Histórias do J. Abutre - Contos da Madrugada
1 Desmaios
Subitamente retorno a mim, sentindo meu corpo contra o chão frio e o arrependimento pela noite anterior. A dor agonizante, quase insuportável, na lateral de minha cabeça me atrapalha o raciocínio. Abro os olhos com lentidão, talvez por temer o que irei encontrar naquele quarto.
Ainda deitado, percebo um anjo me olhando do alto, encostado no canto da parede. É tão belo... Seus cabelos longos e dourados me tocam como uma cachoeira de ouro, e seus olhos castanho-claros, mais profundos que quaisquer de meus ociosos pensamentos, absorvem o que resta de minha vida. Contudo, seus lábios rosados despertam-me com intensidade.
Em seu rosto, estampado naqueles lábios, vejo um traço de deboche, um ar de superioridade que me enche de ódio e desejo. Quero mostrar como sou superior, apesar de saber que o anjo magnífico encontra-se em outro plano, inatingível e desconhecido. Ela me provoca, aproximando-se e permitindo que beije sua boca curvilínea num ato irracional, instintivo.
A brutalidade do beijo faz nossos lábios doerem, mas quero cada vez mais, quero sentir sua alma. Assim, meus braços a envolvem num abraço mortal, impedindo-a de se soltar, enquanto sinto um gosto de sangue, não sei se meu ou dela, em meio aos movimentos cortantes. É um misto de desejo, medo e dor.
Essa dor ultrapassa meu controle, tomando o pouco do sentido e das forças restantes. O chão sobre meus pés começa a cair, talvez o mundo tenha começado a cair. Meus olhos se fecham novamente e encontram a inevitável escuridão. Escuridão... Posso sentir sua alma.
Notas finais
Eu espero...
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