, já que os primeiros emanam um certo orgulho de pertencerem aquele lugar, enquanto, nos outros, percebesse o olhar de constante assombro por estar ali admirando o belo ao seu redor.

— Nós éramos praticamente duas crianças, tínhamos dezesseis anos, começamos a namorar logo que cheguei aqui. Estávamos encantados um com outro, éramos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Naquela época, sentia-me um pouco perdido e Sarah me achou. – Olivier começa a contar, quase para si mesmo. — Eu, realmente, me encantei e me apaixonei por Sarah. Ela era tão bonita, alegre e cheia de vida. – Seu tom de voz é cheio de nostalgia. – Juntos, descobrimos o amor, a nossa sexualidade e o prazer que nossos corpos podiam nos proporcionar. Sabe como é? Estávamos cheios de hormônios efervescentes da adolescência, acendendo os nossos desejos ao mero toque, à um simples beijo, prontos para dominar o mundo, abrir as asas e voar sozinhos.

Enquanto ele narrava, eu pensava que não sabia como era, não sou assim, nunca fui dominada pelos meus hormônios, sempre ponderada e sensata. Sinto meu rosto arder um tanto envergonhada, por aquela confissão tão íntima e pessoal de um completo estranho.

— Na ânsia dessa descoberta e de querer mais e mais prazer, fomos imprudentes, e Sarah engravidou. E quando ela me contou que estava grávida, foi como um pesadelo, não podia acreditar que estava acontecendo comigo. Ainda sinto o incomodo do suor frio escorrendo pelas minhas costas, naquele dia, imaginando as consequências daquela situação. Comecei a gritar como um desvairado, acusando-a de ser descuidada por deixar aquilo acontecer, que a culpa era só dela. Fui um completo idiota.

— É mais fácil compreender e julgar um fato com a distância dos anos e a maturidade – digo, sem pestanejar, não sei de onde tirei isso, e Olivier me encara abismado e eu mesma fiquei surpresa, com o que acabei de falar.

— E se culpar por isso – ele completa, cabisbaixo.

— Podemos ser os piores juízes de nós mesmos, como você disse era praticamente uma criança e estava assustado.

— Mas isso, não minimiza a minha atitude egoísta de fugir, deixando-a sozinha, sem nenhum apoio. Eu ainda me recordo da expressão de decepção no seu rosto, de seu sorriso de desdém, quando eu a acusei, mesmo sabendo que a culpa era de nós dois e deveríamos assumir as consequências juntos, entretanto, simplesmente, fui embora, quando ela disse que daria um jeito em tudo. E não quis saber de mais nada.

— E não procurou saber o que aconteceu depois? — Estou morrendo de pena da jovem Sarah grávida e abandonada pelo namorado, para enfrentar toda aquela barra sozinha. Ele confirma com a cabeça.

— Eu achei que ela havia abortado. Não telefonei mais para saber, tive medo do que havia acontecido. Eu sofri muito porque amava Sarah de verdade, pensei nela por muito tempo, então, sufoquei esse sentimento, até achar que estava morto e esquecido. — Tudo aquilo era muito estranho, a maneira que ele reconhece e de falar abertamente sobre seus erros e suas falhas me surpreendeu.

— E esse sentimento estava realmente morto?

— Não, não estava, talvez, fosse pela culpa que sempre carreguei comigo. Percebi quando, há alguns meses atrás, ela me ligou, pedindo ajuda para o garoto, mas o que sentia era diferente agora – confessa, em tom triste.

— Ela devia saber que estava doente e pretendia contar a você sobre o seu filho – conclui, enquanto passávamos ao lado de uma ponte linda com estátuas douradas, meus olhos vão direto para ela e Olivier acompanha o meu olhar.

— É ponte Alexandre IV – informa, sem emoção na voz. – Sarah me ligou para pedir ajuda para o garoto. – Eu o interrogo com o olhar. – O garoto é meio encrenqueiro, com um monte de acusações por agressão, arruação, bebida e, agora, foi pego roubando. – Arregalo os olhos, abismada. – Nada muito grave, só tentou roubar uma garrafa de conhaque em um supermercado, mas ela queria que eu o livrasse dessa, com medo que ele fosse preso dessa vez.

— E você o livrou?

— Sim, devia isso a ela. Então, contratei um bom advogado, cobri o prejuízo pelo roubo, e ele ficou livre. Mas, não consegui falar com Sarah depois disso, queria pedir lhe desculpas porque a fiz sofrer. – Ele mergulhou nos seus pensamentos e eu o deixei lá, continuei apreciando a paisagem a minha volta, encantada com toda aquela beleza, até meus olhos a encontrarem a elegante e imponente torre dominando o horizonte, literalmente, estanquei com os olhos vidrados.

— A torre Eiffel! Ela é tão linda! — Observei em um sussurro.

Olivier a olhou sem interesse. Sei que estava sendo clichê, mas o que importa?

— Você quer ir lá? – indagou, mesmo sem entender a minha admiração. Por um segundo, fiquei em dúvida, olhei para o relógio, cocei a cabeça, não teria muito tempo. – Vamos! Pare de pensar, estamos falando de arrependimento. Amanhã, você poderá se arrepender de não ter feito isso. – Assim eu decidi que ele estava certo.