Histeria - Interativa.
16 Contraditório
Notas iniciais
Aquela história de Cadu me parecia genuína. Eu procurava o tempo todo achar algum furo, mas tudo parecia completamente verdadeiro: a ordem das coisas e a maneira como se encaixavam. Não parecia mesmo uma mentira... E se fosse verdade, teria realmente uma cura.
– Mas e onde está o resto do seu grupo? – Perguntou Melissa.
– Eles saíram. – Cadu se ajeitou no sofá. Aquele dia estava frio, o que raramente acontecia naquela cidade. – Não me deixaram ir.
– Como assim não te deixaram ir? Cara, você é forte e tem quase um e noventa de altura. – Markus falou algo que todo mundo estava pensando. – Os zumbis devem se tremer de você.
– Tem uma pessoa lá em cima. – Cadu falou nostalgicamente, e isso fez com que eu sentisse um aperto no coração.- Ela está machucada... E senti que eu precisava ficar aqui pra cuidar dela. Só confiaria em mim mesmo pra isso.
– Mas... – Eu iria perguntar.
– Eu preciso continuar a história, ou vocês querem deixar por isso mesmo? – Ele interrompeu. – Depois os levo pra vê-la, mas pra vocês entenderem preciso continuar.
Achei justo. E realmente, aquela história estava mesmo me interessando. Me aconcheguei na poltrona onde estava e todos nós permanecemos em silêncio, dando espaço para que Cadu continuasse. Ele, percebendo o sinal, se empertigou no sofá e pareceu voltar um pouco no tempo antes que sua voz forte voltasse a retumbar pela sala.
Pov Cadu.
Naquela noite, depois de Karen contar para nós o que havia acontecido, eu não consegui dormir. Meu instinto dizia que eu precisava achar Camilla. O fato de que eu não tinha mais o paradeiro de minha própria irmã estava me enlouquecendo, e a porcaria do meu celular nunca conseguia pegar sinal. De outro lado, eu poderia ajudar aquele grupo a salvar uma nação. E, incrivelmente, eu não sabia o que fazer.
São Paulo estava frio. Tomei um banho de água quente e com um cheiro incômodo de ferro para ver se eu conseguia me decidir, mas não adiantou de nada. Eu sei, o certo a se fazer era aceitar o convite de se juntar ao grupo, mas... Tinha a minha irmã. A minha doce, irritante, gêmea e maravilhosa irmã, a pessoa que eu tinha prometido sempre proteger.
Sim, eu estava em dúvida em salvar o mundo e salvar Camilla. Estava mais que óbvio o que era o certo a se fazer.
Penteei os cabelos e vesti uma roupa limpa de Jonathan, que ele havia me emprestado naquele mesmo dia. Calças cáqui e uma blusa branca que ficou levemente apertada em mim. Eu não conseguia dormir, então pra quê pôr pijamas?
Clara veio me dar boa noite. Ela me perguntou se algo estava errado, mas eu não era um cara de falar muito, então simplesmente respondi que era cansaço. Ela me abraçou e agradeceu, mas eu não sabia exatamente porquê ela estava agradecendo. Era minha obrigação salvá-la, afinal, ela precisava. De qualquer maneira, foi bom ser reconfortado.
–
– Bom dia. – Karen falou assim que entrei na sala. Todos estavam lá, ao redor da mesa, tomando café.
– Bom dia. – Respondi com voz de sono. Aquela noite fora muito longa.
– Vamos partir hoje. – Lucas informou, mordendo um pedaço de torrada com geleia de morango, que sujou sua barba. – Você e sua amiga já se decidiram?
– Eu disse que só iria se você fosse. – Clara se explicou, com a comida intocada logo à sua frente.
Isso mudava tudo. Clara não podia depender de mim. Eu iria procurar a minha irmã, e isso era perigoso demais, então eu deveria ir só. Não queria que ninguém morresse por minha culpa.
– Clara, você precisa ir com eles. Eu tenho planos diferentes. – Disse eu, soturnamente.
– Cadu, eu não vou mudar de ideia. – Ela me informou convicta e eu bufei, passando as mãos pelo cabelo.
