Histórias de amor
15 O dia em que talvez fiquei com ciúmes
Notas iniciais
Diferentes tipos de seres mitológicos já me fizeram quase perder a razão em diversos momentos da minha vida: Estou falando de Deuses, monstros, titãs, gigantes e tudo o mais que você puder imaginar, mas nada, nada mesmo, me fez ficar com mais raiva do que aquele filho de Apolo.
Era o verão logo após a guerra de Gaia, ainda estávamos em clima de festa por termos ganhado a guerra. Novos semideuses haviam chegado no ano que estive fora, o que foi algo bom e ruim. Bom porque era ótimo ver o acampamento lotado, mas pela primeira vez em muito tempo eu não conhecia uma boa parte dos campistas que estavam por lá.
E um destes novos rostos que ainda não reconhecia estava descendo com minha namorada em direção ao pavilhão.
Annabeth segurava alguns livros nas mãos, pois havia acabado de dar sua aula de grego, e alguns outros estavam sendo segurados por este garoto. Os dois riam enquanto desciam lado a lado para o almoço.
E mesmo sozinho em minha mesa e um pouco perdido por não conhecê-lo, entendi que ele era obviamente um típico filho de Apolo: alto, loiro, bronzeado e com um sorriso que poderia cegar qualquer pessoa que passasse a metros de distância dele, e não, eu não estava nenhum pouco intimidado.
Ele a ajudou até chegarem a mesa de Atena, organizando os livros para ela. Seu sorriso continuava galante, os dois conversavam rindo. Tudo em minha volta parecia ter virado um borrão, e aquela cena começou a encher meu peito com um sentimento estranho.
Claro, não era a primeira vez que isso acontecia. Antes de namorarmos, vez ou outra víamos um campista folgado vir com um sorriso charmoso para cima dela — o que era engraçado porque eles sempre eram rapidamente escorraçados por Annabeth. Mas daquela vez, ela parecia estar se divertindo.
Talvez fosse isso, quem era esse garoto e porque ele fazia ela rir?
Meu olhar se encontrou com o de Annabeth mesmo em tantos metros de distância, ela disse "oi" mexendo os lábios e deu um sorriso maravilhoso. Pensei em sorrir de volta, eu queria sorrir de volta, mas não consegui deixar para lá o sentimento estranho no peito. Acenei de volta mas fiz uma careta sem querer, o que pode ter sido interpretado como um "odeio te desejar bom dia", tanto que ela arqueou uma sobrancelha.
Droga.
Eu não queria ter que explicar depois o que estava acontecendo, até porque eu mal sabia o que estava acontecendo. Tá que algumas vezes eu talvez tenha sentido algo parecido com isso sempre que Annabeth citava Luke: uma massa fervente e pesada de raiva no peito. Mas agora que estávamos namorando a sensação parecia mil vezes pior.
Minha fome ficou bem menor do que no início da minha refeição, e eu me peguei correndo até Jason, que já havia terminado a sua e estava subindo para fora do pavilhão.
—Ei cara — chamei, tentando alcançá-lo. Jason se virou, agora que o cara estava em paz e não em milhões de batalhas que o faziam perder a consciência de cinco em cinco minutos, parecia ainda mais com um superman loiro: altivo, forte e meio heroico.
Um pouquinho intimidante, mas não conte isso a ele.
—Tudo bem? — ele perguntou logo, analisando meu rosto. Provavelmente minha cara não estava das melhores.
—Sim... Então, você ficou o ano passado praticamente inteiro por aqui... Quem é aquele cara novo do chalé de Apolo? — tentei parecer casual, mas Jason me deu um olhar malicioso.
—O que está sempre com a Annabeth? Ah... Zac, não é?
Meu olhar estava fixado numa pedra. Então ele estava sempre com Annabeth? Jason continuou:
—Ela está dando aulas de grego avançadas para ele. Ele é muito bom com poesia, linguística... Filho de Febo, enfim. Acho que ela está o preparando para dar as aulas no lugar dela.
Prestei pouca atenção no que ele dizia, porque ainda ressoava em incômodo o fato que ele estava sempre com ela.
—Só isso?
Jason juntou as sobrancelhas.
—O que mais tem para saber?
—Eu não sei! — abri os braços — É você que sabe das aulas e de todo este tempo que eles passam juntos
Nós dois andamos e estávamos perto da área dos chalés, Jason estava com um sorriso estranho.
—Leo ia adorar ter essa conversa com você
Juntei as sobrancelhas.
—O quê? Porque?
Ele deu de ombros.
—Leo jurava que ele era apaixonado por Annabeth... Como ele dizia? Totalmente enamorado.
Agora a massa fervente de raiva parecia ter virado uma fumaça que sairia pelas minhas narinas.
