Histórias do Desapego
11 5.
Notas iniciais
A campainha do apartamento de Valquíria tocou. Era um horário estranho para isso, onze da noite de uma terça-feira Ela já estava de pijama, mas foi até a porta e a abriu, revelando a dona de longos cabelos ruivos.
“Você pode me explicar o que aconteceu?”
Valquíria já sabia do que se tratava, deu espaço para que a amiga entrasse. Trancou a porta em seguida, começando a contar toda a história do seu ponto de vista, ocultando a parte em que chorara no ônibus.
“Você deve estar ofendida.” Pontuou a ruiva
“Sim, mas não é essa a questão.”
“Claro que não.” Ela parecia irritada. Franzia o cenho, mirava Valquíria e colocava o rosto entre as mãos, balançando a cabeça.
***
“Vamos, vai ser divertido!” A garota de olhos verdes sorriu, reforçando o convite.
“Não.” Respondeu Valquíria. “Tenho muito trabalho atrasado. Vai você.”
***
Valquíria passou a noite de sexta-feira juntando as coisas de Demas que estavam em sua casa. Cabiam todas em uma caixa grande, ela pediria para que sua amiga entregasse para ela. Desde o final de semana, não falara com Demas. Havia se pegado lendo algumas conversas dos dois pelo celular, sorrindo. Também percebera o quanto queria mandar para ele apenas um “oi”, mas não o fizera.
Vez ou outra, a voz dele ecoava em sua mente. “É uma covarde!” ela ouvia. Estúpido, ela tinha coragem suficiente para terminar um relacionamento que não a satisfazia. Quantas mulheres conseguiam fazer isso? Mas, diferente de tantas mulheres, Valquíria já havia terminado vários relacionamentos.
Se arrumava já para dormir. Quando já estava deitada, pegando no sono, seu celular tocou. Não viu quem era, apenas atendeu:
“Alô?”
“Val, você vai ter que me ouvir.” Era a voz de Demas. Estava bêbado, ela reconhecia o tom de embriaguez em sua voz.
“Eu não quero brigar, Demas.”
“Não é pra brigar. Eu preciso de você, Val...”
“Demas, pra quem você tá ligando?” Valquíria pode reconhecer a voz grave e rouca do amigo do outro lado da linha.
“Eu só queria...”
“Demas! Desliga essa porra!” O amigo dele gritava do outro lado do telefone. “Você merece muito mais que essa maluca, cara!” Ela percebeu uma movimentação do outro lado da linha.
“Não! Sai daqui! Deixa eu falar com ela!” Demas gritava.
“Demas? Você tá me ouvindo ainda?” ela chamava.
“Devolve! Devolve meu celular!” ela ouviu Demas pedir antes da ligação acabar.
Valquíria pensou que ainda havia uma esperança. “Esperança de quê?” Ela se corrigiu. Valquíria não sentia falta de ninguém.
***
“Ele perguntou se as coisas podem continuar aí por um tempo, porque tá sem espaço.” Valquíria lia a mensagem de sua amiga ruiva que chegara no celular.
“Tudo bem. Quanto tempo você acha?”
“Ele não disse. Tá meio calado, imagine o porquê.”
“Como ele está?”
“Pior que você, tenha certeza. E tem alguma coisa que ele não quer me falar.”
“Espero que ele fique bem.”
***
Passaram-se mais duas semanas. De ressaca, pela manhã, Valquíria se encontrou no chão. Estava encostada em sua cama, com a caixa de coisas de Demas ao seu lado e uma camiseta velha dele em suas mãos.
Devia se distrair. Guardou a camiseta na caixa, se levantou e procurou por um remédio para sua dor de cabeça. Os tomou. Talvez fizesse bem em sair, andar pelo parque perto de sua casa. Foi o que ela fez.
Percebeu ali um erro. Passou por onde ficaram no ano novo, o que a fizera lembrar algo. Ela caminhava apressada e séria, porém seus olhos denunciavam tristeza. Tentou se recompor, respirando fundo, o ato foi seguido de um suspiro, de uma primeira lágrima que escorria e de um pequeno gemido. As lágrimas que ela teimava em tirar do rosto encharcavam suas mãos.
Seu telefone tocou. Péssima hora, era Demas. Respirou fundo mais uma vez, se sentou em um banco do parque. Engoliu um soluço causado pelo choro e atendeu.
“Oi.”
“Oi.” Ele parecia nervoso. “Tudo bem?”
“É...” Ela tentava disfarçar a voz chorosa. “E você?”
“Indo.” Ele fez uma pausa. “Eu vou passar aí na cidade semana que vem. Você pode separar minhas coisas?”
“Claro. Mais alguma coisa?” Ela deixou a voz vacilar.
“Você está chorando?”
“Não, estou apenas resfriada.” Ela inventou. Bateu na própria testa, se envergonhando do que tinha falado.
“Então tá.” Ele pareceu desconfiar. “Espero que fique bem.”
“Te desejo o mesmo.”
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