Histórias de outros universos - Terras Geladas
26 Memória VINTE E QUATRO
Notas iniciais
Ando até o outro grupo. Algumas garotas e um garoto. Um antigo namorado.
Eu realmente gostava dele. Gostava até descobrir que ele estava comigo por uma aposta.
Ele ri enquanto conta para as garotas o quanto eu parecia idiota em relação a ele.
As garotas riem de volta.
Apontam meus defeitos. Falam do modo que ando. Alegam ser um andar desengonçado.
Criam defeitos que não tenho, como ter a língua presa ou mau hálito.
Eu não tenho mau hálito. Escovo os dentes quatro vezes ao dia. Se bem que, desde que vim para este mundo estranho, não escovei uma única vez.
Não consigo sair.
Os sons se misturam.
Estou sendo obrigada a escutar tudo o que dizem.
Tapar os ouvidos não funciona. O som parece ir diretamente para minha cabeça.
É enlouquecedor.
As vozes.
As críticas.
As mentiras.
Minha cabeça começa a doer.
Sinto minhas mãos e pés formigarem.
Um gosto amargo na boca.
Alguma coisa escorre por meus olhos.
Passo a mão.
Olho.
Sangue. Lágrimas de sangue.
Caio sentada.
Encolho-me abraçada aos meus joelhos.
O barulho está aumentando.
Fica cada vez mais alto.
O barulho acaba.
Levanto o rosto.
Estou em casa.
Sim, estou em casa!
O sofá. A televisão. Os pequenos quadros com pinturas de frutas.
Grito por minha mãe e meu pai. Procuro-os no quarto e na cozinha.
Não os vejo.
O lugar começa a perder a cor. Assim como os alunos da escola a qual estudo, a casa parece um filme antigo.
Escuto um choro. Vem do meu quarto.
Talvez seja a mamãe e o papai. Eu não os procurei lá.
Entro.
Sou eu. Sentada sobre a cama e encolhida com os braços ao redor da perna.
Aproximo-me devagar.
Chamo seu nome.
É estranho chamar por mim mesma.
Ela, ou eu, não responde. Mantêm-se com a cabeça baixa.
Aproximo-me um pouco mais. Ponho a mão em seu joelho e a chamo novamente.
Ela olha para mim.
Não tem olhos, apenas dois buracos negros e sem vida em seu rosto.
— Me deixe em paz...
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