Historias de uma mente compulsiva
1 Historias de uma mente compulsiva -parte 1
A loucura é contagiosa. E se espalha rapidamente.
Sempre achei a mente humana algo formidável, mais de sete bilhões de pessoas no mundo, cada uma completamente diferente da outra, cada uma com sua personalidade, e sua própria loucura. Estudo há algum tempo, e ainda sim não consigo compreender todo esse universo individual. Não conseguia, ate chegar à hora do meu estagio.
O hospital psiquiátrico Dr. Frederick Hoffman, pra falar a verdade não é bem um hospital, pode chamar de prisão psiquiátrica, porque nem as cadeias aceitam as pessoas que estão aqui. São criminosos, estupradores, canibais ou tudo isso em uma pessoa só.
No meu primeiro dia de estagio, tive que cumprir algumas burocracias, preencher e assinar todo tipo papel que me entregar. Em um deles estava escrito ‘’me responsabilizo por qualquer dano causado a mim ou qualquer paciente que esteja tratando’’, loucos são inimputáveis, não respondem pelo o que fazem então alguém tem que ser responsável por qualquer dano que ele causar. Contratos assim são feitos para te desencorajar, mas se eu quisesse terminar a faculdade, vou precisar desse estagio.
O primeiro dia foi tranqüilo, as coisas ficaram estranhas do segundo em diante, a enfermeira me entregou um copo com pílulas de todos os tamanhos e cores – leve para o paciente nº 23 – na porta de cada quarto tinha uma ficha com todos os dados da pessoa, com sua doença, fobias e as precauções necessárias na hora de entrar, uma das precauções era ‘’não ouça o que ele tem a dizer’’. Eu ri. Colocar uma placa dizendo ‘’não’’ é o mesmo que deixar um pote de biscoito do lado do gordinho de dieta, uma tentação impossível de resistir. Então, o que esse cara tem pra me dizer?
–hora de tomar seus remédios senhor Neonidas.
–por que estão me medicando? Eu não estou doente!
– o senhor precisa deles, caso queira sair daqui, precisa se tratar
– você acredita em Deus? Que pergunta idiota qualquer um acredita em Deus hoje. Você acredita na verdade? A verdade é difícil de compreender, ouvi-la te faz sofrer, te faz desistir da realidade, a partir daí você cria um mundo só seu, onde você o controla e decide o que é bom de ser aceito. Quando faz algo que se arrepende, você pensa o que teria acontecido se tivesse feito o contrario. Você cria ilusões, cria conceitos de um mundo diferente e percebe que esse mundo seria melhor. No mundo que criei eu não matei minha esposa, não matei meus filhos, não coloquei fogo no prédio, nesse dia eu fiquei em casa assistindo futebol, tomando uma cerveja, minha mulher não me traí com o vizinho, eu não descobri que meus filhos não eram meus, foi só mais um dia comum. Pensar assim faz as pessoas achar que sou um louco, talvez eu seja, mas o que é pior, viver como um monstro ou morrer como um herói? Garoto, se você acredita em Deus, saiba que ele não esta aqui, Ele próprio desistiu desse lugar e o largou a qualquer criatura demoníaca que o encontrar. Os experimentos que fazem aqui, os tratamentos, saia desse lugar, a loucura é contagiosa e se espalha rapidamente.
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