Histórias Cruzadas
18 A história de Mary
Queria muito ajudar aquela bela jovem confusa ao meu lado, contando a minha própria história, talvez, isso pudesse auxiliá-la a tomar uma decisão quanto o que fazer da sua vida, assim, fechei os olhos para me ajudar a recordar, dando um longo suspiro.
— Bem, querida Gisele, a minha história começa a mais de quarenta anos. Era os rebeldes anos 60, o começo de um novo tempo com muitas mudanças importantes na nossa sociedade, rock’n roll, a minissaia e o biquíni, os Beatles, John Kennedy, Elvis Presley, Brigitte Bardot, viagens espaciais, a guerra do Vietnã, era um mundo em mutação. Tudo estava se renovando, evoluindo rapidamente, claro, que menos a aristocracia inglesa, presa as tradições e convenções centenárias, continuavam a seguir seus ritos e costumes a parte do que acontecia no resto do mundo. Suas saias ainda eram compridas, os chapéus eram grandes, os lugares na sociedade eram definidos pelo seu nascimento, como castas, não se ultrapassavam os limites.
Nessa época, eu fui uma linda debutante de vestido branco e uma ancestral tiara de pérolas e brilhantes sobre a cabeça, enfeitando meus cabelos loiros e bem penteados. Durantes essas festas, nós, as moças, éramos apresentadas a sociedade, onde muitas mães dos jovens herdeiros, faziam uma seleção de suas possíveis noras, aquelas que seriam as mães da próxima geração e manteriam a tradição. Foi na minha festa de debutante que eu conheci Harold. Eu tinha 17 anos e ele 25, um futuro lorde, herdeiro de uma considerável fortuna e iniciando uma carreira política muito promissora, seguindo os seus famosos antepassados. Pois bem, eu, na minha inocência juvenil, fiquei fascinada com as atenções daquele belo e encantador rapaz tão cobiçado no nosso meio. Harold era bem charmoso, não bonito, mas sedutor, bastava dez minutos de conversa fazia você se sentir a criatura mais sortuda do mundo por ter sua atenção, e era assim que eu me sentia, afinal, entre tantas garotas tão bonitas, ele havia escolhido a mim.
Para completar, todos pareciam felizes, quando começamos a nos encontrarmos com bastante frequência, em festas, chás de caridades, corridas de cavalos ou em qualquer outra ocasião social da elite e ele me enchia de atenções e delicadezas. Nós dois éramos descendentes de famílias importantes e tradicionais, todos faziam muito gosto com a nossa possível união. Passara pouco mais de um ano, ele me pediu em casamento, com um anel que faria esse seu passar vergonha – sorri, olhando para o anel na mão de Gisele. – Então, naquela época, eu me tornei a mais felizes das criaturas sobre a face da Terra, por estar noiva do melhor partido da nossa sociedade, e me sentia a mais sortuda das garotas por me casar com um homem tão maravilhoso quando aquele. Tenho que dizer que eu era uma jovem bastante inocente, bem diferente das garotas dessa idade nos dias de hoje. Tudo que eu desejava era ser uma boa esposa de um marido importante e bem-sucedido e mãe dos seus filhos.
Nem preciso falar que não tínhamos muita intimidade, na verdade, nenhuma. Eu e meu noivo mal nos tocávamos, a não ser, por castos e rápidos beijos nos lábios e no rosto, andávamos de braços dados, mantínhamos uma certa formalidade, um cuidado excessivo para não passar dos limites, de certa maneira, eu me sentia intimidada, com medo de decepcioná-lo. Na minha inexperiência, eu não percebia que meu noivo era demasiadamente respeitoso, sempre preservando uma certa distância entre nós dois. Nunca tentou ultrapassar as barreiras de intimidade e eu achava que aquilo era sinal de caráter. Ao mesmo tempo, eu fazia tudo para agradar o meu noivo e, aos dezenove anos, vestia-me tal qual uma mulher de trinta ou quarenta, com saias abaixo dos joelhos, conjuntos e vestidos comportados em tons pasteis, penteados clássicos, e a minha família e a dele aprovavam, totalmente, esse meu modo de ser, e era isso que eu queria, ser uma perfeita lady, uma dama da sociedade, havia sido educada para isso.
