História de fantasma
1 Ela não consegue me ouvir.
Notas iniciais

Deitado sob o Salgueiro Lutador, com o braço direito servindo de apoio para a minha cabeça, faço uma retrospectiva desse ano. O sexto. Meu último ano aqui, em Hogwarts. A água do lago está fria, e o céu está cinzento, hoje. Isso deixa tudo ainda mais melancólico. Apesar de todo o burburinho que há no terreno externo, não consigo ouvir muita coisa, quem dirá entende-las. É como se estivesse debaixo d’água há muito tempo, perdendo, pouco a pouco, meus sentidos.
Talvez eu seja apenas um fantasma
Eu não sei o que aconteceu: eu simplesmente perdi o talento hereditário para provocações ou os grifinórios, lufanos, corvinos e até meus próprios colegas de casa que amadureceram? Às vezes, tenho de esfregar minhas mãos ou correr grandes percursos para sentir dores e câimbras em certos lugares.
Porque a dor existe em tudo o que é possível existir.
E não ando tendo muita certeza sobre a minha existência.
Desapareço quando alguém está por perto
Eu preciso saber que estou vivo, mas as pessoas são estúpidas demais. Qual a graça em varinhas de alcaçuz? Porque tanto estardalhaço por uma simples fatia de torta de abóbora? Tenho que cerrar as mãos para impedi-las de atacar qualquer professor com uma maldição imperdoável.
Passo por você quando você viaja
Viaja mais perto
Algo em mim se parte em mil pedaços quando a vejo sofrendo. Chorando sozinha em algum corredor, na Seção Reservada da Biblioteca, em armários de vassouras, na torre de Astronomia... Sei que não é o meu coração, pois não creio que tenha um. De qualquer forma, a única certeza que tenho, o único motivo para que acorde tão cedo, todos os dias, para aturar a Grifinória em Defesa Contra as Artes das Trevas ou Poções... É ela.
Quando Hermione sofre, eu sofro também, além do comum. A marca negra, o símbolo da estupidez de um mero mestiço, a depressão de Narcisa, o constante sentimento solitário que se faz onipresente, mesmo em momentos como esse, quando há tantos alunos brincando nos Jardins, são apenas alguns dos motivos que me fazem sofrer tanto. Uma vez, jurei a mim mesmo que jamais me rebaixaria ao ponto de sofrer por alguém. Exceto por ela. Eu tinha treze anos, e ela havia acabado de me dar um soco.
Quando Hermione sofre, ela está mais perto de mim do que imagina.
Talvez eu seja apenas um fantasma
Esvaziado por eles, ninguém sabe
Talvez eu esteja em uma rosa
Ou eu estou mesmo aqui?
Ouço um farfalhar de capas, murmúrios e sinto uma pontada de desgosto. Logo aqui? O trio senta-se em um círculo perto de mim. Poderia andar dois passos, esticar meus braços... E abraçá-la. Sentir o perfume de seus cabelos, como quando passa mais rápido por mim nos corredores, aquele cheiro de lavanda...
Eles não me veem?
Mas ninguém sabe. Ninguém pode saber. Tenho que guardar esse segredo comigo, pelo menos por enquanto. O Potter desconfia.
Espero que ela acredite em mim.
Será que estou em outro lugar, e só meu corpo está aqui? Ou o contrário?
Vamos virem-se! Vejam quem está aqui.
Yeah.
Toda vez que tento atravessar paredes
Mais paredes aparecem
Mesmo quando o destino brinca comigo, mesmo quando nossos corpos estão a menos de vinte centímetros...Eu não posso. Não que eu me importasse em levar outro soco, mas simplesmente a menção ao meu nome ou um rápido olhar, surpreso, em vez da habitual expressão de desgosto seria o suficiente.
Só posso ouvir sua voz nas aulas, ou rindo de alguma piada do Weasel. Ou quando se dá ao trabalho de responder às minhas provocações.
Por favor, Hermione. Não cresça. Não seja indiferente.
Hey, não me ignore.
Qual é o sentido em amar você
Quando você não acredita que estou aqui?
Olho para a minha camiseta, e abro os dois primeiros botões que escondem a marca.
Qual o sentido, Hermione, em pedir para que acredite em mim
Quando sei que a verdade está aqui?
Qual é o sentido em tentar levantar a sua voz
Se ninguém nunca ouve?
Vou arriscar.
Tenho que fazer isso.
— Ei, Potter! Bronzeando?
Toda vez que eu tento te aproximar
Você desaparece
Eles viram-se. Vejo, uma a uma, as faces coradas pelo riso recente transformarem-se em algo entre a raiva, o desprezo e o nojo. A terceira é ela.
Desvio o olhar.
Isso dói demais.
Eles vão embora. Eu continuo aqui.
Talvez eu seja um fantasma
Apenas um sussurro em uma fumaça perfeita
Um segredo que ninguém sabe
Ninguém nunca vai ouvir
Por favor, qualquer um! Pansy, Blásio, Di-Lua, Potter! Qualquer um!
Ouçam-me!
Alguém pode me ouvir?
Ah, talvez eu seja um fantasma
Um espectro da causa errada
Caído da rosa
Algo que as pessoas temem
Ei, Minerva! Ei, Dumbledore! Ei, Snape!
Por favor!
Alguém consegue me ouvir?
Sei que é ilusão pensar que alguém pode me ajudar. Nenhum deles. Exceto por ela.
Ela.
Qual é o sentido em amar você
Quando você não acredita que estou aqui?
Estou no trem. Como sempre, sou o último a sair. Sei que não haverá ninguém esperando por mim.
Passo por todas as cabines vazias, amaldiçoando a mim mesmo por ter nascido.
Paro no instante em que a vejo, ajeitando a mochila nos ombros.
Hermione me olha, assombrada.
Qual é a vantagem em dizer “Me ajude!”
Se ninguém nunca ouve?
Elas voam pelos meus lábios antes que possa pará-las.
— Por favor, não.
— Hermione!
Ela vira-se, e eu faço o mesmo. Lá fora, na estação, estão uma mulher morena e um homem um pouco mais alto, moreno e barrigudo. Suponho que sejam seus pais.
O seu rosto está estático. Espero uma resposta.
Ela sorri, enquanto corre para eles, jogando a mochila no chão.
Saio pouco tempo depois. Nós. Eu e o meu coração, que agora sei que existe.
Porque ele está partido.
Toda vez que eu tento te aproximar
Você desaparece
Toda vez que eu tento te aproximar
Você desaparece
"E quando Lúcio o chamou, na frente de todos os sobreviventes da Guerra — na frente dela -, ele esperou pela tão clamada coragem grifinória.
“Covardes", foi o que ele pensou. "Nós dois.”
E partiu para o lado errado. O lado de Voldemort. Agora, o seu Lado."
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