Histórias do cara do balcão.
13 Sorria e acene e o lado bom da guerra.
Eu sei que não é algo muito legal de se dizer, mas a guerra pós-apocalíptica tem seu lado bom.
É, eu sei, que falta de respeito com o povo que morreu, com o povo que está lutando para não morrer, com a família do povo que está lutando para não morrer, com a família do povo que morreu e com todo o resto do povo que sobrou da humanidade... Mas, se você perdoar minha incrível falta de sensibilidade por cinco minutos, eu posso te dizer o motivo.
Não é um motivo muito sensível, mas é um motivo:
Não tem mais vestibular!
Eu sei, não é um motivo muito bom, mas eu andei pensando nele ultimamente... Até onde eu lembro, essa época do ano era época de vestibular antes da guerra. Pode ser um pensamento mesquinho, mas acho que foi a única coisa que melhorou depois da guerra.
Aliás, esquece o "pode ser", com certeza é um pensamento mesquinho e bastante idiota.
Sei lá, vai ver eu tenho um trauma-complexo-ou-outro-termo-psicológico-ou-psicanalítico, mas eu prefiro isso àquela pressão dos vestibulares. Vai ver é porque eu era péssimo em vestibulares... Sério, eu sentia uma vontade de me jogar da janela no meio da prova para acabar com o sofrimento de um modo mais humanitário. Menos nas redações, aí eu queria uma morte lenta e agonizante para compensar toda a droga que eu escrevia.
Sabe, existe um motivo para eu ter colado na entrevista de emprego!
Mas, sabe, se é pra ser justo, acho que os vestibulares eram um pouquinho menos mortais que essa guerra. Tá que eles tinham potencial de destruir completamente a autoestima de uma pessoa, mas pelo menos parava por aí, não tinha nenhum confronto sangrento real!
Enfim, eu devia fazer uma votação "vestibular x guerra" um dia desses... Isso é, se a maior parte da galera do prédio não me odiasse. As crianças da creche gostam de mim, então elas provavelmente topariam, mas elas nem sabem o que é vestibular... Seria uma votação muito parcial.
Não que eu ligue muito para justiça nas votações, mas aí já seria apelar.
Alguém que eu imagino que ia muito bem no vestibular é a Dra Acre. Afinal, a mulher virou cientista com mestrado/doutorado/PhD/diploma/seja lá o que ela tem em ciências antes da guerra começar, ou seja, ela realmente se esforçou pelo título!
Antes de eu ser "cara do balcão" (e todo o resto que veio antes disso), eu pensei em ser dentista, já te contei? Mas eu desisti pouco depois quando pensei na minha pessoa manipulando objetos cortantes e seringas na boca de outras pessoas. Eu não acho que acabaria bem... E também tem a questão de dar pontos na gengiva das pessoas, na teoria parece divertido, mas na prática eu acho que seria um desastre. Não sei costurar nem tecido de roupa, imagina tecido vivo! Uma vez tentei fazer uns pontos numa camiseta que tinha rasgado, consegui abrir um corte feio no meu dedo com a linha de costura! (E eu me preocupando com a agulha... A linha que é um perigo!)
Foi bem naquela dobrinha entre as falanges, então eu sentia o corte sempre que mexia os dedos. E também podia abrir de novo dependendo do movimento.
Eu não sou um costureiro muito bom... E provavelmente seria um dentista pior ainda!
Ah, falando da Dra Acre (ou pelo menos eu acho que falei dela em algum momento dessa conversa), ela fez uma palestra/exibição/demonstração/algo assim da nova arminha dela. Eu ainda não faço ideia se é química ou biológica, só sei que eu não gosto nada do jeito que soa.
Parece que ela arrumou um composto gasoso capaz de asfixiar a maior parte dos monstros ou qualquer coisa do tipo, tudo que teriam que fazer é colocar isso numa bomba/granada e jogar em uma das cidades tomadas pelos monstros. Seria como matar baratas com aquele spray, uma borrifada e ela voa desesperada enquanto morre sem ar e sem uma única chance de sobrevivência.
Não me entenda mal, eu não sou fã de baratas, só estou dizendo como funciona. E, se parece um pouco covardia, paciência... Pelo menos é mais fácil que matar no chinelo.
Aliás, sabe se existe diferença entre chinelo e chinela? Sim, eu sei que chinela não é a fêmea do chinelo e que eles não acasalam para formar chinelinhos.