Eu e minha sogra estávamos cuidando dos preparativos do meu casamento para a próxima primavera. Na verdade, ela era que estava determinando tudo, eu não tinha voz ativa, até mesmo usaria o vestido de casamento dela, mesmo o achando muito antiquado. A família do meu noivo era muito mais importante e rica do que a minha, envolvidas em vários ramos de negócios que eu desconhecia na época.
Parecia que essa seria minha futura vida, até aquele fatídico verão, quando viajamos, juntos com as nossas famílias e alguns amigos, para a sua propriedade no campo, Greystone. Um ancestral e enorme casarão, que pertencia a família de Harold há séculos, construídas com pedra cinzas, tinha muitos cômodos e janelas, um imenso jardim com vários recantos, e era cercada por bosques fechados, onde os homens gostavam de caçar. Não pense que aquela viagem foi agradável para uma moça da minha idade, na verdade, era bem aborrecida e entediante, com pessoas mais velhas e um noivo que não me dava nenhuma atenção, que preferia discutir sobre políticas e negócios com os outros homens, enquanto, as mulheres falavam sobre moda e educação dos filhos.
Naquela manhã em especial, eu estava bastante chateada, posso até dizer que quase desesperada por estar ali, pois, os homens não paravam de falar em negócios e política, fumando cachimbos e charutos fedorentos e tomando uísque. Em contrapartida, as mulheres fofocavam, falando de festas e mal da vida alheia. Não havia ninguém da minha idade, não se falava nada interessante para mim, então, mesmo contra as determinações impostas, sai para dar uma volta, sozinha, pelo campo, para me distrair um pouco.
Andei sem destino por algum tempo, mas, o sol estava forte e eu fiquei acalorada e suada. Sabia que ali perto, havia um riacho de águas frescas e limpas, assim, resolvi ir até lá para me refrescar um pouco, pensando em mergulhar os meus pés na água fria. No entanto, quando me aproximei, eu ouvi um barulho, algo como som de passos sobre a relva, achei que poderia ser algum animal selvagem, algo como um veado ou uma corça, então me escondi atrás das folhagens e esperei, bem quietinha.
Mas, para a minha surpresa, ele se aproximou correndo, de forma elegante com passadas largas e seguras, era o homem mais bonito que havia visto em toda a minha vida, alto, cabelos louros escuros caídos sobre a testa, a pele com um leve tom dourado, estava suado e sua respiração um tanto ofegante. Parou a margem do riacho e começou a se despir. Primeiro os tênis e as meias, a camiseta, por fim, a bermuda e a cueca. Naquele instante, considerei a possibilidade de sair dali correndo, antes que ficasse totalmente nu, mas não consegui desviar meu olhar, estava fascinada e hipnotizada com aquela bela visão. O rapaz era perfeito, com seu corpo esbelto e os músculos longos e bem definidos, brilhando com o suor pela corrida e, depois, com a água, parecia tão relaxado. Eu era virgem, nunca havia visto um homem completamente nu, pessoalmente, mas frequentava museus, já havia vistos muitas estátuas gregas e romanos, e sabia que ele era um belo espécime do sexo masculino. Então, ele entrou na água lentamente, e eu fiquei o observando se banhar por um longo tempo, escondida atrás da moita, enquanto eu vivia sensações que nunca senti antes, um calor diferente que me queimava por dentro e ruborizava meu rosto, mais tarde aprendi que aquilo era desejo. Entretanto, para o meu azar, uma abelha começou a voar ao meu redor, acabei me assustando e dei um pequeno grito, o rapaz ouviu e olhou para minha direção, começou a sair da água, sem nenhum constrangimento, por isso, eu corri o mais rápido que pude, no entanto, não tinha certeza se ele não tinha me visto.
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