Histeria - Interativa.
2 Um lar temporário
Notas iniciais
Quando acordei novamente, não estava mais no ônibus. Agora estava deitada numa cama macia, num quarto com cheiro de naftalina que irritou meu olfato.
A primeira coisa que veio em minha mente foi Hugo. Não sabia se estava bem, muito menos se estava vivo. Sentei-me bruscamente e senti minha cabeça girando, e ao levar automaticamente minhas mãos ao local do corte percebi que havia uma gaze o cobrindo.
Depois de a tontura passar e eu finalmente me sentir firme para levantar, me pus de pé e vi que o quarto tinha um bom espaço. Havia um armário de madeira, assim como uma cômoda e uma penteadeira com um grande espelho. O chão era de tábuas e as paredes eram beges, com uma janela coberta por uma cortina com blecaute.
Ao encarar minha imagem no espelho, percebi que eu estava completamente horrível. Meus cabelos castanhos estavam embaraçados e sujos de sangue, a maior parte dele fora do rabo de cavalo. Minhas roupas estavam igualmente ensanguentadas, e não conseguia distinguir se o sangue era apenas meu. Isso me assustou.
Mas o que mais chamava atenção era um hematoma considerável no lado direito da minha testa. Estava inchado e roxo, coberto por uma gaze. Fiquei profundamente agradecida a quem quer que tenha feito isso.
Cuidadosamente abri a porta do quarto e encontrei um corredor vazio, de onde eu conseguia ouvir vozes vindas da sala.
“É nosso dever cuidar deles Markus” Uma voz idosa e feminina falou. “São crianças”.
“São um fardo” rosnou uma voz masculina, provavelmente o tal Markus.
“Olhe aqui, eu o aceitei nessa casa de braços abertos” a voz feminina se irritou “e não tente discutir minhas decisões, pois eu sou a dona dessa casa. Se você está incomodado, pode ir embora”.
Antes que Markus pudesse responder, eu me encontrava na sala. Os dois me encararam e a mulher se pôs de pé de supetão.
– Olá. – Sorriu calorosamente. – Eu sou Yasmim.
Yasmim era uma senhora que aparentava ter sessenta anos. Seus cabelos brancos eram no estilo Joãozinho, bonitos, e seu sorriso era confortador. Baixinha e vestida com roupas simples, veio ao meu encontro. Automaticamente dei um passo para trás.
– Não se assuste. – Ela riu. – Não vamos te fazer mal.
– Ela não vai. – Markus murmurou irritado, sem me olhar, e Yasmim o ignorou.
– Meu irmão... Onde ele está? – Eu perguntei, soando como uma garotinha assustada.
O rosto da senhora se fechou.
– Seu irmão... Bem, ele está bem agora. – Disse, e um calafrio percorreu minha espinha. – Seus amigos estão com ele. Venha, eu mostro onde eles se encontram.
Yasmim seguiu pelo corredor e eu segui seu encalço, dando uma olhadela para Markus, que estava mexendo nas unhas distraidamente. Ele era um homem alto, com cabelos louros espetados e olhos azuis intimidadores. Dava-me medo.
A senhora entrou por uma porta e pude ver, em uma cama parecida com a minha, Hugo. Ele estava estendido no colchão, pálido, e sua roupa havia sido trocada por uma blusa que era vários tamanhos maior que o dele. Do lado da cama havia duas cadeiras. Em uma delas se encontrava um menino simpático que aparentava ter dezessete anos, e em outra estava Melissa. Os dois cochilavam, e ao ver minha amiga senti um grande alívio.
Mas então meu olhar escorregou para a perna de Hugo e caí no chão de tanta surpresa.
Do joelho para baixo, Hugo estava sem a perna.
–
– A perna... A perna dele... – Eu tentava articular uma frase, sem sucesso. Yasmim havia me servido água com açúcar e eu estava sentada no sofá ao lado de Markus, que devorava um prato de almôndegas requentadas, indiferente a mim.
– O médico teve que amputar. – A senhora disse. – Nós temos um vizinho que é médico, sabe. Ele a amputou e receitou alguns antibióticos. Você fez bem em retirar o ferro de lá. O menino nos contou.
– Ele vai ficar bem? – Olhei esperançosa para Yasmim, que me sorriu compassiva e passou a mão nos meus cabelos.
– Claro que vai.
Respirei em alívio, fechando os olhos. De todos os males, o menor.
– Onde eu estou? – Finalmente perguntei.
– Um pouco distante da estrada. Só conseguimos salvar você e os outros três.
– E os outros no ônibus? – Um calafrio percorreu minha espinha.
Silêncio. Só a mastigação de Markus se fazia ouvir.
– Oh... – Tentei assimilar que minha classe inteira havia virado jantar.
– Markus Hanns é filho de um amigo meu já falecido. – Yasmim prosseguiu. – Ele veio de São Paulo para cá quando soube de tudo isso. Eu era sua única referência em outra cidade, e o recebi. Eu sei que ele parece um insensível, mas é um bom rapaz. Em parte.
– Sabe, garota, eu posso ser insuportável às vezes. – Me disse, cuspindo um pouco de carne. – Mas não sou mau.
Ele parecia mais calmo agora que aceitara que eu não iria embora. E ao que tudo indicava parecia estar querendo ser agradável.
– Você está querendo ser agradável comigo por quê? Eu achei que eu era um fardo. É porque agora meu irmão é aleijado? – Fui sarcástica, despejando as palavras.
Markus me encarou longamente.
– É, acho que sim. – E continuou comendo suas almôndegas.
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