Acho que vou comprar outro pedaço de bolo pra Dra Acre hoje... Nah, pensando bem, melhor controlar o orçamento, reformulando: acho que vou roubar umas balinhas pra Dra Acre hoje. Não... Isso também vai dar muito trabalho. Vou só arrumar umas folhas de papel na creche e fazer um desenho bem bonito, um origami de flor ou algo assim. Algo me diz que ela vai precisar de um presente bonitinho hoje.
E esse algo é o Agente Chihuahua ter sido dado como morto numa missão. Ela deve ficar sabendo hoje a qualquer momento.
Fofocas correm rápido. E nessa eu acredito com segurança.
Bem, não "acredito" na parte do "em missão", mas acredito que ele morreu. Agora, você há de concordar, a ordem dos eventos "chamado pra sala do chefe"-"sair numa missão indefinida sem nem se despedir"-"ser dado como morto" é meio suspeita. Ou pode ser só uma grande coincidência, vai saber?
Estou preocupado com minhas rãs... Mal as libertei e elas já podem ser ameaçadas pela raiva da Dra Acre! Vai que as coisas dela tem algum efeito colateral em anfíbios? Alguns monstros têm respiração cutânea igual a elas (a minoria, mas têm), e se ela se focou nessa característica? Minhas rãs morreriam asfixiadas? Isso não pode acontecer!
Por isso eu vou fazer um belo cartão para aplacar um pouco o impacto da notícia. Vejamos... Como se faz um cartão de "sinto muito pelo seu namorado ter morrido sob circunstâncias suspeitas numa guerra, por favor não desconte nas minhas rãs" sem deixar a pessoa com raiva de você?
A última coisa que eu quero é virar o alvo de toda essa negatividade!
Enfim, esses são basicamente todos os meus planos pra hoje.
Eu sei, nada muito agitado, certo?
Incrivelmente, eu raramente faço grandes planos, mas algo inesperado sempre acontece... Como quando eu fui porteiro. Foi bem inesperado.
Sério, o emprego em si foi muito inesperado. Eu com certeza não esperava que quisessem um porteiro para o prédio!
Mas acho que já te contei isso, não? A porta automática?
Mesmo assim, se quiser ouvir, só vou fazer meu cartãozinho mais tarde.
Acho melhor dar um tempo pra garantir que ela vai absorver bem a notícia e evitar qualquer explosão de raiva direcionada a mim.
Então:
"Foi logo depois do meu breve período como agente de campo.
É, aquele que eu aprendi muito mais geografia do que eu pretendia.
O pessoal do RH já tinha tentado (sem sucesso) me encaixar em umas vinte posições ou mais. Acho que eles estavam ficando sem muitas ideias.
Então eles simplesmente me disseram pra ser o novo "porteiro" do prédio e passar o dia bem quietinho ao lado da porta, sorrindo, acenando e fim.
Nem a porta eu tinha que abrir!
Nunca me senti tanto um pinguim do filme Madagascar...
Sorria, acene, acene, sorria.
Eu quase senti saudades de estudar geografia em ambientes potencialmente perigosos sob a guarda do Capitão.
Enfim, acho que essa foi a única vez que eu passei mais de dois dias seguidos usando roupas "decentes". E nem precisei roubar um terno do Valdimir/Vangladesh/Verônimo, me arrumaram um! Era meio que "uniforme"... Era meio esquisito, se quer minha opinião. Tinha chapéu e tudo o mais. E era vermelho! Por que um uniforme tem que ser vermelho?
Eu tenho uma teoria de que era pra facilitar ficarem de olho em mim... Mas vamos deixar teorias conspiratórias para depois.
Voltando ao tema: ...Qual era o tema mesmo? Existia um tema?
Ah... Acho que o tema (se existia) tinha algo a ver com surpresas e coisas inesperadas, então:
Meu motivo de demissão com certeza foi inesperado!
Eu estava ficando entediado, sabe? Aparecer todo dia, fazer uma imitação de estátua amigável, nem chegar a tocar a porta, ficar com a cara doendo pelo sorriso plástico, repetir tudo depois... E eu sabia que nem precisavam de mim ali!
E eu nem podia sair como na vez da garagem (quando eu fui manobrista, lembra?) porque ficavam de olho em mim lá.
Por isso um dia eu decidi simplesmente vestir algo um pouco diferente para o "trabalho"... E, eu garanto, era muito melhor que aquele uniformezinho de porteiro.
O que eu usei? Bem, no primeiro dia, fui de estátua.
Isso aí, me pintei de cinza, coloquei uma roupa da mesma cor e fiquei bem paradinho ao lado da porta. Ora, vamos lá, se eu já era praticamente uma estátua, por que não fazer isso oficial?
