Valquíria tinha 23 anos e estava neste relacionamento fazia pouco tempo. Seu acompanhante a achava muito difícil de lidar, como ele achava quase qualquer coisa. Ele já perdia a conta de doses de uísque que tomara. Observava ela conversar empolgada com uma amiga ruiva que o mesmo achava muito bonita. Resolveu ir até o banheiro, Valquíria viu ele se afastar.

“E esse cara?” a amiga perguntou

“Amigo de um colega de trabalho, meio confuso de explicar.” Valquíria disse com um pequeno sorriso nos lábios

“Mas vocês não estão juntos há muito tempo, né? Eu não tinha visto vocês juntos antes.”

“Não, vai fazer um mês que estamos saindo.”

Uma figura masculina se aproximou por trás da amiga de Valquíria. A mesma se virou e sorriu, o cumprimentando.

“Esse é o Demas. Essa é a Val. Ele é meu primo, te falei que ele viria?”

Valquíria falou pouco tempo com Demas, mas percebeu vários assuntos em comum. Conversavam animadamente enquanto a figura ruiva fora comprar um drinque. Tinham de se aproximar para que se ouvissem, algumas vezes até aproximar suas bocas das orelhas do outro. Aproximavam-se, falavam algo e riam quando se afastavam. Não demorou muito até que o atual affair de Valquíria chegasse, com outro copo de uísque e cada vez mais bêbado. Demas o cumprimentou quando ela o apresentou, mas o acompanhante de Valquíria o ignorou. Continuaram conversando, mas não demorou pra que Demas percebesse que não era uma boa ideia ficar ali e sair, dando uma desculpa.

“Eu sabia que isso ia acontecer” Valquíria ouvia de seu acompanhante, que pronunciava as palavras já com certa dificuldade.

“O que ia acontecer?” ela perguntou, já imaginando uma resposta ciumenta.

“Você já tem outro cara te esperando. Eu sabia que ia acontecer.” Ele soluçava, se aproximou de Valquíria cambaleando “Eu já estava pronto pra isso.” O hálito quente e o cheiro de suor e álcool era o que menos incomodava Valquíria “Ou você acha o que? Que todo mundo já não sabe o que você é?” Ele ria.

Valquíria não conseguiu responder nada do que vinha daquele sujeito bêbado e fedorento a sua frente. Deu alguns passos para trás e já se afastava dele, quando ele a segurou pelo braço.

“Me solta.” Valquíria gritou.

“Você vai embora sem que eu te pague?” Ele dizia, caçando a carteira nos bolsos, em vão, pois havia a esquecido no bar “Você deve ter gostado muito mesmo” Ele continuava rindo.

Valquíria já havia batido em homens antes. Diferente da maioria das mulheres, ela dava socos. Mesmo bêbado, seu acompanhante tinha alguns reflexos. Não desviou do golpe, mas conseguiu segurar o punho da mão que lhe acertara a face, apertando o braço dela e a fazendo soltar um gemido de dor. Agora, segurava os dois braços de Valquíria. A amiga, que voltava do bar, se colocou entre os dois, os separando e deixando que a amiga corresse para a saída.

***

Valquíria observava parte da cidade sentada em um gramado no alto daquela colina onde ficava o bar. Seus braços doíam, uma marca ficaria em seu pulso esquerdo.

“Eu vi o que houve lá dentro. Você está bem?” Ela ouviu uma voz masculina dizer atrás dela. Era Demas.

“Agora estou. Obrigada.”

“Pensei que eu devia me desculpar pelo que aconteceu.”

“Ah, não. Aquele cara era um idiota, aconteceria algo assim cedo ou tarde.” Ela deu um sorriso tímido.

“É, foi o que pensei.” Ele suspirou, levando a mão a nuca e esfregando seus cabelos. “Acho que eu já vou, então.”

“Até mais, Demas.”

Ele deu alguns passos para se afastar, mas deu meia volta e parou ao lado de Valquíria.

“Minha prima está saindo com um cara lá dentro, eu não conheço mais ninguém.” Ele sorriu sem graça “Você se incomoda se eu ficar aqui?”

“Não.” Valquíria queria sorrir, gostara de Demas, mas não conseguia.

“Ela me disse que você desenha...”

***

“Meu primo gostou de você.” a ruiva sorria

“Também gostei dele, é divertido. Você não devia ter o deixado sozinho, coitado.” Valquíria comentava despretensiosa “Mas com quem você saiu?”

“Quando?”

“Anteontem, no bar.”

“Eu não saí com ninguém, fiquei conversando com o pessoal de sempre.” Ela franzia o cenho, estranhando a pergunta de Valquíria “Porque acha que saí com alguém?”

“Nada.” Valquíria mirou os próprios pés. Um sorriso se fez em seus lábios “Nada, não.”