Valquíria dormia, estava nua. Demas a olhava, admirando as marcas que ele a deixara em suas coxas e seios. Aconchegou-se ao lado dela, a abraçando e fechando os olhos.

“Demas.” Ela murmurou.

“Oi.” Ele respondeu antes de beijar seu pescoço.

Ela não respondeu, apenas o abraçou forte e se arrumou para dormir de novo.

***

Demas acordou sozinho, Valquíria fora trabalhar. Observava o apartamento dela, razoavelmente bagunçado. O planisfério estava na parede, ele o alinhara com a noite que faria naquela data. Observava as coisas de Valquíria, havia livros na estante que ele nunca parara para analisar. Alguns eram sobre arte e design, pareciam que foram lidos várias vezes. Havia um muito velho, datado de dez anos atrás, sobre astrologia. Demas gargalhou gostosamente quando leu o título. Signos do zodíaco, energia dos astros... que palhaçada, Valquíria. Havia mais alguns livros sobre tribos africanas, cultura exótica e povos isolados. Valquíria parecia querer viajar. No topo da estante, um livro parecia ser o mais novo, sobre astronomia para leigos. Sorriu em perceber que havia causado esse interesse em alguém.

Durante a tarde, tratou de cuidar de algumas burocracias. Depois de resolver o que poderia pelo computador, passou o tempo sozinho. Era estranho estar ali sem Valquíria. Ficou pensando em como gostava do lugar por ter apenas dois cômodos, em como a sala e o quarto juntos davam certo, em como tudo ali tinha a cara de Valquíria. Olhou para a janela, repensando os bons momentos que passaram juntos. Estava feliz em viajar, mas custava deixar Valquíria, principalmente depois das semanas anteriores. Ela dissera que o amava. Não esperaria isso de Valquíria quando ele a disse isso pela primeira vez. De certa forma, estava feliz pela crise que ela teve e por terem terminado por aquelas semanas.

A caixa em que ela deixara suas coisas estava no canto do quarto, ele acabara a trazendo de volta sem nem abrir. Talvez fosse hora de tirar as coisas dali e já escolher as que levaria na mala. No fundo da caixa, se surpreendeu com uma coisa. Havia um papel dobrado em quatro. Algo estava escrito, Demas lia.

“Não sei se tive coragem de te dizer algumas coisas quando você esteve aqui, mas não quero que continue sem saber.

“Eu estive sozinha nessas ultimas semanas, eu não quis sair ou ver ninguém. O tempo todo eu pensava em como você me fazia falta, em como eu havia sido burra em terminar com você daquele jeito. Você tinha razão, eu sou uma covarde. E cheia de medo, me desesperei quando percebi que você significa muito para mim. Quando você me ligou pedindo suas coisas, eu estava chorando sim. Não quero ter medo de mostrar o que sinto mais. Me permiti apaixonar por você e agora te amo, Demas.

“Obrigada por ter ficado comigo durante esse tempo.”

Uma lágrima escorria pelo canto dos olhos de Demas. A porta do apartamento se abriu, Valquíria chegara.

“Ah, não, não leia isso!” Ela estava vermelha, jogara a bolsa no chão e corria até onde Demas estava, tentando tirar o papel da mão dele. Ele se levantou, erguendo o bilhete o máximo que podia.

“Para com isso!” Ele ria.

“Não tem nada aí que você não saiba, dá pra mim!” Seu rosto ruborizava, ela se esticava para tentar pegar o papel. Ele dava passos para trás, mas foi encurralado pela cama. Valquíria tentou se esticar ainda mais, mas foi laçada por um braço de Demas, que se deixou cair na cama, fazendo com que ela caísse sobre ele.

“Eu já li, não adianta mais.”

Valquíria torceu a boca, tentava segurar uma risadinha nervosa. Percebeu no canto dos olhos de Demas o rastro úmido que a lágrima deixara.

“Você chorou?” Ela sorriu, mas ainda estava com vergonha.

“Tá ficando difícil de ir embora.”

“Você pode voltar pra cá.” Ela disse, deslizando seu rosto pelo dele.

“Acho que meu apartamento é melhor pra nós dois.”

Valquíria se assustou. Nunca dera uma indireta tão eficiente.

“Tem certeza?” Ela sorria. “Pode ser um pouco precipitado.”

“Eu quero tentar.”

***

“Então vamos rever.” ela dizia enquanto entravam no aeroporto e iam pra fila do check-in naquela terça-feira “Chile por dois meses. E depois?”

“Havaí! Um mês todinho!” Ele comemorava.

“Não posso acreditar que você vai pro Havaí a estudo.” Ela ria.

“Você viu aquela foto do telescópio deles que te mostrei! Faz aquele que ficou na sua casa parecer uma lunetinha sem graça. Que é o que ele é mesmo.” Ele estava empolgado, ela suspirou.

“E depois, o que mais?”

“França, três meses de frio na França. Felizmente a primavera já estará chegando.”

“E depois de volta pra cá?”

“De volta pra casa dos seus braços.”

Conversaram durante a fila, se acomodaram nas várias cadeiras para espera até que ele precisasse embarcar. O avião não atrasou, infelizmente. A mãe de Demas, junto do pai dele, a tia e a prima de cabelo ruivo, vieram se despedir também. Os dois amigos chegaram correndo, atrasados. Ele abraçou um por um e finalmente chegou em Valquíria. Despediram-se com um beijo demorado e um abraço que se prolongou mais ainda.

“Depois me conta das chilenas e dos chilenos.” Valquíria disse.

“Vou te contar tudo.”

“Não tudo, senão você fica sem o que contar quando chegar.”

Sorriram um pro outro, deram mais um beijo. Ele pegou suas malas, deu um sorriso choroso e se foi, acenando para todos.