Histórias do Desapego
16 4.
Notas iniciais
Valquíria estava no bar no alto da colina. Observou as estrelas antes de entrar, sentiu falta de saber o nome de ao menos uma delas. Estava bem com ela mesma, dessa vez de verdade. Esperava por Demas em paz, não pensava no futuro.
Encontrou Cris no balcão, ele parecia mais contente que da ultima vez. Cumprimentaram-se, sorrindo.
“E Demas?”
“Ele volta daqui seis meses. Até lá, continuamos com nosso relacionamento aberto.”
“Em aberto? Não decidiram o que vão fazer?” A música alta o atrapalhava de ouvir.
“Também. Mas eu disse ‘aberto’, mesmo.” Ele acenou com a cabeça, deu um sorriso para Valquíria. “E você?”
“Superei mais rápido que imaginava, pra ser sincero.” Ele se apoiou no balcão. “Eu era idiota demais, não quero mais isso pra minha vida.”
Enquanto conversavam, ficavam bêbados. Foram para os fundos do bar, numa área para fumantes, onde havia uma varanda e Cris acendia um cigarro. Filosofavam gratuitamente e contavam de feitos em suas vidas.
“Uma vez eu fui no show do The Hives.” Ele contava.
“Sério?” Valquíria sorriu “Eu gosto de poucas músicas deles.”
“Eu também gosto de poucas. Fui pra acompanhar minha irmã, que era adolescente na época. Achei que ia me dar bem, mas não tinha como você tentar ficar com uma garota que só conseguia gritar e chorar por causa da banda.” Valquíria ria, o que fazia Cris sorrir também.
***
“Gente inteligente é muito sexy.” Valquíria dizia.
“Sim. E mil vezes alguém que desconhece algumas coisas, mas conhece outras a fundo, do que quem conhece tudo, mas superficialmente.” Ele dizia.
“Exatamente!” Ela se surpreendia.
“Porque se tem uma coisa que é chata é quando você quer puxar assunto com alguém e tudo o que ela fala é mais do mesmo.”
“Odeio gente assim, parece que todas as opiniões foram copiadas da internet. A pessoa...”
“não é real.” Ele completou em uníssono. Ela ficou impressionada, ele também. Fizeram pouco silêncio.
“Você costuma permitir se apaixonar o tempo todo?” ela perguntou.
“Não, eu tenho medo.” Ele não desgrudava seu olhar do dela.
“Eu também tinha.” Ficaram quietos, se observando.
“E como você parou de ter medo?” ele falava mais baixo do que antes.
“Parei de ser idiota com meus sentimentos.”
“Acha que eu sou idiota?”
“Não. Por isso mesmo acho que você devia se apaixonar. É fascinante.”
***
Era o fim do dia de uma quarta-feira quando Valquíria e Cris puderam se encontrar mais uma vez. Marcaram em um café no centro da cidade, em frente a loja de equipamentos de esportes de aventura em que Cris trabalhava.
“Eu pensei sobre o que você me disse.” Ele dizia.
“Sobre se apaixonar?”
“Sim.” Ele parecia um pouco tímido. “Eu andei pensando se eu conhecia alguém que eu gostaria de sair e tudo mais.” Ele parou de falar, mexia o café que pediu.
“E pensou?” Ela ficou curiosa.
“Sim, mas... Eu não queria a escolher, mas meio que parte de mim já a escolheu.” Ele tentava sorrir.
“A gente não controla o tempo todo por quem se apaixona. Mas se você acha que não daria certo, tente não se permitir.” Ela ria “Eu não sou a melhor pessoa pra te dizer o que fazer, desculpe. Mas por que não essa pessoa?”
“Ela namora, acho que ela não me escolheria. Entende?”
“Ela está em um relacionamento tradicional, então?”
“Não, mas acho que não sei muito sobre o relacionamento dela e quanto aberta ela está pra mim.” Ele parecia triste, continuava mexendo o café.
“É outra lésbica?” Valquíria segurava a risada.
“Acho que ela é bi.” Ele sorriu. “Mas se relaciona com um cara atualmente.”
“Acho que você devia descobrir mais sobre o relacionamento dela. Quem sabe estão em um relacionamento aberto, ou coisa assim. Você daí poderia tentar.”
Ele fez um gesto de concordância engraçado com a cabeça. Finalmente bebeu o café e respirou fundo, sentindo o aroma. Olhou Valquíria nos olhos por um segundo.
“E você e Demas, como estão?”
“Estamos bem. Vai me trazer um monte de livros de arte da França.” Ela sorria. “Conheceu uma moça na livraria, acho que vai sair com ela.” Terminou de beber que pedira.
“E você?” Ele se assustou.
“Eu o que?” Ela quis saber.
“Não quer matar ele ou coisa assim?”
“Não!” Ela riu. “Eu te disse, nosso relacionamento é aberto. Ele pode sair com quem quiser.”
“E você também?”
“Eu também.” Ela afirmou. Fitou o nada por um momento, franzia o cenho, pensativa. Encarou Cris, como se finalmente conseguisse processar todas as dicas. Ele riu.
“Você demorou.” Ele confirmou as suspeitas dela. “Não gosto muito de lugar fechado. Quer dar uma volta?”
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