Histeria - Interativa.
3 Algo específico.
Notas iniciais
A noite já tingia o céu e meu celular estava sem bateria. Não conseguia mais ligar para meus pais, então suspirei e pedi a Deus que me ajudasse a encontrá-los novamente.
Não queria ir para o lado de fora, então voltei ao quarto de Hugo. O menino e Melissa estavam acordados e conversando em voz baixa, e ao me ver Melissa se levantou e correu até mim, me sufocando em um abraço. Ela tinha hematomas no rosto.
– Serv. – Ela sussurrou– Você está bem.
– Mel, eu estava tão preocupada. Que bom que acordou. Fiquei aliviada ao vê-la aqui, mas você estava dormindo. – Sorri sincera.
– Esse é Sávio. – Ela olhou para o menino e percebi que ele tinha arranhões nos braços e um corte abaixo do olho esquerdo. – Ele que salvou você e Hugo.
Encarei Sávio, que me sorriu envergonhado. Ele tinha cabelos castanhos bagunçados, pele branca e olhos também castanhos. Era mais alto que eu, mas eu fui até ele e o abracei forte. Devia a vida de meu irmão, e também a minha, a ele.
– Obrigada. – Ele pareceu meio sem graça, mas me abraçou também.
– Não foi nada.
Sorri e sentei do lado de Hugo na cama. Ele ainda dormia. Seu rosto jovem estava relaxado e pálido, mas iria ficar bem. Fiz levemente um carinho em seus cabelos, e Yasmim nos chamou para jantar.
Sentamos-nos à mesa eu, Mel, Sávio, Yasmim e Markus. Tínhamos feijão enlatado e macarrão com queijo. Isso me fez pensar que era quase como uma reunião feliz e meu estômago embrulhou.
– Vamos tentar nos conhecer. – Yasmim sugeriu. – Nós vamos passar um bom tempo juntos.
Eu me servi calmamente de macarrão enquanto Mel pigarreou.
– Eu sou Ana Melissa Schutz, tenho quinze anos e sou de Recife... Vim para o Pará com quatro anos por causa do trabalho da minha mãe. – Ela parou, mas o silêncio a fez prosseguir. – Minha irmã Julia e meu pai morreram quando eu tinha três anos num acidente de monomotor.
O silêncio prosseguiu e Sávio começou a falar.
– Bem... Me chamo Sávio Mendes. Não tenho muita coisa pra falar. Estudava de bolsa no segundo ano do ensino médio, e trabalhava numa oficina de tarde. Meus pais são advogados. Quando eu era mais novo, fiz algumas besteiras. Fui expulso do antigo colégio e eles disseram que agora eu iria ter que conseguir a vaga em outro sem a ajuda do dinheiro deles. Estavam... Estavam em São Paulo. Numa reunião. – Sua voz tremeu um pouco.
Dei uma garfada no macarrão. Todos olhamos para Markus.
– Passo. – Falou de boca cheia.
– Sérvia Emmanuel. – Murmurei concentrada no macarrão. – Passo.
– Então... Eu sou Yasmim Nolasco. Meu filho João mora em Utah, nos Estados Unidos, e eu era professora de história. Só isso. – Ela disse, e durante o resto do jantar, ficamos calados apreciando a comida.
Não sei do que isso iria adiantar. Eu não ficaria ali. Era muito grata pelo o que Yasmim, Sávio, Mel e até Markus tinham feito por nós, porém não queria depender de ninguém. Quando Hugo melhorasse, eu iria procurar meus pais.
E iria achá-los a qualquer custo.
–
Passaram-se algumas semanas até que a comida acabasse. Markus não facilitava nada, comendo qualquer resquício de proteína que pudesse existir na casa.
Ele era difícil. Muitas vezes controlei minha língua para não comentar a dificuldade dele em seguir as ordens. Porém, ele se tornara um amigo para nós. Era uma boa pessoa atrás da dificuldade de convivência, ajudando nas rondas noturnas e sendo tão solícito quanto conseguia. Tirando ele, Yasmim e o resto eram fáceis de conviver. Nós seguíamos regras: dormíamos às dez, ou na verdade, íamos para cama. Ninguém dormia. Comíamos em horários estipulados, ajudávamos a lavar as roupas, procurávamos rádios que transmitiam notícias e tudo mais.
As coisas não melhoravam nunca. Cada vez mais cidades eram tomadas e as rádios ficavam mais escassas. O governo caíra fazia alguns dias e não dava mais notícias. Ouvimos que a África fora tomada por inteiro e a Oceania não estava muito melhor devido ao pouco espaço geográfico.