—Eu sabia
Jason me deu um olhar preocupado.
—Percy, o Léo é... — ele suspirou pesaroso — Era doido, ele se apaixonava muito rápido e jurava que todos também eram iguais... a Annabeth é louca com você, você sabe disso
—Eu sei, eu sei — cocei meus cabelos, eu realmente não sabia o que estava acontecendo comigo — Isso não quer dizer que eu fique feliz com mini Apolos tentando tirar uma casquinha da minha namorada
Jason riu.
—Este é o dilema da minha vida, eu namoro uma filha de Afrodite, lembra? Se eu fosse me importar com todos os caras que dão encima dela...
Não sabia como responder aquilo, nunca conseguiria ser tão frio quanto Jason.
—Eu não sei como você consegue
Ele deu de ombros.
—Pense que ele não é o único. Até porque, não é. Quando você esteve fora tinha vários garotos que achavam que o caminho estava livre e...
Eu o encarei.
—O quê?
—Quer dizer, não...
—Você está me dizendo que enquanto eu estava virando bolinha de quicar da matilha de Lupa esses... Esses pilantras estavam achando que o caminho estava livre para dar em cima da minha namorada?
Jason estava agora tinha um olhar culpado, ele estava sentado nas escadas em frente ao imponente chalé 1, ao contrário de mim, ele parecia estar se divertindo com nosso diálogo.
—Isso são só rumores, Percy — ele apoiou os cotovelos nos degraus — Você sabe como é o acampamento, a história sempre chega dez vezes maior do que realmente foi.
Isso era verdade. Atualmente graças ao aumento das narrativas de Clarisse, os novos campistas acreditavam que ela sozinha havia nos libertado de Polifemo e pego o Velocino de Ouro. Irritante.
—E você sempre pode tentar esclarecer as coisas com Annabeth
—Aham — respondi — Ela vai me zoar para sempre
Eu iria mudar o tema da conversa quando percebi que estava atrasado, como sempre, para ministrar aulas de esgrima. Mesmo depois de cerca de duzentas missões e agora cinco verões no acampamento meio-sangue, foi uma surpresa descobrir que eu era o melhor campista na esgrima. Rapidamente me despedi de Jason e saí correndo até a arena, onde praticamente toda a turma já estava preparada para as aulas.
A maioria eu não conhecia, já que eram todos novos. Sem querer, meu olhar se fixou no filho de Apolo. Ele tinha uma expressão irônica (ou eu estava imaginando isso?), seus braços estavam apoiados na bainha da espada que estava fincada no chão da arena.
Tentei ignorar sua presença na aula, até porque eu não me importava com ele. Nenhum pouco. Então não foi minha culpa se ele era o melhor da turma na esgrima, como sempre era feito nas aulas, eu o chamei para um combate corpo a corpo.
Ele se ajeitou, tentando parecer altivo.
—Percy Jackson, prazer — eu disse, estendendo minha mão. Ele assentiu.
—Você é amigo da Annabeth, não é?
Provavelmente estava saindo enxofre dos meus olhos, porque eu olhei para ele com ódio mortal.
—Namorado
Ele arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.
—Ah, vocês estão juntos?
Isso só pode ser sacanagem. Dei um sorriso que provavelmente pareceu maléfico, porque sua expressão boba ficou logo séria. Me voltei para a turma.
—A lição aqui é aprender a aumentar a guarda, não sejam desleixados em relação a defesa. Isso é ainda mais importante do que o ataque.
Apontei minha espada em sua direção, e ele pegou a dele, entrando em posição de combate. Começamos, e como eu disse, a lição era ele aprender a se defender, porque eu não peguei leve com ele, suas palavras me perguntando se estávamos juntos martelando na minha mente. Ele conseguiu defender um ou dois golpes com o cotovelo e a parte chata da espada, mas isso não durou sequer um minuto antes de eu conseguir golpear seu pulso e ver sua espada rodando metros de distância.
Eu ia continuar, quando ouvi uma voz falar alto.
Era uma das campistas novas, ela soltou um grito estrangulado. A arena estava começando a ficar alagada, água molhava as solas dos sapatos de todo mundo.
Respirei fundo, controlando a saída da água. O filho de Apolo me olhava com os olhos aterrorizados, o que não fez eu me sentir melhor. Não estava nos meus planos pessoais do dia assustar campistas novos.
—Vocês estão dispensados — anunciei, e todos pegaram suas coisas como se estivéssemos em guerra e foram embora em disparado, inclusive o tal do garoto.
Depois disso, meio que tentei ficar o resto do dia escondido, pois não queria olhares recaídos sobre mim. Somente saí do meu chalé no final da tarde, quando passei em frente a rede de vôlei e vi uma galera jogando, inclusive minha namorada.