– Você pode conversar comigo um segundo, por favor? – Pedi e ela assentiu. Fomos pra cozinha. – Clara, é complicado. Eu simplesmente não posso ir com vocês e você não pode vir comigo.
– E qual é o seu plano? – Clara perguntou ironicamente, se encostando na bancada. – Sair sozinho por aí numa cidade com 18 milhões de zumbis e morrer no primeiro dia?
– Meu plano é achar Camilla. – Rebati duramente.
– Bem, sozinho você não vai conseguir. – Ela amarrou os cabelos ruivos no alto. – Cadu, você pode ter me salvado, mas eu não sou uma criança. Você não precisa se sentir responsável por mim em nenhum momento, beleza?
Eu estava frustrado e passei novamente as mãos no cabelo, olhando pro lado e bufando. Ela estava certa. Eu não devia me sentir responsável por ela, mas o que eu posso fazer? Eu simplesmente me sentia. Como se eu precisasse cuidar de Clara, pra que ela não morresse... Como Luiza morreu.
E Clara não ia mesmo mudar de ideia. Seu rosto estava compenetrado, um olhar convicto, as sardas estavam paradas no seu rosto, coisa que indicava que a sua expressão continuaria a mesma até que eu desse uma resposta.
– Tá... Eu vou com vocês até certo ponto. Mas depois irei procurar Camilla. – Ela pareceu frustrada, mas percebendo que agora eu não iria mais mudar a decisão ela se conformou e saiu da cozinha.
– Nós vamos com vocês. – Ela anunciou.
E foi assim que tudo realmente começou.
.-.
POV Sérvia.
– E isso é o suficiente por hoje. – Cadu disse, como se fosse um contador de histórias, se levantando da cadeira.
– Você ainda não disse quem é que está aí em cima. – Ruiz lembrou.
– Ah, isso. – Ele passou as mãos pelos cabelos. – Vocês vão ver... Bem, só me sigam.
E nós o seguimos meio receosos. A casa de Sávio era grande, e ele não parecia se importar com o fato de que Cadu havia a invadido. O andar de cima era igualmente grande, cheio de vários quartos, todos abertos exceto por um.
Cadu nos encarou.
– Acho melhor que eu entre primeiro. – Ele suspirou. – Preciso avisá-la das visitas pra que não a assuste, sabe, tanta gente.
E ele entrou no quarto.
– Esse cara me parece um bom rapaz. – Bel comentou, de braços cruzados.
– Você fala isso porque ele é bonito. – Ruiz rebateu. – Você ficou encarando ele o tempo todo, Isabel.
– Como assim? – Bel corou. – Eu não o conheço, Ruiz!
– Vamos parar com isso? Temos muito mais o que analisar do que a aparência dele. – Hugo interrompeu, me surpreendendo. Isso era verdade.
Isabel se calou e baixou os olhos.
– Ele me lembra o João. – Yasmim comentou nostálgica para si mesma. – Meu filho...
Não sabíamos o que falar. Eu havia perdido minha mãe e meu pai, e não sabia se estavam vivos ou não. A dor de Yasmim era a mesma da minha, em relação ao seu filho, e eu não sabia o que fazer para consolá-la.
Ficamos todos imersos em nossos pensamentos, até que Cadu saiu do quarto e fez sinal para que entrássemos.
Agora, prestando atenção, dava para ver que ele era realmente bonito. Seus cabelos eram castanho-escuros, raspados na lateral, e era bem alto. Seus olhos eram castanhos, quase cor de mel, e seu rosto tinha características fortes e bem definidas. Ele era moreno, bronzeado por causa do sol forte da cidade, e vestia uma blusa branca manchada e uma calça surrada cáqui.
Eu entrei no quarto apreensiva, e ao ver a pessoa sentada na cama, senti que meu coração parou por um segundo e dei um passo para trás.
Aquela menina era ruiva e parecia cansada. Seus cabelos estavam sem vida e embaraçados, e ela vestia uma camisa grande de uma escola qualquer. Ela olhou para nós e o machucado em seu rosto ficou ainda mais perceptível.
Era uma mordida profunda, levemente esverdeada, mas parecia estar cicatrizando. Prendi a respiração, chocada.
– Oi... Sou Clara. – A menina sorriu levemente. – E é uma longa história.
Fale com o autor