Além do mais, ficou bem mais divertido assim. Eu ficava bem parado e, sempre que dava, assustava quem passava perto dando um grito do nada! Também ganhei uns trocados como 'estátua humana'. Ideia divertida e lucrativa!
No segundo dia, fui de mímico.
Também foi muito legal. Me prendi numa caixa invisível, andei contra o vento, imitei pessoas... E ganhei mais uns trocados. Essa coisa de virar estátua/decoração perto da porta estava se mostrando muito rentável!
No terceiro dia, fui de palhaço.
Eu sei, não mudou quase nada, era praticamente meu eu do dia a dia... Mas, dessa vez, eu tinha um nariz vermelho e uma roupa colorida! (Usei o uniforme de porteiro mesmo porque, convenhamos, aquela roupa já parecia de palhaço mesmo)
Fiz alguns truques, quase não consegui fazer ninguém rir (só quando tropecei nem tão propositalmente numa casca de banana e dei de cara com uma torta. Doeu, mas teve gente que riu, então ri também. Finalmente fiz meu trabalho de palhaço direito!), fiz uns bichinhos de balão... Não ganhei tanto dessa vez.
No quarto dia, eu já estava ficando sem ideias de fantasia. Estátua viva, mímico, palhaço... O que podia ser legal para continuar a onda temática? Apelei para ir de super herói e passei o dia tentando citar bordões heroicos e fazendo poses exageradas. Caí quando tentei fazer a pose de 'voar', me inclinei demais... Tirando isso, sem maiores danos.
Eu estava seriamente cogitando a ideia de ir vestido como uma pizza quando fui demitido. Francamente, fiquei aliviado. Minhas ideias de diversão eram cada vez menos divertidas e menos rentáveis também...
Por que eu fui demitido? Ah isso é fácil, vejamos... Quando inventei de ser estátua viva, não esperei a tinta secar completamente e acabei manchando algumas coisas, e assustar as pessoas desavisadas realmente não me ajudou, acabei com várias reclamações. Como mímico, eu irritei ainda mais gente por ficar imitando o pessoal (aposto que tem um armário inteiro no RH de reclamações contra a minha pessoa) e, bem, uma das minhas mímicas deu bem errado e eu acabei trincando a porta. Não pergunte, simplesmente aconteceu e eu ainda caí por cima do meu ombro! Pelo menos não foi nada grave... Ah, e, claro, como palhaço, eu tentei fazer malabarismo com tomates que acabou bem mal (ternos de gente importante manchados, porta suja, entrada cheia de molho de tomate...), além de continuar sendo terrivelmente irritante.
Em resumo, ser terrivelmente irritante é algo que pode te fazer ser demitido. Só perde para assistir Big Brother.
Depois que eu fui despedido como porteiro (da porta automática... Até hoje não levo essa história a sério, e olha que fui em que vivi!) e passei um tempo considerável só vadiando pelo prédio sem nada pra fazer. Não ter um emprego é ainda mais chato que ter um emprego!
O pessoal do RH passou um tempo bem mais do que eu esperava pensando no que fazer comigo e, por fim, decidiram criar uma função nova (de novo) só pra mim. Aí montaram um balcão de informações e virei balconista.
Prefiro 'Cara do balcão'..."
Sei que não é uma grande história, mas me põe quase onde estou hoje em dia, então deve ser uma boa explicação!
Digo "quase" porque ainda teve uns probleminhas com o balcão... Mais especificamente, onde colocá-lo. Não, eu não comecei no fim do mundo que é o quarto andar, comecei no térreo perto do recepcionista.
Falando de recepcionista, eu te falei da antiga recepcionista que foi afastada por não manter a comida no estômago, certo? Tenho quase certeza que comentei isso... Bem, se não, você fica sabendo agora. Enfim, não fui muito com a cara do substituto dela, que, considerando a situação, provavelmente vai virar titular. Sei lá, o cara é meio esquisito... Ou talvez seja impressão minha.
Não que eu possa chamar alguém de esquisito, certo?
Mas, ei, olha a hora, acho que já posso fazer uma visita pra Dra Acre sem correr o risco de ser assassinado!
Vão fazer um enterro pro Agente Chihuahua. Sempre fazem. Ou quase sempre. Não sei se vou... Essas cerimônias sempre são tão chatas, ainda mais com o caixão fechado, e eu duvido que muita gente vá, o Agente Chihuahua não era exatamente popular. A Dra Acre deve ir, claro, mas duvido muito que seria inteligente da minha parte acompanhá-la, nem eu sou sem noção a esse ponto!
Bem, vou indo, até mais e nos vemos por aí, eu espero.
Valeu mesmo pelo papo, faz o tempo passar voando!
Bye.
Fale com o autor