Era vôlei de praia então Annabeth usava as partes de cima de um biquíni e shorts, assim como todo mundo. Cruzei os braços, era um jogo misto e em cinco minutos senti olhares de vários garotos encima dela.
Jason estava certo, e eu entendi todos aqueles garotos enquanto via Annabeth rindo e jogando com seus irmãos, ela estava linda. Seus cabelos loiros reluziam ao sol assim como sua pele bronzeada. E no último ano, enquanto estive fora... Deuses, seu corpo ficou demais. Ela estava forte como uma guerreira, o que me fazia sentir num nível totalmente diferente de atração. Quando perceberam que eu estava ali, os garotos, como sempre, disfarçaram e me olharam com medo imediatamente depois.
Annabeth veio correndo na minha direção quando seu time perdeu, o chalé de Ares agora substituindo seus irmãos. Seu sorriso era lindo, e eu senti meu coração se derreter. Ainda sim, algo sobre tudo que havia acontecido hoje e todos os olhares sob ela dos garotos a poucos metros de distância me fizeram provavelmente estar com uma carranca, os braços ainda cruzados.
—Oi, cabeça de algas — ela disse parando na minha frente. Arqueei uma sobrancelha.
—E aí
—Qual é a desse bico? — perguntou, risonha. Em resposta sem querer eu aumentei ainda mais, ela se esticou e deu um selinho nos meus lábios.
—O que aconteceu na arena hoje? Me falaram que ela alagou na sua aula — Annabeth juntou as sobrancelhas em curiosidade, daquele jeito que eu sabia que ela tinha alguma ideia o que havia acontecido mas não queria falar. Dei de ombros.
—Nada demais, sei lá, uma infiltração hidráulica... Deveriam chamar um engenheiro
Ela deu uma risadinha.
—Aham
Arqueei uma sobrancelha.
—Teria algum motivo para ser alguma outra coisa?
Agora foi sua vez de arquear as sobrancelhas.
—Percy, o que está acontecendo? Você está estranho desde o almoço
—Nada
—Percy... — o tom dela era de que não iria discutir muito mais, olhei em volta: várias pessoas olhavam na nossa direção, o lugar estava lotado.
—Aqui não — ela mordeu o lábio.
—Vamos fazer o plano?
Assenti, ainda olhando em volta. Fui andando de volta até o meu chalé o mais devagar que consegui, abri a porta do chalé 3 e antes de entrar me agachei para amarrar meus tênis, mesmo eles já estando desamarrados.
Quando entrei e fechei a porta, Annabeth se materializou na minha frente, seu boné em suas mãos e um sorriso divertido que logo se fechou quando ela olhou para o meu rosto.
—Isso sempre dá certo — ela disse, levantando o boné, a expressão sem jeito — E então?
Fitei ela por um tempo, nossos olhares numa briga silenciosa.
—Eu não entendo como você pode ser tão inteligente para tudo e não entender o óbvio — falei, andando até minha fonte. Annabeth andou até mim e se sentou na minha beliche, seu olhar estava vago e a boca aberta: ela não fazia ideia do que eu estava falando.
—O quê?
Abri os braços, sem querer jogando com um tapa um pouco de água para o alto.
—Todos aqueles garotos idiotas, estúpidos... E... — rosnei, revirando os olhos — Eles estavam te encarando.
Os olhos de Annabeth se arregalaram, seu rosto estava da mesma cor do seu biquíni: vermelho.
—Oh — sua expressão ficou envergonhado e ela olhou para baixo — Eu sei... Por causa das cicatrizes
Provavelmente a fitei com uma cara de peixe, porque eu não tinha entendido.
—Ahn?
Ela balançou a cabeça.
—Eu sei que elas são feias, é por isso que as pessoas encaram
Meu cérebro estava raciocinando tão devagar que era como se uma pessoa estivesse girando uma manivela na minha cabeça. Sem querer, meu olhar caiu pelo torso e a barriga desnuda de Annabeth: uma cicatriz grande descia pelo seu ombro pela facada de Ethan Nakamura, seus braços tinham tinham pequenos riscos de resvalos de garras de monstros assim como seu abdômen, que também tinha uma profunda cicatriz pela maldição das Arai. Em seu corpo tinha cicatrizes que reconheci como as de Kelli, a empousai que a apunhalou no Tártaro, e muitas outras.
Eu nunca havia prestado muita atenção nas cicatrizes porque elas sempre estiveram lá, mas na realidade a deixava ainda mais linda quando se prestava atenção. Como uma guerreira intimidante.
