No dia seguinte, Valquíria assistira a um filme sozinha. Verificava o celular de tempos em tempos, mas apenas no fim do dia uma mensagem chegou para ela. Era Demas, puxando um assunto. Trocaram mensagens por alguns minutos.
“Gostei de ter passado esse tempo com você.” Ele dizia.
“Também gostei.”
“A gente vai poder repetir? Eu sei que você não quer nada sério, mas pra mim tudo bem.”
“Eu não vejo por que não.” Valquíria sorriu, olhava sua marca na coxa. “Você já tem previsão de quando volta?”
“No fim do mês, pra virar o ano.”
***
“Obrigado por me deixar ficar aqui. Vai ficar apertado mesmo na casa dos meus tios.” Demas entrava no pequeno apartamento de Valquíria, carregava uma mochila nas costas aparentemente pesada e uma bolsa nas mãos.
“Não foi nada.” Ela sorriu. “Pode colocar suas coisas onde quiser, nada tem lugar aqui mesmo.”
O apartamento não era tão bagunçado quanto ela dizia. Ele deixou a mochila ao lado de uma estante com livros e abriu a pequena bolsa, revelando um telescópio.
“Você vai trabalhar hoje?”
“Não.” Ele riu, balançando a cabeça “Trouxe pra você ver mesmo.” Ela sorriu como resposta “E onde vamos passar a virada?”
Estavam em um pátio no meio do parque próximo a casa de Valquíria. Muitos casais e grupos de amigos estavam sentados no chão, rindo e comendo o que trouxeram de casa. A contagem regressiva começou a ser gritada, todos ficaram de pé. Ao final da contagem, os fogos de artifício começaram a estourar. Demas e Valquíria se abraçaram, desejando um feliz ano novo aos dois. Logo o celular de Demas começara a tocar.
“Feliz ano novo pra você também!” Ele gritava ao celular. “Não, não to em casa!” E ria. “Vai se foder, cara!”
O celular de Valquíria tocou também, era a prima de Demas desejando um feliz ano novo. Ouviu uma voz feminina e mais madura do outro lado da linha.
“É a menina que está com Demas?”
“É sim, tia.”
Valquíria congelou, percebeu a movimentação do outro lado da linha.
“Alô. Valquíria, né?”
“Sim.”
“Muito obrigada por levar meu filho,” ela estava embriagada, claramente “tem mais espaço aqui na casa da minha irmã agora, posso transar com meu marido a vontade!” Valquíria não conseguiu segurar o riso.
“Pode contar comigo!” ela brincou.
“Espero que vocês tenham uma noite tão boa quanto a minha, mas eu duvido! Feliz ano novo, menina!”
“Feliz ano novo!”
A mãe de Demas desligou o celular. Valquíria não controlava a risada. Quando Demas finalmente desligou o celular, percebeu a gargalhada de Valquíria.
“O que foi?”
“Sua mãe é uma amor!”
***
Observavam as estrelas pelo telescópio posicionado à frente da janela de Valquíria. Demas o posicionava e Valquíria observava. Ele cortou um longo silêncio.
“E sua família?”
“O que tem eles?”
“Não vi você ligando pra ninguém e ninguém mais te ligou.”
“Eles me acham pervertida. Faz tempo que não nos falamos.” Demas pareceu triste. “Mandei uma mensagem para minha irmã. Só mantive contato com ela.”
“Ela não te acha pervertida?”
“Não. Já começa a passar pelos mesmos problemas que eu passei, inclusive.” Valquíria se afastou, sentou em sua cama. “É isso aí.”
“Não sente falta deles?”
“Não mais, eu acho.”
O silêncio se fez mais uma vez. Demas sentou ao lado de Valquíria na beira da cama. Mirou a janela, na lateral do quarto. A posição era perfeita.
“Vai dar pra ver o sol nascendo.”
Esperaram por alguns minutos, calados. Valquíria debruçou sua cabeça no ombro de Demas, que colocou a sua sobre a dela. O sol nasceu, era bonito, mas não como o era o ver se pondo.
“Sua mãe nos desejou uma noite tão boa quanto a dela, mas disse que duvidava.” Valquíria se lembrou, dando uma risadinha.
“Eu não sei se fico com vergonha por ela dizer uma coisa dessas ou se me sinto desafiado.” Demas ergueu a cabeça e olhou para Valquíria, correspondendo a risada.
“Ela parecia bêbada, com certeza a nossa manhã vai ser melhor que a ressaca.” Valquíria se levantou, se espreguiçava.
“É.” Ele abraçou os quadris de Valquíria, seu rosto estava na altura dos seios dela. “Mas não é desculpa pra fazer mal feito.” Ele sorriu, a olhando. Ela deu um sorriso malicioso em troca.
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