A parte boa é que Hugo estava bem. O choque devido à perna durou alguns dias, mas agora ele começava a se adaptar e estava recuperando a cor do rosto, alimentando-se bem.
Nós íamos sair para caçar alguma capivara naquela manhã, e acordei cedo depois de pouco tempo dormindo. Tomei um banho rápido com a pouca água que ainda restava e fiz um rabo de cavalo, me vestindo com uma jeans folgada de Yasmim que eu tivera que apertar com um cinto e minha regata. Logo ouvi uma batida em minha porta.
– Entra. – Falei, estranhando. As pessoas ainda deviam estar dormindo, mal havia amanhecido.
– Oi. – Sávio abriu a porta. Ele estava cheirando à colônia e seus cabelos estavam molhados.
– Sávio, entra. – Sorri.
Eu e Sávio havíamos nos tornado bons amigos durante o tempo que eu havia ficado lá. Ele era engraçado e me fazia esquecer toda essa tragédia. Além disso, o laço que eu havia criado com ele por ter nos salvado era forte.
– Desculpa vir tão cedo. Ouvi o barulho da água e resolvi vir ficar com você. Quer passear? – Convidou.
– Claro. – Respondi, pegando minha mochila e saindo com ele do quarto.
Lá fora o sol ainda estava nascendo e o clima estava gostoso. A cidade tendia a ser muito quente durante o dia, então era bom poder sair sem suar em bicas.
– Hugo está muito melhor. – Sávio comentou, com as mãos nos bolsos do jeans.
– É, eu sei. Nunca vou poder te agradecer por ter nos salvado. –Disse eu com um sorriso.
– Ah, não me faça corar. – Ele deu um sorrisinho afetado e eu ri.
– Estou faminta. – Confidenciei. Andávamos ao redor da casa e isso só me deixava com mais fome.
– Podemos ir até um supermercado aqui perto. Eu vi no caminho pra cá, sabe, do ônibus. – Sávio disse.
– Tipo só você e eu? – Isso me deixava nervosa. Não porque era sozinha com o Sávio, mas acredite ou não eu ainda tinha na cabeça que precisávamos de algum responsável.
–É. Eu não vou te agarrar, relaxe. – Ele brincou e eu corei.
– Não seja idiota. Eu só tenho medo que aconteça algo. Não somos muito intimidadores, entende.
– Qual é, Sérvia. Eu já salvei sua vida uma vez, posso salvar de novo.
Revirei os olhos e bati no seu ombro de leve.
Escrevemos um bilhete e deixamos na mesa de jantar, pegando uma faca de churrasco e algumas coisas improvisadas, para então nos dirigirmos ao supermercado.
Evitamos a estrada para não vermos o que não queríamos e os poucos andarilhos que vimos foram abatidos facilmente por Sávio. Eu tinha medo de matá-los. Sim, eu admito, tinha medo, nojo e repulsa. Não queria sentir seu sangue e correr o risco de perceber que ainda era quente, não queria olhar em seus olhos e ver resquício de vida, não queria tocar em sua pele e poder sentir seu calor. Eu tinha medo que ainda houvesse alguém ali.
Depois de andar uns dois quilômetros, achamos o supermercado. Ele parecia ter sido saqueado e a placa estava tombada e sem algumas letras. Tirando isso, parecia promissor.
– Você me cobre. – Sávio disse ao chegarmos à porta, me entregando a faca de churrasco e olhando para mim. – Certo?
– Hum... Certo. — Peguei a faca, hesitante. Ele percebeu meu medo e colocou uma mão em cada lado do meu rosto, me fazendo olhar em seus olhos castanhos. – Ei, não sinta medo. Eu não vou deixar você se machucar, e só terá que matar um deles em um caso extremo. Eu posso fazer isso por você.
Agradeci com o olhar e ele beijou minha testa para depois me largar e seguir caminho.
A porta estava destrancada e se abriu com um ruído preguiçoso quando Sávio depositou sua força nela. O barulho ecoou pelo lugar, fazendo um calafrio percorrer meu corpo. Lá dentro, no chão, havia poças de água, produtos tombados, insetos e algumas manchas de sangue oleoso no chão. A minha vontade era de sair correndo, mas apertei com força a faca e segui meu amigo.
Depois de rodarmos o local e de Sávio abater alguns andarilhos pútridos, ele anunciou que o lugar estava limpo. Suspirei aliviada e saí em busca de macarrão instantâneo e outras besteiras para poder comer.
Enquanto estava na seção de salgadinhos e afins, meu amigo estava procurando outros alimentos não perecíveis.
– Procurando algo específico, colega? – Ouvi uma voz desconhecida atrás de mim.
Fale com o autor