—Está vendo? É o que todo mundo vê — ela disse, por um segundo eu imaginei que ela poderia estar zoando com minha cara, se seu tom de voz não fosse pesaroso.
Então eu entendi, e foi como alguém estivesse jogando um tijolo na minha testa: Annabeth não fazia ideia de que era atraente. Ela não fazia ideia que aqueles caras estavam secando ela porque bem... Porque ela era muito bonita.
—Annabeth — falei, não conseguindo deixar de dar uma risadinha — Não é por isso que eles estão te encarando.
Ela arqueou uma sobrancelha enquanto me observava sentar ao seu lado.
—Eles estão te encarando porque você é bonita — falei simplesmente, sua cara ficou estranha como se eu estivesse falando alguma piada que ela não tinha entendido — Do tipo que os caras estão babando em você...
—Percy, não seja estranho — ela empurrou meu braço enquanto ria — Pare de inventar isso, qual é a piada?
—Não é piada! — reiteirei — Eu conheço os garotos, eu sou um dos garotos. E aquele filho de Apolo, ele está super dando encima de você!
—Oh...Então é por isso que você estava estranho no pavilhão? — ela riu — Percy...
—Nem começa — Annabeth estava gargalhando.
—Você está com ciúmes do idiota do Zac?
—Ah, cale a boca — me levantei, mas ela me puxou de volta me segurando pelo braço, ainda rindo. Me encarou por um segundo.
—Você está falando sério, sobre os garotos?
—Óbvio que estou... Annabeth, você está tipo... — revirei os olhos — Você está tipo super linda, e sensual... E gata, e sabe... Quente...
—Quente? — ela arqueou as sobrancelhas em malícia, dei um sorriso mesmo sabendo que minhas bochechas deveriam estar coradas.
—Você entendeu
—Você é um fofo — ela respondeu, passando os braços envolta do meu pescoço. Quando Annabeth me beijou, eu não me importei com mais nenhum filho de Apolo ou qualquer outro garoto do acampamento, porque só alguém que definitivamente gostava de mim poderia me dar um beijo daqueles.
Separei praticamente sem fôlego, o que era difícil. Olhei para seu rosto: os olhos cinza que ressaltavam na cor do céu num dia chuvoso, o sorriso charmoso que tinha caninos meio pontudos, e os lábios eram grandes e rosas e contrastavam bem com sua pele.
—Você está me encarando — ela disse, sorrindo. Arqueei uma sobrancelha.
—Eu falei que você era linda
—Ah, agora você não vai parar mais com isso?
Dei uma risada, passei uma das mechas loiras de seu cabelo atrás da sua orelha, estar com ela era reconfortante. Beijei seu ombro, onde estava a profunda cicatriz que ela tomou por mim e salvou minha vida, agora tomando novos significados ainda mais profundos. Ela fechou os olhos.
—Percy...
Separei-me do seu corpo, mesmo com sua pele quente fazendo meus lábios formigarem. Ela suspirou, abrindo os olhos e me encarando com intensidade.
—Deuses — ela murmurrou, parecia inconformada — Eu odeio ter que ir embora agora
—O que você tem que fazer?
—Aulas de grego com Zac
—Fala sério!?
—Estou brincando, seu cabeça de algas!
Deitei na cama enquanto ela ainda ria, apoiando minha cabeça nas mãos. Annabeth se sentou no meu colo, e aquilo foi covarde. Seu biquíni vermelho estava bem na minha linha de visão.
—Como, por todos os Deuses, eu iria dar mole para outro garoto quando eu tenho você, que… — ela veio até meu ouvido, e sussurrou algo sacana demais para eu reproduzir. Eu só sei que minhas mãos instintivamente apertaram sua cintura e eu não pude deixar de arquear minha sobrancelha.
—Annabeth… — murmurrei, sorrindo, provavelmente vermelho igual um tomate. Ela me deu um selinho e logo depois mordeu o lábio inferior, maliciosa. Para minha profunda frustração, ela acabou saindo do meu colo.
—Realmente tenho que ir, tenho que organizar meus irmãos para o jantar — e saltou da beliche num pulo — E Percy… você fica muito fofo com ciúmes, mas por favor, só um pouquinho, tudo bem?
Não pude deixar de rir, não depois do que ela tinha sussurrado no meu ouvido. Não depois de me chamar de…
—Pode deixar — ela deu uma piscadela e colocou o boné, saindo pela janela do chalé, como sempre fazíamos.
De fato, não me recordo de ter tido qualquer outro episódio de ciúmes. Mesmo Annabeth sendo maravilhosa e eu sabendo que vários caras poderiam querer estar com ela, até porque, só um louco não iria querer… Mas espera aí, este aqui também não foi um episódio de ciúmes, ok?!
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