Histeria - Interativa.
5 Comida, muita comida
Notas iniciais
O almoço ainda nem havia sido servido e já estávamos em encrenca. Meu coração retumbava dentro de mim, me fazendo ouvir o sangue correr em meus ouvidos. Eu e Sávio estávamos juntos sentados lado a lado, com as mãos amarradas nas costas dentro do depósito do supermercado. Era escuro e estava gelado, fazendo calafrios que já estavam se tornando recorrentes percorrerem minha espinha.
Em nossa frente estavam uma moça bonita, de olhos verdes e corpo esguio com os cabelos negros amarrados em uma trança finalizada com uma fita vermelha, um menino estonteante muito parecido com a tal Isabel e um negro alto e careca que parecia ter mais de trinta anos.
Atrás de nós estava Isabel e um homem mais velho que tinha características hispânicas. O som da menina comendo salgadinhos me deixava irritada.
– Ok, nós não vamos machucar vocês. – A menina com a fita na trança disse, respirando fundo.
– É difícil nos convencer quando nos amarram e nos trazem pra um lugar como esse. – Sávio foi irônico.
– Não tente debochar. – O gêmeo de Isabel ralhou.
– Só temos que saber quem são para ver se podemos confiar. – A menina prosseguiu.
– Que confiar nada! Não tem que confiar em nós. Só queremos um pouco de comida e vocês nunca mais precisarão nos ver. – Eu disse com a voz meio esganiçada.
– Quem nos garante? – A menina continuou e ficamos em silêncio. – Vocês tem acampamento?
– Sim. – Respondi depois de um longo tempo e Sávio me repreendeu com o olhar, mas não me calei. Eu só queria ir embora. – Fica a uns dois quilômetros ao leste. É distante da estrada.
Depois disso sucederam-se perguntas como “quantos são vocês” e outras consideradas relevantes. Eu respondia as perguntas do jeito que queriam, calma e verdadeiramente, pois só queria ir embora. E, no fundo, sabia que aquelas pessoas não nos fariam mal.
Quando o interrogatório acabou eles decidiram nos dar sacolas com alimentos não perecíveis e se conformaram de que não éramos hostis. Senti-me tão aliviada que quase chorei. Sávio e eu fomos liberados e seguimos nosso caminho pelo calor que já era grande do lado de fora.
Ele não estava falando comigo. Não dissera nada desde que fomos capturados, e o silêncio começava a me incomodar. Apertei o passo para seguir ao seu lado.
– Sávio, você está bem?
Sem resposta.
– Você está me ignorando por quê? – Tentei novamente, e novamente sem resposta. Bufei. – Qual é o seu...
– Problema? – Ele parou subitamente e vi que estava irritado. Ele me encarou. – Meu problema é que agora nós vamos viver numa constante tensão sabendo que há pessoas desconhecidas sabendo onde moramos. E elas têm armas, sabia?
– O que você queria, hein? Que eu ficasse calada? Tornaria tudo pior! – Elevei minha voz também.
– Sabia que mentir também era uma opção? – Foi irônico.
– Ok, desculpa Sávio. Desculpa por não saber agir numa situação dessas, afinal você é o gênio daqui não é? Porque ficou calado então? Poderia ter feito tudo do seu jeito. – Irritei-me, jogando os braços para o alto. Sávio me encarou duramente.
– Não acredito que levei uma pirralha como você a sério! Que bom que Hugo tem ao resto de nós, porque se dependesse só de você nem imagino o que aconteceria com ele.
Fiquei calada, com a boca levemente aberta e sem palavras. Não acreditei que Sávio houvesse dito algo tão horrível pra mim, afinal ele sabia o quanto eu estava me dedicando a Hugo nessas últimas semanas.
Ao perceber o que havia dito, Sávio me encarou com um olhar arrependido. Mas eu saí andando fortemente na frente, com os braços ao lado do corpo e me segurando para não chorar. Era isso que ele pensava de mim? Uma pirralha?
– Sérvia. – Ele chamou atrás de mim. – Sérvia, por favor.
Eu continuei andando e senti que uma mão agarrava meu pulso, me puxando de leve.
Mesmo sendo de leve, foi o suficiente para que eu desse de encontro com seu tórax. Sávio passou um braço por mim, me prendendo a si, enquanto eu tentava me soltar.
– Ei. – Ele apaziguou. – Me desculpa. Foi uma besteira o que eu disse. Por favor, desculpa.
Eu já estava chorando. Não só por causa de Sávio, mas por causa do peso de ter um irmão necessitado para cuidar, a falta de meus pais, tudo isso que estava acontecendo, o medo constante de morrer... Tudo estava me deixando doida. Passei meus braços ao redor da cintura de Sávio e o abracei com força, soluçando, enquanto ele fazia carinho em meus cabelos.
– Vai ficar tudo bem. – Ele sussurrou para mim. – Tudo bem.
–
Chegamos em casa e, ao entrar pela porta, apenas percebi um furacão louro vindo até mim e me sufocando em um de seus característicos abraços de urso. Mel cheirava à canela, e senti conforto no seu aperto fraternal.
– Você um dia vai nos matar de susto. Hugo está quase enfartando! – Sua voz estava esganiçada e ela possuía os olhos arregalados. – Vou matar você por sumir assim, Sérvia Amaral Emmanuel. Vou mesmo matar você.
– Tenho certeza que não. – Sorri divertida.
– O que faz você está tão certa disso? – Ela parecia estar realmente preocupada e até senti culpa por ter ido buscar comida.
– Entra Sávio! – Eu pedi, e Sávio entrou na sala com as sacolas atulhadas de comida. – Mudou de ideia Mel?
Pela sua expressão, sim, ela havia mudado.
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