Notas iniciais
Se você chegou até aqui, obrigada.

Era terça-feira à noite. Valquíria havia falado com Demas durante a tarde. As notícias eram boas e ruins ao mesmo tempo. Gostaram tanto dele na França que queriam que ele ficasse um pouco mais. Ele não podia negar a oportunidade, mas sentia falta de Valquíria. Se ele aceitasse, ficaria mais seis meses por lá.

“E você vai ficar?”

“Ainda não sei, mas acho que sim.”

Valquíria não gostara da notícia, sentia que precisava relaxar de alguma forma. Pegou um casaco e saiu de casa. A chuva a surpreendeu e a fez entrar em um pequeno bar. Sentou-se ao balcão e pediu uísque.

“Dia ruim?” O barman perguntou.

“Sim.” Ela respondeu.

Enquanto bebericava o uísque, um homem também entrou no bar. Passava a mão nos cabelos molhados, se sentou ao lado de Valquíria e deixou seu casaco que o protegera da chuva em cima do balcão.

“Uísque?” o barman perguntou.

“Sim, por favor.” O homem respondeu.

“Dia ruim?”

“Sim.”

Valquíria olhou para o homem ao seu lado, parecia simpático, mas não o dirigiu a palavra. Bebericavam o uísque em silêncio quando uma música querida por Valquíria começou a tocar no rádio. Ela cantava baixinho enquanto bebia.

“Gosto dessa música.” O homem disse se virando para Valquíria.

“É, eu também.” Ela deu um sorriso tímido.

“Eu te conheço. Você vai naquele bar do alto da colina, não vai?”

“É. Vou sim. Sou Valquíria.” Ela lhe estendeu a mão.

“Cris.” Ele respondeu apertando sua mão. “Acho que você saiu com uma amiga minha.”

“No fim do ano passado?” ela perguntou.

“Sim.”

Ela o analisou. O rosto dele era familiar, talvez tivesse o visto mesmo por lá. Acenou positivamente com a cabeça e voltou a bebericar seu uísque.

“Ela está bem?” Valquíria quis saber.

“Sim. Tá indo morar junto com uma menina agora.” Ele respondeu. Terminou o uísque e pediu mais uma dose.

“Que bom que ela conseguiu o que queria.”

“A menina é minha ex-namorada.” Ele contou. Parecia que estava aliviado por contar para alguém. “Eu fiquei sabendo hoje.”

“Vocês já tinham terminado?”

“Não.” Ele respondeu, parecia se segurar para não chorar. “O chato foi ela não ter me contado nada, sabe?” Ele suspirou, começando outra dose de uísque. “Pensei que ela confiasse em mim. Queria saber o que fiz de errado.”

Valquíria fez silêncio. Cris parecia bem abalado, triste e com raiva.

“Você já deve ter me visto com um cara.”

“Demas, não é? Faz tempo que não o vejo.” Ele puxou na memória. Ela maneava a cabeça.

“Ele está na França por causa de um mestrado. Hoje ele me disse que talvez fique por lá por mais um tempo.” Ela terminou o uísque dela.

“Há quanto tempo que ele está fora?”

“Vão fazer seis meses.” Ela suspirou. “Talvez fique mais seis. Talvez não volte mais.”

“Vocês ficaram juntos por quanto tempo?”

“Você diz, antes de ele ir embora?” Ele fez que sim com a cabeça. “Mais ou menos seis meses.” Ela o encarou, ele já olhava para ela havia um tempo. “Ele me ajudou bastante, queria poder fazer algo em troca.”

“Sei como é. Nesse ultimo relacionamento, eu sentia que já não a amava mais. E que ela não me amava também. Mas ela fez tanto por mim, eu sentia que tinha uma dívida.” Ele torceu a boca, forçou um meio sorriso.

“É tão difícil assim terminar?”

“É difícil abrir mão do que é cômodo. Lidar com ela era sempre tão fácil.” Ele refletiu por um segundo. “Na verdade não, eu só concordava mesmo e ficava tudo bem.” Valquíria riu.

“Desculpe.”

“Tudo bem. É bom saber que sou engraçado pra alguém ainda.” Ele sorriu.

Valquíria conversara bastante com Cris. Ele gostava de viajar, de acampar, de conhecer lugares novos. A contou que sempre ia ao bar em que estavam. Quando a chuva passou, se despediram. Valquíria foi embora enquanto ele a observava sair.

***

“Tá brava comigo?” A mensagem de Demas chegou a Valquíria.

“Não.” Ela respondeu suspirando “Só é meio difícil aceitar que quem eu estava esperando não vem mais.”

“São por mais seis meses. Eu vou voltar.”

“Duvido que você não considere continuar aí depois dos seis meses.”

“Considerei, mas vou voltar.”

“Eu não pretendo sair daqui. Você sempre poderá contar com minha amizade.” Lhe custava dizer isso a Demas. “Sabe que foi quem eu mais amei.”

“Já entendi.” ele respondeu. Até podia imaginar a voz dele dizendo. “Você está terminando.”

“Até agora eu passei meses esperando por você, me preparando pra encaixotar minhas coisas e irmos juntos pra algum lugar. Só acho que não dá mais pra pensar nisso por enquanto.” Ela deixara uma lágrima escapar, a limpou antes de continuar. “Talvez estejamos um pouco incertos.”

“Você acha que eu não te amo mais?” A mensagem acertou Valquíria. Ela não respondeu, mas ele mandou outra mensagem. “Porque eu amo. Te amo muito e, se precisar de provas, eu vou pra aí agora mesmo!”

“Deixa de ser maluco.” Ela respondeu. “Mas talvez o que é melhor pra você não é o que nos une.”

“Se o problema é o que é melhor pra mim, pode ficar tranquila que eu sei o que escolher. E eu volto depois desses seis meses.” Ele parecia muito certo. “Quanto a morarmos juntos, decidimos quando eu chegar.” Ela respirou fundo. Ao menos ele parecia ser sensato. Somando estes seis meses, completariam um ano todo sem se ver, como ela aguentaria? “Tudo bem?” ele perguntou.

“Eu te amo.” Ela respondeu.

Notas finais
Não, ainda não acabou.